Torre das Águias

Mora, Évora - Portugal

A “Torre das Águias”, também referida como “Solar das Águias” localiza-se no lugar de Águias, freguesia de Brotas, concelho de Mora, distrito de Évora, em Portugal.

Vizinha ao rio Divor e ao santuário de Nossa Senhora das Brotas, situava-se na extinta vila das Águias, da qual ainda subsistem algumas casas. Enquadra-se no grupo de construções senhoriais que constituem símbolo de apropriação do território (“domus fortis”), conjugando a função residencial temporária ou permanente com características formais associadas à arquitetura militar (torre). No contexto das suas contemporâneas, é considerada o último estádio da casa-forte medieval, apresentando-se como a última e mais representativa do seu universo na época manuelina. Insere-se no mesmo horizonte ideológico de alguns exemplos do norte do país, como a Torre de Refóios e a Torre de Quintela, e da mesma região alentejana, como a Torre de Coelheiros, a Torre do Esporão, a Torre da Camoeira ou a Torre do Carvalhal, à semelhança das quais apresenta também construções anexas.

História

O domínio de vila das Águias foi doado por Pedro I de Portugal (1356-1367) a Pedro Afonso (5 de setembro de 1361), rico-homem da sua câmara, desanexando-a do concelho de Coruche e constituindo-a como sede de concelho.

Manuel I de Portugal (1495-1521) outorgou o Foral Novo à vila (20 de novembro de 1519). No ano seguinte (1520) o domínio da vila foi transferido, por compra a André do Campo, lavrador, por D. Nuno Manuel, almotacé-mor de D. Manuel I desde quando este era ainda apenas duque de Beja, filho da ama do monarca e seu guarda-mor.

Uma descrição de vila das Águias datada de 1527 não faz qualquer referência à torre, podendo depreender-se que ainda não existiria à época, embora alguns autores, como José Custódio Vieira da Silva (1995) e Correia Lopes (1991), defendam que terá sido D. Nuno Manuel quem ordenou a edificação da torre. Ela estava construída em 1531, uma vez que, nesta última data Bernardo de Bronseval aqui fez uma estadia durante a sua viagem a Espanha e Portugal. Desse modo, a torre terá sido erguida entre 1527 e 1531, por iniciativa de Fradique Manuel.

Em 1535 a vila perdeu o seu estatuto concelhio, ficando integrada na freguesia de Brotas. A sede paroquial da vila das Águias também foi transferida para Brotas (7 de abril de 1535), devido à importância do milagre de Nossa Senhora de Brotas, com a consequente perda de importância da primeira matriz.

No contexto da Guerra da Restauração da Independência (1640-1668), D. Álvaro Manuel, conde de Atalaia, fixou residência na Torre das Águias (1665), aqui vindo a falecer (9 de fevereiro de 1686).

De acordo com o padre António Carvalho da Costa, o termo da vila das Águias pertencia aos condes da Atalaia e tinha dezasseis herdades, utilizadas sobretudo para caça. (“Corografia Portugueza e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal", 1708)

O terramoto de 1 de novembro de 1755, causou apenas uma fissura ao longo de uma parede na torre, que foi facilmente reparada com estuque. De acordo com as “Memórias Paroquiais” (1758) não apresentava ruína, e cada andar estava dividido ao meio em duas salas, com setenta palmos de comprimento e trinta de largura.

Encontra-se classificada como Monumento Nacional pelo Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n° 136, de 23 de junho.

Em 1927 o imóvel encontrava-se na posse do conde de Fontalva.

A Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) procedeu-lhe trabalhos de reparação geral (1946).

Em 1950 o proprietário da torre era João Lopes Fernandes, residente em Cabeção (Mora).

Em 1958 a torre encontrava-se em avançado estado de ruína e foi expressa disposição por parte do seu então proprietário em cedê-la ao Estado, sem efeito futuro.

No contexto da Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974) a torre foi ocupada por outrem.

Nova intervenção de conservação e restauro teve lugar em 1978 quando se realizaram obras de reconstrução das abóbadas dos dois primeiros pisos e obras de consolidação. No ano seguinte (1979) procedeu-se a reconstrução de nervuras e abóbadas de alvenaria de tijolo no 2.º e 3.º pisos, assim como trabalhos de consolidação, sobretudo a nível do 1.º piso, nas paredes, pavimento e escadas, que não ficaram concluídas por falta de verbas.

Em 1984 registou-se a queda de pedras do suporte da entrada principal da torre e o surgimento de extensas fendas na fachada principal.

Em 1991 procedeu-se a reconstrução das abóbadas do 2.º piso e de duas fachadas.

A torre poderá ter sofrido um incêndio desencadeado por um raio durante o século XX. No ocaso do século teve lugar uma reunião entre a DREMS, a Câmara Municipal de Mora e o proprietário, visando a adaptação do imóvel a unidade de turismo rural (3 de novembro de 2000). No ano seguinte (2001) o proprietário do imóvel informou a DREMS a 5 de setembro, que se encontrava em execução o projeto de reabilitação, apontando a sua conclusão para setembro de 2002, fato que, entretanto, não ocorreu.

O imóvel segue, em nossos dias, sem utilização, em abandono e carecendo de conservação. Como exemplo, muitos dos vãos em arco abatido perderam já a pedra de fecho.

Características

Exemplar de arquitetura militar e civil, manuelino, de enquadramento rural, em planície a sudoeste da aldeia de Brotas, no outeiro do Peso, na cota de 100 metros acima do nível do mar, entre as ribeiras do vale da Horta e do vale de Olheirões, a sul da ribeira do Divor.

A torre senhorial apresenta planta quadrada, centralizada, simples, com as dimensões de 18 metros de lado por 22 de altura. Na zona mais próxima ao solo a espessura da parede atinge os 2 metros.

O corpo principal é definido por um volume paralelepipédico, com alçado na proporção de raiz quadrada de dois mais um, está dividido em dois eixos horizontais, bem assinalados no pano exterior dos muros, e rematados por cornija. O primeiro corresponde ao piso térreo e segundo piso e o segundo aos terceiro e quarto pisos. O volume sofre um ligeiro estreitamento da base até ao topo, onde é rematado por ameias decorativas e 6 grandes coruchéus cónicos em tijolo e taipa assentes em base circular com cachorros e matacães. As quatro fachadas apresentam fenestração em alinhamentos segundo um eixo de simetria vertical e vários orifícios quadrados dispersos. A fachada sudeste, aparentemente a principal, uma vez que apresenta um nicho onde poderá ter figurado um brasão de armas, apresenta o maior número de aberturas, e tem, no piso térreo, uma porta de ferro com lintel reto e duas frestas de enxalço profundo com gradeamento; no primeiro piso, dois vãos de janela retangulares com gradeamento e entre eles um nicho com moldura e arco canopial com uma flor lavrada no tímpano; no segundo piso, um vão de janela e um de porta em arco abatido; e, no terceiro piso, dois vãos de janela do mesmo tipo. A fachada nordeste encontra-se adossada às construções anexas e corresponde à zona de menor cércea, por se localizar em cota mais elevada; aqui apenas se encontram aberturas relativas a três registos, todas elas centradas e alinhadas no pano murário: primeiro registo com vão de porta retangular e pequena escadaria exterior de acesso ao interior da torre, segundo registo com porta equivalente e terceiro registo com vão de janela em arco abatido. A fachada noroeste apresenta embasamento em declive e, em termos de aberturas, tem duas canhoneiras assimétricas a nível do piso térreo, dois vãos de janela retangulares com gradeamento de ferro no primeiro piso, um vão de porta e um vão de janela em arco abatido no terceiro registo e dois vãos de janela do mesmo tipo no quarto piso. A fachada sudoeste é a que tem maior cércea e apresenta uma abertura centralizada por cada piso, possuindo, do piso térreo para o terceiro piso: canhoneira, vão de janela retangular com gradeamento, e dois vãos de janela em arco abatido. O remate apresenta a sudeste cinco ameias, a sudoeste três, a nordeste cinco (apenas do lado direito) e a noroeste não tem nenhuma. As fachadas sudeste e nordeste são também rematadas por um coruchéu centrado, mas, no caso da primeira, este encontra-se integrado no espaço cimeiro do terraço e, no caso do segundo, apresenta-se projetado para o exterior e apoiado em base circular de quatro cachorros e três matacães.

O interior da torre é dividido em quatro pisos separados por coberturas abobadadas, sendo atravessado verticalmente por, pelo menos, duas chaminés para exaustão do fumo das diversas lareiras. O primeiro, segundo e terceiro pisos são constituídos por cinco dependências abobadadas, sendo a área a noroeste um espaço amplo abobadado com três tramos no primeiro piso, cinco no segundo e quatro no terceiro. O acesso vertical do segundo piso para o terceiro é feito através de escada de dois lanços no ângulo sudeste. O segundo piso tem amplo salão, provavelmente um salão nobre, coberto por abóbada de cruzaria de ogivas com arco toral abatido, com vasto fogão de chão, e divisões contíguas; o terceiro piso com configuração similar mas com acessos entaipados, integrando escada em caracol de acesso ao terraço no centro da área sudeste. Todas as chaves e mísulas das abóbadas apresentam bocetes com ornamentos de carácter manuelino, como cruzes da Ordem de Cristo e motivos vegetalistas e geométricos diversos, tais como bolas, espirais, círculos concêntricos, entre outros que, devido ao estado de degradação, não são identificáveis. Apresenta vestígios de pavimento interior em tijoleira no primeiro e no segundo pisos.



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Contribution

Updated at 23/06/2016 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.


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  • Solar das Águias

  • Fortified Tower

  • 1527 (AC)

  • 1531 (AC)



  • Portugal


  • Restored and Badly Conserved

  • National Protection
    Encontra-se classificada como Monumento Nacional pelo Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n° 136, de 23 de junho.





  • Without defined use

  • ,00 m2

  • Continent : Europe
    Country : Portugal
    State/Province: Évora
    City: Mora

    Herdade da Águias (Outeiro do Peso), na EM-2 (Montemor-o-Novo - Mora)


  • Lat: 38 -53' 30''N | Lon: 8 7' 36''W










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