Royal Fort of São Filipe

Ribeira Grande de Santiago, Santiago - Cape Verde

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O “Forte Real de São Filipe”, também referido como “Fortaleza Real de São Filipe” ou “Cidadela”, localiza-se no alto da Achada de São Filipe, na antiga cidade da Ribeira Grande (hoje Cidade Velha), município da Ribeira Grande de Santiago, na ilha de Santiago, em Cabo Verde.

Em posição dominante sobre a cidade, foi a primeira e mais importante fortificação do arquipélago. Encabeçava o sistema defensivo da cidade, composto ainda, ao centro, pelo Forte do Presídio, sobranceiro à praia, de que hoje subsistem apenas as fundações; a Leste pelos Forte de Santo António, de que subsistem também vestígios, Forte de São João dos Cavaleiros, hoje desaparecido, e Forte de São Veríssimo, do qual subsistem apenas as duas baterias; e a Oeste, pelos Forte de São Brás, de que subsistem vestígios, e o Forte de São Lourenço.

História

Devido ao seu isolamento no meio do oceano Atlântico, a povoação da Ribeira Grande nasceu sem preocupações com a própria defesa. (LOBO, Francisco J. G. de Sousa. "Técnica, engenharia e artilharia na Cidade Velha". in PEÑA, 2000:109-110.) Única povoação no século XVI com alguma relevância no arquipélago, os problemas de sua defesa eram relatados desde os meados daquele século, mas levaram muito tempo para obter a atenção da Corte em Lisboa.

Sob o reinado de João III de Portugal (1511-1557), em 10 de junho de 1542 Jorge Varela relatou ao soberano o estado da defesa da Ribeira Grande: “(...) assim os navios como a cidade foi tudo saqueado pela pouca resistência que tem a terra (…) o porto desta cidade tem necessidade de ter artilharia e munição (…).” (PEREIRA, D. A.. "Marcos cronológicos da Cidade Velha". Lisboa: Instituto Caboverdiano do Livro, 1988. p. 48.) De acordo com CARITA (s.d.) o sobrenome do missivista é Jorge Vaz, e o teor da missiva de 1542 é: “(…) a cidade e porto está sem nenhuma resistência, que só uma nau avante dela, certo a porá por terra e a porão a saque (…) o porto tem grande necessidade de artilharia e munições” (Op, cit.)

 O material bélico começou a chegar entre 1556 e 1558, a saber: 1 falcão e 6 berços, 4 quintais e 4 arráteis de pólvora, 58 espingardas e demais munições. Nos anos seguintes chegariam mais 8 berços, 3 meios-berços, 2 esperas e diversas câmaras para falcões e berços, 35 arcabuzes aparelhados, para além de 40 lanças ou piques, 841 pelouros de espera e falcão, e mais pólvora. 

A necessidade de defesa tornou-se imperiosa após os assaltos do corsário inglês Francis Drake em 1578 (quando apresou seis navios nas águas da Ribeira Grande) e, posteriormente, já no contexto da Dinastia Filipina (1580-1640), em 17 de novembro de 1585, quando saqueou e incendiou a povoação.

Nesse ínterim, Diego Flores de Valdez, em Relatório de 24 de janeiro de 1582, informou Filipe II de Espanha (1556-1598) acerca das condições e situação da ilha de Santiago referindo que “(...) é uma ilha de muita importância para o serviço de Vossa Majestade e de Sua Real Fazenda” (“Colección de Documentos inéditos para la historia de España, por el Marqués de la Fuensanta del Valle”, D. José Sanchi Rayón y D. Francisco de Zabálburu, Madrid, 1889, tomo XCIV, pp. 540-544, in BRÁSIO, António. "Monumenta missionaria Africana", vol. II (1500-1569), p. 93.) e esclarecendo: “(...) esta ilha é de muito trato, e onde poderá Vossa Majestade acrescentar muito a Sua Real Fazenda, pelo trato e comércio que nela há da costa da Guiné e de aqui às Índias do poente, de escravos”. (Op. cit., p. 94.) Não obstante opinou que haveria que proceder à fortificação da ilha e recomendou: “(…) no que toca à sua fortificação, procurei vê-la e encontrar-lhe um modelo do que tem necessidade, pelo qual fiz sacar o engenheiro que vai nesta armada”. (Op. cit., p. 83.) E complementou:

(…) este porto e o da Praia têm alguma artilharia; é muito pequena: convirá que vossa Majestade mande prover seis ou oito peças grossas para defender os portos (…). O modelo que envio a Vossa Majestade dos fortes e baluartes, poder-se-á fazer com muito pouco custo, porque se podem fazer com pedra tosca e sua argamassa, sem que se façam de cantaria lavrada, porque não há porquê a tenham, porque não hão de ser batidas de nenhuma parte, senão para defender as suas portas; e fazer-se hão de com facilidade porque há abundância de pedra, e com isto me parece estará a ilha segura, porque ela em si é áspera e forte.” (Op. cit., p. 95.)

Datada de dois dias depois, a Relação do Sargento-mor Francisco de Andrade nomeia os pontos a ser defendidos: “(...) três baluartes de vigilância; o baluarte de Vigia, o baluarte da Ribeira e o de São Blas, que são as três partes por onde a cidade pode ser atacada.” (Op. cit., p. 99.) Andrade informa ainda que os baluartes da Ribeira Grande necessitavam de quatro colubrinas, munições e apetrechos, assim como de arcabuzes e piques, referindo que os baluartes se encontravam “com pouca artilharia e miúda”. 

Entre 1583 e 1598, Santiago foi assaltada e saqueada por pelo menos cinco vezes, pela armada do corsário Manuel Serradas. Em 1583 este, com o apoio de alguns franceses, tentou obter a aclamação de António I de Portugal, desembarcando na vila da Praia mas sendo repelido pela população na Ribeira Grande. Dois meses depois do ataque de Serradas, que entretanto se estabelecera na ilha do Fogo com os partidários de D. António, aportou a Santiago, pacificamente, Sir John Hawkins. Após ter contatado Serradas na ilha do Fogo, empreendeu então uma pequena incursão à Ribeira Grande onde, os habitantes, alertados, emboscaram a força inglesa, logrando repeli-la.

Valdez, perante a controversa situação sucessória, pelo "Relatório" anterior alertara o soberano que “(...) convirá que Vossa Majestade mande remediar o [estado?] desta ilha, que embora agora está por de vossa majestade, e muito llana, como a encontrei, a qualquer novidade que houvesse de D. António, sei certo que mudariam o propósito do serviço de Vossa Majestade, por haver muitos da sua opinião.” (Op. cit., p. 83.)

Acerca do mesmo assunto, o arquiduque Alberto Ernesto de Habsburgo (Alberto de Áustria), cardeal legado do Papa, Prior do Crato na Ordem de Malta, Vice-rei (1583-1593) e Inquisidor-mor de Portugal, em carta de 8 de março de 1586, informava a Filipe II:

(…) será serviço de vossa Majestade mandar fortificar o porto da mesma cidade [Ribeira Grande] e levantar os baluartes que estavam à sua entrada e que no porto de São Martinho, por onde se entrou pela primeira vez nesta ilha, se faça outro baluarte para defender o desembarque e que no local da Achada que está mais acima que a cidade e está o caminho que vai desde este porto até ela, entende-se que será do serviço de vossa Majestade fazer outro forte, que por ser lugar alto e cercado de penhascos, com pouca artilharia e gente, poderia impedir-se quem quisesse entrar na cidade, por muitos que sejam; e dizem que não será lugar donde se possa levar artilharia para derrubá-la, mas será necessário, estando vossa Majestade disso servido, mandar aqui um fortificador, para que veja os sítios em que se façam nos locais que convenham à defesa e se evitem gastos inúteis (...)”. (PEÑA, 2000)

Para a realização das obras da fortaleza foram enviados o arquiteto militar João Nunes, e o capitão Gaspar Luís de Melo. Tendo ambos apresentado os respectivos relatórios, decidiu-se pela execução do projeto de João Nunes, no qual havia colaborado arquiteto militar italiano Filippo Terzi. As obras, iniciadas em 1587 ou 1588, em outubro de 1592 estavam “ainda por acabar”. No entanto, acredita-se que no ano seguinte (1593) já estariam terminadas.

Em 1606 a fortaleza foi qualificada como de “bom tamanho, e bastante provida”, mas 13 anos depois, em carta em que o Governador D. Francisco de Moura informou a Filipe III de Espanha (1598-1621) da situação da defesa, foi dada como “mui arruinada”. A causa apontada era a de ter sido construída com pedra de barro, e o remédio recomendado era o uso da cal que se trouxera para reformar um lanço de muro, além de mandar fazer fornos de cal e acumular pedra para acometer o resto das reparações. Posteriormente, em carta de 11 de julho de 1619 o Capítulo da Catedral de Cabo Verde certificou que o governador Moura reparara a fortaleza, assim como os baluartes das cidades da Ribeira Grande e da Praia, ordenando também trazer da ilha de Maio grande quantidade de lajes de pedra para o pavimento de baluartes e baterias, e permitir a deslocação de canhões novamente colocados nas suas carretas, participando pessoalmente no transporte de materiais.



Ao mesmo tempo foi estabelecido um sistema de avisos (Maio – Praia – Cidade Velha – Fogo), por meio de facheiros (ex.: Monte Facho), e o sistema de tropas foi reorganizado: a partir de 1582 passou a fazer-se pelo sistema de companhias de ordenanças - bandeiras, tendo entre 170 e 250 homens, formadas a partir de esquadras de 25 soldados. No mar as embarcações passaram a navegar “em conserva”, de modo a que, agrupadas, pudessem oferecer maior resistência aos ataques de piratas e corsários.

Para custear as despesas com a defesa de Ribeira Grande a Coroa instituiu a “Bula da Santa Cruzada de Cabo Verde”, embora os ganhos auferidos por esta medida minguassem sobremaneira nos fins do século XVI (enquanto, inversamente, as despesas acresciam) e a Bula acabasse por cair em desuso.

Este complexo defensivo decaiu nos últimos 30 anos de domínio filipino, em particular sob o reinado de Felipe IV de Espanha (1621-1665).

No contexto da Guerra da Restauração da independência portuguesa (1640-1668), já em inícios de 1641 o então Governador, Jerónimo Cavalcanti de Albuquerque, enviou petição a João IV de Portugal (1640-1656), para obter recursos com os quais remediar as carências da defesa, reparando o Forte Real e os armazéns de munições, e fechar os baluartes de S. Sebastião e de São Brás, e o Reduto sobre os navios, que estavam todos abertos e sem guardas.

Quatro anos mais tarde (1645), o Governador João Serrão da Cunha deu conta de uma tentativa de saque por parte dos Neerlandeses e da necessidade de atender à fortificação. Em 1649, o Governador Roque de Barros Rego descreveu o panorama económico do arquipélago e pediu a D. João IV o necessário para poder-se defender dos “inimigos castelhanos e ingleses”.

Em 4 de maio de 1712 a fortaleza foi tomada de assalto por corsários franceses sob o comando de Jacques Cassard, que, em seguida, diante da deserção do Governador, saquearam a cidade, incendiando-a. De acordo com o historiador António Carreira (1905-1988), o montante do saque foi estimado em mais de 3 milhões de libras. (PEÑA, 2000)

Em 1718 as casas da Fortaleza de São Filipe - armazéns de vitualhas e pólvora, aquartelamento, calabouços, casa do governador e capela de São Gonçalo -, encontravam-se arruinadas. (PEÑA, 2000) Contribuíam para esse estado de coisas a dificuldade do uso do porto, a perda do monopólio do comércio de escravos e o traslado da capital da capitania para a Praia, o que se traduzia em perda de receitas, abandono da população e ruína generalizada. A situação foi dramaticamente descrita pelos oficiais da Câmara da Ribeira Grande, que naquele ano se encomendaram à piedade de João V de Portugal (1706-1750), pois as circunstâncias, afirmavam: “obrigam-nos prostrados a chorar nossas pobrezas com lágrimas de sangue, pois Senhor acha-se esta ilha desbaratada”. (PEÑA, 2000)

A fortaleza só foi reconstruída na segunda metade do século XVIII.

Em fins do século XIX o bispo da Diocese de Cabo Verde, D. Joaquim Augusto de Barros (1884-1904), descreveu a fortaleza:

Tinha esta fortaleza dois baluartes completos a este e oeste; e a norte e a sul, meios baluartes. Duas portas davam acesso a estas, devendo-se considerar principal a do oeste, que dava saída para a cidade por uma ladeira de acentuado declive. Próxima ao meio baluarte do sul encontrava-se a residência do capitão geral e fronteira a esta, a ermida de São Gonçalo. A meio da praça abria-se uma boa cisterna e a sudeste desta construíram-se os armazéns de pólvora e munições de guerra. A oeste da residência do capitão geral e no mesmo alinhamento ficavam os quartéis da guarnição, calabouços e corpo de guarda. Pelo norte e oeste a fortaleza fechava-se com um muro de 480 palmos de altura, muro este sustentado sobre uma rocha que domina a cidade. Estava guarnecida com 9 peças de calibre 18.” (PEÑA, 2000)

Quando José D. Freire levantou a planta da fortaleza em 1947, todas as construções interiores, exceto a cisterna, se encontravam arruinadas. (PEÑA, 2000)

O conjunto sofreu intervenção de conservação e restauro entre 1968 e 1970, e mais recentemente, em 1999. Esta última registou-se no âmbito do plano de recuperação da Cidade Velha, por iniciativa do Ministério da Cultura de Cabo Verde, sob a coordenação do arquiteto português Siza Vieira, com recursos e execução da responsabilidade da Agencia Española de Cooperacion Internacional.

Escavações arqueológicas recentes trouxeram à luz os muros dos antigos quartéis e da casa do Capitão-general.

Encontra-se incluída no conjunto da Cidade Velha, classificado pela UNESCO como Património Mundial desde 2009.

Características

Exemplar de arquitetura militar, abaluartada, na cota de 120 metros acima do nível do mar.

Apresenta planta no formato trapezoidal, com muralhas em aparelho de pedra, dois baluartes pentagonais completos nos vértices a este e a oeste, separados por cortinas, e dois meio-baluartes, a norte e a sul, com respectivas guaritas. Por se situar no lado de terra, sobranceira à povoação da Ribeira Grande, não era possível que, da fortaleza, se fizessem tiros de curto alcance, pelo risco de atingir a povoação.

O interior da fortificação é acedido por duas portas: o portão principal rasga-se na muralha sudoeste, para o lado da cidade. No terrapleno, ao abrigo dos muros, encontra-se a Casa do Governador (próximo ao meio-baluarte sul) e, fronteira a ela, a capela de São Gonçalo. Ainda no terrapleno, aproximadamente ao centro, abre-se uma cisterna. A sudeste, erguem-se o paiol da pólvora e os armazéns, e a oeste, no mesmo alinhamento, os quartéis da tropa. Ao norte e ao oeste, um muro de 480 palmos de altura fechava a defesa.

O conjunto defensivo era integrado ainda por sete pequenas fortificações, a saber:

• Forte de Santo António

• Forte de São João dos Cavaleiros

• Forte de São Veríssimo (os três na margem esquerda da Ribeira Grande);

• Forte do Presídio (ao centro, sobre a praia) com a chamada "Muralha do Mar", ligando o forte de São Veríssimo ao

• Forte de São Brás (na margem direita da Ribeira Grande); e mais dois fortes a oeste deste:

• Forte de São Lourenço, com uma grande muralha denteada, fechando o acesso à parte ocidental da cidade e

• Forte de Santa Marta, atualmente desaparecido.

O cruzamento dos fogos destes fortes, dois a dois, deveria repelir qualquer ataque vindo do mar, ao longo de toda a extensão do porto.

  • Royal Fort of São Filipe

  • Fortaleza Real de São Filipe, Cidadela

  • Fort

  • 1587 (AC)

  • 1593 (AC)

  • Filippo Terzi

  • Philip II of Spain

  • Portugal


  • Restored and Well Conserved

  • UNESCO World Heritage
    Encontra-se incluída no conjunto da Cidade Velha, classificado pela UNESCO como Património Mundial desde 2009.





  • Tourist-cultural Center

  • ,00 m2

  • Continent : Africa
    Country : Cape Verde
    State/Province: Santiago
    City: Ribeira Grande de Santiago



  • Lat: 14 -55' 2''N | Lon: 23 36' 7''W






  • Sofreu intervenção de conservação e restauro entre 1968 e 1970, e mais recentemente, em 1999.
    Escavações arqueológicas recentes trouxeram à luz os muros dos antigos quartéis e da casa do Capitão-general.




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