Forte de Arguim

Nouadhibou, Dakhlet Nouadhibou - Mauritania

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O “Forte de Arguim”, também referido como “Castelo de Arguim”, localizava-se na ilha e baía de Arguim, na Mauritânia, na costa ocidental da África.

A ilha faz parte do Arquipélago do golfo de Arguim e está incluída no Parque Nacional do Banco de Arguim, uma vasta zona dedicada à proteção da natureza, classificada pela UNESCO como património mundial graças à sua importância como local de invernada de aves aquáticas.

O forte foi erguido com a função de defesa da “Feitoria de Arguim”, a primeira feitoria europeia na costa ocidental africana, a partir da qual os portugueses trocavam com as populações locais itens como tecidos, cavalos e trigo, por goma-arábica, ouro e escravos, que traziam para a Europa.

Ao longo dos séculos a ilha - referida como "Ilha de Ergim" por Gomes Eanes de Zurara (1410–1474) na "Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné" (1543) -, foi sucessivamente ocupada por Portugueses, Neerlandeses, Ingleses, Prussianos e Franceses, até ser abandonada pelos Europeus no século XVIII, dada a crescente aridez e as dificuldades de acesso a navios de grande calado, devido aos perigosos bancos de areia e extensos recifes que a rodeiam.

Na atualidade encontra-se quase deserta, com excepção da pequena povoação de Agadir, na sua costa oriental, habitada por cerca de uma centena de pescadores-recolectores da etnia Imraguen.

História

Antecedentes

A ilha de Arguim é apontada por alguns autores como sendo a ilha de Cerne, citada pelo navegador cartaginês Hanno no seu "Periplus Hannonis". (Op. cit., par. 8.)

Embora com a progressiva desertificação do território a população tenha ficado mais esparsa, a zona foi incluída na fronteira sul do Império Almorávida, de que resultou a conversão das populações locais ao Islão e a sua inclusão no sistema comercial que a partir de Tombuctu dominava a costa noroeste de África.

Era esta a conjuntura quando os Portugueses aqui chegaram na fase inicial dos Descobrimentos, quando se dedicavam a explorar a costa ocidental africana. Nos primeiros anos da década de 1440 as viagens de exploração sucederam-se depois de, em 1441, o navegador Nuno Tristão ter explorado o golfo de Arguim, assinalando a existência de ilhas. Existem relatos de viagens na região capitaneadas por Gonçalo de Sintra (1442), Dinis Dias (1442) e Nuno Tristão (1443). De acordo com Valentim Fernandes, a ilha de Arguim foi descoberta por Gonçalo de Sintra em 1445.

A ilha foi então descrita como muito povoada e dotada de um poço, no qual água doce brotava das areias. Valentim Fernandes regista ainda que a ilha era "(...) hua legoa em largo e duas em longo e quatro em redondo". O acesso era difícil, já que é rodeada de bancos de areia e recifes, depois conhecidos pelas “Baixas de Arguim”, que impediam o acesso noturno e durante a baixa-mar.

O Infante D. Henrique tentara atrair o comércio do noroeste africano para o rio do Ouro, tendo cabido a João Fernandes, um seu colaborador próximo, beneficiando das informações de Ahude Meimão, concretizar esses planos. Em 1445, aquele navegador foi responsável pela realização das primeiras operações comerciais com as populações muçulmanas da região, promovendo a aquisição de ouro, goma-arábica e escravos em troca de tecidos e trigo.

Quando a notícia da existência do golfo de Arguim e as suas ilhas chegou ao conhecimento da Corte portuguesa, deliberou-se tentar atrair para ali o comércio que se fazia através das caravanas que atravessavam o Saara. Sendo um território facilmente defensável e dotado de um bom porto, dada a vantagem que a sua situação insular oferecia face à previsível hostilidade das populações autóctones, a ilha de Arguim foi escolhida para ali se centralizar o comércio da costa africana. Desse modo, por volta de 1445 já havia sido instalada na ilha, provavelmente sob a direção de Diogo Gomes, uma feitoria.

O senhor Infante D. Henrique fez nesta ilha de Arguim um contrato por dez anos, deste modo; que ninguém pudesse entrar no golfo para traficar com os Árabes, salvo aqueles que entrassem no contracto, o qual tem uma feitoria na dita ilha, e Feitores, que compram e vendem àqueles Árabes, que vêm à marinha; dando-lhes diversas mercadorias, como são panos tecidos, prata e alquiceis, que são uma espécie de túnicas, tapetes e sobretudo trigo, do qual estão sempre famintos, e recebem em troca Negros, que os ditos alarves trazem da Negraria, e ouro Tiber. De modo que este Senhor Infante faz actualmente trabalhar em uma fortaleza na dita ilha, para conservar este comércio para sempre; e por esta razão todos os anos vão e vêm caravelas de Portugal à Ilha de Arguim.

Têm também estes Árabes muitos cavalos silvestres, com os quais traficam: e os conduzem às terras dos Negros, que lhes dão em troco escravos, e vendem os ditos cavalos por dez ou vinte cabeças de escravos cada um, segundo a sua qualidade. Igualmente compram sedas mouriscas, que se fabricam em Granada, e em Tunes de Barbaria; prata e muitas outras causas, e obtêm pelo seu resgate quantidade de Negros, e alguma soma de ouro. Estes escravos chegam à escala, e lugar do Hodem [Uadan], e daí se dividem; indo parte deles aos montes da Barca, donde chegam a Sicília, e alguns outros a Tunes, e depois se estendem por toda a costa da Barbaria; finalmente a outra porção é conduzida a este lugar de Arguim, e vendida aos Portugueses do contrato; de modo que cada ano se trazem para Portugal de setecentos a oitocentos escravos. Antes que se estabelecesse este contrato, costumavam as caravelas de Portugal vir ao golfo de Arguim armadas, umas vezes quatro, outras mais; e de noute desembarcavam, saíam sobre algumas aldeias de pescadores, e faziam correria pela terra; de modo que prendiam estes Árabes tanto machos corno fêmeas, e os traziam a vender em Portugal.
” (CADAMOSTO, "Navegação Primeira" in GODINHO, Vitor Magalhães. Documentos sobre a Expansão Portuguesa, vol. III, p. 125-126.)

A área em torno de Arguim era habitada por mouros e negros islamizados, os mauros, sendo então uma importante zona de pesca, como aliás ainda é, e uma região atrativa para o comércio. Da parte portuguesa esperava-se interceptar o tráfego de ouro que as caravanas transportavam de Tombuctu para o norte de África. Contudo, foi o comércio de escravos o que mais prosperou: Portugal recebia de Arguim, por volta de 1455, cerca de 800 escravos por ano, na sua maioria jovens negros aprisionados em razias conduzidas no interior do continente pelos líderes tribais da região costeira vizinha. Em segundo plano estava o importante comércio da goma-arábica, produto que a região produzia em quantidade e com qualidade superior, adquirido em Arguim a preço muito atrativo.

O território conquistado em Arguim passou então a assumir-se como um centro de comércio, estabelecendo ligações comerciais com os portos de Meça, Mogador e Safim, no atual Marrocos. Destes lugares provinham os tecidos, o trigo e outros produtos que na feitoria de Arguim eram trocados por ouro e escravos, transportados a partir do interior pela rota de Tombuctu até Hoden. A criação desta feitoria marcou um ponto de viragem na expansão portuguesa, assinalando o início da política de construção de feitorias dotadas de uma guarnição militar capaz de as defender contras ataques dos povos da região.

O “Castelo” de Arguim

O Infante D. Henrique faleceu em 1460. A crónica de João de Barros informa-nos que "(…) em 1461 el Rey dõ Afonso [V de Portugal (1438-1481)] mandou Soeiro Mendez fidalgo de sua casa fazer o castello Darguim a que deu alcaydaria, fazendo-o mais tarde capitão do castelo de Arguim."

Integrando a ilha no sistema administrativo do período dos Descobrimentos, Soeiro Mendes de Évora, construtor e primeiro alcaide-mor da fortificação, recebeu de D. Afonso V, a 26 de julho de 1464, carta que lhe conferia a capitania-mor da ilha de Arguim, para si e os seus descendentes.

Não são conhecidas quaisquer descrições fidedignas sobre a fortificação em Arguim, já que as plantas e descrições mais antigas existentes se referem à sua reconstrução pelos Neerlandeses já no século XVII, e as opiniões contemporâneas dividem-se: tanto se afirma que seria uma pequena estrutura ("Arguim foi sempre cousa pouca"), como uma fortaleza grandiosa ("em huum penedo muy alto tem el rey de Portugal hûa fortaleza muy forte e fremosa").

Sabe-se que o comércio de Arguim estava sob o controlo da Coroa, sendo os capitães nomeados pelo soberano, em geral para comissões de três anos. Estes tinham direito a arrecadar 25% dos lucros do comércio feito na feitoria, sendo assistidos por um feitor, que arrecadava 12,5% e por um escrivão assalariado, que na fase inicial recebia 20 000 réis.

Na década de 1480, a fortificação foi aumentada por João II de Portugal (1481-1495), mas Arguim foi perdendo a sua importância ao longo dos anos seguintes, à medida que os interesses comerciais portugueses se expandiam a regiões mais a sul, sobretudo na costa da Guiné, onde o comércio de ouro e escravos se revelou consideravelmente mais lucrativo, conduzindo ao estabelecimento da Feitoria/Castelo de São Jorge da Mina. Em 1487 foi fundada uma feitoria no interior do continente, na localidade de Ouadane (ou Wadan). Na área foram feitas outras tentativas de fixação de feitorias, nomeadamente na região de Cofia e junto à foz do rio Senegal, todas elas goradas face à hostilidade das populações locais e ao rigor do clima.

Nos anos de 1505 a 1508 a guarnição da fortificação era composta por 41 pessoas, das quais 18 eram soldados e 5 eram marinheiros. Em finais de 1555 ou princípios de 1556, a feitoria de Arguim foi atacada pelo pirata português Brás Lourenço. Em 1569 a guarnição tinha-se reduzido a 30 pessoas.

Este abrandamento do interesse português na região não representou o abandono do comércio da feitoria de Arguim que, apesar de ter declinado consideravelmente durante o século XVI, se manteve até à construção de uma fortaleza sob risco do Engenheiro-mor Leonardo Torriani (1607), e à tomada da ilha pelas forças da Companhia Neerlandesa das Índias Ocidentais (WIC) em 1633 ou 1638.

No contexto da Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), na sequência da conquista de São Jorge da Mina (1637), forças da WIC conquistam Arguim e Shama (1638), e Axem (1642). Data deste período a mais antiga iconografia que conhecemos da iconografia, integrante do Atlas de Vingboons, um códice Neerlandês de 1665, reproduzindo duas imagens com data provável de c. 1633, isto é, do final do período português.

A presença Neerlandesa em Arguim prolongou-se até 1678, com uma breve interrupção em 1665, quando a ilha esteve ocupada por forças britânicas.

Forças francesas ocuparam a ilha em setembro de 1678, pondo fim à dominação Neerlandesa, mas a ilha foi quase de seguida abandonada pelos europeus, assim permanecendo até 1685, ano em que foi ocupada por tropas brandenburguesas, pois naquele ano Arguim transformou-se na primeira colónia de principado de Brandenburgo.

Em 1701, com a incorporação de Brandenburgo no reino da Prússia, Arguim transitou para o controlo prussiano. Seguindo uma tradição já antiga de comportamentos despóticos por parte dos governadores, durante esse período ocorreram graves incidentes: em abril de 1714, o governador Jan de Both esmagou com sangue e inaudita crueldade uma revolta da guarnição. Fez torturar os sublevados aprisionados e dependurar os mortos como "cordeiros no carniceiro". Alguns sublevados, depois de torturados, foram abandonados em ilhas desertas. Seguidamente, Jan de Both transformou Arguim num ninho de piratas, manipulando habilmente os árabes contra a guarnição e negando-se a obedecer ao rei da Prússia, de quem dizia: "Acaso sabe, o cretino, se lhe sou fiel ou não?!"

Em 1721, perante o desinteresse da Prússia pelas suas colónias africanas, o território voltou à posse da França, apenas para ser perdido para os Neerlandeses no ano imediato.

Semiabandonada pelos Neerlandeses, em 1724 Arguim voltou à posse dos franceses, que ali permaneceram até 1728, ano em que abandonaram a ilha ao controlo dos líderes tribais mauritanos. Quando da retirada, a guarnição francesa explodiu a fortificação.

Em julho de 1816 a fragata francesa “La Méduse”, transportando pessoal para a colónia do Senegal, encalhou na região, sendo abandonada com grande perda de vidas. O acontecimento ficou imortalizado na obra “Le Radeau de la Méduse” (“A jangada do ‘La Méduse’”) do pintor francês Théodore Géricault.

A ilha voltou ao controlo francês nos princípios do século XX, quando foi incorporada no então protetorado da Mauritânia. Em 1960, com a independência da Mauritânia, Arguim passou a fazer parte do território do novo Estado.

A aridez do solo, a crescente escassez de água potável e a as dificuldades em aceder à ilha com navios de grande calado dificultaram o desenvolvimento do povoamento, levando a um prolongado declínio. Mesmo a pesca acabou por se reduzir à atividade tradicional dos pescadores-recolectores da região.

Características

Exemplar de arquitetura militar, abaluartado.

De acordo com a iconografia constante do Atlas de Vingboons, o forte português apresentava planta no formato de um quadrilátero regular, tendo os vértices pelo lado de terra abaluartados.

Bibliografia

FERNANDES, Valentim. "Descripçam de Cepta por sua costa de Mauritania e Ethiopia pellos nomes modernos proseguindo as vezes algûãs cousas do sartão da terra firme (…) scripto no anno de 1507". Lisboa, 1508.

LABAT, Jean-Baptiste (1663-1738). “Nouvelle relation de l'Afrique occidentale”. 1728.

MONOD, Théodore. "L'Ile d'Arguin (Mauritanie). Essai historique". Lisboa, 1983.

SANTOS, Maria E. Madeira. "Viagens de exploração terrestre dos portugueses em Africa". Lisboa, 1988.

SINTRA, Diogo Gomes de. "De prima iuentione Gujnee" (edição crítica). Lisboa: Ed. Colibri, 2002.



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Related links 

Arguim
Página sobre Arguim no website "Aprender Madeira", com texto de Rui Carita e vasta iconografia.

http://aprenderamadeira.net/arguim/
Feitoria de Arguim
Artigo de Apoio na Infopédia, da Porto Editora, sobre a fortificação.

https://www.infopedia.pt/$feitoria-de-arguim
Forte [de Arguim]
Página sobre o Forte de Arguim, na base de dados do Património de Influência Portuguesa (HPIP), da Fundação Calouste Gulbenkian.

http://www.hpip.org/def/pt/Homepage/Obra?a=1729

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Contribution

Updated at 30/11/2017 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.

Contributions with medias: Carlos Luís M. C. da Cruz (5).


  • Forte de Arguim

  • Castelo de Arguim

  • Fort

  • 1461 (AC)




  • Portugal

  • 1728 (AC)

  • Missing

  • UNESCO World Heritage
    A ilha de Arguim está incluída no Parque Nacional do Banco de Arguim, classificada pela UNESCO como Património Mundial.





  • Disappeared

  • ,00 m2

  • Continent : Africa
    Country : Mauritania
    State/Province: Dakhlet Nouadhibou
    City: Nouadhibou



  • Lat: 20 -37' 27''N | Lon: 16 26' 55''W










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