Fortress of São Tiago

Funchal, Autonomous Region of Madeira - Portugal

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A “Fortaleza de São Tiago” localiza-se na freguesia de Santa Maria Maior, no centro histórico da cidade e concelho do Funchal, na ilha da Madeira, Região Autónoma da Madeira, em Portugal.

História

Antecedentes

A ideia para a construção de um baluarte junto à Igreja de São Tiago, no Funchal, foi contemporânea da construção da mesma. Data de cerca de 1523 um pedido de João III de Portugal (1521-1557) para que lhe sejam remetidos orçamentos para os baluartes a construir em Santa Catarina e no Corpo Santo. De acordo com o documento, a Câmara do Funchal ter-se-ia queixado de não possuir verbas para as construções de obras “de que tinha necessidade para sua defesa”, ordenando o monarca que o capitão, o provedor e “alguns pedreiros e pessoas que o muito bem entendam”, se juntassem no sentido de ajuizarem o custo dessas obras e o exato local das mesmas “para melhor defesa da cidade” (ARM, CMF, avulsos, fls. 1-134).

Após o ataque de um navio biscainho, que roubara dois outros navios à carga no porto do Funchal, em 1528 o pedido foi reenviado para Lisboa, e a ordem para a construção expedida a 8 de junho de 1529, embora só viesse a ser implementada em meados do século XVIII. A opção pela localização desse baluarte era entregue ao capitão do Funchal e recaiu sobre as próprias casas dele, erguidas junto às fontes de João Dinis, numa perspectiva ainda medieval de defesa, que já pouco tinha a ver com a defesa da cidade à época, como o demonstraria a sua queda quando do ataque do corsário francês, Pierre Bertrand de Montluc, a 3 de outubro de 1566.

O “Regimento das Fortificações do Funchal”, outorgado em 1572 ao mestre das obras reais Mateus Fernandes (III), entendia a cidade como compreendida apenas entre as ribeiras de São João e de João Gomes, pelo que o antigo bairro de Santa Maria Maior, habitado por artesãos, marítimos e pescadores, era considerado como fora da cidade senhorial.

A Fortaleza de São Tiago

No contexto da Dinastia Filipina (1580-1640), particularmente face às dificuldades vividas no arquipélago dos Açores, cujas águas eram periodicamente visitadas por armadas de França e Inglaterra em apoio às pretensões de D. António, prior do Crato, as defesas do Funchal foram modernizadas, visando uma defesa mais eficaz da sua frente marítima.

A questão do alargamento dessa frente de defesa foi assumida por Tristão Vaz da Veiga, capitão-general do Funchal (1585-1604), que, pouco depois da sua posse, determinou o prolongamento da muralha da cidade para Leste. Ele, em pessoa, deu o exemplo, tendo trabalhado nas obras, à época uma simples trincheira “(…) de madeira de uma banda e entulhada de calhau da outra” (FRUTUOSO, 1968, 204). Este troço de muralha ao longo do calhau da praia da cidade confinava com os arrifes abaixo da antiga Igreja de São Tiago Menor, no então ”cabo do Calhau”, justificando a construção de uma fortificação nesse local.

O primitivo projecto da Fortaleza de São Tiago é atribuído a Mateus Fernandes (III), embora tenha sido posteriormente reformulada por Jerónimo Jorge, “mestre das obras reais”, enviado de Lisboa em 1595, até então a trabalhar nas obras das fortificações de São Julião da Barra e do Bugio, na barra do rio Tejo, e que a partir de então o substituiu nas obras de defesa do Funchal.

Jerónimo Jorge voltaria à Madeira em 1602. Nesse período, o muro do Corpo Santo deve ter sido reconstruído em pedra e cal, e a futura fortaleza já deveria estar em construção por volta de 1611 e, bastante adiantada em 1614, data que foi inscrita sobre na pedra de fecho do arco do primitivo Portão de Armas. Já em 1612 o então governador, Manuel Pereira de Berredo, solicitou provisão como capitão da mesma para Domingos Rodrigues, de vez que, segundo o mesmo, a fortaleza estava edificada e a aguardar guarnição, provisão que, no entanto, não viria a ser deferida, entendendo o soberano ainda não ser necessário haver capitão ali a residir.

Pelo “Livro de Férias” dos trabalhadores da fortificação, de 3 de janeiro a 11 de setembro de 1611 temos notícia de se encontravam em obras os muros do Corpo Santo, assim como outros, embora não existam referências específicas à futura Fortaleza de São Tiago. Nos meados de junho, inclusivamente, trabalhavam nos muros do Corpo Santo os filhos do mestre das obras reais, Bartolomeu João (c. 1590-1658) e João Falcato, pagos a $100 réis por dia. Nesses muros, no entanto, os pedreiros mais bem pagos eram João Lopes e Sebastião Fernandes, a $200 e $180 réis por dia, seguindo-se Francisco Álvares, a $140, e, depois, os vários mestres de alicerces, como Manuel Rodrigues, João Rodrigues, Antão Mendes, Domingos Dias, Rafael Pinheiro e António Pinheiro, pagos a $100 réis/dia.

Para apoio a estas obras, trabalharam os boieiros António Gonçalves, Francisco Pires, António Pires, Amaro Gonçalves, Paulo Coelho, Gonçalo Correia, Domingos Moniz, Domingos Álvares, Cosme Gonçalves, Pero Gonçalves, António Rodrigues, João Dias, “o Velho”, e António, ao todo 13, que receberam $015 réis por corsada de pedra que transportaram para a obra. Trabalharam ainda 5 almocreves: António Perdigão, Sebastião Ferreira, Pero Borges, António Gonçalves e um outro de que não se conseguiu ler o nome, igualmente a 15 réis por corsada ou carga de areia, variando o preço para outros materiais, como o caso do tabuado, cujo carreto era pago a $030 réis por cada dúzia de tábuas. Algumas informações apontam para obras mais específicas, como a do transporte de cal, para o que se alugaram sacos a $029 réis cada, optando-se depois por mandar fazer os mesmos, no que se gastaram mais $150 réis. Igual verba se pagou ao ferreiro António Gonçalves, pelos pregos para os caixões dos pelouros, que já se deviam destinar à fortaleza.

Nas férias pagas nos finais de maio desse ano de 1618, quando era apontador Pero de Castro de Andrade, essencialmente estava em construção o muro junto da Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Calhau, tendo à frente das obras o aparelhador Brás Fernandes, que não trabalhou os dias todos. Recebeu então $780 reis e o seu moço Martinho, $150, meio tostão por dia. Este mestre, referido em inúmeras obras da época, parece ser o que é também mencionado como estando à frente das obras da Igreja de São João Evangelista do colégio do Funchal pela década de 1630. Aparece depois, em 1620, acompanhado de um filho, António, como seu moço, ou seja, aprendiz, e ainda de um escravo, Lourenço, seu preto, referido, quer como mestre pedreiro, quer como mestre carpinteiro.

Jerónimo Jorge faleceu em 9 de dezembro de 1617, sendo substituído no cargo por seu filho, Bartolomeu João (c. 1590-1658), com provimento já no ano seguinte.

Nos pagamentos de maio de 1618, são referidos inúmeros pedreiros, boieiros, almocreves e serventes, com especial referência para os trabalhos de acarretar pedra, então enviada da Calheta, de que era proprietária Beatriz Fernandes. Os quatro barcos de pedra, a cruzado cada barco, importaram em 1$600 réis, servindo de intermediário o mercador Simão Rodrigues. Nos pagamentos desse ano, compareceram o vereador Gonçalo de Freitas Bettencourt e o capitão António de Sá de Salamanca Polanco que, embora também vereador, aparece na qualidade de “apontador das obras que na dita fortaleza se fazem”, obras pagas pelas receitas do açúcar da Coroa e escrituradas pelo escrivão camarário Manuel do Basto (ARM, CMF, RC, T6, 82). Este dinheiro foi depois reposto pela finta de 15.000 cruzados, lançada em setembro daquele ano pela Câmara do Funchal para o pagamento das fortificações.

As obras gerais da fortificação e a construção das Fortalezas do Pico e de São Tiago ficaram dotadas dos recursos pecuniários a partir de 5 de maio 1618, por acordo entre a câmara e a Provedoria da Fazenda, face às informações da passagem pelo Estreito de Gibraltar de mais uma esquadra de piratas de Argel, e dado que, no ano anterior (1617), a ilha do Porto Santo tinha sido saqueada, e a quase totalidade da população levada como cativa para aquela cidade.

Em carta datada de 29 de agosto de 1632, o então Provedor da Fazenda, António Antunes Leite, respondendo a um pedido de informação sobre mais uma tentativa de levantar forças na Madeira para combater os neerlandeses no Nordeste do Brasil, informou que, entre 1618 e 1621, ficara a cidade toda murada e a Fortaleza de São Tiago concluída, o que por certo seria algum exagero, pois ainda conheceu obras nos anos seguintes. O muro de Santa Maria Maior mantinha-se em obras ao longo de 1620, ano em que também foram feitas obras “na fortaleza nova de S. Tiago, onde mora” o capitão Paulo Pereira da Silva e em cuja morada, a 8 de fevereiro desse ano, tomou posse e apresentou fiança o tesoureiro da fortificação Jorge Mendes da Costa (ARM, CMF, 421, 3-5). O capitão Paulo Pereira da Silva seria eleito sargento-mor da ilha, tomando posse em São Lourenço perante o governador e os 11 capitães de Ordenanças.

As obras ao longo do muro de Santa Maria Maior e até à Fortaleza de São Tiago justificaram, em 1619, o aluguer a Maria de Caires, a 4 vinténs por mês, de uma loja de casa junto a Nossa Senhora do Calhau, para estaleiro das obras e arrecadação da cal. O aluguer começou a 22 de novembro de 1619 e incluía o pagamento a um homem para guarda do material, Manuel Vieira, que também aparece nos anos seguintes, a ser pago como trabalhador e servente de pedreiro. A 18 de abril de 1620, por exemplo, recebeu $200 réis “por guardar a fábrica da obra; 2 dias a tostão” (ARM, CMF, RC, T3, 421, 23).

Desde o início do povoamento do arquipélago que o problema da cal apresentara várias dificuldades, dado nele não existir material suscetível de redução para o seu fabrico. Houve portanto a necessidade de recorrer ao sítio com matéria-prima mais próxima – o ilhéu da Cal do Porto Santo – que nem sempre colmatou as necessidades, optando-se então pelo abastecimento a partir do continente do reino (bacia do Tejo) e mais especificamente pelo Algarve (vila de Portimão), embora se tenha recorrido também à bacia do Mondego. Existem referências à importação sistemática para a fortificação do Funchal de pedra de cal do Porto Santo a partir de 1600, pelo menos. Mais tarde, em 1629, a Câmara também possuía um forno de cal na área das hortas da Tintureira, acima da ponte do Cidrão e abaixo do chamado Engenho Novo.

Em meados de 1623 a fortaleza estaria concluída na sua primeira fase, não aparecendo citada qualquer obra de vulto nos livros de despesa da fortificação. No entanto, dois anos depois, aparecia a adaptação de umas casas anexas à fortaleza para arrecadações. Nos inícios do mês de junho de 1623, foi recebida uma carta do vice-rei, avisando da possibilidade de uma armada neerlandesa atacar a Madeira. Foi então reorganizada a defesa da cidade e fez-se aprovisionamento de farinha e biscoito nas fortalezas; especialmente para a de São Tiago, foi determinado que se metessem “na mais junta casa que nela houver”, pagando-se a adaptação e o aluguer (ARM, CMF, Vereações 1623/25, 40-47v.).

Entre 1641 e 1642, volta-se a ter referência a obras em São Tiago, citando-se, em novembro de 1641, a construção de uma guarita e da casa dos artilheiros. Essas casas ou casernas não deviam estar previstas no projeto de Jerónimo Jorge, dada a dimensão da fortaleza ter ser equacionada para uma ameaça muito menor que a configurada nos anos seguintes. Ao final de novembro de 1641 ainda ali trabalhava o mestre pedreiro Brás Fernandes, acompanhado do filho António, seu moço, e do Lourenço, seu preto. Como carpinteiros, figuram Gonçalo Fernandes e Francisco Alves, auxiliados pelo Domingos, escravo do mestre das obras reais, por certo um bom carpinteiro, dado aparecer referido várias vezes nos pagamentos das obras de fortificação. Nos pagamentos desse mês registam-se 4$000 réis a Amaro do Couto pelas 500 telhas para as obras de São Tiago, que devem ter envolvido as casernas dos artilheiros e a guarita, à época coberta por telha.

Em março de 1642 decorreram na área de São Tiago os exercícios de barreira dos artilheiros do Funchal, sendo condestável de São Tiago Gabriel de Sousa, exercícios que envolveram algumas despesas, como o pagamento aos “dois pretos” que tinham levado a peça de barreira e as pranchas para São Tiago e, depois, o arranjo do reparo da mesma peça (ANTT, PJRFF, 387, 55).

Conhecemos a feição da fortaleza em meados do século XVII por um desenho de Bartolomeu João, datado de 1654, que a representa já com três ordens de baterias. Refere esta descrição que a Forteza de São Tiago era “remate dos muros do cabo do calhau, a qual tem 2 praças, uma superior à outra, em cima de abóbada, com uma cisterna capaz de mil pipas, cavada na rocha viva”. A fortaleza apresentava planta “em estrela e escortinava os muros” da cidade, tendo custado “muito à fazenda real e era de muito efeito, porque escortina o porto, por o tomar atravessado, por fazer o porto enseada”. Dali também se defendia a ribeira de Gonçalo Aires, “porto perigoso” (Coleção dos Herdeiros de Paul Alexander Zino).

A fortaleza possuía assim planta com dois baluartes pentagonais virados a norte, correspondentes à bateria alta, e dois baluartes com as baterias médias gémeas sobre o mar, comunicando com a bateria baixa, então semicircular por dois lanços de escadas, que nasciam frente à antiga capela e à cisterna. A cisterna situava-se no centro da esplanada baixa, numa situação incomum, pois tudo leva a crer não ser de grande serviço, dada a sua proximidade do nível da água do mar. A esplanada alta comunicava com a esplanada média por escadaria coberta a Leste. O desenho de Bartolomeu João identifica também, sobre a muralha da esplanada baixa, pequenas construções de madeira salientes, dando para o calhau da praia, que parecem ser as cumuas da guarnição.

O acesso à fortaleza fazia-se sob a esplanada média a Oeste, dotada de grade vertical e ponte levadiça, devendo a grade vertical ficar então à vista, embora tal não se encontre representado no referido desenho, tendo deixado como marca dois orifícios, por onde corriam as correntes que a articulavam com a ponte levadiça. No interior, este conjunto possuía lateralmente dois nichos onde se resguardavam os militares de guarda à entrada quando entravam carretas com bocas-de-fogo e outros transportes. A muralha da cidade entestava com esta entrada, possuindo porta de acesso ao mar e um cruzeiro, provavelmente de madeira, a fazer fé neste desenho aguarelado de 1654.

Ao longo do século XVII, pouco mais sabemos acerca da fortaleza, salvo algumas mudanças de pessoal, principalmente dos artilheiros. Em agosto de 1671, foi nomeado Gabriel de Sousa como condestável de São Tiago, a que se seguiu Salvador Lopes que ali serviu e se ocupou, ao longo da segunda metade desse século, como carpinteiro dos reparos das várias peças de artilharia da guarnição do Funchal. Ainda acerca deste período, o "Elucidário Madeirense" complementa:

"Aumentada depois da Restauração, teve uma nova muralha e portão exterior, sendo o remate dos muros da cidade. Em 1697 foi capitão 'ad honorem' desta fortaleza Manuel Telo Catanho de Meneses com a obrigação de a ter limpa e provida de vigias." (Op. cit.)

Em 1724 a fortaleza estava artilhada com 16 peças montadas, sendo 4 de bronze e 12 de ferro. À data, era condestável António Lopes de Castro que, vindo a falecer em 1736, foi depois substituído por Francisco de Freitas, devendo a fortaleza estar então guarnecida com um efetivo de cerca de 20 homens. Posteriormente, de acordo com o “Mapa do Presídio Militar pago da ilha da Madeira” em 1754, a sua artilharia era de 15 peças: 2 colubrinas de bronze do calibre 14, 3 canhões bastardos de ferro do calibre 30, 9 quartos de canhão de ferro de vários calibres, mas incapazes, e um “barraco” (provavelmente um canhão pedreiro) de bronze de calibre 7.

Desde o início do século XVIII sentia-se a necessidade de reforçar a defesa do cabo do Calhau, optando-se pela construção, entre 1704 e 1712, de um forte ao meio da cortina de Santa Maria Maior, então denominado Forte Novo de São Pedro em homenagem a Pedro II de Portugal (1683-1706), conforme lápide que existia sobre a porta de armas do mesmo. Poucos anos depois, no entanto, procedia-se à ampliação da Fortaleza de São Tiago, possivelmente com projeto do engenheiro Francisco Tosi Colombina (1701-c.1770), que veio para o Funchal em 1756 como encarregado das obras do molhe do porto e que teria levantado, então, o forte de São José da Pontinha, embora não se disponha de documentação de apoio para esta atribuição. As obras prolongaram-se pela década seguinte, determinando o governador José Correia de Sá (1758-lavrar na lápide colocada sobre a nova porta de armas que “Esta fortaleza foi novamente acrescentada sendo governador e capitão general desta Ilha José Correia de Sá e para a mesma fortaleza mandou vir de Londres cinquenta peças de artilharia com todos os seus reparos no ano de 1767”. A data, no entanto, deve corresponder ao final das obras, pois estas decorreram, por certo, durante alguns anos, dado o novo volume edificado de construção.

Essas obras conferiram à fortaleza o seu atual aspecto: a bateria alta foi largamente ampliada, tal como a bateria média que uniu as duas anteriormente existentes, fazendo desaparecer o anterior lanço de escadas para a antiga bateria média a Leste. Para Oeste foi construída uma ampla bateria baixa, reforçando-se a antiga porta datada de 1614, que se manteve. A nova esplanada média apoiou-se na parede de uma passagem, que passou a unir a bateria média a um novo baluarte quadrangular avançado para poente, que cruzava fogos com o Forte Novo de São Pedro e cobria a nova porta da fortaleza virada a Norte, encimada por um nicho que teria tido uma imagem do padroeiro, óculo para o lado do mar, a lápide já mencionada e um brasão de armas, desmontado com a proclamação da República, em 1910. A pequena esplanada voltada para o mar prolongou-se ao longo da fachada, ocupando toda frente até ao limite Leste da fortaleza. Desta campanha de obras, é também o conjunto de guaritas cilíndricas assentes em consolas troncocónicas. Da primitiva construção restou apenas uma das escadarias que estabelecia comunicação entre a esplanada média e a baixa, onde se encontra a cisterna. Estava guarnecida, em meados do século, por 20 homens.

Ao final do século XVIII, por falta de manutenção, as fortificações da ilha encontravam-se degradadas. Em carta de outubro de 1781, o governador João Gonçalves da Câmara Coutinho queixava-se para Lisboa de que os habitantes não queriam saber da fortificação nem da defesa da ilha, alegando que, caso viessem a ocorrer dificuldades, “os senhores ingleses a defenderiam”. (AHU, Madeira, 506)

Efetivamente, no contexto das Guerras Napoleónicas, uma esquadra britânica composta pelos "HMS Agro", a fragata "HMS Carrysfort", e o bergantim "HMS Falcon", a 24 de julho de 1801 desembarcou na Madeira um efetivo de 3500 soldados, sob o comando do coronel Henry Clinton (1769-1846), que ficaram aquarteladas nas semiabandonadas fortificações da ilha, entre as quais esta fortaleza, então sob o comando de João Manuel de Atouguia e Vasconcelos.

Durante esta primeira ocupação inglesa, a Fortaleza de São Tiago recebeu algumas obras de beneficiação, como atestam os diversos ofícios e ordens expedidos pelo comando britânico, ao qual não agradava a organização geral da fortaleza e, inclusivamente, a própria construção. A 25 de julho de 1801, São Tiago recebia as munições de guerra e o parque de artilharia inglesa com a competente guarnição, mantendo a anterior portuguesa que incluía um subalterno, um sargento, um cabo, um tambor e 15 soldados. Na ordem desse dia, recomendava-se a melhor harmonia entre a tropa nacional e a britânica, conservando-se o comando na nacional. Dois dias depois, saíam os depósitos de correame, para maior comodidade da guarnição auxiliar portuguesa, e em agosto saíam os soldados de artilharia auxiliar, “para maior comodidade da guarda britânica”. (RODRIGUES, 1999, 159-160)

Se, por um lado, a ocupação britânica teve o aspeto positivo de ter levado a obras de beneficiação e manutenção das fortalezas do Funchal, por outro, com a sua saída, quer em 1802, quer depois em 1814, após a segunda ocupação, as peças de artilharia que estavam em condições (que não deveriam de ser muitas), provavelmente com outro material e armamento que ali havia, seguiram para o continente, ficando a ilha em ainda mais precárias condições de segurança. Na ocupação de 1801, estiveram na Madeira forças do destacamento da “Royal Artillery” e, na de 1807 a 1814, forças da 3.ª Companhia do 3.º Destacamento de artilharia inglesa.

Quando do grande aluvião de 9 de outubro de 1803, que só no bairro de Santa Maria Maior vitimou cerca de 200 pessoas, o comandante de São Tiago recebeu ordens para alojar nas dependências da fortaleza as vítimas que tinham ficado sem habitação. Nesse mesmo ano, esteve detido nas dependências da fortaleza o morgado João de Freitas da Silva, evadido do convento de São Bernardino, de Câmara de Lobos, “(…) para onde tinha sido mandado até se instruir nos rudimentos da doutrina cristã” (Heraldo da Madeira, n.º 441 apud SILVA e MENESES, II, 1998, 46), tendo servido depois esta fortaleza para outras prisões nos confrontos políticos ocorridos nos séculos XIX e XX. A fortaleza foi objeto de especial atenção da equipa do brigadeiro Reinaldo Oudinot (1747-1807), destacada para o Funchal na sequência da aluvião de 1803, tendo sido levantada e desenhada pelo então tenente Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), no que é considerado o melhor levantamento da mesma até então.

Nas primeiras décadas do século XIX, devido à sua localização, a fortaleza de São Tiago foi objecto de particular atenção. Não foi por acaso que, na primeira planta britânica da fortificação da baía do Funchal, quando da segunda ocupação, se encontrem representadas as fortalezas de São Tiago, do Pico e do Ilhéu, todas com a bandeira inglesa hasteada. Mais tarde, sucessivas campanhas de obras se sucederam,  datando de cerca de 1820 a demarcação da parada exterior, com a construção da casa da guarda (projeto, em princípio, de Paulo Dias de Almeida), que foi reformulada e mudada de localização nos anos seguintes pelo capitão António Pedro de Azevedo (1812-1889), autor da primeira fase do corpo central do edifício do comando, do novo portão de armas exterior (reformulado nos anos seguintes), da reforma do paiol instalado sob a parada superior, etc.

Em 1823, começou a pensar-se na ampliação do molhe de cais do Funchal, uma de cujas hipóteses passava por São Tiago. Por carta de 13 de setembro de 1824, o brigadeiro Francisco António Raposo foi mandado passar à Madeira para estudar o assunto “in loco”. As obras iniciaram-se no calhau frente à fortaleza, mas acabaram por ser interrompidas pela força do mar, que tudo destruía. Perderam-se então os 37.000$000 réis ali gastos nos trabalhos de quebrar e talhar pedra. Em 1827, foi proposta para Lisboa nova alteração do molhe do cais, com o aumento da bateria baixa, servindo de apoio às novas obras do possível cais, mas nada saiu do papel. Por esta data, servia a fortaleza de quartel e local de instrução de milícias do Funchal, por ali tendo passado nobres locais, como o morgado José Henrique de França (1802-1886), embora já nascido em Londres, segundo escreveu depois sua mulher Isabella de França (1795-1880) nas memórias de 1853-1854.

No alvorecer do século XX, quando da visita de Carlos I de Portugal (1889-1908) e sua esposa à ilha (24 de junho de 1901), a fortaleza conheceu alguns melhoramentos. Após assistir a uma missa campal no campo de D. Carlos (após a Implantação da República Portuguesa renomeado como campo do Almirante Reis), o soberano visitou a fortaleza, e ali almoçou. Para o efeito foi montada uma grande tenda redonda, na parada média, onde ainda hoje, no chão, se podem observar as argolas de ferro que lhe serviram de sustentação. Na parada superior existe uma pequena placa de referenciação geodésica, identificada por “NR”, inglesa ou portuguesa e datável do século XIX ou XX, que deve ser exemplar único na região. À época da visita de D. Carlos, a fortaleza servia como quartel à Bateria de Artilharia Móvel que tinha uma secção destacada na Fortaleza do Ilhéu e salvava as embarcações que entravam no porto do Funchal, servindo de registo. Em 1911, passou a quartel da Bateria n.° 3 de Artilharia de Montanha e, em 1922, a sede do Grupo de Defesa Móvel.

Data de 1930 a construção das instalações de oficiais e sargentos na bateria baixa, frente ao mar, e de um coberto sobre o caminho da guarda superior, depois removido. Com a criação do Grupo de Artilharia contra Aeronaves, em 1945, passou a sede do mesmo, mas, em 1947, dava-se a saída do comando daquele grupo para São Martinho, passando a servir somente de quartel à bateria de salvas destacada daquela equipa.

Em meados do século XX, entre 1970 e 1973, tendo mudado o material de salvas, tornou-se difícil a sua circulação nos estreitos túneis da fortaleza, pelo que foi desocupada pela artilharia, sendo pontualmente ocupada pela delegação da Manutenção Militar e pela Liga dos Combatentes.

Nos meados de 1975, face à necessidade de instalação de um aquartelamento para a Polícia do Exército, com possibilidades de acorrer rapidamente a alterações da ordem pública, ali foi instalado o Esquadrão de Lanceiros do Funchal. Esta unidade veio a sair daquelas instalações quando da construção do novo aquartelamento do Comando-chefe, no Pico da Cruz, em maio de 1992 e, por solicitação do Governo Regional da Madeira, o local foi cedido para instalações de atividades culturais e de um futuro museu militar. O protocolo foi assinado a 17 de julho de 1992, assinando pelas Forças Armadas o Ministro da Defesa e o Comandante-chefe e, pela Região Autónoma da Madeira, o presidente do Governo Regional, na presença do então primeiro-ministro, Aníbal Cavaco Silva. A fortaleza passou, na altura, por um arranjo de fundo, abrindo depois como Museu de Arte Contemporânea da Madeira, função que conservou até outubro de 2015

Em nossos dias encontra-se inserida nos limites classificados da "Zona Velha" da cidade, por sua vez classificada como "Monumento de Interesse Regional".



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Fortaleza de São Tiago
Página no website "Aprender Madeira" acerca da Fortaleza de São Tiago, no Funchal, com texto de Rui Carita, mapas e iconografia.

http://aprenderamadeira.net/fortaleza-de-sao-tiago/
Fortaleza de São Tiago / Madeira Cultura
Página sobre a Fortaleza de São Tiago, mantida pela Secretaria Regional da Economia, Turismo e Cultura / Direção Regional da Cultura da Região Autónoma da Madeira.

http://cultura.madeira-edu.pt/museus/Museus/MuseudeArteContempor226nea...

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Contribution

Updated at 19/01/2018 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.

Contributions with medias: Carlos Luís M. C. da Cruz (6).


  • Fortress of São Tiago


  • Fortress


  • 1614 (AC)

  • Jerônimo Jorge
    Mateus Fernandes (III)

  • Philip II of Spain

  • Portugal


  • Restored and Well Conserved

  • National Protection
    Encontra-se inserida nos limites classificados da "Zona Velha" da cidade, por sua vez classificada como "Monumento de Interesse Regional".





  • Tourist-cultural Center

  • ,00 m2

  • Continent : Europe
    Country : Portugal
    State/Province: Autonomous Region of Madeira
    City: Funchal



  • Lat: 32 -39' 12''N | Lon: 16 53' 55''W






  • Sofreu remodelações por volta de 1974.




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