José Antônio Caldas

Brazil

José Antônio Caldas (Salvador, 1725 - Salvador, 31 de outubro de 1782) foi um engenheiro militar português nascido no Brasil. Foi um pioneiro na utilização da câmara escura no Brasil. Foi Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo.

MOURA (2009) considera-o um dos mais operosos engenheiros militares do século XVIII no Brasil. (Op. cit., p. 1.)

Biografia

Desconhecem-se a sua data de nascimento e a sua filiação. Acredita-se que teve infância modesta na cidade do Salvador, até sentar praça como soldado de Infantaria (20 de março de 1745). (OLIVEIRA, 2004:124) Formou-se como Cabo de Esquadra na Aula Militar da Bahia.

Viajou para Lisboa, onde permaneceu por mais de um ano e retornou para trabalhar junto com um de seus mestres, o sargento-mor engenheiro Manoel Cardoso de Saldanha. Juntos desempenharam várias comissões, e alguns levantamentos de campo de Saldanha foram mesmo desenhados por Caldas, como por exemplo a estrada para as minas de salitre de Montes Altos. (OLIVEIRA, 2004:124-125)

Por indicação de Saldanha, Caldas foi nomeado por José I de Portugal (1750-1777) para trabalhar nas fortificações do arquipélago de São Tomé e Príncipe (1755). Essa nomeação foi referendada por Carta Régia de 13 de maio de 1757.

O seu desempenho nessa comissão granjeou-lhe prestígio e assegurou-lhe, ao retornar ao Brasil, a promoção ao posto de capitão (3 de abril de 1761), posto em que assentou praça em 20 de junho de 1761 e o cargo de lente na Aula Militar do Salvador. A carta-patente, assinada pelo soberano em abril de 1761, informa que, por resolução real de 21 de agosto de 1755, José António Caldas fora exonerado para passar à ilha de Príncipe, em virtude de ordem dada ao Vice-Rei para que “escolhesse hum engenheiro dos melhores que houvesse na Aula Militar daquela cidade” e o mandasse juntamente com o governador nomeado da citada ilha, “para que visse e dezenhasse a fortificação que se devia fazer na mesma ilha, remetendo a sua planta, cada fortificação, com o seu parecer por escripto”. (OLIVEIRA, 2004:125)

O documento real prossegue informando que, tendo Caldas dado “prompta satisfação à ordem de que foy encarregado, e esperar delle que da mesma sorte se haverá d’aqui em deante em tudo que pertencer ao meu real serviço”, conclui o soberano nomeando-o “no posto de capitão engenheiro com o mesmo soldo com o que forão, António de Brito Camacho, e Nicolau de Abreu de Carvalho [...] com obrigação porém de ditar na Aula militar da sobredita cidade da Bahia defenças de praças, expugnações d’ellas e Geometria expeculativa, todas as vezes que não houver official determinado porem que haja de ter este exercicio.” (VITERBO, 1962, t. I:78-79.)

Por carta-patente de 13 de outubro de 1768 o soberano nomeou-o “no posto de sargento mor de infantaria com exercício de engenheiro na praça da Bahia”. (VITERBO, 1962, t. I:78.)

Em sua formação docente Caldas possuía uma grande dose de autodidatismo. Quando, por exemplo, esteve em Lisboa, autorizado por Provisão Real de 29 de janeiro de 1775, além dos conhecimentos acumulados com Saldanha (entretanto falecido em Salvador em 1767), procurou um mestre reputado na Aula de Fortificação e Arquitetura Militar em Lisboa para reciclar os seus conhecimentos: o coronel de engenheiros Filipe Rodrigues de Oliveira, que por muitos anos havia sido discípulo de Manuel de Azevedo Fortes.

Caldas lecionou e trabalhou até ao ano de sua morte, em 1782. Uma semana antes entregara o projeto e o orçamento para as obras do edifício que havia sido o Colégio dos padres da Companhia de Jesus em Salvador, e que se encontrava arruinado à época.

Foi ainda mediador do Senado da Câmara e presidente do Conselho de Guerra.

Em vida, Caldas foi vítima de injustiças profissionais: apesar das recomendações e pareceres de governadores, como José da Cunha Grã Ataíde e Melo, 3º conde de Povolide, e de D. Afonso Miguel de Portugal e Castro, 4º marquês de Valença e outros, jamais lhe foi concedida a gratificação pedida pela função de Lente, assim como nunca recebeu a promoção solicitada para Tenente-Coronel, mesmo sendo, à época, o mais antigo Sargento-mor em serviço. (OLIVEIRA, 2004: 126-127)

Obra

Além dos trabalhos em engenharia militar da juventude, junto com Saldanha, a obra de Caldas foi prolífica. VITERBO não relacionou trabalhos cartográficos executados por Caldas na África, mas há notícias da existência de exemplares em Portugal, pelo menos no Arquivo Histórico Ultramarino, como por exemplo, em São Tomé, o “Projeto para fachada e planta da Sé de São Tomé e Príncipe”, c. 1757 (AHU)

Nessa fase foi autor de um importante manuscrito que contém plantas e prospetos da Bahia e trabalhos que executou na África, a “Notícia Geral de toda esta Capitania da Bahia desde seu Descobrimento até o presente anno de 1759”. Esta obra foi dedicada ao Vice-rei do Estado do Brasil, D. Marcos José de Noronha e Brito, 6.º conde dos Arcos (1755-1760), cujo brasão reproduz no início. Levado para Portugal por Noronha e Brito, o manuscrito foi posteriormente adquirido num leilão em Lisboa pelo médico baiano Dr. Vital Rego, e mais tarde vendido à Câmara Municipal do Salvador. Foi publicado completo com as plantas e desenhos coloridos em edição fac-similar pela Tipografia Beneditina de Salvador em 1951. São as seguintes as plantas referentes à África contidas na “Notícia Geral”:

Planta geografica da Ilha do Príncipe no mar de Etiópia para a parte do Norte a hum grau, e 37 minutos de Latitude, e 28 graus, e 50 minutos de Longitude. Bahia e de Agosto 12 de 1757”.

Planta Ichnografica da Cidade de Santo Antonio novamente erecta na Ilha do Principe em altura de 1 grau e 37 minutos de Latitude para o Norte e 28 gr. e 50 minutos de Longitude.

Planta do Forte de S. Joam de Ajudá q’ está situado huma legua pela terra dentro no dominio de El Rei da Homé, cujas canhoneiras sam maneira de portinhólas de navio. Copiada por Joze Antonio Caldas em 15 de Ag.to de 1759.

Recorde-se que, à época, ao porto de Ajudá, no Daomé, afluíam os mercadores africanos para vender escravos aos comandantes dos navios negreiros. E Caldas regista:

Este porto de Ajudá he avultado em negocio de escravos e mais frequentado de todas as nasoens que navegão para aquela Costa. Nele há tres Fortalezas, a saber Ingleza, Franceza e Portugueza distantes da praia hua legua e por esta razão sugeitas aos insultos do Rei da Homé. Corre a costa a Lesnordeste surgese no dito porto em nove brasas, fundo de lama.” (CALDAS, 1951:490)

Publicou diversas obras, entre as quais a "Expedição do Maranhão" (1753), onde tratou sobre o uso de câmaras escuras. Datará possivelmente deste período, em Belém do Pará, o cadastro do Seminário de Belém. Mais tarde veio à luz a "Notícia Geral de Toda esta Capitania da Bahia Desde o Seu Descobrimento Até o Presente Ano de 1759" (1760).

Dois trabalhos foram executados por ordem do Vice-rei do Estado do Brasil, D. António Rolim de Moura Tavares (1767-1769):

Topografica da Barra do Rio do Espírito Santo [...] tirada por José Ant.º Caldas Capm. de Infantª com exercicio de Engrº Lente d’Aula Regia de Fortificasoens da Bª [...] e copiada por Joham de Afonca Bitencourt, Praticante com Partido na mesma Aula, o qual acompanhou ao dº Lente nesta diligª”. (Bahia, 10 de 8 brº de 1767); e o

Prospecto da Vila da Victoria Capital da Capitania do Espírito Santo[...]” (1767), cuja legenda informa ter sido tirado com a câmara obscura, e que vai descrito mais adiante.

VITERBO também relaciona trabalhos cartográficos de Caldas existentes no Arquivo Militar do Rio de Janeiro. A maior parte deles é sobre a capitania do Espírito Santo, que na época era subordinada à da Bahia, a saber:

Plantas e fachadas do Forte de S. Francisco Xavier da Barra (1776), do Forte de Nossa Srª. do Monte do Carmo (1766), do Fortinho de Santiago (1767), do Fortinho de Santo Inácio ou de S. Maurício (1767), da Fortaleza de Sam Joam (1767), Planta Topográfica da Ilha do Boi (1767), e “Planta, Profil e Fasada que mostra em projecto, a Fortaleza que se pretende edificar nas Cabeças da Ilha do Boi para defender a barra do rio do Espírito Santo” (1767).

VITERBO relaciona também a “Topografia da Bahia de Todos os Santos...”, tirada por Caldas e copiada por José Francisco de Souza, ajudante engenheiro, aos 3 de agosto de 1770. Informa a existência de outro exemplar, colorido, no Arquivo Histórico Ultramarino (VITERBO, 1962, t. I:79)

Em Salvador Caldas desenhou a planta monumental da cidade do Salvador (1779) e traçou diversos projetos de urbanização para aquela cidade, um deles para a Ribeira das Naus e outro para a zona dos trapiches na Cidade Baixa. Um de seus trabalhos mais importantes, pela sua exatidão, é o projeto do antigo Colégio dos Jesuítas, no Terreiro de Jesus (1782), cujos originais encontram-se depositados no Arquivo Histórico do Exército, no Rio de Janeiro. Embora se trate de um documento apócrifo, foi-lhe atribuído em virtude de alusões em outros documentos e das características da caligrafia das legendas. As observações obtidas neste documento foram de importância para o entendimento e a leitura das antigas estruturas deste imóvel, quando em nossos dias se fez o projeto de restauração dos espaços para abrigar o Museu de Arqueologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

José António Caldas e a Câmara Escura

Caldas foi pioneiro no emprego da câmara escura no Brasil. O seu “Prospecto da Vila de Victoria” indica, na legenda:

Prospecto da Vila da Victoria Capital da Capitania do Espírito Santo, e distante na foz do rio do mesmo nome huma legoa: na Latitude de 20 g. e 15 m. ao sul, e 344 g. e 45 m. de longitude. Foi tirado com Acamara obscura por José António Caldas, Capitam de Infanteria com exercício de Engr.º Lente da Aula Regia das forteficasoens da Bahia, mandando á dita Capitania ao Real serviso pelo Illm.º e Exmm.º Sr. Conde de Azambuja Capitam general e governador desta Capitania. Bª 8 de 8b.º d’1767.” (VITERBO, 1962, t. I:80)

Esse prospecto foi publicado a cores pelo Prof. Antônio Gilberto Costa no “Roteiro Prático de Cartografia da América Portuguesa ao Brasil Imperial” (p. 203 e 245)

Na “Notícia Geral de Toda Esta Capitania da Bahia”, Caldas incluiu plantas e prospectos coloridos das fortificações da Capitania. Seguramente, pela minúcia e detalhamento, terá utilizado na execução destes a câmara escura, nomeadamente no de maiores dimensões, um prospecto da cidade do Salvador (c. 130,00 cm x 25,00 cm): “Elevação e Faxada que mostra em Prospecto pela marinha a Cidade do Salvador Bahia de todos os Santos Metropole do Brazil aos 13 graos pª a parte do Sul, e 345 graos e 36 minutos de longitude./ Bahia e de Abril 13 de 1758./ Tirada por José Antonio Caldas.”

Caldas, ao referir esse desenho, informa: “Quanto ao Prospecto que tambem ajunto mostra a fachada que faz a dita Cidade pela parte da marinha não muito desviado dela; este Prospecto he o mais moderno, e o tirei em 24 de Junho de 1756, e antes desse me não tem vindo a notícia houvesse outro algum” (CALDAS, 1951:6)

No desenho estão representados e identificados na respectiva legenda, templos, fortificações, prédios públicos, logradouros, num total de cerca de 80 estruturas, abrangendo desde a “Igreja de Nossa Senhora de Mont Serrate dos Religiosos Bentos” (nº 1), e próximo, o “Forte de Mont Serrate” (nº 2) até à “Barra por onde cruzam os Navios” (nº 80) e, próximo, a “Igreja de Santo António da Barra” (nº 79).

Bibliografia

CALDAS, José António. “Noticia geral de toda esta Capitania da Bahia desde o seu descobrimento ate o presente anno de 1759” [ed. fac-similar]. Salvador: Tip. Beneditina, 1951. 742p., il., mapas, plantas.

CALDAS, José António. Obras digitalizadas. In: Biblioteca Nacional de Portugal.

MOURA, Carlos Francisco. “José Antônio Caldas – Da Bahia às Ilhas do Golfo da Guiné e à Contracosta Africana – Câmaras Escuras no Brasil”. In: “Anais do III Simpósio Brasileiro de Cartografia Histórica”, Ouro Preto/MG, Brasil, 10 a 13 de novembro de 2009.

OLIVEIRA, Mário Mendonça de. "As fortificações portuguesas de Salvador quando Cabeça do Brasil". Salvador: Fundação Gregório de Mattos, 2004.

VALLA, Margarida. "O papel dos arquitectos e engenheiros militares na transmissão das formas urbanas portuguesas". Comunicação apresentada no “IV Congresso Luso-Afro-Brasileiro”, Rio de Janeiro/RJ, Brasil, 1996.

Contribution

Updated at 07/04/2017 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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