Diego Flórez de Valdés

Espanha

Diego Flórez de Valdés (Las Morteras, Somiedo, Asturias, c. 1530 — 1595) foi um militar e almirante espanhol. Não deve ser confundido com don Pedro de Valdés y Menéndez, uma vez que ambos são das Astúrias e contemporâneos.

Flórez de Valdés conduziu a expedição de Pedro Sarmiento de Gamboa ao estreito de Magalhães para fundar estabelecimentos espanhóis que coibissem a presença inglesa na região. Durante essa comissão fez uma análise da defesa da Ribeira Grande, em Cabo Verde (1582), e fez erguer duas fortificações na costa do Brasil: Santo Amaro da Barra Grande, no município do Guarujá (1583) com traça atribuída ao arquiteto militar italiano Juan Bauttista Antonelli — e o Forte de São Filipe, o primeiro núcleo de povoamento europeu em terras do atual estado da Paraíba, confiado ao comando de Francisco de Castrejón (1584).

Foi chefe de gabinete e assessor do duque de Medina Sidonia, e um dos comandantes da Invencível Armada (1588).

Biografia

Nasceu em data desconhecida, por volta de 1530, na paróquia de San Esteban de Las Morteras, concelho de Somiedo, na província das Astúrias. Foi o segundo filho de Juan Flórez, senhor da Casa de las Morteras, e de sua esposa, Urraca de Valdés, natural de Doriga (Salas).

Ingressou em 1550 na Armada Española, servindo como capitão com Pedro Menéndez de Avilés, cujas embarcações cruzavam o canal da Mancha a transportar tropas e petrechos de guerra para as províncias da Flandres. Em 1554 integrou a esquadra que conduziu Filipe II de Espanha (1556-1598) à Inglaterra para desposar María Tudor.

Tendo adquirido experiência, passou a Sevilha, onde foi contratado como piloto, realizando diversas viagens às Antilhas e à chamada “Tierra Firme”. Essas missões no Novo Mundo encontram-se resenhadas no “Libro de Pasajeros de Indias”, que refere que em 1555 Flóres Valdés, como capitão de uma nau, integrou a esquadra que se dirigiu aos Mares do Sul, para desembarcar, em Valparaíso (atual Chile), o Governador don Jerónimo de Alderete, zarpando novamente e prosseguindo viagem para Callao de Lima, atual Peru, para desembarcar o Vice-Rei, marquês de Cañete.

Dez anos mais tarde encontrava-se de volta às Índias Ocidentais. O “adelantado” Pedro Menéndez de Avilés escolheu-o para o posto de almirante da armada que o deveria conduzir à conquista da Flórida. A travessia do Atlântico, entretanto, foi muito acidentada: uma forte tempestade e, em seguida, um furacão dispersaram as embarcações. Valdés conseguiu chegar à ilha de Dominica, onde se reabasteceu de água, lenha e víveres. O “adelantado” aportou a Puerto Rico. Com quatro navios que conseguiram chegar, mais um adquirido na ilha, o “adelantado” partiu para a Flórida. Valdés, entretanto, foi o primeiro a desembarcar: “Flórez Valdés desembarcó el primero en La Florida con setenta arcabuceros el día de San Agustín de 1565, al quinto de haber descubierto tierra y a pesar de la oposición que encontró en los indios.” (“Noticias biográficas-genealógicas de Pedro Menéndez de Avilés”)

No rio de San Juan os espanhóis aguardaram os franceses, mais numerosos e melhor armados. Entretanto, a iniciativa dos primeiros em entrar em combate desconcertou os franceses, que acabaram por retirar.

Os espanhóis instalaram-se não muito distantes do francês “Fort Caroline”, em um porto batizado como San Agustín. Em uma grande cabana que o chefe indígena local lhes ofereceu, ergueram uma fortificação. Embarcações francesas fortemente artilhadas tentaram interceptar as embarcações espanholas e penetrar em San Agustín, mas falharam quer num quer noutro intento à chegada de um furacão que dispersou a armada francesa, fazendo-a naufragar.

O “adelantado” aproveitou-se desta grande tormenta para, com 500 homens, ir tomar o “Fort Caroline”. Deixou em San Agustín Diego Flórez de Valdés como capitão da artilharia e general dos três barcos ancorados no porto.

Entretanto, em San Agustín, um náufrago francês comunicou a Flórez de Valdés que nas proximidades encontrava-se uma fragata francesa varada em terra devido ao furacão, cujos tripulantes haviam sido mortos pelos indígenas. Valdés enviou uma patrulha de soldados e marinheiros para resgatar a embarcação. Estes, entretanto, fugiram diante da presença de numerosos índios no local do acidente.

Envergonhado pelo comportamento dos seus homens, Valdés, com meia dezena de subordinados, partiu pessoalmente em uma barca subiu o rio San Agustín. Explorou durante alguns quilómetros a região em busca de aldeamentos indígenas, encontrando finalmente a fragata. Dispersos em torno dela encontravam-se os corpos de quinze de seus tripulantes, mortos. Os indígenas, ao verem que Valdés e os seus homens eram espanhóis, saíram-lhes ao encontro amistosamente e ajudaram-nos a colocar a embarcação a flutuar. No dia seguinte, Valdés regressou a San Agustín com a fragata francesa, com o regozijo de todos. A alegria da colónia espanhola foi completa diante da notícia trazida por um mensageiro da conquista do “Fort Caroline” pelo “adelantado” e seus homens.

Com a perda da armada à passagem do furacão, e a queda do fortim, o poderio francês na Flórida sofreu um golpe mortal. Valdés saiu a 28 de setembro com o “adelantado” e 40 homens para comprovar a veracidade da informação trazida pelos indígenas acerca do naufrágio de numerosos franceses ao sul de San Agustín.

Estes formavam um grupo de duzentos homens que se renderam ao “adelantado” ao saber que o seu fortim havia sido tomado. O governador Avilés ordenou a Valdés que fosse em um batel ao outro lado do rio e que recolhesse as armas e bandeiras e transferisse os náufragos franceses de dez em dez. Enquanto Valdés se ocupava desta tarefa, o “adelantado” deu ordens a um capitão para que, à medida que os franceses fossem chegando a certos arbustos, os degolasse. Apenas se salvaram oito, que confessaram ser católicos. Treze dias mais tarde foram assassinados da mesma maneira e no mesmo local, um outro grupo de 150 franceses, sob o comando do capitão Jean Ribault. Desta feita, apenas dezesseis salvaram a vida por serem católicos ou músicos. Desde então, o lugar tem o nome de Matanzas.

Exterminada a colónia hugenote, Valdés partiu no mesmo mês para a Espanha, para dar conta ao rei do sucedido. Graças a uma carta de recomendação do “adelantado”, de que era portador o próprio Valdés, o soberano concedeu-lhe a mercê de cavaleiro da Ordem de Santiago (1566). Valdés aproveitou ainda essa estada na Espanha para desposar, no mesmo ano, María Catalina Menéndez de Avilés, filha do general Alvar Sánchez de Avilés e sobrinha, portanto, do “adelantado” de La Florida. A sua relação com este ficou, desse modo, mais estreita. Da união nasceram quatro filhas: Isabel, Francisca, Mariana e Marquesa.

Em 1566 Valdés retornou à Flórida para levar socorros e retornou para a Europa com o “adelantado” um ano mais tarde. Foi promovido a general em 1568 e até 1580 dirigiu as frotas de Terra Firme.

Foi comissionado pelo vice-rei Toledo para levar as receitas do Peru para Espanha em 1569.

Em 1578 o corsário inglês Francis Drake alcançou a região do estreito de Magalhães e semeou o terror na costa do Pacífico da América do Sul, então em mãos espanholas, com os seus assaltos e roubos. O então Vice-Rei acreditava que Drake regressaria à Inglaterra pelo mesmo caminho estreito e, em outubro de 1579, para ali enviou uma frota sob o comando de Pedro Sarmiento de Gamboa, que fracassou em sua missão. Sarmiento de Gamboa dirigiu-se então à Espanha tendo-se entrevistado com Filipe II em Badajoz (1580), convencendo o soberano e a Corte da necessidade de colonizar e fortificar aquela região.

A Coroa espanhola estava então preocupada com a crescente penetração de corsários e piratas ingleses, franceses e neerlandeses, por aquela via, no Pacífico. Desse modo compreendeu que a defesa deste oceano, o “mare nostrum” espanhol, e das cidades ribeirinhas espanholas na costa do Pacífico na América do Sul dependia da construção de uma cadeia de fortes ao longo do estreito de Magalhães, que impedissem a passagem aos navios das demais nações europeias.

Foi ordenado o apresto de uma grande expedição, nomeando-se a Sarmiento de Gamboa como Governador e Capitão General de Magalhães. O comando da armada que a transportaria, foi porém entregue a Flórez de Valdés, conforme Real Ordem, passada em Lisboa a 20 de agosto de 1581. Aproveitou-se essa armada para também transportar até ao Chile, o novo Governador daquela província, Alonso de Sotomayor. A armada era composta por 23 navios, transportando quase 3000 pessoas entre soldados, lavradores, artesãos, e outros. Destes, 350 povoadores e 400 soldados iriam com Sarmiento de Gamboa para a Terra do Fogo, e 600 com Alonso de Sotomayor para o Chile. Levavam também os projetos de dois fortes a serem construídos - um em cada margem do estreito -, de autoria do engenheiro militar Antonelli.

Desde o início essa expedição conheceu contratempos. O duque de Medina Sidonia, governador da Andaluzia, obrigou-a a partir de Sanlúcar de Barrameda a 27 de setembro de 1581, mesmo diante do parecer contrário de Sarmiento de Gamboa, apoiado pelos pilotos das embarcações, que previam o iminente desencadear de uma grande tormenta. A 8 de outubro o temporal era tão grande que Valdés deu ordem para o regresso ao porto: haviam-se perdido cinco navios e 800 homens, entre mortos e feridos.

Os sobreviventes – em que se incluíam 350 colonos e 400 soldados destinados ao estreito – voltaram a zarpar, agora da baía de Cádiz, a 9 de dezembro em apenas 16 embarcações, 9 das quais sob o comando de oficiais das Astúrias. Tendo-se perdido uma embarcação em alto-mar, alcançaram as ilhas de Cabo Verde a 9 de janeiro de 1582, onde fundearam um mês. Aqui Antonelli e Valdés procederam ao estudo para a defesa do arquipélago, recomendando este último a fortificação da Ribeira Grande (Relatório de 24 de janeiro de 1582), o que posteriormente conduziu à construção do Forte Real de São Filipe (1587).

Na subsequente travessia do Atlântico deflagrou a bordo das embarcações uma epidemia de disenteria (alguns autores referem escorbuto) que pôs termo à vida de mais de 150 homens. A 24 de março de 1582 lançaram âncora no Rio de Janeiro, porto no qual passaram o Inverno e parte da Primavera Austrais. Aqui os doentes receberam os cuidados do padre José de Anchieta, que para esse fim fez levantar um barracão coberto de palha, considerado o embrião da atual Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.

Os desentendimentos e disputas entre Sarmiento de Gamboa e Flórez Valdés por questões de navegação e comando que se multiplicavam desde antes da partida da Espanha intensificaram-se no Rio de Janeiro, quando o Governador do Rio de Janeiro e o General asturiano permitiram que muitos oficiais espanhóis adquirissem carregamentos de pau-brasil em troca de sementes, alimentos e outros materiais da Marinha Espanhola, destinados aos povoadores do estreito de Magalhães, carregando-os a bordo para vendê-los no retorno à Espanha. Com os seus veementes protestos, Sarmiento de Gamboa logrou que o pau-brasil fosse desembarcado, mas não pode impedir de todo esse tráfico. O ódio entre o marinheiro galego e o asturiano era agora bem patente.

A 2 de outubro (1 de novembro segundo alguns autores) a armada levantou ferros, com a maior parte das embarcações infestada pelo caruncho.

A caminho da ilha de Santa Catarina, na costa sul do Brasil, afundaram-se três embarcações, e encontrou-se um comerciante espanhol que se dirigia ao Rio da Prata, cujo capitão notificou-os que cinco dias antes havia sido assaltado por três navios ingleses: “Y llegado yo a esta isla y puerto [de Santa Catarina]” —comunicou Valdés ao soberano em carta escrita a 5 de agosto de 1583—, “me reparé, y aparejé lo mejor que yo pude las doce naos, porque la otra, que eran trece, no estaba para navegar, y se dio al revés con ella, y la gente, armas y municiones que llevaba se repartieron en las demás, y porque las tres naos inglesas iban fuertes y muy en orden, y que decían iban al Río de la Plata y de allí pasar al estrecho, entendiéndoles los desinios que llevaban, y que ansimesmo ellos entendían que la armada estaría ya en el estrecho, acordé de repartirla en tres, para dar con ellos dondequiera que acudiesen, y ansí dejé en el dicho puerto de Santa Catalina tres naos, las mayores de la armada, con seiscientos hombres en ellas, para que volviesen a esta costa del Brasil, a los puertos de San Vicente y Río de Janeiro, y allí se aderezasen y anduviesen en guarda della, hasta tanto que tuviesen orden mía; y que en ellas llevase los pobladores casados con sus hijos y mujeres, por la mucha falta de mantenimientos que la armada tenía, con orden de que en San Vicente el gobernador les diese bastimentos; y por la falta que yo tenía dellos acordé de inviar a Don Alonso de Sotomayor por el Río de la Plata, y que llevase la gente de su cargo en tres naos, y en ellas ochocientas personas, con orden que si topase dentro del río los enemigos, abordase con ellos, y los tomase y castigase, y después de desembarcada su gente inviase las naos, armas y municiones y pertrechos dellas al Río de Janeiro, a se juntar con los tres navíos que allá inviaba.”

Em Santa Catarina, segundo a versão de Sarmiento de Gamboa, Flóres Valdés tentou convencê-lo a que abandonassem a viagem por considerá-la inviável, e que regressassem ao Rio de Janeiro. O general asturiano justificava essa mudança de planos pelo forte vento e ondas que predominavam na área, não tendo bastante pessoas, material e barcos. Segundo ele, três dos melhores e maiores naus foram danificadas e não poderiam fazer a viagem para o estreito.

Sarmiento de Gamboa, que não acreditava na versão dos navios danificados, desejava a todo o custo alcançar o seu destino, conforme estipulavam as instruções reais recebidas. Finalmente, a 7 de janeiro de 1583 Flórez Valdés voltou a navegar com oito das embarcações, enviando as três - que afirmava estarem danificadas - para reparos no Rio de Janeiro. Ao deixar o porto de Santa Catarina perdeu-se o navio carregado com a maioria das provisões dos povoadores que haviam de ficar no estreito. Quando chegaram ao Rio da Prata, Alonso de Sotomayor, como planeado, subiu com três navios e os seus homens o Rio da Prata e o rio Paraná até Santa Fé, de onde continuou a viagem a pé, através do território de Tucumán e a Cordilheira dos Andes. Na travessia por aqueles rios, não viram sinais dos ingleses.

Com as cinco embarcações que lhe restavam Flórez Valdés prosseguiu rumo ao estreito, onde chegou a 17 de fevereiro. Ao penetrarem cerca de três léguas em suas águas, os ventos e as marés lançaram-nos para fora. Quatro dias mais tarde conseguiram alcançar as proximidades do cabo das Onze Mil Virgens, mas o vento forte voltou a empurrá-los para o mar aberto. Vendo a impossibilidade de adentrar o estreito naquele momento, Valdés deu ordem para as embarcações regressarem ao Brasil.

No porto de Santos encontrou duas das três naus enviadas do porto da ilha de Santa Catarina. A terceira, “La Begoña”, fora afundada alguns dias antes pelas três embarcações de piratas ingleses que se encontravam naquele porto. Para fortificar o porto e impedir a passagem dos piratas, Valdés fez erguer na entrada do porto o Forte de San Antonio (Santo Amaro da Barra Grande), deixando nele uma guarnição de 100 homens que colocou sob o comando de um sobrinho seu. Retomou então a viagem para o Rio de Janeiro, para desgosto de Sarmiento de Gamboa, que desejava retornar para o estreito de Magalhães.

Valdés tinha enorme desejo de abandonar esta expedição. Já quando a armada retornara à Espanha após a tempestade que a açoitara ao sair de San Lúcar de Barrameda, o capitão general arturiano, por questões de saúde, solicitou ao rei que o dispensasse desta comissão, sendo-lhe negado o pedido. O seu comportamento foi-se tornando mais despótico ao longo da expedição. Uma única obsessão o consumia: retornar o quanto antes à Espanha. Esta postura chocava-se com a de Sarmiento, que a todo custo desejava ir à Terra do Fogo para construir as fortificações e dar início à colonização da área. Ao longo da expedição os dois protagonistas alimentaram duras e desqualificadoras discussões. Pelos argumentos e pelas simpatias, a grande maioria dos asturianos apoiava o seu capitão-general, embora alguns dos marinheiros mais relevantes do Principado - o caso de Diego de la Ribera - davam razão a Sarmiento de Gamboa, tentando mediar entre os dois, mas sem nada conseguirem.

Os expedicionários chegaram a 9 de maio de 1583 ao Rio de Janeiro, ali encontrando quatro navios com víveres e apetrechos que o soberano enviara para o estreito sob o comando de Diego de Alcega. Nem perante esse socorro Valdés quis falar sobre o retorno ao estreito, apesar do fato de que o mesmo Gamboa e outros importantes capitães asturianos então o pediram. A decisão foi irrevogável e ninguém poderia fazê-lo mudar de ideias a não ser uma ordem expressa do soberano.

Para cumprir as ordens reais, deixou no Rio de Janeiro cinco embarcações com provisões e material diverso, e encarregou o almirante Diego de la Ribera e Gregorio de las Alas que levassem Sarmiento de Gamboa e os povoadores ao estreito: “(…) y que en estas cinco naos fuesen quinientos hombres de mar y de guerra, demás de los pobladores y gente que Pedro Sarmiento lleva consigo y a su cargo; y que entrados en el Estrecho, dejen en él, en la parte mejor y más cómoda, a Pedro Sarmiento y su gente, y trescientos hombres o trescientos cincuenta de guerra, para la seguridad de la población; y que le dejase uno o dos navíos, conforme viese la disposición; y que con las dos fragatas se vea y reconozca el Estrecho y los brazos y ríos que se entiende que tiene, y se sepa todo lo que en él hay, para que Vuestra Majestad provea lo que más a su servicio convenga, y no sea engañado, como hasta ahora lo ha sido, de las personas que a Vuestra Majestad dieron relación, los cuales yo he hallado muy al contrario de lo que a Vuestra Majestad informaron.

Com os cinco navios e 530 pessoas Sarmiento de Gamboa retornou ao estreito em 1584, onde fundou duas povoações - Nombre de Jesús e Rey Don Felipe -, cuja manutenção se revelou inviável devido ao frio e às privações.

Flórez Valdéz partiu do Rio de Janeiro para a Bahia, com 6 barcos, a 2 de junho de 1583. Invernou em Salvador e, a convite do então Governador-geral do Estado do Brasil, Manoel Teles Barreto (1582-1587), assumiu o comando de uma incursão à foz do rio Paraíba, contra corsários franceses ali aliados aos potiguares. Em março de 1584 a armada partiu, composta por 9 navios (7 castelhanos e 2 portugueses), conduzindo o Ouvidor-geral Martim Leitão, a quem o Governador confiara a organização da expedição e de todas as providências para a fundação de um estabelecimento luso-espanhol na Paraíba. Essa frota destroçou 5 embarcações corsárias, a quem também desalojou de um parapeito que haviam erguido em terra. Flórez de Valdés apoderou-se de um abundante botim que os corsários sobreviventes haviam abandonado ao fugir precipitadamente para a selva.

Valdés deixou a Paraíba a 1 de maio, após batizar o forte iniciado para a proteção da foz do rio Paraíba — Forte de São Filipe. Terá sido do nome desse forte que nasceu a ideia de Frutuoso Barbosa de nomear a capital da nova capitania como Filipeia de Nossa Senhora das Neves, atual João Pessoa. Ainda acerca desse episódio, Capistrano de Abreu narra:

Em 1583 aportou à Bahia Diego Flórez de Valdés, vindo de uma viagem malograda ao estreito de Magalhães. (...) Organizou-se ao Recife uma expedição marítima e outra terrestre. Por mar, Diego Flórez chegou sem embaraço a seu destino, queimou alguns navios franceses carregados de pau-brasil, fundou um forte, nele deixou uma guarnição de compatriotas seus. (...)” (Capítulos da História Colonial).

Valdés empreendeu viagem para a Espanha, chegando a Cádiz em 23 de julho de 1584. Em consequência dos relatos acusatórios de Pedro Sarmiento de Gamboa respondeu a um processo, de que foi absolvido. Como recompensa, o soberano fez-lhe a mercê da Comenda da Ordem de Santiago. “Alguns historiadores – afirma Constantino Suárez, guiados quase que exclusivamente, por estes relatórios de Sarmiento, atribuem a Flórez de Valdés acusações tão pouco consistentes como atribuir ao próprio intento o fracasso desta empresa expedicionária ao Pacífico. Se não houvessem outros argumentos de força contra tal afirmação, seria suficiente para destruí-la o fato de que sendo Flórez chefe supremo da esquadra, havia que declará-lo louco se houvesse procurado ‘ex profeso’ o desastre, o que equivalia à anulação da sua própria personalidade. Pode, efetivamente, levar a termo o mandato do rei, como o fez Sarmiento de Gamboa, mas o funesto resultado alcançado por aquele confirmou a razão que Flórez teve para desistir de povoar uma terra inabitável. E essa razão é apoiada incontestavelmente pelo fato de não se ter tentado repetir tão temerário feito até que o fez o Chile, favorecido pela proximidade, três séculos mais tarde, no XIX.

Flórez de Valdés participou em outras empresas não relacionadas com a América, como a “Invencível Armada” (1588) onde ainda exerceu o cargo de primeiro conselheiro para assuntos navais do duque de Medina Sidonia, que lhe atribuiu o fracasso da operação. Por essa razão, Valdés chegou a ser aprisionado no Castelo de Burgos, mas o soberano ordenou fosse colocado em liberdade.

Vindo a falecer em 1595, os seus restos e os de sua esposa repousam na Igreja de San Esteban de Las Morteras. À falta de filhos varões a filha de ambos, Francisca, herdou o “mayorazgo” que Valdés havia estabelecido pouco antes de falecer.

A poucos metros do templo há um celeiro de trigo, onde Valdés recolhia o tributo em grãos produzidos pelos seus rendeiros. Essas são as duas únicas testemunhas da presença do nobre naquela paróquia somedana.

Diego Flórez de Valdés legou-nos várias relações, memoriais e cartas. Entre eles citam-se: “Descripción sucinta del Río de la Plata y el camino y leguas que hay para Chile y el Perú”,”Sobre la importancia de poblar y fortificar el puerto de San Vicente y todos los otros de la costa del Brasil hasta el Río de la Plata”, “Sobre la seguridad y guarda de la navegación y puertos y cabos de Indias”, e “Parecer sobre la fábrica de seis navíos en los astilleros de Vizcaya”.

Contribuições

Atualizado em 16/09/2015 pelo tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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