Miguel de Arruda

Portugal

Miguel de Arruda (15?? — 1563), foi um arquiteto e engenheiro militar português.

Na sua obra inicial identificam-se os primeiros traços do estilo renascentista no país, como por exemplo no Mosteiro da Batalha (distrito de Leiria), na Igreja da Graça e na do Convento do Bom Jesus de Valverde (ambas em Évora). Em meados do século XVI teve papel de destaque na inflexão para o estilo maneirista, nomeadamente na afirmação do chamado “estilo chão”, como por exemplo na Igreja da Misericórdia de Santarém.

Destacou-se como arquiteto e engenheiro militar, no país e no ultramar.

Biografia

Filho de Francisco de Arruda e sobrinho de Diogo de Arruda, nasceu no seio de uma família com larga experiência na arquitetura e na engenharia militar.

Adquiriu formação prática e reputação no trabalho com o pai e no contato com Benedetto da Ravenna, engenheiro de Carlos V (Carlos I de Espanha). Em 1533 foi nomeado arquiteto do Mosteiro da Batalha por João III de Portugal (1521-1557), sendo responsável pela varanda renascentista das Capelas Imperfeitas.

Foi autor da traça da Igreja da Graça em Évora (classificada como Monumento Nacional desde 1910), cujas fachada e capela-mor possuem esculturas atribuídas a Nicolau de Chanterene.

De acordo com a atribuição de Reinaldo dos Santos e, mais recentemente, de Manuel Branco (comprovada documentalmente por este último em 1988-1993), Arruda foi autor da igreja do Convento do Bom Jesus de Valverde, perto de Évora (1543-1544), cuja construção esteve a cargo de Manuel Pires. Esta pequena edificação – um espaço simultaneamente reduzido e monumental, constituído pela articulação de cinco octógonos e utilização de cúpulas –, é considerada uma das "joias do nosso classicismo experimental". (SERRÃO, 2002:74-76)

Em 1541 acompanhou Benedetto da Ravenna à praça-forte de Mazagão quando este ali foi reformular as fortificações, uma iniciativa que viria a colocar Portugal "a par da última palavra em matéria de fortificação". Neste processo também participaram Diogo de Torralva e João de Castilho, este último como construtor. Trabalhou em Tânger e em Ceuta (1543), bem como nas fortalezas da ilha de Moçambique (Fortaleza de São Sebastião) e da Bahia de Todos os Santos (1546). Em 1548 projetou e dirigiu a empreitada de reformulação da Fortaleza de São Jorge da Mina, incluindo uma grande cisterna idêntica à de Mazagão. Devido à sua competência e sucesso no empreendimento de São Jorge da Mina, em dezembro desse mesmo ano foi designado “Mestre das Obras das Fortalezas do Continente e Ultramar”. Como culminância da sua vasta atividade no âmbito da arquitetura e engenharia militar destaca-se o Forte de São Julião da Barra (1553-1568), na ponta de São Gião, na margem direita do estuário do rio Tejo que, de acordo com Rafael Moreira, constitui-se uma das obras-primas da arquitetura portuguesa, "à altura das melhores criações do século XVI".

Em 1548 assumiu as funções de arquiteto das obras do Mosteiro de Alcobaça, para o qual provavelmente desenhou a atual Sala dos Reis. Desta mesma fase é a Capela palatina de Salvaterra de Magos (pertencente ao antigo Paço de Salvaterra de Magos, também da sua traça, de que só restam a capela e a falcoaria), "que combina o sistema de planta centralizada provido de cúpula com um tratamento espacial já de recorte palladiano", e apresenta inequívocas semelhanças com a Capela de Bom Jesus de Valverde. Contemporânea desta capela é o açougue da cidade de Beja (mais tarde adaptado e hoje a Igreja da Misericórdia de Beja ), que Vítor Serrão atribui também à traça de Miguel de Arruda. De acordo com esse historiador esta edificação recria o espaço das igrejas-salão clássicas e poderá ter aberto o caminho às “hallenkirshen” portuguesas da segunda metade do século XVI, "onde o estilo chão e a aceitação dos módulos maneiristas passam a impor, pela sua funcionalidade e distorção do ‘clássico’, um novo sistema construtivo, doravante dominador". (SERRÃO, 2002:74-76)

É consensual a atribuição a Miguel de Arruda de um papel determinante na configuração daquele que seria classificado por George Kubler de “Estilo Chão” (c. 1580-1680), uma tipologia arquitetónica caracterizada por um apurado sentido clássico e despojamento decorativo que reflete aspetos inerentes à arquitetura militar (área em que Arruda foi uma figura de referência). Arruda foi autor da Igreja da Misericórdia de Santarém (1559), "espaço de templo-salão em que o sentido monumental das proporções ligado ao sistema de cobertura e ao despojado perfilhamento das colunas toscanas […] nos revela esse não-escondido utilitarismo de signo militar". (SERRÃO, 2002: 187-189.)

Vários indícios permitem deduzir a sua ligação à corte, onde terá desempenhado um papel teórico e didático, esboçando soluções para uma grande diversidade de edificações, tendo sido responsável por importantes obras de iniciativa régia durante o reinado de D. João III. Estará na origem da tipologia e, provavelmente, da traça, das novas sés edificadas nesse reinado, que obedecem a princípios comuns (todas elas são igrejas-salão, com três naves de igual altura e abóbada única de nervuras, onde predomina um despojamento de feição militar), o que pressupõe uma ação coordenada: a Sé de Leiria, em geral atribuída a Afonso Álvares (genro de Miguel Arruda); a Sé de Miranda do Douro (onde a figura de Miguel de Arruda é documentada em 1552); a Sé de Portalegre (obras a cargo do mestre João Vaz); a Sé de Velha Goa, que também poderá ser derivada de desenhos de sua autoria (através do seu discípulo Inofre de Carvalho, residente no Estado Português da Índia desde 1551, embora a execução tenha estado a cargo de Júlio Simão).

Foi ainda autor do portal principal da Sé de Elvas, por encomenda do cardeal D. Henrique (1550), da Fonte da Vila de Alter do Chão (1556), e do projeto da Varanda do Grão Prior, na Vila do Crato. Embora sem comprovação, talvez lhe possa ser atribuída a concepção da Igreja de Santa Maria de Estremoz (1556-1562), assim como de outras igrejas-salão então edificadas no sul de Portugal.

Bibliografia

PEREIRA, Fernando António Baptista. História da arte portuguesa: época moderna. Lisboa: Universidade Aberta, 1992.

PEREIRA, Paulo. Arte Portuguesa: História Essencial. Lisboa: Círculo de Leitores, 2011. (Col. Temas e Debates). ISBN 978-989-644-153-1

SERRÃO, Vítor. História da Arte em Portugal: o Maneirismo. Lisboa: Publicações Alfa, 1986.

SERRÃO, Vítor. História da Arte em Portugal: o Renascimento e o Maneirismo. Lisboa: Editorial Presença, 2002. ISBN 972-23-2924-3

VALLA, Margarida. "O papel dos arquitectos e engenheiros militares na transmissão das formas urbanas portuguesas". Comunicação apresentada no IV Congresso Luso-Afro-Brasileiro, Rio de Janeiro, 1996.

Contribution

Updated at 22/02/2017 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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