Bento do Amaral Coutinho

Portugal

Bento do Amaral Coutinho (Rio de Janeiro, c. 1650 — 1711) foi um sertanista brasileiro.

Biografia

Descrito como "carioca alentado, homicida e insolente", perseguido por seu envolvimento em roubo de escravos, evadiu-se para as Minas Gerais, onde participou na Guerra dos Emboabas (1707-1709). Dela dá notícias:

Sem embargo que aos pés de Vossa Senhoria em toda a ocasião só desejo ser anunciador de paz, nesta forçosamente o hei de ser de Guerra, para dar parte a Vossa Senhoria do levantamento que agora sucedeu em 20 de dezembro nestas Minas Gerais, tomando armas todos os moradores destes arraiais e do campo contra os naturais da vila de São Paulo e serra acima. Poucos dias antes deste, havia sucedido o primeiro, nos arraiais do Caeté e Sabará das Minas do Rio das Velhas, causado de uma avançada que ao capitão maior Manuel Nunes Viana fora dar a Valentim Pedroso, para recuperar um desaire da espada em que seu irmão Jerônimo Pedroso havia ficado de pior com o dito Capitão-Maior, para o que foi incorporado de um tumulto de 600 armas, acompanhado do mesmo irmão, de José Pompeu, de Leão Leite e de outros muitos parentes e amigos como além disso guarnecido de mais armas, que chegando ao Caeté lhe foi levar em socorro o Tenente Manuel de Borba Gato seu tio, administrador daquelas Minas que, devendo como mineiro usar dos meios mais equivalentes para evitar a ruína e atalhar a desordem que sucedeu, o fez pelo contrário, excitando o incêndio até chegar a mandar fixar editais nas portas das Intendências, feitos em seu nome e firmados por sua mão, que nenhum morador ou forasteiro desse favor ou ajutório ao dito capitão-maior com pena de proceder contra êles e lhe serem confiscados os bens, só para que ficasse vencedor seu sobrinho. Mas como durante esta prevenção fosse tão considerável a perda e o saque se dece aos moradores que se avirigua não se restituir com cinco arrobas d ouro. Condoídos estes tanto da perda como da sem razão que viam se queria usar com o Capitão-Maior, conspiraram no levantam/ com dois mil armas, despejando violentamente aos agressores, matando a um José Pardo, Paulista, por insolências que fez, e ultimamente, tirando as armas a todos os Paulistas, como instrumentos de suas desordens e mau viver, além de outras capitulações que assentaram, fazendo corpo de Milicia, até recorrem a Vossa Senhoria e a Sua Majestade considero fariam já.

Com este repente despejados Jerônimo Pedroso das Minas do rio das Velhas e outros mais que lá eram moradores, apostaram a estas Gerais, e logo de caminho deram um tiro a um dos moços moradores do campo, irmão do Padre Manuel Pires, por sair ao caminho a livrar a uma vaca sua dos cais, e fazendo daí passo para o sitio de Pascoal da Silva, lhe disseram era mui acomodado aquele campo para uma couteda ou marca, e recolhidos a Joatiaia, em poucos dias houve notícia que juravam os Paulistas passar a ferro frio todos os Emboabas, que assim chamam aos nossos portugueses assistentes por aqui, estilo entre êles na conquista do gentio mui antigo. Mas não parando aqui a coisa e começando a fazer varias preparações de armas cada dia, em um foram vistas na Joatiaia 400, em outro grande número que se não pode contar no Rio das Pedras, todos Paulistas, e havia vários dizeres sobre o caso, até que se rompeu uma voz que os Paulistas, vendo o desigual partido que tinham no Rio das Velhas com os nossos, por serem muitos e viverem já guarnecidos de Milicia e acautelados, conspiravam dar uma noite a saquear e destruir êstes arraiais do Ouro Preto e Antônio Dias, matando tudo o que pudessem matar por serem mais importantes e estarem desprevenidos de liga e de Milicia; e nestas considerações do que se dizia viviam já muitos com seu receio. Alguns do povo em praticas particulares já capitulavam mas debaixo disso havia parecer de maduro conselho que os divertia por ser infausto o motim, de que se não serve Deus nem El-Rei, e comumente parto de muitas desgraças, parecendo melhor acerto ir vendo ainda com o tempo os sinais e indicios mais eficazes, até que, fazendo-se exatas diligências para se alcançar daqui a verdade, constou por cartas que se apanharam fazerem-se certas todas as demonstrações passadas, e ultimamente um homem de serra acima, bem poderoso e apotentado, falando em particular com certa pessoa, lhe disse que fôra convidado para o mesmo efeito, porém se não queria meter nessas alhadas. E com o último desengano que neste particular se colheu das ditas cartas, se levantou este povo do Ouro Preto e logo a uma fala o arraial de Antonio Dias, e dai a poucas horas o campo, com que se elegeu neste Ouro Preto um capitão que governasse de Armas e Guerra que se esperava: e como na noite seguinte ao dia do levantamento se mandou pôr fogo a êste arraial pelas duas (horas) depois da meia noite por dois bastardos e um negro fora da parede de um rancho junto ao punho de uma rede que estava armada daquela parte de que ardeu grande parte, queimando-se nove ranchos de mercadores que se avaliou em grande perda. E fora se se queimaram 16 arrobas de polvora que estavam neles. Se coligiu que de respirador da prevenção do levantamento, antes que tivesse o intento efeito, mandaram fazer a queima sendo público haver sido o agressor um Fernando Pais, paulista, que logo se foi retirando e pondo de largo, mandando depois dizer Valentim Pedroso que se não queixassem dele senão de Pais, que era o que mandara pôr fogo ao arraial. E para confirmação de tudo por outra carta que se alcançou alguns dias depois e aberta se viu que dizia por formais palavras Vossa Senhoria estiveram a culpa em não fazer-se o efeito a seu tempo, que já agora é tarde…

(Carta de Bento do Amaral Coutinho e enviada ao governador D. Fernando Martins Mascarenhas Lencastre datada do Arraial de Ouro Preto a 16 de janeiro de 1709.)

Em janeiro de 1709, liderando forças emboabas (mais de mil homens armados, enviados por Manuel Nunes Viana), estabeleceu quartel no arraial da Ponta do Morro, de onde enviou expedições contra os paulistas na região. Os paulistas bateram em retirada e, perseguidos, travou-se combate às margens do rio das Mortes. Mediante promessa de garantia de vida por Amaral Coutinho, cerca de trezentos paulistas renderam-se. Entretanto, apesar da palavra dada Amaral Coutinho deu ordens para chacinar os seus prisioneiros no episódio chamado de Capão da Traição, que causou comoção popular, assinalando a queda de prestígio do líder emboaba Manuel Nunes Viana.

De volta ao Rio de Janeiro, combateu os corsários franceses em 1710 e em 1711 por ocasião das invasões francesas comandadas por Jean-François du Clerc e por René du Guay-Trouin respectivamente.

Amaral Coutinho, no cargo de capitão da Companhia de Ordenanças, comandou um grupo de estudantes do Colégio dos Jesuítas, no combate contra os franceses em 1710. (LAMEGO, Alberto. “As invasões francesas no Rio de Janeiro”. RIHGB, Vol. VI, 1950.)
Em 1711, voltava de um reconhecimento à Fortaleza de São João, quando perto da Lagoa da Sentinela, no ponto de junção dos caminhos de Mata-Cavalos (atual rua do Riachuelo) e de Capueraçu (na depois rua Conde d’Eu, atual Frei Caneca), encontrou duas companhias de granadeiros franceses. Logo os atacou mas, acudindo duas outras comandadas pelos capitães De Brugnon e De Cheridan, foram os nossos destroçados. Amaral Coutinho morreu em combate. No dia 21, recebera do General Costa de Ataíde, no Engenho Novo, a comissão de mestre-de-campo. Era uma das pessoas principais desta cidade, disse a Câmara na representação dirigida ao rei.” (FRAGOSO, Augusto de Tasso. “Os franceses no Rio de Janeiro”.)

Contribution

Updated at 26/01/2015 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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