Pedro de Heredia

Spain

Pedro de Heredia (séc. XV-séc. XVI) foi um militar espanhol. Com a patente de capitão, exerceu o cargo de Governador militar do arquipélago dos Açores e castelão da Fortaleza de São Filipe do Monte Brasil em substituição (1601-1602).

Biografia

O governador Diego de Miranda Quirós, por não ter cumprido as instruções reais de fazer embarcar o grosso do “tercio” espanhol deixado na Terceira pelo marquês de Santa Cruz, foi chamado à Corte para ser ouvido. Para o substituir no comando, foi nomeado Pedro de Heredia, ao tempo governador e capitão-general da ilha de Menorca. O governo de Heredia assinala, assim, a retirada dos Açores e, em particular, da Terceira, de um efetivo de cerca de 1.500 soldados espanhóis que nesta ilha causavam a maior opressão — sem paralelo em qualquer outra parte do reino, queixavam-se a Filipe II de Espanha as Câmaras Municipais da Terceira —, não apenas por terem que lhe fornecer alimentação e alojamento, mas sobretudo porque, sem instalações próprias para aquartelamento, aboletavam-se quase todos pela ilha, nomeadamente em Angra, na Praia e em São Sebastião. Ora, consequentemente livres de enquadramento e comando eficazes, esses homens praticavam impunemente os maiores desmandos sobre as populações.

Embarcadas as tropas com Diego de Miranda Quirós, ficou o governador substituto com um corpo aproximadamente de 500 homens, cerca de metade mais idosos, 150 já aquartelados na Fortaleza de São Filipe do Monte Brasil, os demais aboletados em casas de Angra na zona contígua (Boa Nova-São Gonçalo), alojamentos que a Câmara da cidade fora obrigada a disponibilizar, deles tendo despejado, portanto, os respetivos moradores.

Pedro de Heredia beneficiou, de imediato, com a retirada de três quartos do contingente estrangeiro, com reflexos diretos nos encargos de fornecimento de alimentos e de alojamentos. A concentração da guarnição espanhola na fortaleza e suas imediações, permitiu um maior enquadramento e controlo da tropa. Essa diminuição de efetivos levou a que fossem retirados os destacamentos espanhóis distribuídos pelos principais pontos estratégicos da ilha, ficando a sua custódia à responsabilidade das Ordenanças portuguesas. Para agradar aos naturais — neste caso, os efetivos necessários não eram significativos —, retirou as guardas da Porta do Mar e da praça da cidade, medidas de elevado simbolismo: os portugueses assumiram, de facto, o controlo da defesa militar da Terceira. Ao regressar a Angra, Miranda de Quirós procurou por cobro a essa situação, queixando-se ao soberano que Pedro de Heredia "(…) fez uma coisa digna de repreensão que foi desamparar o corpo da guarda da praça de armas da cidade e a guarda da porta do mar, uma e outra importantes ao serviço de Sua Majestade, locais onde, em quaisquer terras de Sua Majestade, é costume ter gente de guerra".

Sob o governo de Heredia, as obras da fortaleza do Monte Brasil continuaram penosamente. Se o soberano manifestava insistentemente o seu empenho no prosseguimento dos trabalhos, faltava, porém, com os meios necessários, em especial a pedra de cal. As ordens que dava ao governo português, à época exercido por D. Cristóvão de Moura, marquês de Castelo Rodrigo, capitão do donatário da Terceira, para que enviasse materiais a partir de Lisboa, esbarravam com os cofres vazios — para além do marquês entender que não devia ser Portugal a suportar os custos com um castelo ocupado por soldados espanhóis.

Os poucos recursos que chegavam à Terceira eram manifestamente insuficientes para o socorro ou a subsistência do presídio. Em tal penúria de recursos financeiros, o capitão Heredia não conseguiu silenciar a revolta dos seus soldados, que viviam indeterminadamente longe da pátria, com os soldos de há muito atrasados; não chegava dinheiro para pagar serviços, alimentação, fardamento e calçado. Os soldados amotinaram-se, e muitos procuraram abandonar a ilha em navios que aqui faziam escala, saltando as muralhas (desde o reinado de D. Sebastião que a frente marítima de Angra estava amuralhada, controlada por portas dando para o mar). Pedro de Heredia procurou minimizar a situação, buscando dinheiro junto do corregedor para o sustento da sua gente, e subiu o preço da carne para convencer os criadores de gado a fornecê-la voluntariamente — Juan de Horbina pagara-a a 15 maravedis, mas Antonio Centeno baixara-lhe o preço para 10, tendo chegado a mandar que lhe trouxessem vacas prenhas, paridas e gado de trabalho para abate, por os criadores se escusarem a fornecê-lo voluntariamente; Heredia pagou-a a 12 maravedis, aumentou uma ração a cada homem, e puniu severamente os soldados que tentaram desertar.

O poder defensivo da fortaleza encontrava-se ainda muito reduzido, não só pelo atraso das obras, mas também porque a artilharia estava quase toda por encavalgar e não havia vitualhas para mais de um dia caso a ilha fosse acometida por inimigos. Somava-se à grave situação material, o baixo moral da guarnição, conjuntura que levou mesmo o Conselho de Guerra a alertar o monarca para o perigo da ilha simplesmente se vir a perder.

Durou o comando interino de Pedro de Heredia um ano. Era militar com uma carreira de cerca de 45 anos, casado com uma sobrinha do vedor-geral de Espanha, D. Juan de Lodema, com casa em Pamplona, no reino da Navarra, onde prestara serviço e onde viviam a sua esposa e a filha. Terminada a comissão em Angra, foi ocupar o lugar de alcaide de Melilla. Em 1607 o seu nome foi proposto pelo Conselho de Guerra para substituir o mestre de campo Miranda Quirós na castelania da fortaleza do Monte Brasil, mas Filipe III de Espanha optou por D. Pedro Sarmento.

Bibliografia

CHAGAS, Diogo das. Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores (2.ª ed.). s.l., Presidência do Governo Regional dos Açores / Direção Regional da Cultura; Universidade dos Açores, Centro de Estudos Doutor Gaspar Frutuoso, 2007, pp. 264-266.

CHAGAS, Diogo das. "Relação do que aconteceu na Cidade de Angra da ilha Terceira, depois da feliz aclamação d'el rei D. João IV, que Deus guarde, na restauração do Castelo de S. João Baptista do Monte Brasil, até se embarcarem os castelhanos que o ocupavam (…)”. In Arquivo dos Açores, vol. X, 1888, pp. 193-232.

FARIA, Manuel Augusto de. Governadores do presídio militar espanhol nos Açores (7). Pedro de Heredia. In Diário Insular, 17 jul 2019, p. 19.

Contribution

Updated at 11/07/2020 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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