Pedro Sarmiento

Spain

D. Pedro Sarmiento (século XVI-século XVII) foi um militar espanhol. Mestre de Campo, cavaleiro da Ordem de Santiago, foi um prestigiado cabo de guerra com extensa carreira nas armas. Exerceu o cargo de governador do Castelo de São Filipe do Monte Brasil (1609-1613).

Biografia

Sucedeu no governo do Castelo a D. Diego de Miranda Quirós, embora desconheçamos a jurisdição que lhe foi dada de vez que o soberano, de facto, exerceu algum poder civil sobre o arquipélago. Maldonado chama-lhe “Sarmento”, sem caracterizar a sua ação como castelão, referindo que no seu governo foram consignadas avultadas verbas às obras da fortaleza (MALDONADO, Manuel Luís. Fenix Angence); dá-o presente na reunião da Câmara que, em abril de 1610, assentou no alargamento da praça cidade (Op. cit.). Frei Diogo da Chagas tem-no como grande amigo dos portugueses, e igualmente o acha na dita reunião camarária (CHAGAS, Diogo das. Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores). Trouxe por tenente o próprio irmão, o capitão Juan de Pastrana.

Embora as referências na historiografia açoriana sejam escassas a seu respeito, dispomos de abundante informação sobre a sua ação no Archivo General de Simancas, na Espanha, permitindo traçar um quadro do quotidiano da guarnição espanhola em Angra. Com a morte de Miranda Quirós, e por proposta do Conselho de Guerra de 24 de dezembro de 1607, D. Pedro Sarmiento foi nomeado para a castelania do Castelo de São Filipe em 20 de fevereiro de 1608. Após uma viagem atribulada, chegou à Terceira em 11 de fevereiro 1609, recebendo o governo do Castelo das mãos do capitão-Francisco de la Rua que, por sua vez, o recebera com a partida do anterior castelão chamado à Corte, em Madrid.

A partir de então, D. Pedro de Sarmiento não deixou de dirigir à Corte e ao governo de Portugal —era vice-rei D. Cristóvão de Moura, 1.º marquês de Castelo Rodrigo, capitão do donatário da Terceira — relatórios sobre as obras da fortaleza e o estado calamitoso da defesa e da guarnição do presídio. A guarnição do Castelo, que deveria contar 500 soldados, possuía apenas 330, a que se juntaram mais 71, vindos com o mestre de campo. Ainda em março de 1612 deu conta da falta de 200 praças. Além da carência de pessoal, era gritante a falta de qualidade de grande parte dos soldados, referidos como “escória, ladrões, homens de mau viver". Os conflitos entre eles eram frequentes, mas o pior era para as populações a quem assaltavam, provocando, naturalmente o descontentamento dos terceirenses — com razão, reconhecia o governador. Estes soldados criminosos chegaram a estar retirados para o interior da Terceira durante períodos que chegaram a dois anos e deslocar-se a outras ilhas para cometerem furtos e outras violências. D. Pedro usou mão pesada contra este bando de delinquentes e chegou a enfrentar uma rebelião dos seus soldados, curiosamente fomentada pelo capelão-mor, um terceirense descontente por o governador não ter atendido um favor que pedira. O soberano exigiu rigor na repressão e o governador assegurou ter normalizado a situação, com satisfação dos terceirenses. A falta de dinheiro para pagar os soldos, saído do orçamento espanhol destinado ao "socorro" dos soldados, era constante. Os sobejos dos rendimentos da Fazenda Real nas ilhas eram insuficientes e o clero tinha prioridade nos pagamentos. Também faltavam rendimentos à Coroa de Portugal, a quem o monarca insistentemente mandava remeter socorro à guarnição espanhola do Castelo; além disso, o vice-rei de Portugal também entendia que não devia, com as rendas portuguesas, dar socorro aos castelos guarnecidos por espanhóis. Os soldados chegaram a andar "desnudos", por falta de panos para lhes fazer vestimentas. D. Pedro Sarmiento saiu do governo do Castelo deixando a gente de guerra em grande estado de pobreza e de necessidade, com falta de crédito para recorrer a empréstimo pelo acumular de dívidas.

Logo em carta de 12 de abril de 1609, informara o rei que vinte e tandos soldados condenados forçados às obras e a equipa de mestrança espanhola estavam sem trabalho por falta de cal e de pedra. De passagem por Lisboa, o mestre de campo pedira ao vice-rei financiamento, mas este respondera-lhe que não tinha dinheiro. As obras já feitas degradavam-se, as águas pluviais infiltravam-se e as estruturas já levantadas ameaçavam ruir. O governador pediu ao soberano autorização para ir residir para a cidade, onde dois terços da guarnição continuavam alojados, por a sua saúde perigar com a insalubridade do quartel em que vivia.

Apesar de não haver, então, trabalhadores locais empregados na construção, com particular repercussão na falta de pedra aparelhada, por não haver dinheiro para lhes pagar, isso não impediu que Anton Coll, fazendo resumo do governo de D. Pedro Sarmiento e da tenência do capitão Juan de Pastrana, inventarie algum desenvolvimento na construção da muralha e, sobretudo, no entrincheiramento das faldas do monte Brasil a ocidente, para as bandas do Zimbreiro. Esses trabalhos foram, porém, executados por criminosos de delito comum sentenciados a trabalhos forçados na fortaleza e, sobretudo, pelos soldados castigados. O contingente destes últimos situar-se-ia entre as duas e as tês dezenas, número em consonância com a indisciplina que grassava entre os espanhóis, e com o lançamento às obras como principal recurso penal para a combater.

Desde cedo D. Pedro procurou deixar Angra e regressar à Espanha. Apresentou como pretexto a necessidade de tratar de assuntos pessoais com suas irmãs após o falecimento do pai, e apresentar diretamente à Corte a situação do presídio de Angra. Logo no início do seu governo enviara à Corte o capitão Francisco de la Rua para tratar de obter recursos para as obras e para a gente de guerra. Este, entretanto, procurou, sobretudo, alcançar outra colocação e escapar ao suplício do Castelo de São Filipe. O mesmo fez D. Pedra de Sarmiento quando obteve autorização para se deslocar à Corte, no início do ano de 1613: foi provido no comando do “tercio” de Nápoles. A substituí-lo interinamente, ficou o seu irmão, capitão Juan de Pastrana, até à tomada de posse do governo do Castelo pelo mestre de campo D. Gonzalo Mexia.

Bibliografia

CHAGAS, Diogo das. Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores (2.ª ed.). s.l., Presidência do Governo Regional dos Açores / Direção Regional da Cultura; Universidade dos Açores, Centro de Estudos Doutor Gaspar Frutuoso, 2007, pp. 264-266.

CHAGAS, Diogo das. "Relação do que aconteceu na Cidade de Angra da ilha Terceira, depois da feliz aclamação d'el rei D. João IV, que Deus guarde, na restauração do Castelo de S. João Baptista do Monte Brasil, até se embarcarem os castelhanos que o ocupavam (…)”. In Arquivo dos Açores, vol. X, 1888, pp. 193-232.

FARIA, Manuel Augusto de. Governadores do presídio militar espanhol nos Açores (9). D. Pedro Sarmiento. In Diário Insular, 31 jul 2019, p. 19.

MALDONADO, Manuel Luís. Fenix Angrence (3 vol.). Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1989-1997.

Contribution

Updated at 15/07/2020 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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