Ciprião de Figueiredo e Vasconcelos

Portugal

Ciprião de Figueiredo e Vasconcelos (Alcochete, meados do séc. XVI – Les Fontaines, Lagny-sur-Marne, após 1606), também grafado como Cypriano ou Scipião, foi um fidalgo português, 1.º e único conde da vila de São Sebastião por mercê de António I de Portugal. Distinguiu-se no exercício do cargo de Corregedor dos Açores no contexto da Crise de sucessão de 1580, nomeadamente no período conturbado que se seguiu à aclamação, nas ilhas, de D. António, Prior do Crato como rei de Portugal. A ele se deve a fortificação e organização da defesa da ilha Terceira que conduziu à vitória na Batalha da Salga.

Biografia

Era filho de Sebastião Gomes de Figueiredo, natural de Alcochete (Trancoso, segundo alguns autores) e de D.ª Antonia Fernandes de Vasconcellos, filha do bispo da Diocese de Lamego, D. Fernando de Menezes, que faleceu como arcebispo de Lisboa, e dotou a filha com o prazo de Velloso, que CASTELO BRANCO (1874) classifica como “doação riquissima em direitos reaes”.

Doutorou-se em direito canónico imperial e, em 1578 foi nomeado por D. Sebastião para o cargo de Corregedor (magistrado administrativo e judicial que representava a Coroa) dos Açores.

Desde cedo manteve graves dissidências com o bispo da Diocese de Angra, D. Pedro de Castilho (1578-1583), sobre questões de repartição de competências entre a jurisdição civil e eclesiástica resultantes da aplicação das normas do Concílio de Trento, à época transpostas como leis do reino. Estas se agudizaram com as perturbações políticas que culminaram na Crise de Sucessão de 1580, tendo o corregedor aclamado D. António, Prior do Crato como rei de Portugal, enquanto o bispo, partidário ostensivo de Filipe II de Espanha viu-se forçado a retirar para a cidade de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, para evitar a animosidade do corregedor e da população terceirense. Figueiredo, então nomeado governador dos Açores por D. António, não conseguiu estender a sua autoridade às ilhas de São Miguel e de Santa Maria, tendo a Câmara Municipal de Ponta Delgada, instigada pelo bispo, com o apoio de Rui Gonçalves da Câmara, 7.º capitão do donatário daquela Ilha. aclamado Filipe II, o que lhe valeu uma dura admoestação por carta do novo governador, onde este afirma que “uma mulher, mesmo pouco séria, não se entrega sem ser requestada”, em alusão à atitude da Câmara (LEITE, s.d.).

Embora tendo tomado medidas vigorosas para sustentar o partido de D. António, como o afastamento dos partidários filipinos dos cargos públicos pela alteração das leis, o governo de Figueiredo foi moderado. Conteve a conspiração liderada por João de Bettencourt, que instigado pelos jesuítas do Colégio de Angra, tinha aclamado D. Filipe em Angra. O julgamento, no Tribunal da Relação de Angra, presidido por Figueiredo condenou-o à morte, sentença cuja aplicação Figueiredo protelou e jamais executou, tendo evitado tomar medidas que exacerbassem a relação entre os partidos. Concentrou a sua ação na organização da defesa e na preparação da resistência à previsível tentativa de invasão da ilha pelos espanhóis. Nesse particular reorganizou as Ordenanças e intensificou a construção de novas fortificações – costeiras -, dentro do antigo plano de defesa da ilha, que remontava a 1567 e antevia que uma agressão viria necessariamente por mar.

Esta materializou-se logo no Verão seguinte, quando, a 5 de julho de 1581 surgiu uma armada espanhola ao largo da baía de Angra, sob o comando do almirante asturiano D. Pedro de Valdés. Figueiredo mandou colocar vigias em vários pontos da costa da ilha e, a 26 de julho, no lugar da Salga, no litoral da vila de São Sebastião, na costa sudeste da ilha desembarcou uma força estimada em cerca de um milhar de homens. Tendo os sinos tocado a rebate, as forças terceirenses dirigiram-se ao local. Em inferioridade numérica, em luta corpo a corpo, Frei Pedro, um frade agostiniano, deu a ideia de que se reunisse o gado bravo que ali pastava, lançando-o sobre os invasores, operação que assegurou a vitória aos terceirenses. Essa vitória deu ânimo à resistência de D. António, facilitando-lhe a ação diplomática em busca de apoio junto às cortes francesa e inglesa.

Em finais de 1581 registou-se em Angra uma manifestação dos opositores de Figueiredo, que pretendiam uma política mais enérgica, o que terá levado D. António a substituí-lo no governo dos Açores, por Manuel da Silva Coutinho, por ele elevado a 1.º conde de Torres Vedras.

A sua frase “Antes morrer livres que em paz sujeitos” hoje divisa dos Açores, é de uma carta que escreveu, a 13 de fevereiro de 1582, ainda no exercício do cargo de Governador dos Açores, a Filipe II, Nela recusava a sujeição da Terceira em troca de mercês várias, afirmando: "(...) As couzas que padecem os moradores desse afligido reyno, bastarão para vos desenganar que os que estão fora desse pezado jugo, quererião antes morrer livres, que em paz sujeitos. Nem eu darei aos moradores desta ilha outro conselho (...) porque um morrer bem é viver perpetuamente (...)".

No mesmo mês e ano, Figueiredo entregou o governo a Silva Coutinho, sendo compensado por mercê de D. António com o título de 1.º conde de São Sebastião, vila próxima do local onde, no ano anterior, se travara a Batalha da Salga. Silva Coutinho pretendeu nomeá-lo almirante de uma esquadra para a conquista de Cabo Verde, mas Figueiredo declinou da função por desconfiar que simplesmente se pretendia afastá-lo do centro das decisões.

Embora Figueiredo se opusesse à vinda de tropas estrangeiras para a Terceira, considerando-as desnecessárias e contraproducentes, após a derrota na Batalha naval de Vila Franca do Campo (26 de julho de 1582), D. António refugiou-se na Terceira, onde conseguiu instalar um importante contingente de forças francesas, sob o comando de Aymar de Clermont de Chaste, (o “comendador de Chaste”), que tendo participado da funesta batalha, permaneceu na Terceira após a partida de D. António, acompanhado por Figueiredo, para a França, em novembro do mesmo ano, onde obteriam asilo.

Figueiredo assistiu à morte de D. António em 26 de agosto de 1595, tendo despendido com o monarca e seus filhos os bens que adquirira na governação da ilha Terceira (CASTELO BRANCO, 1874).

Poucos ou nada se sabe de Figueiredo até 1601, ano em que Maria de Médici, segunda esposa de Henrique IV e rainha consorte da França o recomenda, por carta de 10 de janeiro, a Fernando I, Grão-duque da Toscana (Fernando de Médici), dando-lhe conta que o seu protegido se deslocava à Itália para alguns assuntos particulares. Também se desconhece quanto tempo de demorou na Itália. Em seu retorno foi residir na aldeia de Les Fontaines, perto de Lagny, onde socorria os portugueses expatriados com modesta pensão que lhe assegurava o rei francês. Ali faleceu, após 1606, tendo sido sepultado no vizinho mosteiro da Ordem de Santo Agostinho. O monarca francês continuou a assegurar a pensão aos comensais Ciprião (Op. cit.).

Bibliografia

AMARAL, J. M. S. C. R e (1989). "Ciprião de Figueiredo. Exemplo de Honra e Lealdade”, in Biografias e Outros escritos. Angra do Heroísmo, Câmara Municipal de Angra do Heroísmo. pp. 25-30.

CASTELO BRANCO, Camilo (1874). "O heroe da Ilha Terceira". In Noites de insomnia offerecidas a quem não póde dormir. Bibliotheca de Algibeira n.º 11, novembro. Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron.

LEITE, José Guilherme Reis (s.d.). Figueiredo, Ciprião de. Enciclopédia Açoriana. Disponível em: http://www.culturacores.azores.gov.pt/ea/pesquisa/Default.aspx?id=6796 

LIMA, Gervásio (1935). Breviário Açoreano. Angra do Heroísmo, Tip. Editora Andrade, p. 231.

MENESES, Avelino F. (1987). Os Açores e o Domínio Filipino (1580-1590). Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira.

Vasconcelos (Cipriano de Figueiredo e). In Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, vol. VII, p. 319.

 

Contribution

Updated at 03/04/2021 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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