Joannes Cieremans

Netherlands

Joannes Cieremans (S.J.), também referido em Portugal como João Pascácio Cosmander ou simplesmente Cosmander ('s-Hertogenbosch, 7 de abril de 1602 — Olivença, 18 de junho de 1648), foi um matemático, engenheiro-militar e arquiteto neerlandês, membro da Companhia de Jesus.

Biografia

No contexto da Guerra da Restauração da independência portuguesa (1640-1668), ante a iminência de uma invasão espanhola, impôs-se a completa reestruturação das fortificações fronteiriças de Portugal, adaptando-se as estruturas ainda medievais às exigências da artilharia da época.

Neste contexto, para o enorme esforço militar que se adivinhava foram chamados a Portugal vários engenheiros militares franceses e neerlandeses. Os primeiros técnicos a que se recorreu foram os padres jesuítas e professores no colégio de Santo Antão, como Simão Fallonio e João Cosmander e um seu assistente, Jean Gillot.

Entre 1619 e 1630 Cosmander foi aluno do colégio jesuíta de Louvain, onde estudou Filosofia, Teologia e Matemática. Foi ordenado sacerdote, a 4 de abril de 1634. Lecionou Matemática em Antuérpia e Louvain, e Humanismo na primeira.

Acompanhava as forças espanholas no assédio que culminou com a queda de Arras diante das forças de Luís XIII de França em 1640.

Estava presente em Portugal em 1641, quando se mudou para o colégio jesuíta de Lisboa, em trânsito naquele momento para seguir como missionário para a Ásia. Apresentado à Corte de João IV de Portugal (1640-1656), o soberano ficou impressionado com os seus conhecimentos no campo da Matemática e da arte da fortificação, convidando-o a servir em Portugal. Cosmander aceitou o convite, sendo nomeado coronel de Engenheiros do Exército Português.

Após o início das hostilidades com a Espanha, estando os melhores fortificadores do país em serviço no Ultramar, Cosmander era o melhor especialista no reino, tendo sido encarregado, pelo Conselho de Guerra, de inspecionar o estado das fortificações de Lisboa e Setúbal.

São possivelmente de sua autoria a traça de duas das principais fortificações então iniciadas para a defesa de Lisboa - o Forte de São João das Maias, a partir de 1644, e o Forte de São Pedro de Paço de Arcos - e, em Setúbal, o Forte de Santiago de Sesimbra, tendo trabalhado ainda nas obras do Forte de Santiago do Outão. (NUNES, 2005:92)

Em 1643, na qualidade de engenheiro da província do Alentejo, já ali se encontrava, junto com Philipe Guitau e Rui Correia Lucas, constituindo uma Junta para disporem do que fosse necessário para a fortificação daquela província. A sua obra-prima foi a Praça-forte de Elvas, que desenhou e construiu, tendo-se também distinguido na sua defesa, após o que foi nomeado Superintendente das Fortificações, o que lhe deu ascendência sobre os demais engenheiros, nomeadamente o Engenheiro-mor do Reino, Charles Lassard, que era considerado menos competente que Cosmander. (NUNES, 2005:93).

No Alentejo trabalhou nas seguintes fortificações:

• Praça-forte de Évora (Forte de Santa Luzia)

• Praça-forte de Estremoz

• Portas e baluartes da segunda linha de fortificações (Estremoz) (século XVII)

• Praça-forte de Olivença

• Praça-forte de Campo Maior

• Castelo de Vide

• Fortaleza de Juromenha, cujos trabalhos foram iniciados e suspensos devidos aos elevados custos e às dificuldades técnicas que se materializaram.

Fortificou ainda a Vila Nueva de Fresno após esta ter sido conquistada por forças portuguesas no desenvolvimento do conflito.

Em outubro de 1647, quando regressava de uma das suas frequentes deslocações a Lisboa, na altura da Fonte dos Sapateiros, a cerca de 10 quilómetros de Elvas, foi surpreendido por uma pequena força de cavalaria espanhola – apenas uma dezena de cavaleiros comandados por um alferes – que o levou, e a um criado seu, prisioneiro para Badajoz. Conduzido mais tarde a Madrid, à presença de Filipe IV de Espanha (1621-1665), foi convidado a entrar ao serviço deste soberano, proposta que acabou por aceitar. A selar o novo compromisso de fidelidade, Cosmander traçou um plano para a conquista da praça de Olivença, que conhecia muito bem.

Na madrugada de 18 de junho de 1648, Cosmander intentou tomar de assalto o seu objetivo, com uma força de 1.000 infantes e cavaleiros. Entre outras fontes, destaca-se a narrativa do então soldado de cavalaria Mateus Rodrigues:

(…) Quando vinha já amanhecendo (…) já ele [Cosmander] estava à roda da vila, e para melhor dizer dentro dela, e a ordem e modo como entrou foi assim como os castelhanos iam passando por umas hortas que chamam da Rala, onde havia muitos hortelões, e assim como viram os castelhanos lhe não pareceram homens, senão porcos, e como as hortas estavam mui cheias de hortaliça naquele tempo, tomaram paus nas mãos para ir a botar os castelhanos fora dizendo 'Valha o diabo! Quem trouxe aqui tanto porco, donde veio isto?'. E os castelhanos mui calados, marchando para a vila, e averbando com a muralha se meteram dentro por escadas, e mais estando a muralha com suas sentinelas nossas, mas quando a nossa gente se começou a alvoroçar e a gritar 'Armas! Armas!', já o inimigo estava [com] muita (…) da sua infantaria dentro da vila. E no Rossio de Santo António [já] estava um batalhão de 1.000 infantes formados (…), [que] por um buraco que na muralha estava (…) [tinha entrado] uma manga de castelhanos, todos aventureiros e gente escolhida. De modo que ainda estava toda a gente da vila na cama, e muitos (…) tinham por parvoíce o dizerem que estava o inimigo dentro da vila. Logo começaram a ir-se levantando todos muito depressa, uns mal calçados e mal vestidos, e a gente de cavalo acudindo, uns em sela, outros em osso, que havia uma notável confusão da vila em ver já o inimigo dentro sem lhe poderem valer (…). E a tudo isto o Cosmander andava lá fora da vila dando ordem para meter a sua cavalaria dentro (…), e foi buscar um petardo para ele mesmo lhe pôr fogo às portas, para que entrasse a sua cavalaria, e assim como o trouxe para junto da porta, já neste tempo a nossa trincheira tinha muita gente defendendo (…). De modo que tanto que Cosmander veio com o petardo para as portas, sem se lhe dar das balas que neste tempo choviam da muralha, e ele só, trazendo o petardo às portas sem se lhe dar de nada, e a sua cavalaria toda já à vista esperando que ele botasse as portas dentro para virem entrar, mas tanto que ele se veio arrimando às portas, começaram da muralha bradando todos 'Eis ali Cosmander! Eis ali Cosmander!'. Mas apenas (…) o nomearam, já ele estava estirado no chão com uma bala, que estava na trincheira um carpinteiro com uma espingarda nas mãos, (…) [que] assim como o viu, já o tinha aviado, ao qual carpinteiro fez El-Rei mercê.

Assim como o inimigo viu este homem morto, parece que se acabou o seu encantamento, que não houve mais castelhano que pegasse em arma senão tratar cada um de fugir mais. Os que estavam fora logo se retiraram a bom passo e os que estavam dentro levaram tal esfrega que não sabiam por onde se meterem. (…) O batalhão que estava já no terreiro de Santo António (…) [foi atacado e ficou] em breves horas em miserável estado, que como não tinham já outro remédio se metiam pelas casas e se escondiam por debaixo das camas (…). É certo que não escaparam nem 50 homens dele.

Os números do recontro, entretanto, foram mais modestos. De acordo com a carta enviada no dia seguinte a D. João IV pelo governador das armas do Alentejo, Martim Afonso de Melo, foram apenas 300 os soldados inimigos que conseguiram penetrar na praça, dos quais 154 foram mortos e 35 feridos e capturados, entre os quais 3 capitães. Quanto aos portugueses, sofreram menos de 20 baixas, mas entre estas contaram-se o mestre de campo D. António Ortiz, morto, e o governador militar da vila, D. João de Meneses, gravemente ferido. As fontes, entretanto, concordam que Cosmander bateu-se até ao fim com bravura: tendo falhado o primeiro petardo que colocara na porta, voltou atrás, indiferente ao perigo, de modo a colocar um segundo engenho, ação que lhe foi fatal.

Embora em termos de historiografia Cosmander tenha sido rotulado como um traidor, Vítor Serrão pondera que “(...) as dramáticas vicissitudes da sua morte (…) não invalidam o grau de novidade construtiva das empresas militares que gizou e que profundamente alteraram em eficácia e em fisionomia o carácter das linhas defensivas portuguesas”. (SERRÃO, Vítor. "História da Arte em Portugal – O Barroco". Barcarena: Editorial Presença, 2003.)

Bibliografia

COELHO, P. M. Laranjo. "Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV (vol. I)". Lisboa: Academia Portuguesa da História, 1940.

NUNES, António Lopes Pires. Dicionário de Arquitetura Militar. Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2005. 264p. il. ISBN 972-8801-94-7

VALLA, Margarida. "O papel dos arquitectos e engenheiros militares na transmissão das formas urbanas portuguesas". Comunicação apresentada no IV Congresso Luso-Afro-Brasileiro, Rio de Janeiro, 1996.

Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Lisboa: Arquivo Histórico Militar, 1952 (1ª divisão, 2ª secção, caixa 3, nº 2), pp. 179-185.

Contribution

Updated at 11/08/2016 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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