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Alcantarilha Castle

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O “Castelo de Alcantarilha” localiza-se na freguesia de União das Freguesias de Alcantarilha e Pera, concelho de Silves, distrito de Faro, em Portugal.

Fortificação pouco conhecida, hoje em ruínas, teve como função a defesa das gentes da povoação e arredores dos ataques dos piratas da Barbária

História

Antecedentes

Acredita-se que a primitiva ocupação humana de seu sítio possa remontar a um castro pré-histórico, erguido no período de transição do Neolítico para o Calcolítico, tendo sido frequentado por navegadores Fenícios, Gregos e Cartagineses.

No contexto da invasão romana da Península Ibérica o local foi conquistado aos Cónios em 198 a.C., quando se terá constituído em acampamento ou base militar de ocupação, servida pelo vizinho porto de Armação de Pera.

No período de ocupação muçulmana da Península, localizava-se estrategicamente na estrada que comunicava Faro e Silves, as duas capitais islâmicas do Reino do Algarve. Nesta etapa, a povoação conheceu grande desenvolvimento em função da ponte que lhe terá dado o nome – “al-qantarâ” -, datando a sua primitiva muralha defensiva do século XII.

Da fortificação medieval à quinhentista

No contexto da Reconquista cristã da região, sob o reinado de Afonso III de Portugal (1248-1279), a povoação foi tomada aos Muçulmanos por forças sob o comando do Mestre da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia. Embora se afirme que este soberano terá mandado recuperar a antiga defesa islâmica, ao longo da Idade Média e início da Idade Moderna pouco conhecemos acerca de Alcantarilha, exceto alguns fatos relacionados com a defesa da costa do Algarve e das escassas descrições da povoação, a partir do século XVI.

A mais antiga descrição conhecida de Alcantarilha data do reinado de Sebastião I de Portugal (1557-1578) acerca da viagem que empreendeu ao Algarve em 1573, por João Cascão, cronista que então acompanhou o soberano. Este monarca, que em 1571 tinha ordenado a conclusão das muralhas de Alcantarilha – obras iniciadas, segundo se crê, sob o reinado de João III de Portugal (1521-1557) -, visitou a localidade em 1573, conforme registado pelo cronista:

"4.ª feira, 28 de janeiro, partiu El-Rei de Silves às 6 horas para vila de Albufeira, que são três léguas de jornada, passou pela Alcantarilha, aldeia de 150 vizinhos, que ora se cerca de muros em toda a roda, e com baluartes em lugares convenientes, por ser perto da costa. Fora deste lugar recebeu-o o Juiz com 7 ou 8 a cavalo, com suas lanças e adargas, e uma bandeira de Ordenança, de 250 soldados. Entrou El-Rei pela principal rua da aldeia que, de uma banda a outra, estava cheia de gente, e às janelas algumas moças bem-parecidas.

O Senhor D. Duarte e o duque de Aveiro, vieram ambos todo o caminho sem El-Rei, e andaram na Alcantarilha, vendo o novo edifício.
" (CASCÃO, João. Relação da Jornada de El-Rei D. Sebastião (...) 1573. In "Uma Jornada ao Alentejo e Algarve". Lisboa, 1984, p. 111.)

Ainda à época, Frei João de São José testemunhou:

"Esta vila se começou a cercar agora em nossos dias, por ocasião de uma saída que fizeram os mouros na costa do mar que perto está, o ano do Senhor de 1550, em que a saquearam com alguns lugarinhos que não longe dela estão." (SÃO JOSÉ, Frei João de. Corografia do Reino do Algarve, 1577. In: "Duas Descrições do Algarve do Século XVI", 1983, p. 46.)

Embora em nossos dias se coloque em causa a data de 1550 referida pelo religioso para o ataque, contrapropondo-se a mais provável, de 1559, quando está documentado o saque de Alcantarilha e dos lugares vizinhos pelos mouros (ANTT/CC/I/103/103), depreende-se que as obras à época da publicação, ainda não estavam adiantadas.

Posteriormente, no contexto da União Ibérica (1580-1640), Henrique Fernandes Serrão confirma-o:

"O lugar de Alcantarilha (...) é de duzentos moradores, foi mandado cercar de muros, tem um pedaço cercado da parte do mar." (SERRÃO, Henrique. História do Reino Algarve, c. 1600. In: "Duas Descrições do Algarve do Século XVI", 1983, pp. 157-158.)

Ainda no mesmo período, a "Descripção" de Alexandre Massai (1621) registou:

"RELAÇÃO, E, TRAÇA, DO, LVGAR, DE, ALCANTARILHA

Este lugar está no meio de dois vales que em cada qual deles no Inverno corre água doce e o lugar está no alto (...) e perto da costa do mar meia légua (...).

Mandou El Rei Dom Sebastião que está em glória se cercasse este lugar de muros no ano de 1571. E da parte do mar está feito parte dele. Me veio à mão a traça e tudo me consta por ela, e por uma ordem que eu tenho em meu poder, que o dito senhor mandou que nas obras das fortificações do dito Reino do Algarve (...) se proceda conforme à dita ordem que são uns apontamentos feitos na vila de Sintra aos 29 de Agosto da sobredita era, os quais são assinados por Marim Gonçalves da Câmara e Afonso Álvares. E o treslado do sobredito capítulo, de verbo a verbo, é o seguinte:

‘Nas obras de Alcantarilha se deve de acabar de alevantar de pedra e cal os pedaços dos muros que estão começados e galgá-los na altura que tem o baluarte que está feito. E as mais obras se devem fazer de terra e faxina como vai ordenada. E deve-se aceitar a ajuda que o povo quer dar, porque a promessa que de antes fizeram não a puderam cumprir e por esta causa cessou a obra.’

E o treslado da traça do sobredito cerco é o que no fim desta se segue que eu tenho tresladada da original que em meu poder tenho, a qual está assinada pelo dito Martim Gonçalves da Câmara.

Outro capítulo sobre o mesmo lugar, o qual é feito em 17 de Julho de 1571, que o fez o escrivão Fernão Nunes da Costa e o assinou o dito Martim Gonçalves da Câmara, cujo treslado é o seguinte:

‘A fortificação do lugar de Alcantarilha

Manda Sua Alteza que se acabe o que está por fazer de terra e faxina, com sua cava ao redor, a qual fortificação se fará pela ordem declarada (...).’

A mim parece por certo o sobredito lugar digno e merecedor de se lhe acabar o sobredito cerco, porquanto junto dele está o outro lugar acima dito de Pêra, que ambos eles estão arriscados a um assalto e cativeiro que Deus não permita, assim como eu na Relação da Vila de Loulé adverti a Vossa Senhoria que por brevidade o não torno a replicar, e também pela segurança das armações deste lugar juntas que são Pêra e Pedra da Galé, onde na costa está a família destes armadores, como Vossa Senhoria deve saber" [Planta do lugar de Alcantarilha]
(GUEDES, Lívio da Costa. Aspectos do Reino do Algarve nos séculos XVI e XVII: a descripção de Alexandre Massaii (1621), Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1988, pp. 118-119.)

Da Restauração aos nossos dias

Embora por vezes se afirme que, no contexto da Guerra da Restauração (1640-1668), as suas defesas foram modernizadas e adaptadas aos tiros da artilharia, em meados do século XVII o padre Luís Cardoso apenas registou acerca da povoação e suas defesas:

"Teve algum dia princípio de muros e alguns se acham já arruinados: ficam estes voltados ao mar e só pela parte dele teve Castelo, o qual hoje se acha sem guarnição de armas, nem reparo algum que o faça defensável." (CARDOSO, Luís (Pe.). Dicionário Geográfico, 1747, Tomo I, p. 164)

Do mesmo modo, embora também se afirme que as suas defesas sofreram danos quando do terramoto de 1 de novembro de 1755, as “Memórias Paroquiais”, em 1758 apenas registam:

"Teve esta terra princípio de muralhas de que se acham ainda levantadas com suas ruínas, coisa de oitenta braças, que cercam este lugar uma décima parte. Nunca foi praça de armas, nem há torre no seu distrito." (Op. cit.)

Em meados do século XIX, Silva Lopes, da Real Academia das Sciencias de Lisboa, acerca de Alcantarilha registou:

"(…) Tem hum castello antigo, e ainda se descobrem muros que a cercavão; os quais forão construidos em 1550, para se pôr a coberto das incursões dos Mouros que por esses tempos infestavão as costas do Algarve. O arco, ou porta, chamada da villa, junto ao castello, por onde se entrava para dentro da povoação, que olha para S.E, foi demolida para metter a pedra na ponte." (SILVA LOPES, João Baptista. Corografia: ou, Memoria economica, estadistica, e topografica do Reino do Algarve. 1841. p. 289)

A ponte referida no texto é a chamada ponte da Marinhas, de um arco, a oeste, perto da Quinta da Cruz.

O castelo chegou a 1948 em relativo estado de conservação. A partir de então, ao longo das últimas décadas, a evolução da malha urbana sacrificou extensos troços das muralhas, e descaracterizou a fisionomia do espaço intramuros, transformando este monumento em ruínas.

As suas ruínas encontram-se classificadas como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 129/77, publicado no Diário da República, I Série, n.º 226, de 29 de setembro.

Em nossos dias os vestígios do antigo castelo seguem a aguardar um projeto de investigação arqueológica que permita encaminhar questões como as da sua primitiva ocupação, a sua real inserção no contexto islâmico regional, a sua transição para a esfera cristã, o seu abandono e outras.

Características

Exemplar de arquitetura militar, medieval e moderna, de enquadramento urbano. Embora alguns autores tenham colocado a hipótese do castelo de Alcantarilha ter uma origem islâmico-medieval com base em certos aspetos do aparelho construtivo e noutros pormenores, estes são pouco consistentes para qualquer conclusão nesse sentido.

Do chamado castelo ou muralhas de Alcantarilha restam atualmente pequenos troços, dos quais o mais notório é um pano de muralha situado entre a Travessa do Castelo e o Largo General Humberto Delgado, adossado a noroeste e a sudeste a edifícios de características vernaculares com piso térreo e telhado de duas águas. Este pano de muralha é curvo com cerca de 12 metros de cumprimento e 4,5 metros de altura, em alvenaria de pedra miúda calcária argamassada com argila, irregularmente disposta, caracterizado por cunhal em calcário a sudeste, disposto em isódomo. Nele se rasga porta simples a sudeste da principal, de cantaria de verga curva com portão em ferro e pequena janela quadrangular a noroeste, a c. de 4 metros de altura. A parte superior desses muros são abertos por seteiras e ameias, originalmente em associação a um caminho de ronda também ele desaparecido.

Até ao momento não foi possível estabelecer a sua cronologia exata, embora não apresente quaisquer semelhanças com os castelos de taipa que marcam a última fase de ocupação islâmica da província.

Outro troço de muralha manteve-se do lado leste da rua do Lagar, com parte de um torreão integrado numa casa particular.

Na rua de Nossa Senhora do Carmo conserva-se um canto de baluarte, com o seu cunhal em pedra calcária.

Outras partes das muralhas devem estar integradas desde há muito em edifícios e permanece ignorada a sua localização.




  • Alcantarilha Castle


  • Fence





  • Portugal


  • Conserved Ruins

  • National Protection
    As suas ruínas encontram-se classificadas como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 129/77, publicado no Diário da República, I Série, n.º 226, de 29 de setembro.





  • Tourist-cultural Center

  • ,00 m2

  • Continent : Europe
    Country : Portugal
    State/Province: Faro
    City: Silves



  • Lat: 37 -8' 17''N | Lon: 8 20' 45''W














Contribution

Updated at 31/07/2020 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.

Contributions with medias: Carlos Luís M. C. da Cruz (1).