Mosteiro de Leça do Balio

Matosinhos, Porto - Portugal

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O "Mosteiro de Leça do Balio", onde se inscreve a Igreja de Santa Maria de Leça do Balio, localiza-se na povoação e freguesia de mesmo nome, no concelho de Matosinhos, distrito do Porto, em Portugal.

Vizinho à foz do rio Leça, ao norte da cidade do Porto, de passado ligado a uma ordem monástico-militar, trata-se de um dos mais significativos exemplares de arquitetura religiosa fortificada no país.

História

Antecedentes

Acredita-se que remonte a um convento misto, de frades e freiras, sujeitos à regra de São Bento, denominado Convento do Salvador, fundado por antepassados de D. Tructesindo Osores em meados do século X, tendo transitado o direito de padroado para D.ª Unisco Mendes por morte de seu marido.

Data de 18 de março de 1003 a doação do convento por D.ª Fâmula de Deos Vigília que referiu:

"(...) cuja basílica está fundada no lugar de Recaredi, debaixo do Monte Costodias, território do Porto, junto à corrente do rio Leça e lhe damos a nossa herdade que temos em Recaredi e damos tudo aos Presbyteros, Frades e Freiras perseveraram em vida sancta (...)".

Em 1016 era padroeira do convento D.ª Unisco Mendes que, juntamente com os seus filhos Oseredo e Patrina, o doou ao Mosteiro da Vacariça (1021). Em 1040 foi disputado ao Mosteiro da Vacariça o seu direito sobre o convento, tendo sido confirmada a doação de D.ª Unisco Mendes.

A importância deste convento no panorama religioso da época é patente pela ida do abade Randulfo aos concílios de Coyanza (1055) e de Compostela (1056) como auxiliar de Sisnando, bispo da Diocese do Porto. Nestes concílios foram tomadas medidas para garantir o “ius episcopale” sobre todas as igrejas da respectiva diocese, e para impedir a sua divisão e apropriação dos seus rendimentos pelos proprietários leigos, bem como a sua intervenção na nomeação dos prelados. Este prelado era sobrinho e discípulo do abade Tudeílo, que organizou em torno do Mosteiro de Leça um pequeno agrupamento monástico fiel às tradições regulares ancestrais, pois firmou um pacto monástico com outros abades e procurou desenvolver em torno do convento de Leça o aparecimento de algumas capelas.

Em 1091 foram colocadas relíquias em alguns altares pelo prior D. Guntino, o que permite supor que, por esta altura, o convento terá sofrido obras e a igreja sido renovada. Dois anos mais tarde (1093) o Mosteiro da Vacariça ainda dispunha do convento. Em 1094 Raimundo de Borgonha, conde da Galiza, e sua esposa, D. Urraca, doaram o padroado do Mosteiro da Vacariça à Sé de Coimbra. Tal doação ficou-se a dever à intervenção de Crescónio, bispo da Diocese de Coimbra. Nessa época ainda estavam em uso na península Ibérica os ritos franco-romanos e visigóticos, sendo que Roma e Cluny pretendiam a introdução dos ritos romanos e a normalização dos mesmos em todas as paróquias. O bispo Crescónio desenvolveu uma intensa atividade junto de várias comunidades no sentido de propagar a reforma eclesiástica e litúrgica. Visitou os mosteiros de Arouca e Pendorada, Santo Tirso e Leça, considerados os mais importantes do Condado Portucalense, com total sucesso. Com a falta de rendas, absorvidas pela Diocese de Coimbra, o Convento de Leça entrou em declínio embora D. Guntino, no final do século XI, tenha feito algumas obras de beneficiação.

A condessa D. Teresa doou em 1122 o convento à Ordem de São João de Jerusalém (ou do Hospital), fundada na Terra Santa em 1999, ) do qual foi, segundo alguns autores, o primeiro priorado. No ano seguinte (1123) D. Afonso Henriques, futuro Afonso I de Portugal (1143-1185), deu-lhe carta de couto, separado da cidade do Porto, sendo prior D. Ayres. Nesta época teve início a construção de um mosteiro pelos freires da Ordem que, entretanto, não chegou a ser concluído. Dele subsistem apenas elementos dispersos e um lanço do claustro. Também neste período, durante algum tempo, aqui terá residido D. Afonso I, tendo a sua esposa, a rainha D. Mafalda de Saboia, ordenado algumas obras.

Ainda no século XII tiveram lugar diversos eventos relevantes para a história do mosteiro:

- Em 1157 D. Afonso I e D. Mafalda fizeram doação do couto do mosteiro ao procurador D. Raimundo e ao prior de Portugal e Galiza, D. Ayres, da Ordem do Hospital.

-Em 1166 o couto de Santa Maria de Leça foi confirmado pelo soberano: “Consta do Tombo deste Baliado dar o Senhor Rey Dom Affonso Henriques esta igreja a Dom Raimundo (conde e senhor da Galiza) Provedor dos Santos e pobres da Santa Cidade de Jerusalém e a Dom Ayres Prior de Portugal e Galiza e lhe deo terras e pençoens e lhas coutou no ano de 1166 e lhe deo jurisdiçam Cível e poder de pôr ouvidor que conhecesse de apellaçooens e agravos e alimpasse pautas e confirmasse peno povo na camera destedito Couto de Lessa e assim sam os venerandos Balios senhores donatáríos e capitaens deste Couto."

- A partir de 1180 o mosteiro de Leça foi reedificado, por iniciativa de D. Gualdim Paes de Marecos, e dedicado a Santa Maria.

- Em 1192 Sancho I de Portugal (1185-1211) outorgou a D. Rodrigo Paes, prior da Ordem do Hospital, a carta de confirmação do foral que Afonso I dera a D. Raimundo.

- Entre 1192 e 1211 D. Sancho I mandou reformar e ampliar a Igreja e casa de Santa Maria de Leça

O atual templo

O atual templo remonta a uma vasta campanha construtiva iniciada pelo prior da Ordem, D. Frei Estevão Vasques Pimentel, entre 1330 e 1336 (data de seu falecimento), quando foram renovados ainda os edifícios monacais e o claustro, dos quais vários elementos chegaram até aos nossos dias.

Aqui foi celebrado o matrimónio público de Fernando I de Portugal (1367-1383) com D. Leonor Teles de Meneses (15 de maio de 1372), assim registado pelo cronista:

"Andou el-Rei pelo seu reino folgando, trazendo consigo D. Leonor, até que chegou ao Entre Douro e Minho a um mosteiro que chamam Leça, que é da Ordem do Hospital, e ali determinou el-Rei de a receber de praça. (...) Então a recebeu el-Rei perante todos, e foi notificado pelo reino, como era sua mulher, de que os grandes e os pequenos houveram muito pesar. (...) E dali em diante foi chamada Rainha de Portugal, e beijaram-lhe a mão por mandado del-Rei quantos grandes no reino havia, assim homens como mulheres, recebendo-a por senhora todas as vilas e cidades de seu senhorio (...)." (Fernão Lopes, Crónica de D. Fernando, Cap. LXII)

Durante o beija-mão a D. Leonor, o Infante D. Dinis, filho de Pedro I de Portugal e de D. Inês de Castro, recusou prestar-lhe tal homenagem, tendo D. Fernando levantado um punhal para assassinar o irmão, do que foi impedido por dois fidalgos.

No contexto da crise de sucessão de 1383-1385, aqui esteve o Condestável Nuno Álvares Pereira, no início da jornada que lhe deu a posse do Castelo de Neiva e de outras localidades na região (1385).

O jornalista Arnaldo Gama (1828-1869) descreveu a configuração do mosteiro no segundo quartel do século XIV:

"A forte e grossa muralha da cerca, que o rodeava, toda dentilhada de ameias, era flanqueada por quatro grandes torres cobertas de seteiras [...]. O alcácer fortificado, a que a cerca servia de cinto, era uma lata e fortíssima torre, rodeada de um vasto edifício, ou antes de uma grande aglomeração de edifícios, uns mais altos e outros mais baixos, mas todos solidamente construídos e capazes de duradoura defesa. Do meio deles destacava, meio corpo para a frente, uma pequena igreja gótica, com a porta voltada para o vasto patim do castelo. [...] Sobre frontaria da igreja, e no cimo do muro ponteagudo do campanário gótico [...].

No século XVI, Manuel I de Portugal (1495-1521) concedeu carta de foral a Leça (4 de junho de 1519). A partir de 1530 a Ordem do Hospital passou a designar-se Ordem de Malta.

No início do século XVII o bailio de Leça encontra-se nas mãos dos Távora, que empreendem grande campanha de obras na igreja e no mosteiro.

As vastas prerrogativas do couto de Leça ainda se mantinham em vigor em 3 de dezembro de 1728, uma vez que João V de Portugal (1706-1750) não só as admitiu, como também as confirmou sem qualquer ressalva.

Quando do terramoto de 1 de novembro de 1755, abriu-se uma grande fenda na torre do mosteiro.

No contexto da Guerra Civil portuguesa (1828-1834) o mosteiro foi secularizado com todos os seus bens (1833). No ano seguinte (30 de maio de 1834) registou-se a extinção das Ordens Religiosas no país, sendo a freguesia de Leça integrada no concelho de Bouças (atual Matosinhos) em 1835.

Os terrenos pertencentes ao Couto de Leça, foram anexados à Coroa, sendo posteriormente leiloados a partir de abril de 1835, devido à grave situação económica do País.

A publicação “Portugal Antigo e Moderno”, em 1874 registou: “O edifício do mosteiro é de aparência irregular e mesquinha (pelas suas muitas reconstruções e acrescentos) e não condiz em nada com a vastidão e majestade do templo”.

Encontra-se classificado como Monumento Nacional por Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho.

Até 1934, quando se iniciaram extensas obras de consolidação e restauro, a cargo da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), a igreja encontrava-se abandonada e em progressiva ruína.

A ZEP encontra-se definida por Portaria publicada no Diário do Governo, II Série, n.º 24, de 29 de janeiro de 1958.

O imóvel foi afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) pelo Decreto-lei n.º 106F/92, publicado no Diário da República, I Série A, n.º 126, de 1 de junho.

De 1993 a 1998 o mosteiro foi objeto de obras de recuperação suportadas pela Unicer – Bebidas de Portugal, ao abrigo da Lei do Mecenato.

Características

Exemplar de arquitetura religiosa e militar, nos estilos românico e gótico, de implantação urbana, isolado.

Do mosteiro apenas subsistem alguns vestígios arquitetónicos, e pelo amplo adro, lajeado e ajardinado, distribuem-se várias sepulturas antropomórficas e pedras esculpidas. É flanqueado por construção particular a leste e a sul, e confronta a oeste com um cemitério. Na proximidade, a sul, ergue-se o cruzeiro de Leça do Balio.

A igreja, renovada a partir do início do século XIV, de matriz românica mas transacionada para o gótico, reflete um misto de espírito religioso e militar, com o interior votado a Deus, mas externamente exibindo sólidos muros coroados por ameias e sustentados por contrafortes, destacando-se uma varanda também ameada e com matacães defendendo, como o adarve de um castelo, a porta principal.

Na planta, o modelo mendicante é claro: 3 naves, organizadas em 5 tramos, sendo o último uma espécie de transepto inscrito, marcado apenas na altura; a divisão do espaço é feita através de pilares, de perfil cruciforme pelo adossamento de colunas nas suas 4 faces; a cabeceira é tripartida, com uma capela-mor mais profunda que os absidíolos, e de seção nascente poligonal. A cobertura das naves é em madeira e a cabeceira apresenta abóbada em cruzaria de ogivas. Tanto nas paredes da nave central como das naves laterais abrem-se janelas geminadas. Na fachada sul abre-se um portal de quatro arquivoltas rematadas por um gablete simples, cujos capitéis apresentam ornatos vegetais e animais.

Externamente uma sólida torre de planta quadrada, ameada, ladeia a fachada principal pelo lado sul. Em aparelho de granito, com masmorra no interior, ergue-se a 28 metros de altura e é provida, na parte superior, de matacães (nos ângulos) e coroamento de ameias. Poderia isoladamente, devido à sua grandeza e robustez, ser a torre de menagem de um castelo, apesar do serviço de sineira que lhe foi acrescentado no último piso aberto em janelas ogivais.

Bibliografia

"Igreja de Leça do Balio". Boletim da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais I. Lisboa, 1939.

  • Mosteiro de Leça do Balio

  • Mosteiro de Leça do Bailio

  • Fortified Church

  • 1003 (AC)




  • Portugal


  • Restored and Well Conserved

  • National Protection
    Encontra-se classificado como Monumento Nacional por Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho.
    A ZEP encontra-se definida por Portaria publicada no Diário do Governo, II Série, n.º 24, de 29 de janeiro de 1958.





  • Tourist-cultural Center

  • ,00 m2

  • Continent : Europe
    Country : Portugal
    State/Province: Porto
    City: Matosinhos



  • Lat: 41 -13' 25''N | Lon: 8 37' 25''W







  • Castelo Hospitalário



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