Viseu, Viseu - Portugal
As “Muralhas de Viseu” localizam-se na freguesia de União das Freguesias de Viseu, concelho e distrito de Viseu, em Portugal.
Em posição dominante sobre uma colina na confluência do rio Pavia com o rio Dão (afluente do rio Mondego), a fortificação da cidade remonta ao período da Romanização.
História
Antecedentes: a muralha romana
Acredita-se que a primitiva ocupação humana da área remonte a um castro pré-histórico, alguns autores pretendendo que aqui tenha nascido o líder Lusitano Viriato (180 a.C.-139 a.C.). A área foi conquistada em 137 a.C. pelo cônsul Decius Junius Brutus, vindo o povoado a ganhar expressão quando, no contexto da Romanização, aqui se estabeleceu um entroncamento de estradas romanas, conforme o testemunham os diversos marcos miliários encontrados na região.
Tem sido consensual a atribuição de um primitivo amuralhamento a este período, hipótese confirmada por escavações arqueológicas no atual largo de Santa Cristina. Um troço de muralha, trazido à luz na atual Rua Formosa, data do século I a.C.. Entretanto, a amplitude, dimensão e perímetro da muralha romana continuam desconhecidas. De acordo com VAZ (1997), o perímetro da “civitas”:
"(...) tinha como limite o seguinte percurso actual: Rua da Regueira (lado norte), hoje Rua de João Mendes, Largo Mouzinho de Albuquerque, Rua do Carvalho, por uma linha direita ao Largo da Misericórdia, Rua do Chão do Mestre, Rua de D. Duarte, Largo de Santa Cristina até à Rua da Regueira (lado sul).” (Op. cit.)
Nos finais do século III, diante da ameaça de povos invasores, é possível que o perímetro da muralha tenha-se reduzido, para facilitar a defesa da povoação. Acredita-se datem desse período um troço dessa muralha e um torreão semicircular que foram descobertos em março de 2004 na rua Formosa, quando das obras de requalificação daquela via pedonal. Esses vestígios foram musealizados e estão hoje visíveis através de uma placa de vidro assente ao nível do solo. Foram descobertas ainda, associadas à muralha, três sepulturas de crianças, uma moeda e fragmentos de cerâmica.
A partir do século VI, com o domínio Visigodo, Viseu foi elevada a cidade, tornando-se sede de Diocese, aqui tendo sido cunhada moeda visigótica, no século VII.
No contexto do domínio Muçulmano, a partir do século VIII, a cidade conservou a sua cerca urbana.
O "castelo" medieval
À época da Reconquista cristã da região, a cidade foi conquistada logo em meados do século VIII pelas forças de Afonso I das Astúrias (739-757), que a deixou abandonada, visando evitar que a mesma pudesse vir a servir de apoio a novas investidas muçulmanas.
Reocupada, nos séculos seguintes a posse de “Castro Vesense” ("vesi" = visigodo) oscilou entre muçulmanos e cristãos, aos sabor dos avanços e recuos da linha da fronteira, até ser definitivamente reconquistada em 1057 pelas forças de Fernando I de Leão (1016—1065).
Com a formação do Condado Portucalense, Viseu foi, em diversas ocasiões, residência dos condes, Henrique de Borgonha, conde de Portucale, e sua esposa, Teresa de Leão. Datará desse período a provável edificação das denominadas muralhas medievais, por ordem do conde D. Henrique. Após a sua morte, a sua viúva concedeu o primeiro foral a Viseu (1123).
No contexto da formação da nacionalidade, Afonso I de Portugal (1143-1185) outorgou um novo foral a Viseu, gesto que será repetido em 1187 por Sancho I de Portugal (1185-1211), em cujo diploma se faz referência à "cidade velha", por oposição a um novo núcleo que se expandira demográfica e economicamente. Pouco depois, em 1217, Afonso II de Portugal (1211-1223) confirma o anterior diploma.
Sob o reinado de Fernando I de Portugal (1367-1383), a Carta Régia de 5 de janeiro de 1370 inteira-nos que o castelo de Viseu foi entregue aos moradores, compreendendo-se pela expressão "castelo" o conjunto muralhado que envolvia a primitiva Sé e a parte antiga da cidade. Neste período, no contexto das Guerras Fernandinas (1369-1370,1372-1373 e 1381-1382) a cidade foi atacada por tropas castelhanas nos anos de 1372-1373.
Poucos anos mais tarde, durante a crise de sucessão de 1383-1385, a cidade foi saqueada e incendiada pelas tropas de Juan I de Castela (1385), relatando o cronista:
“Então se fizeram prestes aqueles quatrocentos de cavalo e duzentos ginetes de que era capitão aquele Pêro Soares de Quinhones, e com ele soma de homens de pé e alguns besteiros; e entraram em Portugal e encaminharam por essas aldeias roubando e cativando. E chegaram à cidade de Viseu, que eram vinte e duas léguas de Cidade Rodrigo, donde todos haviam partido. Os moradores do lugar, quando os viram vir, porque a cidade não tem outra cerca nem fortaleza, salvo a Sé, colheram-se a ela; e as igrejas muitos deles.” (Fernão Lopes. Crónica de D. João I)
No mesmo contexto, já sob o reinado de João I de Portugal (1385-1433), a cidade voltou a ser assaltada por forças castelhanas em 1396 e em 1398, até que a paz foi estabelecida em definitivo pelo Tratado de Ayllón (1411).
À época, na sequência da conquista de Ceuta (1415), os domínios de Viseu foram doados no mesmo ano ao Infante D. Henrique, na ocasião elevados à condição de ducado, recebendo o Infante a alcaidaria da cidade. Diante dos sucessivos assaltos e saques sofridos no final do século XIV, os representantes de Viseu nas Cortes pediram ao soberano a construção de uma muralha (1412). Nesse mesmo reinado encontravam-se em progresso trabalhos de ampliação da cerca defensiva.
Mais tarde, durante a regência do Infante D. Pedro, os representantes de Viseu pediram em Cortes (1439), o acabamento das muralhas.
Sob o reinado de Afonso V (1438-1481) o pedido foi uma vez mais formulado em Cortes (1465). A inscrição epigráfica na Porta do Soar, datada de 1472, informa que D. Afonso V mandou cercar a nobre cidade de Viseu, reunindo as duas antigas muralhas. No ano seguinte (1473) uma Ordem Régia determina que cessem as obras do Mosteiro (do Couto do Mosteiro de Arouca) e que os lavradores, obrigados a elas, se transfiram para Viseu, para a feitura da muralha com meia serventia. Pouco mais tarde, em 1481 era "tratador do muro" Diogo Afonso. As obras das muralhas terão terminado, possuindo sete portas: a do Soar ou de São Francisco, a da Senhora das Angústias (Traição), a dos Cavaleiros ou do Arco, a de São Sebastião, a de São Miguel, a do Senhor Crucificado e a de São José.
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), a cidade recebeu o Foral Novo (1513), época em que se iniciou a expansão da malha urbana para o chamado “Rossio”.
Embora não haja elementos que permitam compreender adequadamente as etapas de destruição das muralhas de Viseu estas iniciaram-se a partir do século XVI com a demolição de parte das primitivas muralhas romanas, devido a obras de ampliação do antigo Paço Episcopal.
As portas da cidade foram cerradas pela última vez, devido a uma peste, em 21 de julho de 1577.
Da Guerra da Restauração aos nossos dias
No contexto da Guerra de Restauração da Independência (1640-1668) registaram-se alguns trabalhos de construção, como o atesta a inscrição epigráfica na Porta dos Cavaleiros, datada de 1646, e a arrematação de umas Armas Reais para a Porta do Soar, a qual andava a ser reconstruída, pelo mestre Pedro de Almeida, por 6$000 reis (19 de abril de 1653).
Mais tarde nesse século foi aberta uma janela na muralha pelo imaginário António Pereira, o qual se comprometeu a tapá-la em caso de guerra (1686).
Em meados do século XVIII procedeu-se a remoção da imagem de Nossa Senhora dos Remédios do nicho interior do Arco do Soar (1743).
No dia 7 de dezembro de 1814 a Câmara Municipal mandou demolir as diversas portas da muralha. António e Teotónio Francisco, os dois pedreiros responsáveis pela obra, resolveram manter as subsistentes, que "até aformoseiam a cidade".
Em meados do século XIX foi erguido o edifício da Câmara Municipal (1844), confirmando a transferência do centro da cidade, anteriormente na parte alta, para o Rossio.
O conjunto da “Muralha e Portas antigas de Viseu / Cerca Urbana de Viseu” encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 2.165, publicado no Diário do Governo, I Série, n.º 265, de 31 de dezembro de 1915.
O conjunto encontra-se afeto à Câmara Municipal de Viseu por Auto de Cessão de 12 de outubro de 1940.
Um cubelo medieval ao sul do largo da Misericórdia foi trazido à luz em 1944. Em 1952 tiveram lugar trabalhos de demolição de muros e de desaterro na rua Maximiano de Aragão, que puseram a descoberto parte do troço das muralhas da cidade. Mais tarde, em 1970, cinco prédios foram expropriados e demolidos, para desobstrução daquele troço da muralha. Em 1997 registou-se a demolição de parte da muralha, na zona de Soar de Cima.
De 1999 a 2000 tiveram lugar trabalhos de intervenção arqueológica no Largo de Santa Cristina, pondo a descoberto a primitiva muralha romana. A escavação inscreveu-se no projecto de construção de um parque de estacionamento no local, quando alguns troços dessa muralha foram identificados, sendo necessário limpar e transportar as pedras, por não ser viável a sua conservação "in situ". Os responsáveis pensaram, então, preservar a memória da muralha, utilizando uma marcação no pavimento onde ela se inscrevera.
Em 2005, durante uma prospecção arqueológica na Rua Formosa foram postas a descoberto um troço das antigas muralhas romanas. Durante estes trabalhos, em 2006 foram recuperadas moedas e cerâmica romanas dos séculos I e II, assim como alguns esqueletos. Procedeu-se então à musealização desse troço, com a colocação de vidro para visualizar a estrutura, com a colocação de equipamento de controlo de arejamento, temperatura, humidade e iluminação do espaço.
Características
Exemplar de arquitetura militar, quatrocentista, de enquadramento urbano. A muralha implanta-se a meia encosta, destacada ou parcialmente integrada em construções civis. Os vários troços inserem-se em malha urbana ou em zona de cultivo.
A muralha apresentava planta ovalada de traçado irregular, cujo perímetro hoje é passível de definição pelos vestígios subjacentes na disposição da malha urbana. O seu topo era desprovido de merlões e era servida por escadas de acesso ao caminho de ronda, como por exemplo no troço junto à Porta do Postigo. Era rasgada primitivamente por sete portas, de que subsistem duas e vestígios de outras duas.
A oeste, adossada à Casa Senhorial, situa-se a antiga porta de São Francisco, Porta de Soar ou Arco dos Melos, em arco apontado e encimada por lápide epigrafada que data a construção do reinado de D. Afonso V e um brasão com as Armas de Portugal, tendo, no seu alçado posterior, arco abatido e pequeno nicho com uma imagem de seu santo tutelar, São Francisco. Esta porta assinalava o principal eixo de circulação da antiga cidade. A importância e o prestígio deste local fez com que, anexa à porta, séculos mais tarde, se construísse uma das mais interessantes casas civis barrocas de Viseu, o Solar dos Melos, cujo impacto urbanístico e simbólico levou mesmo a que a velha Porta do Soar passasse a ser conhecida como Arco dos Melos.
As muralhas prolongam-se para ambos os lados, estendendo-se o pano esquerdo para a Rua Silva Gaio, aproveitando grandes afloramentos graníticos, moldando-se a eles, e o direito para a Rua Almeida Moreira, onde é visível o pequeno troço muralhado com ameias e gárgulas de cano. Segue-se pela referida Rua Almeida Moreira em direcção à Rua Formosa onde inflecte para a Rua Direita. Cortava depois em direcção à Rua da Árvore onde são visíveis ainda os arranques dos arcos da Porta do Senhor Crucificado, no terreiro de Santa Cristina e um troço de muralha, sobre o qual se encontra apoiado um antigo solar, presumivelmente do século XVII. Em seguida, continuava pelo Quintal da Prebenda e a Rua do Gonçalinho, seguindo até ao Largo Mouzinho de Albuquerque e à Porta dos Cavaleiros ou do Arco, voltada a leste. Esta, de arco apontado, encontra-se sobrepujada por lápide epigráfica de 1646, com nicho com a imagem de São Sebastião e, superiormente, no ângulo da cortina com a muralha, outro nicho com três lados vazados, formando arcos de volta perfeita, assentes em quatro colunas toscanas sobre alto plinto, possuindo baldaquino em coruchéu, rematado por pináculo, com a imagem de Nossa Senhora. Sob este ângulo e já no pano da muralha, um arco de volta perfeita aberto na espessura da mesma, que deve ter sido fonte de charco ou chafurda. Do lado interior, arco abatido e pano da muralha que, interrompido pela rua, continua para a Rua dos Loureiros subindo o monte. No cruzamento desta com a Calçada de São Mateus, são visíveis os vestígios da Porta da Senhora do Postigo ou da Senhora das Angústias, estrutura que tem acoplada as escadas que conduziam à barbacã defensiva. Continuava subindo, passando o cimo da Rua do Viriato e prosseguindo pela Rua Silva Gaio, onde são visíveis os maiores troços da muralha, ligando-se de novo à Porta do Soar.
Das primitivas torres, quase nada se conserva.
A lenda de D. Ramiro
O brasão de armas da cidade de Viseu evoca uma antiga lenda segundo a qual aqui teria vivido D. Ramiro II, um rei cristão que, em viagem por outras terras, conheceu a moura Sara, irmã de Alboazar, emir do Castelo de Gaia. Completamente apaixonado pela beleza da moura, raptou-a para si. Ao ser informado do rapto de sua irmã, Alboazar por sua vez raptou a esposa de D. Ramiro, D. Urraca.
Ferido em seus brios, D. Ramiro recrutou em Viseu alguns bons guerreiros para o secundar na empreitada de penetrar dissimuladamente no castelo de Alboazar, enquanto estes o aguardavam nas vizinhanças. Desse modo, aguardou um momento em que Alboazar se ausentou à caça, logrando penetrar no castelo, onde encontrou D. Urraca. Esta, ciente da traição do marido, não só se recusou a acompanhá-lo como, decidida a vingar-se do marido infiel, tendo Alboazar regressado da caça, denunciou-o ao seu raptor. Assim capturado, D. Ramiro foi sentenciado à morte. No dia e hora aprazados para a execução, o condenado pediu, como último desejo, para tocar a sua buzina. Era este o sinal combinado com os seus homens para atacarem o castelo. Ao completar o sexto toque, os homens de Viseu cercaram o castelo, incendiando-o e matando Alboazar.
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