
O "Castelo da Sertã" localiza-se na freguesia e concelho da Sertã, distrito de Castelo Branco, em Portugal.
Situa-se numa elevação entre duas ribeiras: a leste, a ribeira da Sertã, também conhecida localmente como ribeira Grande, e a oeste, a ribeira de Amioso, também conhecida como ribeira Pequena.
História
Antecedentes
A primitiva ocupação humana da região remonta à pré-História, conforme o testemunham diversos monumentos megalíticos na região.
No período da Romanização aqui terá existido uma povoação, cujos vestígios foram descobertos recentemente na parte nova da vila. Acredita-se que a toponímia “Sertã” remonte ao latim “sertago”, um tipo de frigideira larga.
Embora uma lenda local afirme que o castelo tenha sido edificado à época da conquista romana da região pelo general Sertório em 74 a.C., as escavações arqueológicas realizadas em nossos dias apontam que a ocupação inicial de seu sítio remontará apenas ao período islâmico, entre os séculos X e XI.
O castelo medieval
Com a Reconquista cristã da região, ela passou a integrar os domínios do Condado Portucalense. Segundo algumas fontes, nomeadamente Raphael Bluteau, (BLUTEAU, Raphael (1712-1728). Vocabulario Portuguez e Latino, 10 volumes. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus) Juan Antonio de Estrada, (ESTRADA, Juan Antonio de (1768). Poblacion General de España, sus Reynos y Provincias, Ciidades, Villas y Pueblos, Islas Adyacentes y Presidios de Africa, Tomo Segundo, Nueva Impression Corregida. Madrid: Imprenta de Andres Ramirez, p. 436) Carreira de Melo, (MELLO, Joaquim Lopes Carreira (1835). Compendio da Historia de Portugal - Desde os primeiros povoadores até aos nossos dias. Lisboa: Typographia de Castro & Irmão, p. 25) Frei António Brandão, (BRANDÃO, Frei António (1630). Monarquia Lusitana, 3.ª parte.) Miguel Leitão de Andrada (ANDRADA, Miguel Leitão de (1629). Miscellanea (cf. 2.ª edição de 1867, fac-similada e republicada em 1993 pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa)) e Jacinto Manso de Lima, (LIMA, Jacinto Leitão Manso (1730). Certan Ennobrecida ou Descripçam Topographica da Villa da Certan.), o conde D. Henrique de Borgonha (1095-1112) teria ordenado a reedificação da vila e castelo a 9 de maio de 1111. Esta informação será possivelmente um erro, fruto de confusão com a vila de Sátão que, efetivamente recebeu uma carta de aforamento assinada pelo conde D. Henrique naquela data. (FARINHA, Pe. António Lourenço (1930). A Sertã e o seu Concelho. Lisboa: Escola Tipográfica das Oficinas de S. José. Edições fac-similadas publicadas pela Câmara Municipal da Sertã em 1983 e 1998.)
No contexto da formação da nacionalidade, Afonso I de Portugal (1143-1185) doou à Ordem do Templo, os domínios limitados pelo rio Tejo e pelo rio Zêzere. A posse da Sertã pela Ordem demorou apenas entre 1165 e 1174, já que nesse último ano o soberano transferiu-a para a Ordem de São João de Jerusalém (ou do Hospital, depois do Crato em Portugal). (MENESES, Frei Cláudio de (1791), Relatório do Almoxarifado da Sertã. Observe-se que a data de doação aos Hospitalários é nesta fonte indicada como 1212. Ela corresponde, entretanto, à Era de César e não à de Cristo)
No contexto da crise de sucessão de 1383-1385 a Sertã e seu castelo tomaram partido pelo mestre de Avis. (SYLVA, José Soares (1732). Memorias para historia de Portugal, que comprehendem o governo del rey D. João o I, Tomo III. Lisboa.)
Sob o reinado de Afonso V de Portugal (1438-1481), a povoação terá recebido carta de foral (1455). Manuel I de Portugal (1495-1521) outorgou-lhe o Foral Novo (20 de outubro de 1513). Observe-se, entretanto, que este diploma refere que foi outorgado “(…) em razão de não aparecerem os antigos”, o que pode sugerir uma outra carta de foral desaparecida (FARINHA, 1930), a de 1455.
Da Dinastia Filipina aos nossos dias
No contexto da Dinastia Filipina (1580-1640), iconografia de 1618 testemunha que o castelo se conservava integralmente.
A mais antiga referência bibliográfica ao castelo é de Miguel Leitão de Andrada, na forma de uma lenda muito adulterada. (ANDRADA, 1629.)
Posteriormente, no contexto da Guerra da Restauração da Independência (1640-1668), os moradores da Sertã, através dos seus procuradores, pediram ao soberano nas Cortes para reparar o antigo castelo (1642). O mesmo pedido foi refeito em 1653. Nenhum deles teve sucesso.
Em 1655 a vila passou para a Casa do Infantado, que assimilou os rendimentos do Grão-Mestrado da antiga Ordem do Crato. (FARINHA, 1930.)
Data de 1730 a notícia de ruína em certas zonas do castelo. Mais tarde, no mesmo século, as “Memórias Paroquiais” (1758) dão conta que dois troços da muralha se encontravam completamente demolidos. Em 1791 subsistiam apenas vestígios da torre e da fortificação.
O castelo encontra-se referenciado na publicação inglesa "Handbook for Travellers in Portugal" como "extremely picturesque" ("extremamente pitoresco"). (Handbook for Travellers in Portugal (2nd. ed.). London: John Murray, 1850. p. 125.)
Em 1860 o castelo encontrava-se praticamente demolido.
O castelo chegou à década de 1930 em avançado estado de degradação. Em algum momento anterior, parte das cantarias das suas muralhas foram utilizados no conserto da ponte da vila. Em 1936, por meio de uma subscrição popular, foi reconstruída uma das suas torres, assim como a Capela de São João Baptista, que se lhe encontra anexa.
Entre 1996 e 1998 a Câmara Municipal procedeu a escavações arqueológicas no recinto do castelo, que trouxeram à luz os alicerces de um celeiro (utilizado pelo Almoxarifado da Sertã para guardar os cereais), de uma antiga capela (anterior à atual), de uma calçada em uso nos séculos XV/XVI e, nas camadas estratigráficas mais profundas, de fragmentos de cerâmica muçulmana.
Em 1998, a 8 de setembro foi aberto o processo de classificação. Entretanto, até ao final de 2015 o património representado pelo antigo castelo não se encontra abrangido por qualquer tipo de proteção nacional.
Entre 1998 e 1999 foram procedidas obras de reedificação das muralhas do castelo pela Câmara Municipal que, entretanto, informava que as mesmas estavam a ser acompanhadas pelo IPPAR. Procedeu-se ainda à consolidação estrutural e reformulação do interior, com a construção de um anfiteatro no topo sul.
Características
Exemplar de arquitetura militar, em estilo gótico, de enquadramento urbano, num outeiro no interior da povoação. No seu interior ergue-se a Igreja de São João Baptista.
Apresentava planta irregular, orgânica (adaptada ao terreno), com muralhas em aparelho de xisto argamassado. Castelo de cinco quinas apresenta as muralhas norte e oeste livres de quaisquer edificações, encontrando-se as fachadas leste e sul com construções adossadas.
O acesso ao seu interior é feito por um caminho ladeado por duas habitações e limitado o castelo por um portão em ferro. Em alguns locais encontram-se vestígios do primitivo piso, com pedra xistosa e em blocos de barro. Podem observar-se ainda os vestígios de uma torre de planta quadrangular, à qual se adossa a Igreja de São João Baptista, de nave única, capela-mor mais estreita e cobertura de duas águas. A fachada principal do templo apresenta portal de volta perfeita, assente em impostas salientes, com moldura de cantaria. Sobre este, janela com o mesmo perfil. O remate é em empena e cornija. As fachadas laterais são cegas, com remate em cornija. O alçado lateral direito possui campanário de volta perfeita no volume da capela-mor.
A lenda da Sertã
De acordo com uma lenda local, a origem de seu castelo deve-se a Quinto Sertório, um militar romano que, exilado, estabeleceu-se na Península Ibérica por volta de 80 a.C., onde se aliou à resistência dos Lusitanos, que chegou a comandar. Traído por Perpena, um lugar-tenente a soldo de Roma, que o assassinou durante um banquete, abriu-se uma nova fase que culminou com a Romanização da Península.
Nas lutas que recrudesceram nesta conjuntura, diante da aproximação das tropas romanas que vinham impor cerco a esta fortificação, o chefe desta veio a perecer em combate. Ciente da notícia, a sua esposa, Celinda, subiu ao alto dos muros da povoação e liderou a defesa, lançando azeite fervente sobre os romanos com a grande frigideira com que fritava ovos no dia-a-dia ("sertage"). Esta corajosa ação permitiu ganhar tempo para que chegassem reforços dos lugares vizinhos, obrigando ao recuo dos romanos, ficando daí em diante o lugar conhecido como Certã, posteriormente Sertã. A lenda encontra-se perpetuada no brasão de armas da vila, onde se lê: "Sartago Sternit Sartagine Hostes". (FARINHA, 1930.)
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