
A chamada “Fortaleza de Segura”, conjunto defensivo constituído pelo antigo castelo e pelas muralhas abaluartadas seiscentistas, localiza-se na freguesia de União das Freguesias de Zebreira e Segura, concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, em Portugal.
Povoação raiana à margem direita do rio Erges, aqui subsiste uma antiga ponte romana, erguida no século II sob o governo de Trajano, que fazia parte da estrada romana que ligava Mérida, na atual Espanha, à antiga “Egitânia”, atual Idanha-a-Velha, em Portugal.
História
Antecedentes
As origens da fortificação raiana de Segura são obscuras, acreditando-se remonte a uma primitiva fortificação romana.
O povoamento efetivo que conduziu ao desenvolvimento da atual povoação apenas é referido documentalmente entre 1214 e 1223, tendo a região transitado definitivamente para a Coroa de Portugal apenas em 1282.
O castelo medieval
A primeira referência sobre o castelo data do reinado de Dinis I de Portugal (1279-1325), quando, em 20 de agosto de 1299, o soberano isentou os moradores de Segura dos impostos devidos a Salvaterra do Extremo, com a condição de estes construírem um castelo no espaço de dois anos.
Em 1307 o bispo D. Vasco Martins de Alvelos, da diocese de Idanha-a-Velha, contestou o poder da Ordem do Templo sobre a povoação, afirmando que a mesma fora doada por Sancho II de Portugal (1223-1248) ao bispo D. Vicente. Com a extinção da Ordem, os seus bens passaram a pertencer à Coroa de Portugal, transferidos, em 1319, para a recém-criada Ordem de Cristo. Neste contexto, Segura e o seu castelo passaram a ser uma comenda dependente da de Castelo Branco.
Sob o reinado de Fernando I de Portugal (1367-1383), o soberano doou os dom&iac
ute;nios da vila e seu castelo ao comendador de Idanha, Frei Nuno Martins (18 de maio de 1376), que dele fez menagem.
No século XV iniciou-se a edificação de uma barbacã, defesa que se articulava com um fosso.
Para assegurar o seu povoamento, João I de Portugal (1385-1433) concedeu à povoação carta de couto de homiziados (24 de fevereiro de 1421).
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521) o Tombo da Comenda de Segura descreve a fortificação como tendo “(…) uma cava que o cerca quási todo ao redor, e além dela tem logo uma barbacã com dois cubelos pequenos, bem ameados e com suas seteiras e bombardeiras bem repairada. E tem logo uum muro de cantaria forte, e bem ameado, e um portal de pedraria com suas portas fortes, e bem fechado, e sôbre êle uma guarita nova de pedraria". A leste, a torre de menagem tinha escadaria de pedra e dois andares, o segundo com cobertura abobadada, encimada por terreiro; encostadas às muralhas, existiam várias casas dos comendadores; ocorrera a construção da Torre dos Gatos, em cantaria, a proteger a muralha, e da da Torre da Farinha, em cantaria e cal, madeirada no interior e com cobertura em telha vã. Estava artilhada com bombarda, serpentia, trom, espingardão e 4 espingardas. (Op. cit., 28 out 1505).
No mesmo período a povoação e seu castelo encontram-se figuradas por Duarte de Armas no “Livro das Fortalezas” (c. 1509). A povoação recebeu do soberano carta de foral (1 de junho de 1510), quando passou a sede de concelho, posição que desfrutou até 1836, quando foi anexada ao município de Salvaterra do Extremo.
Da Guerra da Restauração aos nossos dias
No contexto da Guerra da Restauração da independência portuguesa (1640-1656) a povoação e sua fortificação readquiriram importância estratégica sobre a fronteira da Beira Baixa. Por essa razão, as suas defesas foram reformuladas, sendo a vila dotada de uma muralha envolvente, abaluartada. O castelo foi também objeto de obras, embora não se conheçam, hoje, as suas características principais, à exceção dos vestígios de três baluartes associados à antiga barbacã.
No contexto da Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714) Portugal foi invadido por tropas franco-espanholas sob o comando do Marechal de França, James Fitz-James, 1.º duque de Berwick, nos princípios de maio de 1704, sendo ocupadas sucessivamente Salvaterra do Extremo, Segura, Zebreira, Monsanto, Idanha-a-Nova e Castelo Branco.
A reação teve lugar no ano seguinte (1705), quando forças portuguesas, sob o comando do comandante militar da Beira, D. António Luís de Sousa, 4.º conde do Prado e 2.º marquês das Minas, reforçadas por tropas do Minho e Trás-os-Montes, marcharam de Almeida sobre a linha do Tejo, batendo e cortando o corpo do exército invasor que ocupava a Beira Baixa e recuperando sucessivamente Segura, Idanha, Zebreira, Ladoeiro, Castelo Branco, Ródão e outras.
No contexto da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), em 1758 o castelo ainda se encontrava em razoável estado de conservação: a torre de menagem funcionava como residência do Governador da Praça, e existiam 3 baluartes na barbacã.
Em 1762, diante das invasões de Portugal na chamada “Guerra Fantástica”, em fim de agosto Pedro Pablo Abarca de Bolea y Ximenez de Urrea, 10.º conde de Aranda, assumiu o comando do exército franco-espanhol. Em vez de prosseguir o avanço sobre Lisboa, o conde de Aranda optou por descer pela Beira, entre Sabugal e Penamacor, atacando as praças de Salvaterra do Extremo e Segura, que se renderam por falta de efetivos, deixando aberto o caminho de Alcântara e Castelo Branco. Na posse de Castelo Branco as tropas invasoras podiam atravessar o rio Tejo em Vila Velha de Ródão e incursionar sobre o Alentejo, ou atravessar as Talhadas para atingir Abrantes ou Tomar. Porém, o exército invasor, após vários recontros com as tropas anglo-portuguesas sob o comando de Friedrich Wilhelm Ernst zu Schaumburg-Lippe, conde de Lippe, retirou para Espanha por Zebreira e Segura, em direção a Alcântara, conservando as praças de Salvaterra do Extremo e Segura.
Em setembro o inimigo encontrava-se novamente em Castelo Branco, disposto a marchar sobre Lisboa. Mais uma vez, as forças do conde de Lippe obrigaram-no a retirar para Espanha, desta feita em duas direções: por Zebreira, Segura e Alcântara e por Malpica a Herrera e Valência de Alcântara.
Deste período possuímos um desenho da praça, feito por um militar espanhol anónimo, atualmente no Arquivo Histórico Militar, em Lisboa.
Com o final do conflito a praça de Segura viu-se relegada a um papel secundário, sendo insuficiente para deter as forças napoleónicas, sob o comando de Jean-Andoche Junot, que por esse trecho da fronteira penetraram em 1807, às vésperas da Guerra Peninsular (1808-1814). Na ocasião, as defesas da praça foram severamente danificadas.
Posteriormente, em 1846, foi extinto o seu governo militar, o que deu lugar ao progressivo desmantelamento das muralhas, cuja pedra foi reaproveitada em construções civis.
No início do século XX, a Junta de Freguesia de Segura ergueu a chamada “Torre do Relógio”, hoje referido como um marco do passado militar de Segura, embora sem conexão com o mesmo. Em 1949 ainda surgia referida a antiga cisterna do castelo.
A “Fortaleza de Segura” encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 42.255, publicado no Diário do Governo, I Série n.º 105, de 8 de maio de 1959.
Características
Exemplar de arquitetura militar, gótico e moderno, de enquadramento urbano e paisagístico, na cota de 250 metros acima do nível do mar, dispondo de visão sobre a ponte da estrada romana que ligava Mérida a Viseu.
O que conhecemos do castelo gótico chegou-nos através da pena de Duarte de Armas, onde pode ser identificada a sua configuração medieval: planta de traçado ovalado, com uma dupla cintura de muralhas rematadas por merlões e com fosso. A cintura externa integrava duas portas, protegidas por mata-cães, duas torres de planta retangular e torre de planta ultra semicircular. A cintura interna integrava a torre de menagem adossada pelo exterior, de planta quadrada, dividida internamente em dois pavimentos, duas torres de planta retangular, uma de planta quadrada, cisterna e os aposentos da alcaidaria.
À época, a povoação não possuía cerca e desenvolvia-se em plano inferior, na encosta a leste do castelo. Estava organizada em torno de um eixo definido pela rua Direita, articulando as chamadas Porta de Baixo (a sul) e Porta de Cima (a norte), de configuração moderna, em arco abatido. Na confluência de ambas existe a praça onde se situa o pelourinho.
Com relação à muralha abaluartada seiscentista, chegaram-nos a Porta de Baixo, com o seu arco, e três baluartes, associados à primitiva barbacã. Estes apresentavam guaritas nos vértices. O traçado desta muralha partia do castelo, seguindo pela Rua da Guarita, Rua das Portas de Cima, Rua do Outeiro, sítio do Terreiro, Porta de Baixo, Rua da Calçadinha e Rua da Encosta do Castelo, estando escorada por pontão de madeira.
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