Gavião, Portalegre - Portugal
O “Castelo de Belver” localiza-se na freguesia de Belver, concelho de Gavião, distrito de Portalegre, em Portugal.
Com a função de defesa da chamada “Linha do Tejo”, foi o primeiro castelo edificado pelos Hospitalários no país, e um dos mais imponentes que a Ordem construiu em Portugal ao longo da Baixa Idade Média. É considerado um dos mais completos exemplos da arquitetura militar medieval portuguesa.
História
O castelo medieval
À época da Reconquista cristã, a região foi conquistada em 1166 pelas forças de Afonso I de Portugal (1143-1185).
Foi perdida, sob Sancho I de Portugal (1185-1211), para as forças Almóadas sob o comando do califa Abu Iúçufe Iacube Almançor (1184-1199) na contraofensiva de 1190-1191 que determinou o recuo das fronteiras cristãs para a linha do Tejo.
Nesse contexto, por carta de 13 de junho de 1194 o soberano doou a região a norte do Tejo, entre este e o rio Zêzere, denominada “Guidintesta”, “Guidi in testa” ou ainda “Costa”, à Ordem de São João de Jerusalém (ou dos Hospitalários) na pessoa do seu prior, D. Afonso Pais, para ali se construir um castelo, previamente denominado de “Belver” pelo monarca. Em outubro de 1210, quando D. Sancho I ditou o seu testamento, os Hospitalários, já ali instalados, receberam parte expressiva de sua herança. Neste diploma o soberano é claro quanto à sua existência, uma vez que, para além de o mencionar, informa que ele é um dos seis locais do reino onde se conserva o tesouro real (parcela em grande parte destinada às obras da Igreja de Santa Cruz em Coimbra) - no valor total de 503.000 maravedis de ouro e 60.400 marcos de prata -, informação que testemunha a excelência da sua construção - apesar da sua localização fronteiriça -, assim como a confiança que o monarca tinha, à época, nos Hospitalários, nomeadamente no comendador de Belver.
Entre 1336 e 1341, a vila de Belver e seu castelo constituíram uma das Comendadorias mais importantes da Ordem, embora a sua sede e a Casa Capitular tenham permanecido em Leça do Balio. Nesse mesmo período registou-se a transferência da cabeça da Ordem do Hospital para Crato / Flor da Rosa, criando-se o Priorado do Crato.
Durante a crise de sucessão de 1383-1385, Belver tomou partido por Beatriz de Portugal. As guerras com Castela, nomeadamente após esta crise de sucessão, renovaram a importância estratégica da posição lindeira de Belver. Por esse motivo, sob o reinado de João I de Portugal (1385-1433), já por volta de 1390, o Condestável D. Nuno Álvares Pereira determinou ampliar e reabilitar as suas primitivas defesas, das quais só se conserva hoje a parte inferior da torre de menagem, e a cisterna que se abre junto à Porta da Traição.
Ao longo da Idade Moderna, desempenhou um papel de menor relevância. Manuel I de Portugal (1495-1521) concedeu-lhe o Foral Novo (18 de maio de 1518). A tradição popular afirma que, na juventude, o poeta Luís Vaz de Camões aqui esteve encarcerado (1553).
No contexto da crise de sucessão de 1580, o castelo e a vila mantiveram-se fiéis a D. António, Prior do Crato. Data desse período, o final do século XVI, a construção da capela de São Brás.
Da Guerra da Restauração aos nossos dias
No contexto da Guerra da Restauração da independência portuguesa (1640-1668), há notícia de que o arquiteto neerlandês Joannes Cieremans (Cosmander) procedeu a alguns trabalhos de modernização das defesas do antigo castelo.
O terramoto de 1 de novembro de 1755 causou-lhe grandes danos, agravados pelo estado de abandono em que mergulhou.
No contexto da Guerra Peninsular (1808-1814) o castelo e a igreja da vila foram vandalizados, e algumas joias constantes no cofre das Santas Relíquias desapareceram.
Em virtude do decreto que proibiu os enterramentos dentro do recinto das igrejas em Portugal (1846), a praça de armas do castelo passou a ser utilizada como cemitério municipal da vila.
No século XX, o terramoto de 1909 causou novos e graves danos à fortificação.
O castelo encontra-se classificado como Monumento Nacional por Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo, n.º 136, de 23 de junho. A ZEP / Zona "non aedificandi" encontram-se definidas por Portaria de 25 de fevereiro de 1947, publicada no Diário do Governo, II Série, n.º 74, de 31 de março.
Entre 1939 e 1946 foram-lhe procedidas obras de reconstrução integral, a cargo da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), que o reinventaram parcialmente. Posteriormente foram-lhe procedidas intervenções de conservação nas muralhas, telhados e na capela (1976), na instalação elétrica (1986) e na torre de Menagem (1987-1988). Em 2005, encontravam-se em curso obras de conservação e restauro, a cargo do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), dentro do Programa de Recuperação de Castelos.
O imóvel foi afeto ao IPPAR pelo Decreto-lei n.º 106F/92, publicado no Diário da República, I Série-A, n.º 126, de 1 de junho de 1992. Encontra-se afeto à Direcção Regional da Cultura do Alentejo (DRCAlentejo) pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 163, de 24 de agosto.
Características
Exemplar de arquitetura militar, medieval, de enquadramento periurbano, isolado no topo de um cabeço granítico a oeste da vila, em posição dominante sobre a confluência da ribeira de Belver com a margem direita do rio Tejo.
Castelo de montanha, apresenta planta irregular composta por uma torre de menagem isolada, rodeada por cerca de traçado aproximadamente oval.
A torre, de planta retangular, quase quadrada, com cunhais de cantaria e paredes espessas (cerca de 4 metros no primeiro pavimento), apresenta porta rasgada na face sul, antecedida de escada de alvenaria de pedra granítica adossada ao respectivo paramento. Ultrapassada a porta, tripla em arcos redondos, acede-se ao primeiro piso, tendo pavimento a boca da cisterna (ou masmorra) escavada na rocha. Esta sala apresenta uma janela de moldura retangular e uma escada que dá acesso ao segundo piso. A segunda sala possui janela semelhante à do piso inferior, uma porta em arco de volta perfeita a dar para uma varanda de que só existem vestígios, e uma outra porta também em arco de volta perfeita, que dá acesso à escada para o eirado. Este apresenta ameias pouco largas e adarve que rodeia a cobertura telhada da torre. O último piso fazia a ligação ao adarve que circunda a muralha pelo lado interior, através de um sistema de passadiço hoje desmantelado.
Essa torre não maciça, com masmorra no piso térreo parece ser uma característica das construções da Ordem do Hospital em Portugal, já que a torre do Mosteiro de Leça do Balio, construída antes do Castelo de Belver, e as torres do Castelo de Amieira, construídas depois, apresentam esta característica; isto acontece num tempo em que o castelo estratégico apresenta quase sempre as torres maciças até ao adarve.
A cerca é percorrida ao alto, em todo o perímetro, por adarve, com ameias em alguns trechos e seteiras primitivas. Nela se rasga a porta principal a sul, em arco de volta perfeita, protegida por duas poderosas torres que a ladeiam, com a característica de a do lado direito ser mais robusta e de encobrir parcialmente a entrada, por forma a evitar que quem fizesse a aproximação ao castelo detectasse a porta com facilidade, esquema que apenas seria generalizado, mais de meio século depois, sob o reinado de D. Dinis. A constituição do amuralhado a partir desta porta e no sentido dos ponteiros do relógio é: torreão de seção retangular com sala sob o eirado e porta em arco de volta perfeita; troço de muralha terminando em cubelo; na confluência, varanda com porta de arco de volta perfeita; cubelo; troço de muralha que apresenta uma sobrelargura junto a outro cubelo, a que se liga, ocultando a Porta da Traição, segunda via de acesso ao recinto, abrindo-se diretamente para a zona mais escarpada; cubelo; troço de muralha; torreão de seção retangular com sala sob o eirado e porta em arco de volta perfeita; troço de muralha com quatro seteiras primitivas na base e, nas ameias, abertas com peitoril redondo; torreão de seção retangular; troço de muralha com sete seteiras de tipo primitivo na base e, nas ameias, as abertas apresentam peitoril redondo; torreão de seção retangular com sala sob o eirado e porta em arco de volta perfeita; troço de muralha com a porta principal do castelo. Todos os torreões têm a gola aberta para o adarve.
No conjunto podem ser identificados vestígios dos edifícios da alcaidaria e da guarnição, a sudeste, sul e sudoeste, entre os quais uma parede com três arcos frente à porta principal. A oeste abre-se uma cisterna com duas bocas redondas. A norte ergue-se a capela de São Brás, renascentista. No interior desta capela destacam-se o altar-mor de talha com um valioso retábulo em madeira, de influência italiana, e os numerosos bustos-relicários das relíquias da Palestina que outrora se expunham sobre o altar, oferta do Infante D. Luís de Portugal, 5.º duque de Beja (filho de D. Manuel I e pai de D. António, Prior do Crato), que foi Grão-Prior do Hospital. Foi igualmente este Infante que ofereceu à dita capela o cofre com as Santas Relíquias trazidas da Terra Santa, e que se encontra hoje na Igreja Matriz, sendo objeto de devoção popular: é em seu nome que se realizam as festas anuais da vila, no mês de agosto.
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Ajuda
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