
O “Castelo de Alvito”, também referido como “Paço de Alvito”, localiza-se na freguesia e concelho de Alvito, distrito de Beja, em Portugal.
Dominando uma suave elevação nas planícies a noroeste de Beja, este monumento associa à função militar a de residência, razão pela qual alguns autores preferem classificá-lo como um paço fortificado.
História
Antecedentes
A região é ocupada desde a pré-história. Do período da Romanização são testemunhos diversos vestígios arqueológicos.
No contexto da Reconquista cristã a região de Alvito foi conquistada por forças portuguesas em 1234.
O castelo medieval
A primeira referência documental ao local remonta a maio de 1251, quando a Herdade de Alvito, pertencente a Rodrigo Pedro, Domingos João Pestana, Pelágio João e Pedro Martins, foi doada a Estevão Anes, chanceler de Afonso III de Portugal (1248-1279). Esses domínios foram aumentados pela ocupação de zonas localizadas entre os concelhos de Évora e de Beja (1257-1260). Visando incentivar o povoamento de Alvito, o soberano concedeu-lhe carta de couto (março de 1260). A obra de fortificação do couto foi concluída por Estevão Anes, “tenens” da vila, como o confirma carta de D. Afonso III, datada de 3 de junho de 1263. No ano seguinte (1264) o soberano, D. Beatriz, os infantes D. Dinis e D. Branca, e a comitiva instalaram-se na vila gozando o direito de aposentadoria. Pouco depois, carta de D. Afonso III datada de 8 de março de 1264 isenta o couto da vila de Alvito do direito de aposentadoria. Sem herdeiros, Estevão Anes doou em testamento (1279) o couto de Alvito e a "adega" (designação pelo qual era conhecido o paço acastelado, composto por casas fortificadas e uma torre) ao Convento da Santíssima Trindade de Santarém. Embora se desconheça a localização precisa desse antigo paço, o topónimo Horta das Adegas, ainda hoje existente, situado no termo da vila e junto à ribeira de Odivelas, deve corresponder ao local.
Data de agosto de 1280 a concessão da primeira carta de foral a Alvito, vila que viria a ser integrada nos bens da Coroa por concordata celebrada entre Dinis I de Portugal (1279-1325) e a Ordem da Santíssima Trindade, de Santarém (1283).
João I de Portugal (1385-1433) doou Alvito e Vila Nova a Diogo Lopes Lobo, cavaleiro, morador em Évora, por serviços prestados ao Reino (1387).
Em 1472 o paço encontrava-se devoluto e o seu material de construção era reaproveitado para outros edifícios. Nesse contexto, em 24 de abril de 1475 o Dr. João Fernandes da Silveira, escrivão da puridade, chanceler-mor e vedor da Fazenda de João II de Portugal (1481-1495), esposo de D. Maria de Sousa Lobo, genro de Diogo Lopes Lobo e, portanto, dono da casa e do senhorio de Alvito, obteve de Afonso V de Portugal (1438-1481), o título de 1.º barão de Alvito.
D. Afonso V autorizou João Fernandes da Silveira, em 1481, a edificar um castelo perto da fonte da vila, local para onde a povoação se tinha expandido. Conforme o direito de anúduva, todos os moradores da vila de Alvito, Vila Nova, Aguiar, Ouriola e Torrão estavam obrigados a participar nas obras de construção da fortificação, pelo menos dois ou três dias por semana; cabia ao soberano, após obter-se o dinheiro para a obra, determinar o seu início. João Fernandes da Silveira faleceu cerca de 1488. O início das obras teve lugar a 13 de agosto de 1494, por determinação de D. João II, a cargo de D. Diogo Lobo da Silveira, 2.° barão de Alvito, conforme inscrição epigráfica sobre a porta principal.
As obras foram concluídas em 1504, no reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521). De 1504 a 1523-1528 teve lugar a construção da torre de menagem (VALÉRIO, 1994), ou apenas alterações na mesma, a nível de fenestração (NOÉ, 1995). Enquanto isso, em 1512 iniciou-se um novo ciclo de construção, tornando o castelo mais alto e mais robusto. O soberano concedeu o “Foral Novo” a Alvito (20 de novembro de 1516).
Um alvará, datado de 8 de outubro de 1524, determinou ao almoxarife de Sintra que entregasse a Ramiro Álvares, recebedor do dinheiro da obra do castelo, 86.412 reais por conta da referida obra. Ainda nesse período, nasceu neste castelo o Infante D. Manuel, filho de João III de Portugal e de D. Catarina, então aí refugiados para evitar a peste que então grassava em Évora (1531).
Em 1548 construiu-se a capela, datando do último quartel do século XVI a construção da arcada no corpo norte e da escada de acesso à capela.
Do século XVII aos nossos dias
No século XVII procedeu-se a abertura de portas de lintel reto.
Em 1747, de acordo com o padre Luís Cardoso, o castelo tinha cinco torres, sobre as quais se erguia o paço do barão-conde, estando a torre de menagem incompleta.
Nas “Memórias Paroquiais” (1758) Frei Ambrósio Brochado informou que, quando do terramoto de 1 de novembro de 1755, o castelo não sofreu quaisquer danos. De acordo com o autor, à época, o castelo servia apenas para chefiar as terras da baronia, não tendo valor militar.
Em 1777 tiveram lugar obras de remodelação e conservação ordenadas por D. Maria Bárbara de Meneses.
No século XIX tiveram lugar obras de estuque e pintura. No seu último quartel, em 1887 firmou-se a promessa de compra e venda do imóvel com cláusula de usufruto até à morte, entre os seus proprietários, D. José Lobo da Silveira Quaresma e sua esposa, D. Carolina Augusta Duarte (falecidos respectivamente em 1917 e 1936), e o futuro Carlos I de Portugal (1889-1908). Durante este período algumas zonas do pátio foram arrendadas, o que levou à construção de anexos. Em 1897 celebrou-se a venda definitiva ao monarca.
Encontra-se classificado como Monumento Nacional por Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho.
Em 1915 a propriedade foi integrada nos bens da Casa de Bragança pelo ex-soberano Manuel II de Portugal (1908-1910). Posteriormente passou a integrar o património da Fundação da Casa de Bragança.
A Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) procedeu-lhe a intervenção de consolidação e restauro, com a reconstrução de ameias e rebocos, a reparação dos telhados e a demolição de paredes em alvenaria (1941).
No contexto da Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974), as dependências do castelo foram ocupadas pela Comissão de Moradores de Alvito, que à época promoveram obras de adaptação no primeiro e no segundo pavimentos.
Entre 1980 e 1982 registaram-se novas intervenções de conservação e reparação de natureza geral, nos exteriores e interiores.
A partir de 1991 foi objeto de projeto de requalificação para unidade hoteleira, de autoria do Arquiteto Manuel Bagulho, vindo a constituir-se num dos estabelecimentos da rede Pousadas de Portugal sob o nome “Pousada do Castelo de Alvito”. Em 1993 foi elaborado projeto de enquadramento paisagístico do parque pelo Arquiteto Paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. A pousada foi inaugurada a 26 de setembro desse mesmo ano.
Características
Exemplar de arquitetura militar e civil, gótico, manuelino e mudéjar alentejano, de enquadramento urbano, dominando a povoação. Está rodeado por ampla cerca ajardinada que ocupa um recinto aproximadamente retangular, encontrando-se o resto da área ocupada com construções de apoio e maquinaria.
O tipo do castelo de planta quadrada com torreões cilíndricos nos ângulos surge com frequência na fronteira continental portuguesa e na fortificação ultramarina entre o 3.º quartel do século XV e o início do 2.º quartel do século XVI.
Este paço senhorial fortificado apresenta planta quadrangular, com os vértices orientados aos quatro pontos cardeais, interseccionados por três torreões circulares e por um torreão ovalado ou de planta em “U”, assim como uma torre quadrangular adossada do lado norte.
No interior erguem-se vários edifícios de planta retangular, dispostos em torno de pátio central também de planta quadrada, adossados às muralhas noroeste, sudoeste e sudeste, reunindo características da arquitetura militar (panos de muralha rematados por merlões, torreões de reforço, torre de menagem, troneiras cruzetadas) com elementos de uma habitação civil (funcionalidade espacial, fenestração generosa e ornamentada com vãos em arco de ferradura, mainelados, inscritos em arco conopial, com aduelas em tijolo e com decoração vegetalista nos capitéis, presença de gárgulas zoomórficas). Os volumes são articulados, com cobertura diferenciada em telhado e em terraço.
A torre de menagem, do lado noroeste, apresenta planta quadrada com características góticas correspondendo a estratégia de defesa ativa: adossamento à face exterior das muralhas. Eleva-se a 19,5 metros de altura e tem 10,7 metros de lado. É dividida internamente em três pavimentos. O piso inferior é cego, nele se situando o antigo cárcere, hoje integrado e aberto para a sala de jantar. No alçado sudeste do 2.º piso rasga-se a porta. A torre possui pequenos vãos nos dois pisos superiores, com duas salas com abóbada de nervuras, assentes em mísulas prismáticas, bocetes ornamentados e capitéis esculpidos.
A torre sineira (Torre do Sino) ergue-se no lado oeste, implantada em cota sensivelmente mais elevada.
A capela situa-se no corpo sudoeste, junto ao torreão oeste. De nave única, comunica com a pequena capela-mor por arco triunfal redondo. Na nave destaca-se lambril azulejar de padrão polícromo seiscentista.
Os merlões prismáticos com seteiras intercaladas, são semelhantes aos que se observam no Castelo de Viana do Alentejo.
A fortificação possui duas entradas:
- a porta principal, no paramento sudoeste, em arco de volta perfeita, sobrepujada por lápide de fundação e armas reais era servida originalmente por uma ponte levadiça sobre o fosso. A epigrafia informa (leitura modernizada): "Esta fortaleza se começou a xiij de agosto de mil cccc lRiiij [=ano de 1494] por mandado del Rei dom João o segundo nosso Senhor e acabou-se em tempo del rei dom Manuel o primeiro nosso Senhor fê-la por seus mandados dom diogo lobo barão de alvito." Essa lápide é posterior a 1499, uma vez que só a partir dessa data D. Diogo Lobo usou o título de barão. Em 1494 era a sua mãe quem usava o título (baronesa de Alvito). A causa do atraso de treze anos para o início da construção do castelo, dada a autorização de construção por D. Afonso V em 1481 e o início da construção em 1494, poderá prender-se com a participação de Fernão da Silveira, filho do barão, na conjura de 1484 contra D. João II e com a colaboração do barão na fuga do seu descendente para França, dois factos que poderão ter levado o rei, descontente com estas atitudes, a atrasar o início da obra.
- outra, ladeando a torre de menagem, também em arco de volta perfeita.
Exteriormente os panos da muralha são retilíneos e os torreões são rematados por merlões prismáticos, com seteiras intercaladas. Os alçados sudoeste, sudeste e nordeste mostram vãos distribuídos de modo irregular, mostrando a divisão dos corpos adossados em três pisos: uma porta de vão semicircular e vãos retangulares irregularmente dispostos, os do piso superior adintelados, rasgam o paramento sudoeste; janelas de dupla arcada em ferradura, maineladas e vãos retangulares abrem-se no alçado sudeste, igualmente marcado por chaminés em ressalto; no torreão do ângulo sul (Torre da Cerca), rasgam-se três vãos de diferente modinatura: uma porta-janela de verga reta e cornija arquitravada, com sacada em ferro, uma porta-janela e uma janela de dupla arcada em ferradura, mainelada; no torreão leste e paramento contíguo nascente, existem vãos de verga reta nos pisos inferiores, janelas maineladas no piso superior.
Adossado à torre sul encontra-se, ao nível térreo, um pequeno volume quadrangular com pedra de armas dos barões de Alvito (Lobo da Silveira), implantado no interior de uma cerca, situando-se a sua fachada principal sobre parte da linha limítrofe orientada a norte. Um segundo escudo com as armas dos barões de Alvito encontra-se no corpo sudeste do pátio.
Bibliografia
NOÉ, Paula. O Castelo do Alvito. Lisboa: DGEMN, 1994 (texto policopiado - DGEMN);
VALÉRIO, António João Feio. O Paço dos Lobos da Silveira em Alvito - Notas de História e de Arte. Alvito: Câmara Municipal, 1994.
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