
O “Castelo de Soure” localiza-se na freguesia e concelho de Soure, distrito de Coimbra, em Portugal.
Situa-se no vale do baixo rio Mondego, numa colina baixa, formada por aluviões, na confluência dos rios Anços e Arunca, tendo a vila se desenvolvido ao abrigo de seus muros. O Arunca foi, até à época medieval, navegável por barcos de pequeno calado, entre Soure e Alfarelos. Por aqui se escoavam os produtos da região (trigo, centeio, cevada, azeite, vinho, linho, cânhamo, mel, cera), que oferecia abundância de caça e pesca.
Atualmente em ruínas, à época da formação da nacionalidade o castelo integrava a linha avançada de defesa da então capital, Coimbra, juntamente com os de Santa Eulalia (Santa Olaia) e Miranda do Corvo (já desaparecidos), Montemor-o-Velho, Penela e Lousã. Em nossos dias integra a "Rede de Castelos e Muralhas do Mondego".
História
Antecedentes
A primitiva ocupação humana da região remonta à pré-história. À época da Romanização, acredita-se que um pequeno destacamento militar aqui se tenha instalado, para guarnecer a estrada romana que seguia para Conimbriga. Dessa ocupação são testemunho diversas pedras, posteriormente aproveitadas para a construção do castelo medieval. O mesmo se pode afirmar para o período posterior, de ocupação pelos Visigodos.
O castelo medieval
À época da Reconquista, a região de Coimbra passou ao domínio cristão (878), para ser perdida diante da investida das forças do governador do al-Andaluz, o Omíada Almançor (29 de junho de 987).
No século XI o presbítero João e seus irmãos, Sesnando, Ordónio e Zalama, fazem a doação do cenóbio de Soure ao Mosteiro da Vacariça (4 de setembro de 1043).
Coimbra foi reconquistada pelas forças de Fernando I de Leão (1037-1065) a seguir à conquista de Viseu (1064), vindo a constituir-se em sede do Condado Conimbricense, cujo governo foi entregue ao conde Sesnando Davides. Datará deste período, entre 1065 e 1091, a provável construção do Castelo de Soure, por iniciativa de D. Sesnando.
No século seguinte, a povoação e seu castelo integram os domínios do Condado Portucalense. O conde D. Henrique de Borgonha e a condessa D. Teresa de Leão outorgam foral à povoação o qual privilegiava todos os moradores, isentando-os do pagamento de alguns encargos e concedia mais benefícios fiscais aos que exerciam o ofício da guerra (1111).
No contexto da ofensiva Almorávida que em 1117 culminou com o cerco de Coimbra, em 1116 a vila foi incendiada e abandonada pelos próprios habitantes, receosos de que a mesma fosse tomada pelos muçulmanos. Reza a tradição local que a povoação abandonada se tornou, a partir de então, em um "antro de feras".
A condessa D. Teresa fez a doação dos domínios de Soure, Santa Eulália e Quiaios ao conde galego Fernão Peres de Trava (1122), por permuta com o de Avô (1122). Este terá dado início à reedificação do Castelo de Soure, com o apoio do bispo de Coimbra. Pouco depois, a condessa fez a doação dos domínios entre Coimbra e Leiria à Ordem do Templo (19 de março de 1128).
Nesse período, a defesa dos domínios da Vila Nova de Soure e seu castelo foram confiados a Gonçalo Gonçalves, um fidalgo de Viseu, que mais tarde se destacaria na conquista de Santarém (1147).
O Infante D. Afonso Henriques, futuro Afonso I de Portugal (1143-1185) confirmou a doação de Soure à Ordem:
"(...) esta doação faço, não por mando, ou persuação de alguém, (...) e porque em a vossa Irmandade sou Irmão (...). Eu o Infante D. Afonso com a minha própria mão roboro esta carta." (Excerto da carta de doação de Soure por D. Afonso Henriques à Ordem do Templo, 13 de março de 1129).
Uma nova ofensiva muçulmana, sob o comando de Abu Zacharia, vizir de Santarém, tomou Soure (1144), matando ou levando prisioneiros para Santarém muitos dos seus habitantes.
A Ordem viria a transferir a sua sede, até então em Fonte Arcada (Penafiel), para Soure, aproveitando a sua posição próximo a uma importante via norte-sul, a antiga estrada romana que ligava “Olissipo” (Lisboa) a “Bracara Augusta” (Braga). Posteriormente, a partir de 1160, a sede da Ordem se transferiria para Tomar.
Em meados do século XII o Castelo de Germanelo juntou-se à linha de defesa avançada constituída pelos castelos de Soure, de Santa Olaia, Montemor-o-Velho, Penela, Miranda do Corvo e Lousã, sendo a partir de então Soure, terra de fronteira (“Finis Terra”), local de lutas constantes entre muçulmanos e cristãos, condição que manteve até à última década daquele século.
Terá sido D. Gualdim Pais, mestre da Ordem desde 1156, o responsável pela etapa construtiva mais importante do Castelo de Soure. Para além de dotar a fortificação com duas torres de planta quadrangular (das quais apenas uma sobreviveu), mandou erguer, entre 1171 e 1175, a robusta torre de menagem cuja base é defendida por alambor, elemento defensivo introduzido no reino pela Ordem.
O último cerco muçulmano a Coimbra registou-se quando da contraofensiva Almóada que, sob o comando do califa Abu Iúçufe Iacube Almançor (1184-1199), após reconquistar o Castelo de Silves e o Algarve, avançou para o Norte conquistando sucessivamente os castelos de Alcácer do Sal, Palmela e Almada (1190-1191). Transpôs em seguida a Linha do Tejo, cercando Santarém, destruindo Torres Novas e Abrantes até atacar Tomar, que resistiu heroicamente.
Afonso II de Portugal (1211-1223) e sua esposa, D. Urraca de Castela, confirmaram o foral a Soure (1217).
Com a extinção da Ordem (22 de março de 1312) seguiu-se a incorporação dos seus bens no património da Coroa, alegando Dinis I de Portugal (1279-1325) que esses bens eram fruto de doações régias. A Bula “Ad ea Exquibus" do papa João XXII, aprova formalmente a instituição da Ordem de Cristo (14 de março de 1319), vindo o soberano a entregar a vila, o seu castelo e a igreja à nova Ordem (24 de junho de 1319), de que passou a constituir cabeça de Comenda.
Afonso IV de Portugal (1325-1357) mandou restituir à Ordem de Cristo o direito de confirmação dos juízes nomeados pelo concelho de Soure (1335).
Durante a crise de sucessão de 1383-1385, a povoação e o seu castelo tomaram o partido pelo Mestre de Avis.
Entre os séculos XV e XVI, tiveram lugar obras de reforma na defesa, conforme o testemunham a configuração das ameias e o segundo registo na torre sul.
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521) consta no registo de bens móveis e imóveis, rendas, direitos e privilégios de que a Ordem era detentora, na vila de Soure, o castelo, casas, açougues, Igreja de Santa Maria de Finisterra, Igreja de Santiago, granjas de São Pedro da Várzea, de São Tomé, de Alencarce de Baixo e do Ulmeiro (termo de Montemor-o-Velho), entre outras (1508).
Do século XIX aos nossos dias
O castelo conservou-se na posse da Ordem de Cristo até 1834. Em 1880, a Câmara Municipal fez dinamitar a torre sudoeste, que ameaçava ruir. Ao final desse século ou início do XX, duas torres do mesmo foram vendidas por João Ramos Faria a João Lobo Santiago Gouveia, conde de Verride.
Na década de 1930 o imóvel encontrava-se inscrito na matriz predial urbana da freguesia de Soure sob o art.º. 7.º, a favor dos herdeiros do conde de Verride (95/96 avos) e de dois herdeiros de João Maria Santiago Gouveia Lobo Prezado, (1/192 avos cada).
Em 1940 Santiago Presado ofereceu o castelo à Câmara Municipal de Soure, não legalizando a oferta. Posteriormente, em 1965 a DSMNC notificou Santiago Prezado para proceder a obras no edifício (15 de fevereiro), ao que este respondeu "(...) e por isso, com satisfação minha, faço ao Município de Soure a pertença deste Castelo." (19 de fevereiro). Desse modo, a 28 de fevereiro, 29 de março e 23 de abril foram estabelecidos contatos entre a Câmara Municipal e Santiago Prezado no sentido de se realizar escritura pública de alienação do imóvel (não se encontrando na autarquia nenhum documento comprovativo da realização da escritura).
A Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) empreendeu pequenas obras de recuperação no castelo (1944-1945).
O castelo encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 37.366, publicado no Diário do Governo n.º 70, de 5 de abril de 1949.
Em 1973 o imóvel encontrava-se à venda em hasta pública pelo valor matricial de 60.480$00 escudos, tendo sido posteriormente retirado de venda.
Uma nova campanha de intervenção de consolidação e restauro por iniciativa da DGEMN teve lugar entre 1985 e 1986, quando foram realizados trabalhos de prospecção arqueológica, e se procedeu a consolidação da torre norte, limpeza do lado externo da muralha leste, coroamento das muralhas (impermeabilização), tratamento do arranque de restos de muralha, restauro da porta principal, e a consolidação dos vestígios da Igreja de Santa Maria de Finisterra, no terreiro fronteiro ao castelo. Em 1998 tiveram lugar obras de consolidação na torre sul e nas muralhas adjacentes.
Após o ano 2000 os herdeiros de Santiago Prezado inscreveram a seu favor o imóvel, na proporção de 1/192 avos para cada um.
Finalmente, a 10 de março de 2004 formalizou-se a escritura passando, definitivamente, a propriedade do Castelo de Soure para a posse do município de Soure.
A DGEMN procedeu, em setembro de 2005, à elaboração da Carta de Risco do imóvel.
Em 2015 foi criado o Centro Interpretativo do Espaço Muralhado de Soure, no âmbito da "Rede de Castelos e Muralhas do Mondego".
Características
Exemplar de arquitetura militar, românica, gótica e manuelina, de enquadramento urbano, adossado, a norte, a habitações e, a sul, ao edifício do Museu e Turismo, implantado em planície, defendido por dois fossos naturais constituídos pelos rios Anços e Arunca.
O castelo-alcáçova, misto de refúgio e residência, apresenta planta em quadrilátero alongado, no sentido norte-sul, composto por panos de muralha em alvenaria de calcário de aparelho bastante irregular, integrando duas torres a nordeste e a sudoeste, ambas com alambor.
O pano de muralha a norte, parcialmente destruído, está adossado a habitações.
O pano de muralha voltado a leste é rasgado inferiormente, junto à torre nordeste, por porta de acesso, em arco de volta perfeita, com a moldura composta pelas aduelas do arco, cujo revestimento exterior já desapareceu, encontrando-se protegido por porta metálica; ao nível do arco, à esquerda, rasgam-se 4 seteiras e, superiormente, rasgam-se 5 vãos com molduras de cantaria, correspondentes a uma fresta vertical idêntica às seteiras, mas com moldura, dois janelões retilíneos, sendo os restantes duas janelas em ajimez, um deles mutilado.
O pano de muralha a sul constitui parede meeira com o edifício do Museu do Turismo, que voltado para o seu interior tem uma fresta vertical e uma janela em ajimez mutilado.
No interior, desenvolve-se pequena praça de armas, parcialmente ajardinada. Sensivelmente a meio entre os vãos do primeiro e segundo registos do pano leste, existe um ressalto, que corresponderia ao piso de um corpo desaparecido. O pano sul, além dos vãos voltados para o turismo, junto à torre, possui um vão retilíneo entaipado; o pano norte é rebocado e superiormente aberto por duas frestas.
A torre sudoeste está adossada à parte externa do pano da muralha, apresenta planta quadrangular, com remate ameado, rasgada nas quatro faces por vãos de tamanhos diferenciados e de distribuição assimétrica, evidenciando várias campanhas de obras, tendo, na face sul, três registos, o inferior com duas pequenas frestas quadrangulares e uma vertical (possível seteira), o intermédio com uma seteira e friso em cantaria à sua direita, sobressaindo em prolongamento até ao cunhal; o superior tem dois vãos, sendo o da direita uma janela quadrangular e o da esquerda janela em arco apontado com moldura de cantaria, e, um pouco mais abaixo, à esquerda, observam-se vestígios da existência de um vão em arco apontado, atualmente entaipado; na face oeste, surgem dois registos, tendo, no inferior, uma seteira e, no superior, junto às ameias, duas janelas quadrangulares geminadas; na face norte, no registo inferior, grande vão em arco de volta perfeita, com moldura em silhares de cantaria; no intermédio, surge seteira, e, no superior, vão em arco apontado, de dimensões idênticas às do inferior; na face leste, voltada para o interior da muralha, porta com verga reaproveitada de agimez, decorada com folhas e cachos de uvas estilizadas; superiormente, rasga-se grande vão retilíneo com molduras em cantaria. Pelo interior apresenta três ressaltos nas paredes, indiciando a existência de três pisos, sendo os dois inferiores em aparelho irregular e o superior, rebocado.
A torre nordeste, no interior da muralha, talvez correspondendo à de menagem, denunciada pelas faces leste, cega, e sul, rasgada superiormente por vão em arco de volta perfeita com aduelas em silhares de cantaria e as ombreiras em perpianho.
No espaçoso terreiro fronteiro ao castelo encontram-se alguns vestígios arqueológicos que recordam a antiga Igreja de Santa Maria de Finisterra, de provável fundação henriquina. Esta seria constituída por uma única nave com quatro colunas que sustentavam o telhado.
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