Montemor-o-Velho, Coimbra - Portugal
O “Castelo de Montemor-o-Velho” localiza-se na freguesia de União das Freguesias de Montemor-o-Velho e Gatões, concelho de Montemor-o-Velho, distrito de Coimbra, em Portugal.
Situa-se em posição dominante sobre a vila, à margem direita do rio Mondego. No contexto da afirmação da nacionalidade integrou a chamada “Linha do Mondego”, de que foi a fortificação mais importante, tendo sido uma das maiores do reino à época, afirmando-se que podia aquartelar até cinco mil homens de armas. A sua importância militar e estratégica manteve-se ao longo dos séculos seguintes, tendo o seu comando sido sempre exercido por figuras de destaque da nobreza do reino. Em nossos dias integra a "Rede de Castelos e Muralhas do Mondego".
História
Antecedentes
A primitiva ocupação humana de seu sítio remonta à pré-história. À época da Romanização por aqui se escoava o estanho extraído na Beira Alta, transportado pelo curso do Mondego. Deste período são testemunhos alguns silhares de pedra integrados à base da torre de menagem do castelo medieval.
O castelo medieval
No contexto da Reconquista cristã, a posse da região entre os rios Douro e Mondego oscilou entre muçulmanos e cristão desde a segunda metade do século IX até ao final do XII.
As primeiras referências documentais à povoação e seu castelo remontam à sua conquista por Ramiro I das Astúrias e seu tio, o abade João do Mosteiro do Lorvão em 848. O soberano transmitiu ao tio estes domínios, com o encargo de defender o castelo, mantendo-lhe guarnição, cuja alcaidaria o abade entregou a D. Bermudo, filho de sua irmã, D. Urraca. Ainda naquele mesmo ano resistiu com sucesso ao cerco que lhe foi imposto pelo 4.º emir Omíada de Córdoba, Abderramão II (822-852).
A povoação foi conquistada por forças muçulmanas sob o comando de Almançor (2 de dezembro de 991) – que a terão reedificado, passando a ser seu "tenens" Froila Gonçalves.
Montemor foi recuperada por forças cristãs sob o comando de Mendo Luz em 1006, que foi sucedido na alcaidaria do castelo por Gonçalo Viegas.
Voltou a ser conquistada pelos muçulmanos (1026), para ser reconquistada por Gonçalo Trastamariz (1034, cf. “Crónica dos Godos”, sécs. XII-XIII), que ficou como seu governador e fronteiro-mor.
Uma vez mais na posse muçulmana, voltou a mãos cristãs quando Coimbra foi reconquistada pelas forças de Fernando I de Leão (1037-1065) a seguir à conquista de Viseu (1064), vindo a constituir-se em sede do Condado Conimbricense, cujo governo foi entregue ao conde Sesnando Davides. Data deste período a edificação da igreja de Montemor, pelo presbítero Vermudo, por ordem de D. Sesnando, com a condição de metade das rendas ficarem a pertencer à Sé de Coimbra. Concluído o templo, foi lavrada a escritura de doação dessa metade, datada de 1095, sendo bispo da diocese D. Crescónio (1092-1098).
Fontes coevas, ao referir a primitiva fortificação, arrasada pelos muçulmanos, descrevem-lhe o abandono e a vegetação que recobria as ruínas. Afonso VI de Leão e Castela (1065-1072; 1072-1109) ordenou a reedificação do castelo (1088) e concedeu carta de foral à povoação (1095). Datará deste período a construção do Paço de Montemor, atribuída a D. Urraca, irmã de Teresa de Leão.
Integrante dos domínios do Condado Portugalense, o conde D. Henrique de Borgonha e sua esposa, a condessa D. Teresa de Leão confirmaram o foral de Montemor, em data anterior a 1111, possivelmente em 1109, quando há notícia de novas obras no seu castelo.
Quando da batalha de São Mamede (1128) não há notícia de que o alcaide de Montemor, Paio Midis, fosse contrário a D. Afonso Henriques, futuro Afonso I de Portugal (1143-1185).
Em meados do século XII o castelo encontra-se referido pelo geógrafo muçulmano Muhammad Al-Idrisi.
Montemor foi, historicamente, terra de infantados, primeiro de D. Teresa de Portugal (filha de Sancho I de Portugal, a partir de 1211), depois de Afonso IV de Portugal (1322) e também de D. Pedro de Portugal, 1.º duque de Coimbra (1416).
Após a morte de Sancho I de Portugal (1185-1211), o alcaide de Montemor recusou-se a prestar vassalagem a Afonso II de Portugal (1211-1223), devido a desacordo testamentário entre este monarca e suas irmãs - D. Teresa e D. Mafalda - relativos à doação a estas do castelo e seus domínios. Mesmo diante da confirmação papal do legado do castelo por D. Sancho I a sua filha D. Teresa (1211), tendo a infanta D. Teresa aqui se refugiado, a praça foi cercada pelas forças do soberano, o sítio acabou sendo levantado e a questão sanada graças à intervenção do Papa Inocêncio III, já em 1216, que sentenciou que tanto este quanto o Castelo de Alenquer fossem entregues à Ordem do Templo. Neste período, D. Afonso II outorgou um novo foral à vila (1212).
O castelo voltou a ser ponto de discórdia nos conflitos que opuseram Sancho II de Portugal (1223-1248) e Afonso III de Portugal (1248-1279) quando, em 1245, diante da deposição do primeiro, o bispo D. Tibúrcio e alguns cónegos da Sé de Coimbra, sentindo-se inseguros naquela cidade, procuraram refúgio na alcáçova do Castelo de Montemor-o-Velho, cujo alcaide se proclamara em favor de D. Sancho II.
Mais tarde, no contexto da rebelião do infante D. Afonso, futuro Afonso IV de Portugal (1325-1357), contra seu pai, Dinis I de Portugal (1279-1325), o castelo - desguarnecido - foi conquistado sem combate pelas forças do príncipe (1 de janeiro de 1322). Neste período, no século XIV, foi objeto de uma ampla reforma, acreditando-se datar desta fase a construção da barbacã e do troço da cerca a norte. Foi aqui, na sua alcáçova, que D. Afonso IV se reuniu com os seus conselheiros para decidir a sorte de D. Inês de Castro (6 de janeiro de 1355) daqui tendo partido, no dia seguinte, os elementos que a executaram.
Manuel I de Portugal (1495-1521) efetuou a doação de 4.000 reais a Afonso Mourão e João Álvares, por fazerem casas no castelo (16 de agosto de 1517). Ainda no primeiro quartel do século XVI João Negrão foi nomeado vedor das obras reais de Montemor-o-Velho.
No contexto da crise de sucessão de 1580, acredita-se que o castelo tenha acolhido D. António, Prior do Crato, quando visitou a vila por cinco dias, em setembro de 1580, ocasião em que tentava articular a defesa, na linha do Mondego, da independência de Portugal.
Da Guerra Peninsular aos nossos dias
No contexto da Guerra Peninsular (1808-1814) esteve ocupado por tropas francesas sob o comando de Jean-Andoche Junot, entre 1807 e 1808. Três anos mais tarde, no caminho da retirada das tropas derrotadas do marechal André Masséna, foi saqueado e depredado, juntamente com a vila (março de 1811).
Em virtude do decreto que proibiu os enterramentos dentro do recinto das igrejas em Portugal (1846), a praça de armas do castelo passou a ser utilizada como cemitério municipal. Nesta fase registou-se também o reaproveitamento da sua pedra pela população. Em 1877 uma das suas torres foi adaptada como “Torre do Relógio”.
O “Castelo de Montemor-o-Velho” também referido como “Castelo e cerca urbana de Montemor-o-Velho”, “Castelo de Montemor-o-Velho, compreendendo a igreja anexa” e “Castelo de Montemor-o-Velho e Igreja anexa de Santa Maria da Alcáçova” encontra-se classificado como Monumento Nacional por Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho.
Em 1929, por iniciativa de um particular, António Rodrigues Campos, empreendeu-se uma campanha de preservação que chegou a promover alguns restauros no conjunto.
O monumento foi afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) pelo Decreto-lei n.º 106F/92, publicado no Diário da República, 1.ª série A, n.º 126 de 1 de junho. Atualmente encontra-se afeto à DRCCentro pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 163 de 24 de agosto.
Entre 1996 e 1999 o IPPAR procedeu o arranjo do recinto muralhado, a consolidação das ruínas do paço das Infantas e construção da casa de chá, com projeto do Arquiteto João Mendes Ribeiro.
Características
Exemplar de arquitetura militar, gótico e manuelino, de enquadramento rural, isolado, na cota de cinquenta e seis metros acima do nível do mar.
Apresenta planta irregular, orgânica (adaptada ao terreno em que se inscreve), composta por castelejo, uma cerca principal, uma barbacã envolvente, um cercado do lado norte e um reduto inferior, a leste.
O castelejo é um reduto construído a partir do aproveitamento do espaço angular entre a torre de menagem e a cortina norte, reforçado por quatro cubelos, de planta quadrada e semicircular, dois dos quais com aberturas em arco quebrado.
A torre de menagem, situada a sudeste, apresenta planta quadrada, seguida de muro com quatro torres, duas delas com aberturas em arco quebrado. Na cerca principal erguem-se mais 5 torres.
A barbacã é um muro baixo sem torres, onde se rasgam duas portas: a Porta da Peste, pelo lado sudeste, vizinha à Torre de Menagem, substituindo a arruinada porta principal, e a Porta da Nossa Senhora do Rosário, rasgada a sul e remodelada posteriormente. Na encosta a noroeste encontram-se os panos de muralha que descem da barbacã. Estas duas cortinas erguem-se perpendicularmente ao corpo do castelo e são terminadas por robustas torres de planta quadrada.
No setor sudoeste encontram-se as ruínas do antigo paço senhorial, que se prolongava na área da barbacã.
No interior do castelejo encontra-se a Igreja de Santa Maria da Alcáçova, de planta longitudinal, com três naves de 5 tramos e 3 capelas absidiais. Na fachada rasga-se porta de arco quebrado com 2 colunelos, sobreposto por pequeno óculo e, acima da porta, o brasão. No cunhal direito uma torre, vendo-se um pouco recuado um corpo cilíndrico correspondente a uma escada de acesso. No interior do templo abre-se uma nave central ligeiramente mais elevada do que as laterais, e que apresenta arcadas de arcos quebrados apoiados em colunas, a separar as naves; a cabeceira apresenta ábsides semicirculares cobertas por abóbada de berço e com retábulos.
Paralela à barbacã implanta-se a Capela de Santo António, enquanto a medieval Igreja da Madalena foi um templo renovado nos séculos XV-XVI. Na nova cerca subsistem ainda as ruínas da Capela de S. João.
A lenda do Abade João
A tradição local refere que no século IX, ao tempo do abade João, o castelo foi cercado pelas forças do califa de Córdoba, sob o comando de um cristão renegado, Garcia Ianhez-Zuleima. Em número inferior, os defensores do castelo, com grande dificuldade em sustentar a defesa, deliberaram dar morte por degola aos demais, mesmo aos seus parentes, a fim de lhes pouparem o cativeiro e as previsíveis afrontas dos mouros. Assim tendo procedido, arremeteram contra o inimigo superior, dispostos a morrer em combate. Fizeram-no, entretanto, com tal ímpeto, que o levaram de vencida.
Mais tarde, já no século XVIII, sob o reinado de João V de Portugal (1706-1750), a tradição enriqueceu-se com um desfecho piedoso: os familiares dos defensores, ressuscitados por milagre, saíram do castelo ao encontro dos vencedores. Na igreja local a imagem de Nossa Senhora da Vitória, com uma cicatriz vermelha no pescoço, evoca o milagre.
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