Almeida, Guarda - Portugal
O “Castelo de Castelo Bom” localiza-se na freguesia de Castelo Bom, concelho de Almeida, distrito da Guarda, em Portugal.
Situa-se em posição dominante num cabeço rochoso sobranceiro ao rio Côa, cuja travessia defendia, relativamente perto dos castelos de Almeida e de Castelo Mendo. Com a assinatura do Tratado de Alcanizes (1297) a vila foi, durante algum tempo, um dos principais pontos de portagem do Reino na região do Ribacôa.
História
Antecedentes
A primitiva ocupação de seu sítio remonta a um castro da Idade do Bronze, conforme os testemunhos arqueológicos. Aqui foi encontrada uma espada pistiliforme do final da Idade do Bronze, atualmente em exposição no Museu da Guarda.
O castelo medieval
No contexto da Reconquista cristã, a expansão do reino asturiano no século IX, que estabilizou as fronteiras com os muçulmanos no Baixo Mondego a sul e numa linha de castelos na Beira Alta (Trancoso, Mêda, Marialva, Longroiva) de grande importância no século X, foi travada pelas razias muçulmanas que recuperaram o território ao sul do Douro, com exceção da Terra da Feira.
As campanhas promovidas por Fernando I de Leão e Castela (1037-1065) viriam a reconquistar a região da Beira Alta, inclusive Castelo Bom, em 1039. À morte deste soberano, os seus domínios foram repartidos entre os seus herdeiros, tendo Castelo Bom passado a integrar o Reino de Leão, sob o reinado de Afonso VI de Leão e Castela (1065-1072; 1072-1109). Este soberano, por sua vez procedeu o repovoamento do Ribacoa, inicialmente pelo conde D. Raimundo de Borgonha, sem sucesso, e posteriormente, já no início do século XII, com gentes oriundas de Salamanca, de Leão e da Galiza. Neste período terá sido criado o concelho de Castelo Bom, uma assembleia de habitantes da povoação com autonomia para estabelecer normas gerais e económicas.
Sob o reinado de Urraca I de Leão e Castela (1109-1126) a povoação de Castelo Bom começou a adquirir importância, devido à sua localização estratégica na fronteira com o Condado Portucalense. O seu filho e sucessor Afonso VII de Leão e Castela (1126-1157) outorgou o primeiro foral a Castelo Bom, período em que terá sido iniciada a construção do castelo.
Sob o reinado de Afonso I de Portugal (1143-1185) forças portuguesas sob o comando do Infante D. Sancho, tê-la-ão ocupado episodicamente em 1170 quando de sua investida sobre Ciudad Rodrigo, que lograram conquistar, mas não retiveram por muito tempo.
Afonso IX de Leão (1188-1230) outorgou-lhe novo foral em 1209. (ANTT)
Sancho II de Portugal (1223-1248) conquistou Castelo Bom, que permaneceu em mãos portuguesas entre 1240 e 1245, quando retornou a mãos leonesas sob Afonso X de Leão e Castela (1252-1284). A vila e o seu castelo retornaram para a Coroa portuguesa em 1282, como dote pelo casamento de Isabel de Aragão com Dinis I de Portugal (1279-1325), tendo o soberano português lhe outorgado foral em 1296.
A sua posse definitiva para Portugal foi assegurada pelo Tratado de Alcanizes (1297):
“E outro si por que me vós partades das demandas que me faziades sobre razon dos termos, que som antre meu Senorio, e vosso por esso me vos parto do ditos Castellos, e Villas, e Lugares de Sabugal, e de Alfayates, e de Castel Rodrigo, e de Villa Maior, e de Castel Boom, e de Almeida, e de Castel Melhor e de Monforte, e dos outors Lugares de Riba Coa que vós agora teendes à vossa maãao, com todas seus Termos, e Direitos, e perteenças, e partome de toda demanda, que eu hei, ou poderia aver contra vós, ou contra vossos successores. (…) E outo si me parto de todo o Direito, ou jurisdiçom, ou, Senorio Real também en possissom come em propriedade, come en outra maneira qualquer, que eu hi avia, e toloo de mim todo, e dos meus successores, e do Senorio dos Reinos de Castella, e de Leom, e ponoo en vós, e em vossos Successores, e no Senorio do reino de Portugal pera sempre.” (Fernando IV de Leão e Castela. “Tratado de Alcanizes”)
O soberano, a partir de então, procurou consolidar-lhe as fronteiras, fazendo reedificar os castelos de Alfaiates, de Almeida, de Castelo Bom, de Castelo Melhor, de Castelo Mendo, de Castelo Rodrigo, de Pinhel, do Sabugal e o de Vilar Maior. Nesse contexto foram iniciados os trabalhos de reedificação do castelo e da cerca de Castelo Bom, que se estenderam pelo século XIV, até ao reinado de Fernando I de Portugal (1367-1383).
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), a “Inquirição” de 1496 refere a existência de 234 habitantes. A vila e a sua defesa encontram-se figuradas por Duarte de Armas no “Livro das Fortalezas” (c. 1509): os desenhos representam o castelo inscrito no extremo sul do muro da vila, composto por castelejo e barbacã, ambos de planta irregular com panos retos e curvos; o castelejo era coroado por merlões e percorrido por adarve, sobressaindo no vértice oeste a torre de menagem de planta retangular, vazada por frestas e coberta por telhado de 4 águas, à qual se adossavam, em redor do pátio central, "aposentamentos térreos", a cisterna, uma casa "boa e sobradada" e outras dependências; a leste salienta-se um torreão também de planta retangular que "tem no fundo dela uma aljube" e a norte uma torre de planta quadrangular, junto da porta, ambas com o piso superior parcialmente arruinados; a barbacã, com adarve, merlões e seteiras cruciformes, tinha um torreão circular a sul e outra torre menor, quadrangular a norte, a ladear a porta, havendo outra porta, falsa, a leste, em arco pleno; o muro da vila era duplo e escalonado do lado oeste com portas do mesmo lado, em arco reto a da barreira exterior e em arco pleno a do muro interior, esta encimada por balcão coberto, com mata-cães; ambas as muralhas eram percorridas por adarves e coroadas por merlões, paralelepipédicos e piramidais, do lado nordeste sobressaía uma torre de planta retangular rematada por merlões piramidais parcialmente arruinada na face voltada para o interior; intramuros o aglomerado urbano era composto por casas térreas sobressaindo a sul uma igreja com campanário duplo; extramuros a sudoeste e a sudeste duas capelas; a sul avistavam-se os castelos de Almeida e de Castelo Rodrigo.
O soberano outorgou o “Foral Novo” à vila em 1510, determinando a reparação do castelo e da cerca urbana. Estão documentados trabalhos de consolidação estrutural a cargo de dois artífices biscainhos, com obra realizada em Penamacor - mestre de obras João Ortega e pedreiro Pero Fernandes -, mas desconhece-se a amplitude dos trabalhos por eles executados. Foi vedor das obras Rui de Andrade, que recebeu carta de quitação do soberano. Outros nomes ligados a trabalhos aqui executados no século XVI foram os de Francisco de Anzinho e Garcia Fernandes.
O “Numeramento” de 1527 dá conta de 396 habitantes na vila.
Da Guerra da Restauração aos nossos dias
No contexto da Guerra da Restauração da independência de Portugal (1640-1668) era alcaide-mor da vila o visconde de Vila Nova de Cerveira. O castelo contava à época com uma torre abaluartada (onde se situava o aljube) e estava defendido por duas peças de artilharia, tendo sido utilizado como refúgio pelos governadores da Província da Beira. Datam deste período a construção do Poço da Escada e do Poço d'El-Rei, que garantiam o abastecimento de água potável à população da vila em caso de necessidade.
Encontra-se referido nas "Memórias Paroquiais” (1758).
No contexto da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), quando da invasão de Portugal em maio de 1762, Castelo Bom também foi cercada e ocupada por forças espanholas.
João de Almeida refere a existência de uma torre de vigia no Cabeço da Medronheira, talvez datada do século XVIII, e da qual não subsistem vestígios.
No contexto da Guerra Peninsular (1808-1814) foi ocupado por tropas napoleónicas (agosto de 1810), que fizeram explodir o castelo. A povoação foi saqueada e incendiada na ocasião.
No século XIX, diante da extinção do Concelho de Castelo Bom (1834), teve lugar um período de abandono e ruína da fortificação, que culminou com a degradação das defesas remanescentes da vila, com o aproveitamento de sua pedra pela população.
O castelo encontra-se afeto à Câmara Municipal de Almeida por Auto de Cessão de 20 de outubro de 1942.
Encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 35.443, publicado no Diário do Governo, I Série, n.º 1, de 2 de janeiro de 1946. Ainda na década de 1940 procedeu-se a intervenção de limpeza na Porta da Vila. Por volta de 1950 ainda se encontrava de pé a torre de menagem, apeada por um particular que aí pretendia construir uma corte para o burro. (Francisco Keil do Amaral)
Em 1966 foram empreendidos trabalhos de consolidação dos poços e cisterna e de arranjo das respectivas áreas envolventes.
No biénio 1987-1988 a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) elaborou um Estudo de Recuperação Urbana e Arquitectónica do Castelo.
Em 1999 procedeu-se à construção de um miradouro situado a norte, com obras de reabilitação das fachadas no centro histórico do castelo, inseridas no projeto “Aldeias Preservadas”, numa ação conjugada da autarquia e dos proprietários dos edifícios.
Atualmente podem ser vistos entre os remanescentes dos panos da muralha, a Porta da Vila, uma torre em ruínas, a pedra de armas com o antigo brasão da vila, a cisterna ("Poço do Rei"), um paiol, uma guarita e dois poços.
Características
Exemplar de arquitetura militar, gótico e abaluartado, de enquadramento urbano, na cota de 725 metros acima do nível do mar.
O castelejo apresenta planta irregular, quase retangular, envolvido por barbacã igualmente irregular, com um lado curvo, dos quais apenas subsistem alguns panos de muralha junto à "Porta da Vila", a leste, numa sequência quase contínua, e nos flancos nordeste e noroeste, desprovidos de merlões e com numerosas descontinuidades, existindo várias edificações adossadas. Algumas casas apresentam muros de cantaria que poderão constituir um reaproveitamento de materiais provenientes das antigas muralhas. A "Porta da Vila" apresenta arco quebrado no exterior e arco pleno no tardoz, com pavimento desnivelado e coberta com abóbada de berço, possuindo gonzos de cantaria. Na face interna da muralha, um lanço de escadas dá acesso ao adarve e à torre contígua de planta quadrada, em ruínas, e que apresenta nas fachadas oeste e norte o arranque de dois arcos; num pano de muro, a sul, uma pedra de armas com o brasão da antiga vila. Esta terá feito parte de um dos três arcos de entrada do castelo e que, pela ruína dos mesmos foi reaproveitado na construção de uma casa.
A cisterna denominada localmente por "Poço do Rei", situada a sul, é constituída exteriormente por corpo de planta retangular, coberto por telhado a duas águas, cujo acesso, semienterrado, faz-se através de porta em arco reto (única abertura); interiormente possui um compartimento com abóbada de berço, estruturado por dois arcos plenos.
O paiol denominado localmente por "revelim", "rebolim", "rebolinho" ou "polvorim”, cuja recuperação está prevista, é uma construção de planta circular, com caixa murária de cantaria acrescentada em altura com alvenaria; possui uma porta em arco reto virada a oeste.
Existem ainda dois poços que serviam o recinto fortificado: o "Poço da Escada" e o "Poço de El-Rei". O primeiro, no Largo de mesmo nome, apresenta planta quadrangular irregular, com guardas compostas por três fiadas de alvenaria e, no lado sudeste, o vão de acesso à escada que conduz à reserva de água, constituída por nove degraus lajeados; as paredes internas apresentam-se sem revestimento; o "Poço de El-Rei", no largo de mesmo nome, tem planta retangular, e é constituído por reservatório de água de grandes dimensões, em cantaria aparente, coberto por terraço a que se acede através de escadaria frontal com duplo lanço, com patamar a meio; no terraço, surgem duas aberturas quadrangulares, com guardas de pedra, constituindo dois poços de luz; o interior é abobadado.
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