Vila Nova de Foz Côa, Guarda - Portugal
O “Castelo de Castelo Melhor” localiza-se na freguesia de mesmo nome, concelho de Vila Nova de Foz Côa, distrito da Guarda, em Portugal.
Em posição dominante no alto de um monte, hoje envolvido pelo arvoredo, constituiu-se num castelo secundário, acessório na defesa do território de Ribacoa.
História
Antecedentes
Acredita-se que a primitiva ocupação deste local remonte a um castro pré-romano, fundado pelos túrdulos.
O castelo medieval
À época da Reconquista cristã o território do Ribacoa foi conquistado no século XII pelas armas do reino de Leão, tendo a povoação recebido das mãos de Afonso IX de Leão (1188-1230) a sua primeira carta de foral (fevereiro de 1209), ocasião em que o soberano determinou a construção das suas defesas.
Os termos de Castelo Melhor compreendiam as terras entre os rios Douro e Águeda até à confluência deste com a ribeira de Tourões, esta última até onde a atingia a “carreira” de “Porto de Carros”, e daqui, desde o referido “porto”, até à sua desembocadura no Douro.
Território disputado a Leão por Dinis I de Portugal (1279-1325), a sua posse definitiva para este último foi assegurada pelo Tratado de Alcanizes (12 de setembro de 1297). A partir de então, D. Dinis procurou consolidar-lhe as fronteiras, fazendo reedificar os castelos de Alfaiates, Almeida, Castelo Bom, Castelo Melhor, Castelo Mendo, Castelo Rodrigo, Pinhel, Sabugal e Vilar Maior.
O soberano confirmou o foral leonês à vila (12 de junho de 1298) embora as reformas que empreendeu na sua defesa atestam o papel secundário da mesma: limitaram-se ao Portão da Vila, que passou a ser guarnecido por dois torreões de planta quadrangular, transmitindo assim, ao visitante, a impressão de solidez e força, ao mesmo tempo em que se mantinha a primitiva cerca amuralhada, reforçada por um torreão adossado, vigiando a única via de acesso.
No "Catálogo das Igrejas" (1320) surge referida a paróquia de São Salvador, que correspondia à igreja situada extramuros, o que parece indicar um progressivo desenvolvimento do arrabalde em torno da igreja e dos dois eixos viários principais - em direção ao castelo e à estrada para Vila Nova de Foz Côa. Por outro lado, Castelo Melhor encontra-se integrado no termo da vila de Castelo Rodrigo, indiciando perda de importância, sinal de decadência da povoação.
Novos trabalhos de ampliação e reforço da defesa desta vila fronteiriça tiveram lugar durante o reinado de Fernando I de Portugal (1367-1383), no contexto das Guerras Fernandinas (1369-1382).
No contexto da crise de sucessão de 1383-1385 a povoação e seus domínios retornaram à posse de Castela.
Sob o reinado de João I de Portugal (1385-1433) celebrou-se o 2.º Tratado de Monção (29 de novembro de 1389), por cujos termos celebravam-se tréguas por três anos com João I Castela (1379-1390) e fazia-se a restituição mútua de terras conquistadas: Portugal cedia a Castela Salvaterra de Miño e Tuy, e recebia desta Mértola, Noudar e Olivença, no Alentejo, e Castelo Melhor, Castelo Mendo e Castelo Rodrigo, no Ribacoa.
Com a alteração das condições políticas e de segurança da região verificou-se a ascensão de Almendra, uma povoação não fortificada, com uma implantação aberta em zona planáltica, situada nos limites dos termos de Castelo Melhor e Castelo Rodrigo e que beneficiou do apoio dado à causa de D. João I na crise de 1383-1385. Em 1391, por carta-régia concedida por D. João I, Almendra obteve autonomia face a Castelo Rodrigo.
No primeiro quartel do século XV, sob os reinados de D. João I e de Afonso V de Portugal (1438-1481), tiveram lugar obras de reparação do antigo castelo. O "Rol dos Besteiros do Conto" (1422) dá conta de que a povoação tinha 1704 habitantes.
No ano de 1441 foi outorgada, pelo regente D. Pedro (1392-1449), uma carta de feira a Almendra. Pouco depois, D. Afonso V confirmou Castelo Melhor como vila e associou-lhe Almendra, passando o concelho a ser nomeado como Almendra e Castelo Melhor (1449). Associava com esse ato, numa mesma unidade territorial, o dinamismo da povoação em desenvolvimento com o prestígio da antiga fortificação parcamente povoada.
Ao final desse século João II de Portugal (1481-1495) fez a doação dos domínios de ambas a João Fernandes Cabral, por penhor de 4000 coroas, pelo seu casamento com Joana Coutinho.
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521) a "Inquirição" de 1496 refere a existência de apenas 204 habitantes na vila. O soberano confirmou a associação de Castelo Melhor e Almendra com a outorga do "Foral Novo" (1510).
O "Cadastro da População do Reino" (1527) menciona Castelo Melhor como pertencendo à vila de Almendra, a primeira com 32 moradores e a segunda com 230.
À época da Dinastia Filipina (1580-1640) a vila foi elevada a cabeça de condado a favor de Rui Mendes de Vasconcelos (1584).
Da Guerra da Restauração aos nossos dias
No contexto da Guerras da Restauração (1640-1668) foi erguida na encosta leste uma bateria para complemento da defesa.
No século XVIII era subalterna de Almendra e eram seus donatários os condes de Castelo Melhor. Nas "Memórias Paroquiais" (1758) o pároco José Gonçalves da Guerra em 17 de abril referiu que a povoação pertencia ao donatário D. José de Vasconcelos e Sousa Caminha Faro e Veiga, tendo 89 vizinhos. É referido que o castelo tinha o título de condado, sem guarnição, mas defensável em caso de necessidade. Foi elevado a cabeça de marquesado em 1766, em favor do mesmo D. José de Vasconcelos e Sousa Caminha Faro e Veiga (4.º conde de Castelo Melhor). Foi última titular Dna. Elena Maria de Vasconcelos e Sousa Ximenes (n. 1871), 7.ª marquesa de Castelo Melhor.
O concelho de Almendra e Castelo Melhor foi extinto na reorganização administrativa de 1855 passando para o de Vila Nova de Foz Côa.
O castelo encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 28/82 publicado no Diário da República, I Série, n.º 47, de 26 de fevereiro de 1982. A ZEP encontra-se definida pela Portaria n.º 336/2011, publicada no Diário da República, 2.ª Série, n.º 27, de 8 de fevereiro.
Em 1997 teve lugar uma campanha de prospecção arqueológica no recinto do antigo castelo.
O imóvel encontra-se afeto à DRCNorte pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da República, 2.ª Série, n.º 163 de 24 de agosto.
Características
Exemplar de arquitetura militar, românica e gótica, de enquadramento rural, implantado num outeiro na cota de cerca de 450 metros acima do nível do mar, sobranceiro ao aglomerado urbano, na margem direita do rio Côa; integra no seu recinto afloramento rochoso de grandes dimensões. Para norte desenvolve-se o rio Douro, a 2 km, e, para oeste, o rio Côa, a 3 km. Apresenta afinidades com o Castelo de Castelo Rodrigo.
Castelo de montanha, apresenta traçado poligonal irregular, com as dimensões de cerca de 90 x 70 metros, com muralha em aparelho de xisto miúdo, com cerca de três a seis metros de altura, desprovida de merlões, apresentando alguns desmoronamentos, embora seja possível identificar duas escadas de acesso ao adarve, uma sita a leste, e a outra localizada a noroeste, perto da cisterna.
Com uma orientação noroeste-sudeste, a porta de entrada, em arco quebrado, erigida em torre, é enquadrada por dois torreões quadrangulares com 4,85 metros de altura. Na porta de entrada denotam-se os encaixes da tranca que, à semelhança de algumas representações iconográficas e de alguns exemplos sobreviventes, permite-nos imaginar que a porta seria em madeira e reforçada com barras de ferro.
Voltado a norte, ergue-se, adossado à muralha, um torreão circular isolado, construído em alvenaria de xisto. Este tipo de torreão que permite uma defesa ativa, não se encontra em fortificações portuguesas da época no Ribacoa, surgindo, no entanto, noutras fortalezas leonesas, nomeadamente em Castelo Rodrigo.
Entre a porta e a torre, surgem vestígios de muro exterior de reforço, estrutura que surge igualmente junto à muralha sul, o que indicia a pré-existência de uma barbacã. Integra três cubelos troncocónicos adossados ao exterior da muralha nos lados leste, noroeste e oeste. A noroeste do recinto abre-se uma cisterna de planta circular com um diâmetro de 5,50 metros, sem cobertura, sendo visível a entrada e a escada de acesso ao seu interior. As suas paredes são em alvenaria de xisto e, interiormente, rebocadas com argamassa, apresentado negativos de encaixe para troncos de madeira.
O conjunto compreende ainda vestígios de várias construções de planta retangular.
A vila, orientada por duas ruas principais, ao longo dos séculos veio a ultrapassar os muros. Em sua pequena praça central, destaca-se a igreja.
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