
A “Praça-forte de Abrantes”, que integrava o “Castelo de Abrantes” e a “Fortaleza de Abrantes”, localiza-se na freguesia de União das Freguesias de Abrantes (São Vicente e São João) e Alferrarede, no concelho de Abrantes, distrito de Santarém, em Portugal.
Em posição dominante sobre uma colina à margem direita do rio Tejo, integrou a chamada Linha do Tejo.
História
Antecedentes
Acredita-se que a primitiva ocupação de seu sítio remonte a um castro lusitano, conquistado em 130 a.C., por forças romanas sob o comando do cônsul Decimus Junius Brutus, que o ampliou e remodelou. Essa posição terá sido sucessivamente conquistada por alanos (411), visigodos (492) e muçulmanos (716).
O castelo medieval
No contexto da Reconquista cristã da região, à época da afirmação da nacionalidade, a povoação foi conquistada em 1148 aos muçulmanos pelas forças de Afonso I de Portugal (1143-1185). Séculos mais tarde, o feito foi assim descrito:
“Ganharão-se as Villas de Abrãtes e Torres Novas, ambas muyto fortes em o sitio, fermeza de muros e castellos (...).” (Frei António Brandão, Monarquia Lusitana, 1632).
A necessidade de defesa da chamada “Linha do Tejo”, revestia o local de importância estratégica, num período em que a Ordem do Templo dotava o médio curso do rio de uma poderosa malha defensiva, na qual este castelo se inscreveu. Esta povoação e os seus domínios, entretanto, foram doados aos cavaleiros da Ordem de Santiago (1172).
Em 1179 Aben Jacob, filho de Joseph, rei dos Almóadas, para se vingar da incursão do infante D. Sancho (futuro Sancho I de Portugal) a Triana, nos arredores de Sevilha, na Andaluzia, no ano anterior (1178), entrou em Portugal e impôs cerco a Abrantes. Tendo as forças do infante marchado em socorro da praça, os atacantes retiraram. Ainda nesse ano o soberano outorgou à povoação carta de foral (1179), e iniciou-se uma campanha de reconstrução e reforço das defesas.
Posteriormente, Afonso III de Portugal (1248-1279) promoveu-lhe importantes melhoramentos na defesa (1250).
Dinis I de Portugal (1279-1325) por carta de arras datada de 24 de abril de 1281, outorgou como dote a sua noiva, futura esposa, D. Isabel de Aragão, as vilas de Abrantes, Óbidos, Alenquer e Porto de Mós, que a partir de então (até 1834) passariam a integrar o património das rainhas de Portugal. O soberano procedeu a remodelação da torre de menagem (1300-1303), e determinou a ampliação da cerca muralhada.
À época da crise de sucessão de 1383-1385 tomou partido pelo Mestre de Avis, rezando a tradição que foi neste castelo que se tomou a decisão de dar combate às tropas Castelhanas em Aljubarrota.
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), a povoação recebeu o “Foral Novo” (1510).
O terramoto de 1531 acarretou a ruína dos dois pisos superiores da torre de menagem.
Perdida a sua função estratégica, na segunda metade do século XVI, o castelo entrou em decadência, que se acentuou durante a Dinastia Filipina (1580-1640).
A praça-forte setecentista
No contexto da Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714), em 1704 Pedro II de Portugal (1667-1706), desejando consolidar as posições desta vila por considerá-la “(…) de suma importância militar como chave da província da Estremadura”, incumbiu dessa tarefa o conde de Soure, a quem também nomeou governador dela. O projeto das obras de fortificação ficou a cargo do engenheiro militar Manuel da Maia. À época foram ainda erguidos armazéns de munições na vila, bem como na de Tancos, com plantas desenhadas pelo mesmo.
Ainda no 1.º quartel do século XVIII teve lugar a reconstrução do Palácio dos Marqueses de Abrantes, empreendida por D. Rodrigo Anes de Sá Almeida e Meneses, feito 1.º marquês de Abrantes em 1718.
Data de 1731 uma planta assinada pelo engenheiro militar Engeleer, com a representação dos baluartes previstos e os já construídos na praça-forte de Abrantes.
Mais tarde, no mesmo século, as instalações do castelo foram adaptadas para o uso como quartel, passando a aquartelar um regimento da Cavalaria Real. Posteriormente, entre 1792 e 1799, essas instalações foram ampliadas e ocupadas pela legião comandada pelo marquês de Alorna.
Do século XIX aos nossos dias
No contexto da Guerra Peninsular (1808-1814), a vila suportou, em duas ocasiões, a passagem das tropas napoleónicas:
• em 23 de novembro de 1807, começou a ser ocupada pelas tropas sob o comando do general Jean-Andoche Junot, com o fim de assegurar a passagem do Zêzere. Aquele oficial seria, pouco depois, agraciado com o título de duque de Abrantes (março de 1808). Sobre esse episódio, o general Foy registou:
“O general Junot chegou na manhã de 24 de novembro de 1807 a Abrantes. A sua vanguarda tinha aí entrado na véspera. Ele pensava primeiro assegurar-se da passagem do Zêzere. A tomada de Punhete, pequena "cidade" situada na margem esquerda deste rio, e na sua confluência com o Tejo, devia ser, sob o ponto de vista militar, o complemento da ocupação de Abrantes.
Abrantes é uma cidade considerável. Está erguida sobre o reverso meridional duma eminência no sopé da qual corre o Tejo. Chega-se aí por caminhos estreitos e difíceis; parte de uma elevação tem velhas muralhas e um castelo arruinado. Existe uma ponte de barcas situada um quarto de légua abaixo das muralhas da 'cidade'. É a última direção de Lisboa. Dentro em pouco o Tejo, engrossado pelo Zêzere, deixa de rolar em turbilhão e desce ao mar majestoso, imenso e banhando os campos férteis situados à saída do deserto e à entrada do Alentejo de uma lado, e da Estremadura do outro. A praça de Abrantes pode exercer a mais alta influência sobre as operações de guerra. Não lhe falta senão estar melhor fortificada para ser chamada de chave de Portugal.” (FOY (Gen.). "História da Guerra da Península sob Napoleão". Paris: Baudouin, 1827.
A título de curiosidade, sobre o mesmo episódio PINHEIRO CHAGAS registou:
"A força que entrou em Abrantes no dia 24 de novembro, não excedia a 4 ou 5:000 homens, e em que deploravel estado pode-se facilmente imaginar!...
A vista de Abrantes reanimou-os. E que nada ha effectivamente mais encantador do que este ridente Valle do Tejo, principalmente quando acabam de se atravessar as aridas provincias hespanholas da raia, e os temerosos faguedos da Beira.
Tudo é risonho e sereno, tudo offerece o aspecto da opulencia e da fertilidade. O rio deslisa brandamente por entre ricos vergeis, pittorescas villas, margens verdejantes, e abraça amorosamente as ferteis lezirias.
Os soldados de Junot imaginaram que tinham entrado no Paraizo.
Bebiam regaladamente os optimos vinhos das cepas portuguezas, saltavam nos laranjaes e comiam com delicia a fructa verde, sem se importarem que ainda não estivesse avermelhada a casca..." (PINHEIRO CHAGAS, M. "Historia de Portugal: edição popular e ilustrada" (vol. XI). Lisboa: Escriptorio da Empreza, 1827.)
• em outubro de 1810 foi reocupada, pelas tropas francesas em retirada, sob o comando do marechal André Masséna, derrotadas nas Linhas de Torres.
Em 1809 a praça recebera obras de fortificação sob a inspeção do coronel de engenheiros Manuel de Sousa Ramos, não chegando a ser implementado o plano de fortificação concebido pelo capitão de engenheiros Pacton. Foi destruído o Palácio dos Marqueses de Abrantes.
Posteriormente, as instalações do castelo foram desativadas como aquartelamento, dando lugar a um presídio militar, acarretando adulteração de estruturas.
Em 1860 teve lugar a reparação da torre de menagem, reforçada com um muro exterior circundante, ordenada pelo governador general Sebastião Francisco Severo Drago Valente de Brito Correia de Lacerda Green Cabreira, primeiro e único barão de Nossa Senhora da Vitória da Batalha.
Na segunda metade do século XX procedeu-se a demolição da torre de menagem. No seu lugar construiu-se um depósito de água, reconstruindo-se de seguida a torre (1951).
O conjunto do “Castelo de Abrantes / Fortaleza de Abrantes” encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público por Decreto n.º 41.191, publicado no Diário do Governo, I Série, n.º 162, de 18 de julho de 1957.
Na década de 1960 tiveram lugar diversas intervenções no conjunto: construção de uma escada de acesso à torre de menagem (1963), demolição de construção encobrindo a muralha (1965), restauro das muralhas (1967-1968), restauro da torre de menagem, restauro da muralha virada a oeste e a sul, e reforço da torre (1969), e restauro dos paramentos das muralhas leste e norte, restauro da torre, reconstrução de um troço de 8 metros de cortina do lado norte (1970).
Novas intervenções tiveram lugar ao longo da década de 1970: consolidação de panos de muralha do lado leste e construção de portada de acesso ao recinto (1971-1972), obras na casa do governador (paramentos, caixilhos) (1973), demolição de alvenarias, pavimentação de terraços e arruamentos, e saneamento (1974). Posteriormente, em 1987 foram concluídas as instalações sanitárias.
O conjunto foi afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) pelo Decreto-lei n.º 106F/92, publicado no Diário da República, I Série A, n.º 126, de 1 de junho de 1992.
O castelo esteve encerrado ao público a partir de 2002 para obras de reabilitação, dentro de um projeto global de intervenção e de valorização do conjunto. Foi reaberto a 18 de abril de 2004.
O conjunto foi afeto à Direção Regional da Cultura de Lisboa e Vale do Tejo pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 163, de 24 de agosto. Foi afeto à DGPC pelo Decreto-Lei n.º 115/2012, publicado no Diário da República, 1.ª série, n.º 102, de 25 de maio.
Recentemente, durante escavações arqueológicas no recinto do castelo (julho de 2015) foram encontradas pinturas murais do século XVI e os fundamentos de uma torre, possivelmente do século IX.
Das várias edificações existentes no castelo, a Igreja de Santa Maria resistiu às modificações verificadas; em 1921 foi transformada em museu, hoje Museu Municipal D. Lopo de Almeida.
Características
Exemplar de arquitetura militar, românico, gótico e maneirista, abaluartado, de enquadramento urbano. O castelo, a nordeste, em parte assente em afloramentos rochosos, domina a povoação e seus arredores, do seu ponto mais elevado, na cota de 197 metros acima do nível do mar. Os baluartes implantam-se em redor da povoação, a meia encosta.
O castelo apresenta planta poligonal orgânica muito irregular, de faces predominantemente retas constituídas pelos lanços de muralha limitados por torreões de planta ovalada e semicircular. A muralha setentrional e nascente mostra paramentos verticais, parcialmente rematados por merlões prismáticos, assentando em afloramento rochoso do lado norte ou em embasamento em talude; a muralha virada a sul e a oeste, mostra paramentos mais espessos, rasgados por canhoneiras, assentes em terrapleno de paramentos em talude. O acesso ao recinto faz-se pelo lado norte, por portal de arco redondo, enquadrado por arquivoltas rusticadas, através de túnel com abóbada de berço; no torreão que flanqueia a porta rasgam-se três nichos em meia-laranja; junto à muralha sul vestígios de uma porta da traição.
No interior do recinto erguem-se a Igreja de Santa Maria e a torre de menagem. A primeira, em estilo gótico, encontra-se requalificada como museu, em cujo acervo se destacam coleções de escultura romana, escultura tumular do século XV e século XVI, além de painéis de azulejos sevilhanos e outras obras de arte. A torre de menagem, de planta quadrangular, é formada pela sobreposição de dois corpos prismáticos escalonados, com cobertura em terraço, dividida internamente em três pisos.
Adossadas à muralha oeste situam-se as ruínas do antigo Paço dos Condes de Abrantes, iniciado em torno de 1530 pelo Alcaide-mor da vila, Diogo Fernandes de Almeida, aproveitando aquele trecho das muralhas. Esta edificação foi substancialmente modificada no século XVIII por iniciativa do 1.° marquês de Abrantes, D. Rodrigo Anes de Meneses. O Paço dos Marqueses de Abrantes era marcado pela grandiosidade dos seus elementos arquitetónicos em estilo barroco, entre os quais se destaca uma magnífica “loggia”, arcada de onze vãos de volta perfeita, enquadrada simétricamente por dois torreões cilíndricos.
Reforçando os dois vértices do castelo, a noroeste e a sul, dispõem-se dois baluartes triangulares terraplenados, de paramento em talude. Os restantes troços de baluartes com idênticas características, encontram-se dispersos rodeando a povoação: o baluarte de São Pedro, o de Santo André e o de São Domingos, do lado sul; o baluarte de Santo António e o da Esperança, do lado norte.
Do recinto amuralhado da Fortaleza faz ainda parte o Outeiro de S. Pedro, pequeno morro transformado em reduto militar.
"Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"
Acerca dessa conhecida expressão popular, assim o explica NEVES (2000):
"Diz-se do que permanece sempre na mesma, sem alteração.
Respondia com esta frase o povo quando [em Portugal] perguntado sobre como iam as coisas, no tempo da primeira invasão francesa [1807]. De facto, Junot instalara, calmamente, o seu quartel-general em Abrantes. Em Lisboa, nada se fazia com intenção de se opor ao avanço do general francês. Ninguém lhe ousava resistir. D. João VI, então regente, não tomava qualquer medida no sentido de evitar a progressão de Junnot para Lisboa. Daí que, quando alguém perguntava o que se passava, a resposta fosse a frase em título." (NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Lisboa, Editorial Notícias, 2000. 408p.)
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