
O “Castelo de Almourol” localiza-se na freguesia de Praia do Ribatejo, concelho de Vila Nova da Barquinha, distrito de Santarém, em Portugal.
Situa-se num afloramento de granito que constituiu uma pequena ilha (310 metros de comprimento por 75 metros de largura) no médio curso do rio Tejo, um pouco abaixo da sua confluência com o rio Zêzere.
À época da Reconquista cristã da região integrava a chamada Linha do Tejo, constituindo hoje um dos exemplares mais representativos da arquitetura militar daquela época, atraindo 60 mil visitantes por ano.
História
Antecedentes
A primitiva ocupação humana de seu sítio remontará a um castro pré-histórico, conquistado pelos romanos no século I a.C., que o remodelaram segundo a técnica castrense, e ocupado sucessivamente por Alanos, Visigodos e Muçulmanos. Em escavações efetuadas no interior e exterior do castelo foram recuperados diversos vestígios da presença romana (moedas, uma inscrição num cipo, e restos de alicerces em opus romano) e do período medieval (medalhas, 2 colunelos de mármore, e outros).
Com relação à toponímia, não é possível precisar a sua origem ou significado, dadas as diferentes grafias da qual são conhecidas variações: Almoriol, Almorol, Almourel, Almuriel. Outros autores estabelecem ligação com o termo “Moron”, que Estrabão teria referido como cidade situada à beira do Tejo, ou com o termo “Muriella”, que consta da descrição da delimitação do Bispado de Egitânia e Corretânea.
O castelo medieval
A antiga fortificação encontrava-se em mãos portuguesas em 1129 quando D. Afonso Henriques, futuro Afonso I de Portugal (1145-1185), a doou aos cavaleiros da Ordem do Templo, na pessoa de seu Mestre em Portugal, D. Gualdim Pais, encarregados do povoamento e defesa do território entre os rios Mondego e Tejo, e da defesa da então capital de Portugal, Coimbra.
Em mãos da Ordem, o castelo foi reedificado em data que desconhecemos, tendo adquirido, em linhas gerais, as suas atuais feições. Uma placa epigráfica sobre o portão principal, dá conta que as suas obras foram concluídas em 1171, dois anos após a conclusão do Castelo de Tomar, edificado por determinação de Gualdim Pais, filho de Paio Ramires. As mesmas características arquitetónicas estão presentes nos castelos de Idanha, Monsanto, Pombal, Tomar e Zêzere, seus contemporâneos.
Elevado a sede de uma Comenda, o castelo tornou-se um ponto nevrálgico da zona do Tejo, controlando o comércio de azeite, trigo, carne de porco, frutas e madeira entre as diferentes regiões do território e Lisboa. Acredita-se ainda que teria existido uma povoação associada ao castelo, em uma ou em ambas as margens do rio, uma vez que, em 1170, foi concedido foral aos seus moradores.
Nas décadas seguintes, com o avanço da Reconquista para o sul, a sua posição perdeu importância estratégica.
Sob o reinado de Dinis I de Portugal (1279-1325), diante da extinção da Ordem do Templo (1311) pelo papa Clemente V, o património da Ordem passou para a recém-constituída Ordem de Cristo.
Nos reinados seguintes, entretanto, o castelo sofreu diversas intervenções.
Do século XVIII aos nossos dias
Sofreu extensos danos decorrentes do terramoto de 1 de novembro de 1755.
Na segunda metade do século XIX, o seu estado foi assim referido:
“O castello de Almourol, cujas ruínas representa fielmente a nossa gravura, é edificado sobre um fragoso ilheo, de forma oval, surgindo do seio do caudaloso Tejo, a pequena distancia da antiga villa de Tancos, e a cerca de dezoito legoas da capital.
Foi este castello construído, ou, para melhor dizer, reedificado, por D. Gualdim Paes, primeiro mestre da ordem do Templo em Portugal; e por consequência a sua fundação deve ser, pelo menos, anterior alguns annos a 1195, porque neste último faleceu aquelle valorosíssimo cavalleiro.
Espanta como, apesar de abandonada desde tempos immemoriaes, esta elegante fabrica se conserva ainda no estado em que a vemos; e admira ainda mais que tão pitorescas ruinas não tenham sido de alguma sorte aproveitadas, quando seria fácil até construir-se ali uma residência de verão, acastellada, que não teria inveja a nenhuma d'aquellas de que justamente se ufanam as deleitosas margens do Rheno.
Não é isto, porém, o que mais deve agora importar-nos; e por isso, sem mais preâmbulos, passaremos desde já a dar uma ideia succinta do estado actual d'este notável monumento, aproveitando para esse fim, resumindo-a, a excellente noticia que devemos á erudita penna do sr. conde de Mello. [Jornal das Bellas Artes, 1.ª serie, n.º 3, tomo 1, janeiro 1858 (?)]
Olhando do occidente para o castello, descobrem-se-lhe na cêrca exterior das muralhas, quatro torres circulares, collocadas a distancias eguaes, e mais ou menos derrocadas, sobrepujando um pouco a cortina que entre si as liga.
No meio d'esta e entre a segunda e a terceira torre, depara-se com a primitiva porta do castello, hoje inútil, a qual é de forma gothica, terminando em ogiva, e de pequenas dimensões. Superiormente a esta porta e embutida na parede, vê-se uma grande lapida, em que se distinguem alguns caracteres; mas a escriptura está em geral tão sumida e apagada, que é impossível decifrá-la.
No meio do recinto ergue-se a torre de menagem, coroada de ameias, em parte bem conservadas. Seguindo pelo lado que deita para o sul, encontra-se um pedaço de muralha, dando mostra de que alli existira outrora um caes.
Da parte do oriente as ruínas apresentam um aspecto mais formoso e variado. Continua a cêrca exterior, mostrando agora cinco novas torres da mesma forma que as quatro primeiras, sendo ao todo nove as que abraçam e defendem o recinto exterior. A par da torre de menagem, que d'este lado tem duas janellas, se eleva outra torre quadrada, e depois o primeiro recinto da fortaleza, que também d'ahi se descobre, porque a muralha levanta-se a grande altura torneando a torre de menagem; mas sem regularidade nos lanços, pois os sujeitaram n'esta parte ás sinuosidades do terreno.
No ilheo desembarca-se do lado do norte, e d'esta parte está elle todo coberto de choupos e salgueiros. Havia aqui um caminho regular para o castello; mas esse caminho acha-se obstruido de pedras, e é forçoso, querendo-se penetrar no edifício, aproveitar uma abertura que existe entre a terceira e a quarta torre.
Entrando-se de feito por aqui, encontra-se o observador em um pateo interior do castello; uma porta que deita para este pateo, e communicava indubitavelmente com os aposentos dos andares superiores, está murada; provavelmente por terem desabado ou estarem ameaçando ruina aquelles. Sobre esta porta, que também termina em ogiva, vê-se um escudo de pedra, um pouco mais branca que o resto do edifício.
Por algumas fendas que existem nas paredes, e pelas poucas e esguias janellas que deitam para esta área; se póde conhecer que os aposentos rematavam em abobada; e pelo que d'ellas resta se vê egualmente que deviam ser ornadas de ricas laçarias; nenhuma, porém, se conserva inteira n'este plano, o que é realmente muito para lastimar.
Da obra de Gualdim Paes nada mais resta hoje: mas pelo que existe pôde affirmar-se afoutamente que foi acabada com singular esmero e que alli trabalharam sem dúvida os melhores artífices que então viviam em Portugal; aliás não teria resistido tantos seculos ás injurias do tempo, e á incúria dos homens.
De situação d'este castello quasi a meio do rio, da constituição geologilica do ilheo, e por ventura da valente construção das muralhas da velha fortaleza nasceu o pensamento de fazer passar sobre elle a ponte, na qual se ha de assentar a via ferrea que deve ligar o caminho-de-ferro de leste, na secção de Lisboa a Santarém, com a linha que atravesse a província do Alemtejo em direcção a Elvas e Badajoz. N'este caso, o ilheo e castello formariam como que um gigante encontro natural d'aquella grande obra.
Sem de modo algum nos oppormos a que sejam aproveitadas convenientemente as vantagens que para semelhante fim proporciona a posição do castello de Almourol, já daqui rogamos encarecidamente a quem entender sobre este objeto, que as venerandas e poéticas ruinas sejam poupadas e reparadas.
Que os viajantes estrangeiros quando percorrerem no futuro aquela importantíssima linha, não hajam de presencear mais um acto de indesculpável vandalismo. Ao lado d'essa grande conquista do progresso, deixem existir ao menos, sem o profanar, o bello monumento do valor e heroicidade de nossos maiores.” (Arquivo Pittoresco, Semanário Ilustrado, Vol. I. 1857-1858)
Ao final do século o antigo castelo conheceu obras de restauro que, ao gosto Romântico então em voga, alteraram a sua fisionomia original com a construção de vários elementos como por exemplo a quase totalidade das suas ameias e merlões.
Na segunda metade do século o castelo foi entregue ao Exército português, sob a responsabilidade do comandante da Escola Prática de Engenharia de Tancos, a que está afeto até aos nossos dias (Ministério da Defesa Nacional).
O “Castelo de Almorol” (designação do diploma de classificação) encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo, I Série, n.º 136, de 23 de junho.
No século XX, nas décadas de 1940-1950 o conjunto foi adaptado a Residência Oficial da República Portuguesa, para o que foi feita aquisição de mobiliário pela Comissão para a Aquisição de Mobiliário e instalada rede elétrica (1955). Aqui tiveram lugar alguns importantes eventos oficiais, reforçando aspectos de uma ideologia nacionalista cultivada pelo Estado Novo português.
Posteriormente, em 1964 foi construído um caminho contornando a ilha do lado jusante desde o cais até perto do castelo do lado sul.
A Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) e o Serviços de Engenharia do Estado Maior do Exército procederam em 1996 à conservação dos panos de muralha, bem como a trabalhos de conservação e beneficiação no interior da torre de menagem, e dos pavimentos do castelo. Mais recentemente, registou-se a desagregação de algumas muralhas, devido a infiltrações de águas pluviais (2004).
No início de junho de 2006 foram inaugurados dois novos cais para embarcações turísticas: um na margem direita do Tejo e outro na zona sul da ilha.
Em setembro de 2013, iniciaram-se os trabalhos de beneficiação das muralhas e intervenção na torre de menagem do Castelo de Almourol para criar um espaço museológico. A intervenção teve a duração de oito meses, durante os quais o monumento esteve fechado ao público, e um custo de 500 mil euros, resultado de uma candidatura ao Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN), com comparticipação de 85% efetuada pela Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha, e que suportou o valor remanescente não cofinanciado.
Características
Exemplar de arquitetura militar romana, românica, gótica e revivalista, de enquadramento rural, isolado, na cota de 18 metros acima do nível das águas do rio.
Foi reedificado segundo uma mesma linha de arquitetura militar templária, que se encontra no Castelo de Tomar.
Em termos planimétricos, a opção foi por uma disposição quadrangular irregular dos espaços, caracterizando dois recintos: um exterior, a nível inferior e voltado a montante com porta de traição e cortinas reforçadas por torres circulares, altas e esguias, num total de 9; no interior em zona mais elevada, e comunicando com aquele por uma porta, panos de muralhas tendo ao centro a torre de menagem. As cortinas são coroadas de merlões quadrangulares e seteiras quadradas. Várias escadas no interior dão acesso ao adarve apoiado em cachorros. Ainda no interior, diversas portas de cantaria comunicam as diferentes partes do castelo.
A torre de menagem divide-se internamente em três pisos. Embora tenha sido bastante modificada ao longo dos séculos, mantém ainda importantes vestígios originais, como as sapatas, onde assentava o vigamento.
As demais torres são de dimensões e formas irregulares devido à configuração do terreno.
Duas lápides alusivas à reedificação de Gualdim Pais encontram-se por cima da porta de entrada e, sobre a janela aberta na torre de menagem, uma cruz patesca, adotada pela Ordem.
A questão epigráfica
Sobre a porta principal do castelo, uma inscrição epigráfica datada da era [hispânica] de 1209 (correspondente ao "Anno Domini" [era de Cristo] de 1171), menciona, além da naturalidade bracarense de Gualdim Pais e da sua ação militar contra os muçulmanos no Egito e na Síria, a sua ascensão à chefia da Ordem do Templo em Portugal e subsequente construção dos castelos de Pombal, Tomar, Zêzere, Cardiga e Almourol ("…factus domus Templi Portugalis procurator, hoc construxit castrum Palumbare, Tomar, Ozezar, Cardig, et hoc ad Almourol"), evidenciando que, naquele ano, o castelo de Almourol se achava, como os demais indicados, já construído. Entretanto, uma segunda inscrição, sobre a porta interior, informa ter sido na era de 1209 que Gualdim Pais edificou o Castelo de Almourol. Uma terceira inscrição, sobre a porta da sacristia da igreja do Convento de Tomar, igualmente datada da era de 1209, semelhante à primeira, exceto na enumeração dos castelos, que compreende também os de Idanha e Monsanto, o que evidencia ser esta terceira posterior à primeira, de vez que estes dois últimos castelos são de edificação posterior a 1171.
As lendas do castelo
Diversas lendas populares exacerbam o romantismo associado ao antigo castelo, entre as quais:
• Nos tempos da Reconquista, D. Ramiro, um cavaleiro cristão, regressava orgulhoso de combates contra os muçulmanos quando encontrou duas mouras, mãe e filha. Trazia a jovem uma bilha de água, que, assustada, deixou cair quando rudemente lhe pediu de beber o cavaleiro. Enfurecido, acabava de tirar a vida às duas mulheres quando surgiu um jovem mouro, filho e irmão das vítimas, logo aprisionado. D. Ramiro levou o cativo para o seu castelo, onde vivia com a própria esposa e filha, as quais o prisioneiro mouro logo planeou assassinar em represália. Entretanto, se à mãe passou a ministrar um veneno de ação lenta, acabou por se apaixonar pela filha, a quem o pai planeava casar com um cavaleiro de sua fé. Correspondido pela jovem que, entretanto, tomara conhecimento dos planos do pai, os apaixonados deixaram o castelo e desapareceram para sempre. Reza a lenda que, nas noites de São João, o casal pode ser visto abraçado no alto da torre de menagem e, a seus pés, implorando perdão, o cruel D. Ramiro. (PINHO LEAL, 1872 e segs.)
• Um senhor árabe de Almourol foi atraiçoado pelo cavaleiro cristão por quem a sua filha se apaixonou, e a quem esta revelou os segredos de entrada no castelo. O cavaleiro usou a informação para fazer uma emboscada e o emir e a sua filha preferiram lançar-se das muralhas ao rio a ficarem em cativeiro.
• O heroico cavaleiro Palmeirim foi acometido por uma grande tempestade que forçou o navio em que viajava, da Inglaterra para Constantinopla, a arribar na costa portuguesa, fundeando no rio Douro. Desembarcando na cidade do Porto, o cavaleiro tomou ciência das aventuras de alguns cavaleiros que tinham travado combate com o gigante Almourol, que em seu castelo a meio do rio Tejo custodiava a bela princesa Misaguarda e suas damas. Em busca de aventuras, o Palmeirim desloca-se para o sul, onde, à margem do Tejo avista à distância o Castelo de Almourol. Ao aproximar-se, vê o fim da luta entre dois cavaleiros numa praça junto do castelo, reconhecendo no vencedor o Cavaleiro Triste, com o qual já duelara. Em sinal de vitória, o Cavaleiro Triste junta o seu escudo ao de outros, que também já a haviam obtido. Neste escudo encontrava-se retratada a sua dama, a bela princesa Misaguarda, por quem o Palmeirim fica enamorado. Travando-se o combate entre o Palmeirim e o Cavaleiro Triste, cai a noite, encerrando a luta sem um vencedor. O Cavaleiro Triste é recolhido ao castelo para tratar de suas feridas, enquanto que o Palmeirim vai procurar auxílio em uma aldeia próxima. Nem um, nem outro, entretanto, alcançam o favor da princesa, que aconselha o primeiro a se retirar e desistir de novos combates por um ano, enquanto que o Palmeirim retoma o seu caminho para Constantinopla. Após esse feito, o gigante Almourol foi atacado e vencido por outro gigante, Dramusiando, sob a proteção do qual ficam, doravante, a bela princesa e sua corte. (MORAIS, Francisco de. Cronica do famoso e muito esforçado cavalleiro Palmeirim d´Inglaterra. Évora, 1567.)
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