Idanha-a-Nova, Castelo Branco - Portugal
O “Castelo de Penha Garcia” localiza-se na freguesia de Penha Garcia, concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, em Portugal.
Castelo raiano, situa-se na vertente sul da serra de Penha Garcia, uma ramificação da serra da Malcata, sobranceiro ao vale do rio Ponsul (em sua margem direita), dos restos de seus muros usufrui-se a vista da campina envolvente até ao vale Feitoso, com sua barragem.
História
Antecedentes
A primitiva ocupação humana de seu sítio remonta a um castro do período Neolítico, posteriormente romanizado, acredita-se que ligado à exploração de ouro aluvionar no rio Ponsul, praticada até ao final do século XX.
O castelo medieval
No contexto da Reconquista cristã da região, admite-se que este castelo possa ter sido erguido por iniciativa de Sancho I de Portugal (1185-1211), no escopo da política de fortificação que desenvolveu na região da Beira, diante das ameaças então representadas pelo Reino de Leão a leste, e dos Muçulmanos, a sul.
Afonso II de Portugal (1211-1223) doou os domínios de Penha Garcia e o seu castelo à Ordem de Santiago (1220), para que os povoasse e os defendesse.
Afonso III de Portugal (1248-1279) outorgou carta de foral à povoação (31 de outubro de 1256), sendo um dos signatários D. Gonçalo Garcia, filho de Garcia Mendes, senhor de vastas propriedades no local, e que terá estado na origem do nome da localidade; o diploma seguia o modelo de Ávila / Évora.
Dinis I de Portugal (1279-1325) doou os domínios da vila e seu castelo à Ordem do Templo (1303), na pessoa de seu mestre no país à época, Vasco Fernandes. Pouco depois, diante da extinção da Ordem, os bens da mesma ficaram “reservados” por determinação do soberano, transitando para a Coroa entre 1309 e 1310. Esses mesmos bens passariam para a recém-criada Ordem de Cristo em 26 de novembro de 1319.
Visando incrementar o seu povoamento, João I de Portugal (1385-1433) instituiu um couto para 12 homiziados (1431).
Afonso V de Portugal (1438-1481) fez a doação de Penha Garcia à comenda (9 de fevereiro de 1481).
Sob o reinado de João II de Portugal (1481-1495), o duque D. Manuel de Beja, futuro Manuel I de Portugal (1495-1521) doou à comenda mais 15 reais de tença na vila, acrescentados aos 15 mil que recebia (20 de março de 1486).
Tendo subido ao trono, D. Manuel I fez a doação à comenda da renda dos maninhos da vila e seu termo (1496). Deu início ainda à construção de cubelos. O castelo só tinha uma torre e, na ocasião foi-lhe adossado um edifício e construída uma muralha em cantaria.
O "Tombo da Comenda da Ordem de Cristo" (1505) forneceu-nos a descrição, com algum detalhe, do castelo da vila de Penha Garcia à época:
"(...) sobre uma serra muito alta, que se chama a Serra do Ramiro, e é nesta maneira: Da banda do sul tem uma cerca baixa de pedra e barro, ameada, com um portal e suas portas, e chega de uma ponta da fraga até à outra, em rodeando quanto é desta banda do sul. E no canto dela contra o poente se faz ora um cubelo de pedra e barro, rebocado com cal, e suas bombardeiras. A qual cerca faz dentro um terreiro e nele está uma casa de estrebaria, que leva 7 varas de longo e 4 de largo, e tem um repartimento que serve de palheiro, 4 varas e meia de longo e 4 de largo. As paredes de pedra e barro, e cubertas de cortiça e madeirada de carvalho. Subindo logo mais acima vai outra tal cerca, porém pequena e do mesmo teor, com seu portal sem portas. E tem um forno a um canto. E logo mais acima tem outra entrada com seu portal e portas, E junto do dito portal à mão destra tem uma casa térrea, soalhada sobre traves, as paredes de pedra e barro rebocadas de cal, forrada de bom olivel de castanho sobre as asnas, e coberta de telha. Esta casa serve de celeiro, e tem as quinas reais em uma pedra sobre a porta. E logo mais acima vai outra entrada de parede de pedra e barro, e com seu portal sem portas contra o norte. E mais acima está a entrada da fortaleza, com um portal e ruins portas, e logo um terreiro muito pequeno, e à mão direita dele está uma torre de menagem pequena, as paredes de pedra e barro rebocadas de cal. E leva de longo 2 varas e meia e 2 de largo. A altura sua será uma lança de armas, pouco mais. E tem uma cerca pequena de bom muro, ameada, as paredes de pedra e barro rebocadas de cal, com um peitoril da parte de dentro sobre duas casas que hi vão dentro, e seu andaimo que anda duas partes do muro, a saber, ao levante e sul. E a torre está ao ponente, e da parte do aguião vai uma grande fraga, e muito ingreme à maravilha. Uma das ditas casas que assi está dentro na dita cerca serve de cozinha, e leva 5 varas de longo e 4 de largo. E a outra serve de despensa, e leva 6 varas de longo e 5 e meia de largo, as paredes de pedra e barro, e barradas per cima sobre ripas grossas e bastas, e madeiradas de carvalho e cobertas de novo de telha. Pelo pé da dita rocha, da parte do aguião, vai ao rio de Ponsul, que hi nasce mui acerca, e das bandas do levante e ponente tem grandes penedias que são no cume da dita serra, e contra o sul está a igreja da dita vila (...)." (GOMES, Rita Costa, pp. 86-87)
Ainda à época a fortificação encontra-se retratada por Duarte de Armas no seu “Livro das Fortalezas” (c. 1509), mostrando uma cidadela fortificada, sobre afloramentos rochosos, de planta ovalada e rodeada por dupla barbacã, rasgadas por portas de verga reta e aproveitando a topografia do terreno em várias zonas; a exterior é defendida por cubelo circular, rasgado por seteiras cruciformes; no centro da cidadela, a torre de menagem hexagonal, com a zona mais exposta poligonal; junto a ela, cisterna retangular; tinha forno, celeiro, cozinha e despensa.
A vila recebeu do soberano o “Foral Novo” (Santarém, 1 de junho de 1510).
Da Dinastia Filipina aos nossos dias
No contexto da Dinastia Filipina (1580-1640) foi nomeado alcaide-mor Fernando de Sequeira e Paiva (23 de julho de 1626).
A partir do século XVII, a sua comenda passou para os condes de São Vicente da Beira.
As “Memórias Paroquiais” (1758) dão conta de que a povoação pertencia ao rei e tinha 90 vizinhos; o castelo era cercado por muros e recebia guarnição em tempo de guerra, tendo uma única porta, protegido por baluartes e uma peça de artilharia; tinha duas cisternas, um forno, casa do Governador, torre, casa do corpo da guarda e, para norte, armazéns; à distância de dois tiros, numa penha fronteira, surgia uma atalaia, também guarnecida em tempo de guerra.
A povoação foi couto do reino, ou de homiziados, até ser extinto por Maria I de Portugal (1777-1816) em 1790.
No início do século XIX foi passada carta de nomeação no cargo de alcaide-mor a Miguel Carlos da Cunha e Silveira de Lorena (1802), renovada em 1813 e 1814.
No século XIX, com a extinção do Concelho em 6 de Novembro de 1836, iniciou-se o processo de degradação do castelo, agravado pelas atividades de caçadores de tesouros.
As ruínas existentes correspondem à residência do alcaide com um pátio de entrada e uma cisterna. Ainda se mantém a construção relativa a outra das cisternas e as muralhas com ameias correspondentes à residência do governador.
A Junta de Freguesia de Penha Garcia procedeu a construção da escadaria de acesso ao conjunto e recuperação das muralhas do mesmo, com apoio do programa LEADER I, sob o patrocínio da Associação de Defesa do Património Cultural e Natural de Penha Garcia (1995). Subsiste ainda, na povoação, uma antiga peça de artilharia antecarga, de alma lisa. Esses restos não se encontram classificados ou protegidos pelo poder público.
Características
Exemplar de arquitetura militar, medieval, de enquadramento periurbano, isolado, implantado na encosta sul da serra do Ramiro, no topo de uma colina escarpada, na cota de 684 metros de altitude. Para leste e sudeste, desenvolve-se o vale escarpado do rio Ponsul; para sul e oeste, o Campo de Castelo Branco, sendo visível Monsanto a cerca de 8 km. Próximo localiza-se a Igreja Matriz de Penha Garcia, por onde se acede ao Castelo, por escadas de xisto, onde se podem observar vários fósseis.
O castelo é constituído pela residência do alcaide e conjunto de muralhas, bem como duas cisternas e uma torre. A residência do alcaide inscreve-se num quadrado de 14 varas de lado, construído por pátio de entrada, uma cisterna e duas salas no andar térreo. A altura do edifício representado nos desenhos existentes, pressupõe a existência de um andar superior com mais salas. A torre de menagem era de forma hexagonal irregular.
Em conjunto com o castelo terá existido uma cerca exterior de planta oval, defendida por torreão quadrangular.
A lenda do penhor de Justiça
Uma lenda local narra que D. Garcia, alcaide do Castelo de Penha Garcia, numa noite de tempestade, raptou D. Branca, jovem de rara beleza, filha do poderoso governador de Monsanto.
Após meses de perseguição implacável, D. Garcia acabou por ser capturado nas encostas da serrania pelos homens do governador. Embora as práticas do gênero, à época, fossem punidas com a pena capital, diante dos insistentes apelos da filha, o governador poupou a vida a D. Garcia, condenando-o, alternativamente, à perda do braço esquerdo, como penhor de justiça.
De acordo com os habitantes locais, a figura lendária do decepado continua vigiando, do alto das torres, o morro sobranceiro de Monsanto.
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