Covilhã, Castelo Branco - Portugal
As “Muralhas da Covilhã”, incorretamente referidas por vezes como "Castelo da Covilhã", localizam-se na freguesia de União das Freguesias de Covilhã e Canhoso, na cidade e concelho da Covilhã, distrito de Castelo Branco, em Portugal.
A povoação situa-se na encosta leste da serra da Estrela, rodeada por duas ribeiras, a Degoldra e a Carpinteira, tendo a seus pés o rio Zêzere e toda a Cova da Beira.
História
A primitiva ocupação humana da região remonta à pré-história. No século I a.C., com a ocupação completa da Península, os romanos terão fundado burgos fortificados, nalguns casos sobre antigos castros lusitanos. É exemplo a constituição, em 41 a.C., perto da baixa encosta da Covilhã de uma povoação chamada “Sília Hermínia”, topónimo em homenagem a Sila, cônsul romano vencedor da batalha de Munda (45 a.C.).
A fortificação da Covilhã poderá remontar a 1004, data encontrada numa pedra da muralha, momento em que a região estava sob o domínio de Afonso V de Leão (999-1027).
Sancho I de Portugal (1185-1211) outorgou carta de foral à Covilhã em setembro de 1186. Pouco depois, em seu primeiro testamento (1188 ou 1189), legou, para os muros da Covilhã, da Coina e de Coruche, 86.035 soldos e pipiões, o que pode indicar obras de execução ou ampliação nas cercas muralhadas dessas povoações.
Com essas obras ainda em andamento, a vila foi conquistada e saqueada pelos muçulmanos (1209), e rapidamente reconquistada pelas forças de D. Sancho I (1210), que lhe mandou reparar as muralhas em regime de urgência.
Afonso II de Portugal (1211-1223) confirmou o foral outorgado por seu pai (Coimbra, 1217).
Em 1300 Dinis I de Portugal (1279-1325) ordenou a reformulação do projeto defensivo, com inclusão de novas torres e, especialmente, com substancial alargamento da zona muralhada. Sobre esta iniciativa régia SILVA (1970) observou:
“Devemos salientar que, se as muralhas fossem construídas só para defender as casas da vila, D. Dinis não as construiria naquele local, pois ficaria de fora a freguesia de S. Martinho, a mais antiga da Covilhã. É que, de facto, as muralhas não serviam, em muitos casos, para proteger as casas da vila, mas sim um determinado recinto, quase sempre o de mais difícil defesa, geralmente na parte altaneira do burgo, onde se poderiam acolher, nos momentos de perigo, as populações e as riquezas. Além disso, devemos estranhar que só D. Dinis se tenha lembrado de construir as muralhas da Covilhã, quando os mouros, já desde D. Afonso II se achavam escorraçados, definitivamente (…).” (SILVA, José Aires da. “História da Covilhã”. Covilhã, 1970.)
O soberano confirmou, em 1303, o foral outorgado por D. Sancho I.
Sob o reinado de Fernando I de Portugal (1367-1383) nova campanha de obras de reparação / ampliação terá tido lugar.
Afonso V de Portugal (1438-1481) por Provisão de 24 de junho de 1459 deu despacho a uma petição para a renovação das muralhas da Covilhã, ordenando a reparação das mesmas. Este soberano autorizou, por Carta Régia datada de 1471, o Infante D. Diogo a suceder no senhorio da Covilhã. Por morte deste Infante (1489), no mesmo ano, João II de Portugal (1481-1495) doou o senhorio a seu primo, o Infante D. Manuel, futuro Manuel I de Portugal (1495-1521).
D. Manuel I outorgou o “Foral Novo” à vila (1510), confirmando todos os seus antigos privilégios, e determinando a ampliação da cintura muralhada. A data de 1510 num dos muros, por baixo do castelo, indicará as reparações feitas à época.
João III de Portugal (1521-1557) por Carta Régia atribuiu ao Infante D. Luís o senhorio da Covilhã (1527).
Da Dinastia Filipina aos nossos dias
No contexto da Dinastia Filipina (1580-1640) sob o reinado de Filipe III de Espanha (1598-1621) foi erguido, em 1614, o edifício dos Paços do Concelho. Sito à praça principal da cidade, o mesmo situava-se sobre o pano leste da muralha medieval e incluía em sua fachada a antiga “Porta da Vila”, doravante conhecido como o “Arco da Cadeia Comarcã”.
Já no contexto da Guerra da Restauração da Independência portuguesa (1640-1668), durante as Cortes de 1641 os procuradores da Covilhã advertiram para a necessidade de se realizarem obras urgentes na muralha. Desconhece-se se esses trabalhos foram efetivamente executados mas, nos séculos seguintes, a cerca medieval foi constituindo um estorvo cada vez maior para as autoridades concelhias, uma herança que dificultava a renovação urbanística do conjunto.
Sob o reinado de João V de Portugal (1706-1750), as muralhas encontravam-se bem conservadas, mas começavam a ser demolidas. À época (1734) o padre Cabral de Pina, prior de São Silvestre, registou que as muralhas formavam um polígono regular que se fechava na parte mais alta. E comentou:
“Eram estes muros bem célebres pela máquina grande de pedraria que parece imensa e pela grandeza das pedras de parede, pois em parte tem troços de comprimento de quinze palmos e outras de dezoito.” (Op. cit.)
O padre Luís Cardoso, no “Dicionário Geográfico de Portugal” (1747), sobre a Covilhã informava:
“(…) é murada, com três portas principais que são a de Val de Caravelho, a do Sol e a de S. Vicente. No cimo da vila fica o castelo com duas torres que tudo denota grande antiguidade.(…).” (Op. cit.)
Quando do grande terramoto de 1 de novembro de 1755, a Covilhã sofreu grandes danos. As “Memórias Paroquiais” (1758), na "Memória da Vila da Covilhã” sobre a defesa da vila dão conta:
"Tem esta villa muro em todo o circuito da freguezia de Santa Maria com sua fortaleza, e Castelo, quazi tudo arruinado e em partes destruido de todo, e a torre mayor cahio methade della este prezente anno, e parece foy ruina do terremoto (...)." (Op. cit.)
A freguesia de Santa Maria situava-se dentro do perímetro do castelo e, em 1758, constava de trezentos fogos.
Luiz Fernando de Carvalho Dias na “História dos Lanifícios (1750-1834)”, acerca das muralhas informou:
“Tem muros (...) e tudo de pedra de cantaria lavrada neles se acham cinco portas grandes, com seus torreões; duas para nascente, chamadas da Vila e do Sol; a terceira para Sul, denominada de S. Vicente; a quarta para Norte, com o nome de Altravelho; a quinta para o poente, chamada de castelo, junto à qual em sítio mais superior, está uma eminente torre, chamada de a menagem, com cinco quinas (...) Nos mesmos muros existem ainda quatro postigos: o da Pouza, o do Rosário, o da Barbacã e o Terreiro de D. Teresa (...).” (Op. cit.)
A pedra do castelo serviu mais tarde para erguer grandes edifícios na cidade, como a Real Fábrica de Panos da Covilhã, fundada em 1764. A esse respeito veja-se uma consulta da Junta do Comércio de 1767:
“Senhor
O administrador da fábrica da Covilhã, Paulino André Lombardi, tendo proposto a esta Junta que da diversidade e distância das casas determinadas inteiramente para o uso dos teares dos lanifícios, se seguia a incomodidade dos mestres, os quais não podiam ao mesmo tempo acudir ao ensino de uns e outros aprendizes foi deferido, que mandasse o suplicante formar um plano de toda a obra, que se julgasse necessária. E ele o representou à Junta lembra-se juntamente, e faz a sua exposição na conta inclusa, de que na vila da Covilhã se acham caídos há muitos anos todos os muros da mesma vila, estando, por consequência, inútil toda a sua pedraria; e porque esta pertence a Vossa Majestade, como também pertence a obra da casa dos lanifícios, que se intenta, considera que não será impróprio representar a Vossa Majestade a aplicação da referida pedra dos muros para o levantamento do edifício, suposta a sua inutilização presente.
Pelo que
Parece à Junta, que a proposta do administrador da fábrica doa lanifícios Paulino André Lombardi, está nos termos de ser representada a Vossa Majestade, e nesta consideração, parece que à câmara da vila da Covilhã seja V. Majestade servido ordenar, que à ordem do mesmo administrador mande entregar toda a pedraria dos muros caídos da vila, para levantamento do edifício da nova casa da Fábrica.
Lisboa a 12 de Novembro de 1767”
Ao cimo da folha do documento pode ler-se:
“Como parece, e assim o mando / ordenar. N. S. da Ajuda em 9 de / Maio de 1769 R.”
Ainda na segunda metade do século XVIII o engenheiro militar José Monteiro de Carvalho fez um desenho do Castelo da Covilhã.
Luís I de Portugal (1861-1889) elevou a Covilhã à categoria de cidade (20 de outubro de 1870).
Entre 1945 e 1950 registou-se a demolição do edifício filipino dos Paços do Concelho para dar lugar ao atual edifício da Câmara Municipal da Covilhã, inaugurado em 1958.
As “Muralhas da Cidade da Covilhã” encontram-se classificadas no conjunto do “Núcleo urbano da cidade Covilhã / Núcleo intramuros da Covilhã” como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 1/86, publicado no Diário da República, I Série, n.º 2, de 3 de janeiro.
Ao final do século XX, no ano 2000, um troço da muralha na zona da "Porta do Sol", ruiu, vindo a ser posteriormente reparado.
Em nossos dias o antigo castelo subsiste apenas na toponímia "Rua do Castelo". Da cerca medieval conservam-se ainda alguns troços importantes, por vezes integrados noutras construções e nem sempre visíveis, assim como vestígios de portas e de torres, como por exemplo junto à "Porta do Sol", onde uma alta muralha evidencia a sobreposição de camadas com vista a uma maior solidez do conjunto. Na Calçada de Santa Cruz subsiste um torreão octogonal, parcialmente revestido em cimento, que poderia corresponder à antiga torre de menagem. Entre a calçada de Santa Cruz e as Escadas do Castelo, estão inscritos em casas e quintais três fragmentos concêntricos de muralha que se podem relacionar com fases sucessivas de alargamento da cerca defensiva.
Características
Exemplar de arquitetura militar, gótico, de enquadramento urbano, na cota aproximada dos 800 metros acima do nível do mar, compreendendo uma área de cerca de 9 hectares.
As muralhas da cerca da vila, em granito, apresentam traçado irregular de tendência poligonal, construídas parcialmente sobre o afloramento rochoso, desprovidas de remate e rasgadas por várias portas e postigos, percetíveis apenas no traçado urbano. No topo norte conserva alguns vestígios relativos ao castelo da vila, nomeadamente alguns troços de muralhas e uma das torres, que a tradição local pretende seja a antiga torre de menagem.
A muralha da época de D. Dinis, ao contrário do que seria de esperar, não é de planta oval, antes forma um polígono irregular de tendência quadrangular, definido pelas seguintes vias: Rua António Augusto d'Aguiar, Rua do Norte, Calçada de Santa Cruz e Rua Capitão João d'Almeida. Cinco portas principais permitiam a comunicação de pessoas e produtos: a mais importante, a chamada “Porta da Vila”, localizava-se a leste e ligava-se à principal praça do conjunto (a da Igreja de Santa Maria) através de uma importante artéria, que separava os setores norte e sul do aglomerado urbano. As restantes portas abriam-se em cada vertente do quadrilátero, com destaque para a “Porta do Castelo” (a noroeste) - que atesta a existência de uma alcáçova - e a “Porta do Sol”, a sudeste, que colocava em comunicação a cidade com as estradas das planícies a sul.
Além destas portas, são referidas outras duas: a "Porta de São Vicente" (a sul), e a "Porta de Altravelho" (a norte). A primeira foi intervencionada em nossos dias, passando a inscrever-se num miradouro.
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