Idanha-a-Nova, Castelo Branco - Portugal
O conjunto das “Muralhas e Torre de Menagem de Idanha-a-Velha”, também referido como “Torre dos Templários”, localiza-se na freguesia de União das Freguesias de Monsanto e Idanha-a-Velha, concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, em Portugal.
O conjunto encontra-se compreendido nos testemunhos da estação arqueológica de Idanha-a-Velha, uma das mais importantes do país. De seu sítio vislumbra-se o Castelo de Monsanto, a cerca de 5 quilómetros.
História
Antecedentes
A primitiva ocupação humana de seu sítio remonta à pré-história, conforme documentado arqueologicamente.
À época da Romanização, datará de 60 a.C. a hipotética fundação do município por Júlio César, embora a povoação romana só esteja documentada a partir de 16 a.C.. À época do Imperador Augusto (27 a.C.-14 d.C.), há referência à “Civitas Igaeditanorum” (14 d.C.), no percurso da chamada Via da Prata, a estrada romana que ligava “Bracara Augusta” (atual Braga) a “Emerita Augusta” (atual Mérida). Datarão ainda do século I a construção do templo de Vénus e a construção da ponte sobre o rio Pônsul. Há referência aos “Igaeditani” na inscrição da Ponte de Alcântara (105).
Entre os séculos III e IV teve lugar o amuralhamento romano da povoação, com uma extensão aproximada de 750 metros, reforçado por seis torres de planta semicilíndrica e uma de planta retangular. Essa cerca era rasgada por duas portas.
No século VI, a Egitânia torna-se sede de bispado Visigótico (c. 561), vindo a ser erguidos a catedral, o batistério e o hipotético paço (c. 585), com a cunhagem de moeda (586-711).
Fontes muçulmanas testemunham a prosperidade económica de “Eydaiá” nos séculos IX e X, quando foi erguida a mesquita sobre a primitiva catedral visigótica e a hipotética construção da cerca muralhada da povoação.
A torre medieval
À época da Reconquista cristã a região foi conquistada pelas forças de Afonso I de Portugal (1143-1185), aqui se estabelecendo a raia frente ao Reino de Leão e ao Califado Almóada. Para vigiá-la e defendê-la, os domínios de Idanha-a-Velha e Monsanto foram doados aos cavaleiros da Ordem do Templo, com o encargo de os repovoar e defender:
"Afonso, notável rei dos Portugueses [‘Portugalensis Rex’], filho de Henrique e da Rainha D. Teresa e neto do grande e ilustríssimo Imperador de Espanha, por nós ao mestre Galdino [Gualdim] e a todos os Irmãos da Ordem dos Templários que estão no meu reino, faço uma vasta e fortíssima doação da região da Idanha [-a-Velha] e de Monsanto com os limites: Seguindo o curso da água do rio Erges e entre o meu reino e o de 'Legiones' até entrar no [rio] Tejo e da outra parte seguindo o curso da água do [rio] Zêzere que igualmente entra no Tejo (...)." (Carta de Doação de Idanha-a-Velha e Monsanto, 30 de novembro de 1165)
Sancho I de Portugal (1185-1211) confirmou a doação de Idanha-a-Velha ao 7.° Mestre da Ordem, D. Lopo Fernandes (1197), que complementou, em 1199, com a doação da Açafa. Constituiu-se assim um vasto domínio que se estendia do termo de Idanha até ao de Belver. Data desse período a transferência da sede episcopal da Egitânia para a Guarda (1199), assim como a provável reconstrução das muralhas por D. Sancho I (1208).
Sancho II de Portugal (1223-1247) outorgou foral à povoação (1229) segundo o modelo de Ávila / Évora, tendo doado o seu senhorio ao bispo da Diocese da Guarda, Mestre Vicente e determinado a reconversão da muralha. Posteriormente, o senhorio foi doado pelo soberano a Martim Martins, Mestre da Ordem do Templo (1244). Data desse período a construção da torre de menagem, sobre os restos de um templo romano (1245).
Sob o reinado de Dinis I de Portugal (1279-1325), diante da extinção da Ordem, os bens da mesma ficaram “reservados” por determinação do soberano, transitando para a Coroa entre 1309 e 1310. Esses mesmos bens passariam para a recém-criada Ordem de Cristo em 26 de novembro de 1319.
Afonso V de Portugal (1438-1481) instituiu aqui um couto de homiziados (1477).
Manuel I de Portugal (1495-1521) concedeu o Foral Novo à vila (1510). Datará deste período a renovação das muralhas e a hipotética ereção do pelourinho.
Da Dinastia Filipina aos nossos dias
No contexto da Dinastia Filipina (1580-1640) Filipe IV de Espanha (1621-1665) autorizou António de Mascarenhas a armar minas nos muros de Idanha (1624).
No contexto da Guerra da Restauração da Independência portuguesa (1640-1668) integrava a segunda linha de defesa da raia.
No contexto da Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714) as muralhas encontravam-se em estado de ruína (1708).
Nas “Memórias Paroquiais” (1758) a informação prestada pelo pároco Joaquim Martins, (27 de maio) refere que a povoação, então com 20 moradores, era da Ordem de Cristo, pertencendo à Comarca de Castelo Branco; as justiças eram feitas pelo juiz de fora de Idanha-a-Nova; tinha Câmara Municipal.
No século XIX o antigo município de Idanha-a-Velha foi declarado extinto em 1879, data em que passou a ser uma freguesia do concelho de Idanha-a-Nova.
No alvorecer do século XX, a partir de 1903, os estudiosos Félix Alves Pereira e Francisco Tavares Proença Júnior iniciaram os trabalhos de prospecção arqueológica em Idanha-a-Velha.
Posteriormente, o arqueólogo Fernando de Almeida, com a colaboração de Mendes Corrêa e de O. Veiga Ferreira, deu início a escavações arqueológicas junto às muralhas, com a identificação da porta sul do recinto (1951).
Em 1955 teve lugar a sondagem na torre de menagem, sob a direção de Fernando de Almeida e Veiga Ferreira, a que se seguiram, de 1957 a 1958, trabalhos de consolidação das muralhas e escavações junto às muralhas e à torre de menagem.
Em 1960 procedeu-se a demolição de construção adossada à torre de menagem e a reconstrução da porta sul, e realizaram-se estudo e sondagem em toda a extensão da muralha.
No ano seguinte (1961) Fernando de Almeida prosseguiu as escavações na torre de menagem e, em 1963 teve lugar a reconstrução de um troço da muralha romana.
Em 1973, sob a direção de Fernando de Almeida, procedeu-se à limpeza e consolidação das ruínas arqueológicas.
De 1989 a 1991 o arqueólogo A. Corte Real dirigiu a sondagem junto à porta norte.
A estação arqueológica foi afeta ao Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) pelo Decreto-lei n.º 106F/92, publicado no Diário da República, 1.ª série A, n.º 126, de 1 de junho.
Nova intervenção de recuperação e valorização de Idanha-a-Velha teve lugar em 1994 com recursos do IPPAR, da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova (Gabinete de Arqueologia) e do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).
As “Muralhas e Torre de Menagem de Idanha-a-Velha” encontram-se incluídas na proteção do “Conjunto arquitectónico e arqueológico de Idanha-a-Velha”, classificado como Monumento Nacional pelo Decreto nº 67/97, publicado no Diário da República, 1.ª série-B, n.º 301, de 31 de dezembro.
O imóvel das “Muralhas e Torre de Menagem de Idanha-a-Velha” foi cedido ao IPPAR em 12 de fevereiro de 1998 e afeto à Direção Regional da Cultura do Centro pela Portaria n.º 1130/2007, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 245, de 20 de dezembro.
Características
Exemplar de arquitetura militar, românico e gótico, de enquadramento urbano. Constitui-se em uma povoação fortificada situada na margem direita do rio Pônsul, implantando-se nas terras baixas a sul de Monsanto, na cota de 205 metros acima do nível do mar.
A malha urbana apresenta uma configuração indiciadora de matriz regular, estruturando-se através de dois eixos ortogonais, um de sentido norte-sul (“cardus maximus”) e outro de sentido leste-oeste (“decumanus maximus”). À ilharga do cruzamento perpendicular destes eixos forma-se o Largo da Igreja, de planta retangular, onde se situa a Igreja da Misericórdia e o pelourinho. Num eixo diagonal ao “decumanus maximus”, que se dirige para uma das portas, localiza-se a antiga Catedral / Igreja Matriz, na proximidade relativa da qual se conservam as ruínas da fortificação, cuja torre de menagem assenta na estrutura do pódio de um templo romano. O tipo construtivo dominante refere-se à casa de dois pisos, construída em alvenaria de granito ou xisto, integrando frequentemente materiais romanos. Extramuros destaca-se a Capela de São Dâmaso, a Capela do Espírito Santo e a ponte sobre o rio Pônsul. Conservam-se ainda as ruínas de um hipotético "balneum" com vestígios de estruturas abobadadas, de um "fornax" com planta retangular e estrutura também abobadada, bem como uma necrópole com sepulturas escavadas na rocha.
As muralhas medievais apresentam traçado ovalado, erguidas sobre primitivas muralhas romanas, sendo rasgadas por quatro portas voltadas aos pontos cardeais. No troço norte, observam-se merlões piramidais. A porta sul, em arco pleno é ladeada por torre de planta quadrada. No lado oeste observam-se vestígios de duas torres quadradas e mais uma, semicircular. A “Porta do Sol” já não existe, sendo assinalada apenas pela interrupção na cortina da muralha. A porta norte apresenta duplo arco pleno, ladeada por duas torres de planta semicircular.
No interior do recinto ergue-se a torre de menagem medieval, de planta retangular sem cobertura. Conjugando diferentes tipos de aparelho, assenta sobre pódio de templo romano constituído por soco rusticado e base moldurada. Sobre esta, apresenta embasamento escalonado e biselado. Possui dois registos, tendo, no primeiro, porta em arco quebrado no alçado norte. O segundo registo é rasgado por porta em arco pleno com inscrição no tímpano. Os alçados leste, oeste e sul são rasgados por frestas.
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