Belmonte, Castelo Branco - Portugal
A chamada “Torre de Centum Cellas”, também referida como “Centum Cellæ”, “Centum Celas” (estas últimas as mais corretas ), “Centum Celli”, “Centum Cæles”, “Centum Cœli” e “Centcellas”, e também como “Torre de São Cornélio”, localiza-se no monte de Santo Antão, freguesia de União das freguesias de Belmonte e Colmeal da Torre, concelho de Belmonte, distrito de Castelo Branco, em Portugal.
Situa-se numa área particularmente fértil e próxima à confluência da ribeira de Gaia com o rio Zêzere, cujos aluviões metalíferos foram explorados desde épocas bastante recuadas.
Trata-se de um monumento singular atualmente em ruínas que, ao longo dos séculos, vem despertado as atenções de curiosos e estudiosos, suscitando as mais diversas lendas e teorias em torno de si. Em termos historiográficos as funções que lhe foram atribuídas foram: “prætorium” (núcleo de um acampamento militar romano) (A. V. Rodrigues), prisão (J. Almeida), “mansio” (estação de muda) ou “mutatio” (albergaria para descanso dos viajantes) (devido à proximidade da via militar) (A. R. Belo), templo (V. Correia), e edifício residencial de “uilla” (atendendo à compartimentação interna do conjunto) (J. Alarcão).
História
Entre os séculos I e II teve lugar a construção do edifício de função ainda indefinida, por iniciativa do Imperador Augusto ou pelo general Agripa (cf. A. R. Belo), ou a organização de um provável povoado ou cidade (cf. Cristóvão Aires Magalhães Sepúlveda), numa zona de exploração mineira, na proximidade da via militar que ligava Mérida a Braga, e do hipotético castro do Monte de Santo Antão. Neste último, efectivamente existem vestígios de fortificações, tendo sido identificados no local achados da época romana.
As campanhas de escavações realizadas pelo IPPAR entre 1993 e 1998 demonstraram que o edifício da torre não se encontrava isolado, antes, sim, inserido num conjunto estrutural mais amplo e complexo, que incluía diversos compartimentos, de entre os quais sobressaiam salas, corredores, escadarias, caves e pátios. A torre revela-se assim a parte central e melhor conservada daquela que terá constituído a “uilla” de Lucius Caecilius, um abastado cidadão romano, negociante de estanho, que, em meados do século I d.C. mandou edificar a sua residência nesta zona, sob direção de um arquiteto, o qual, ao que tudo parece indicar, conheceria com profundidade as técnicas construtivas ditadas por Vitrúvio.
Este edifício foi parcialmente incendiado e destruído em finais do século III, altura em que foi alvo de algumas alterações, designadamente ao nível da disposição dos vários elementos que o compunham na origem. De entre este conjunto de remodelações, realçamos a presença de uma sala com abside e larário, para cuja edificação foram reaproveitados materiais pertencentes às estruturas preexistentes, onde apareceram sete aras decoradas, uma delas com referências a Vénus e Minerva.
Em 253 registou-se a morte de São Cornélio que, segundo a tradição, teria estado encarcerado neste edifício de 100 celas. Datará da Alta Idade Média a construção de uma capela sob a invocação de São Cornélio sobre as ruínas da própria “uilla”, reempregando, para o efeito, e uma vez mais, parte dos seus materiais constitutivos; e a existência de uma zona de enterramentos, tendo sido identificadas nove sepulturas. Datará deste período ainda, a provável construção do 3.º piso.
É possível que no período medieval a estrutura torreada tenha tido algum papel na consolidação e defesa da fronteira com o reino de Leão (ficando, v.g., na mesma linha de defesa que a Egitânia e a Guarda, fundada em 1199), tendo inclusivamente recebido foral de Sancho I de Portugal (1185-1211) em 1188, onde surge referenciada como “Centuncelli”. Assim o parece ter entendido PINHO LEAL ao referir que, na passagem do século XIII para o XIV, sob o reinado de Dinis I de Portugal (1279-1325), a torre teria sido reconstruída para servir de atalaia, enquanto os restantes anexos caíam em ruínas (“Portugal Antigo e Moderno”) – tese atualmente considerada como improvável. Em 1198 a sede do concelho foi transferida para a vizinha povoação de Belmonte, conhecendo “Centum Cellas”, a partir de então, um processo de declínio.
Data de 1630 uma referência às ruínas da povoação. O antigo templo, então em ruínas, terá desaparecido por completo no século XVIII.
O conjunto encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 14.425, publicado no Diário do Governo, 1.ª Série, nº 228, de 15 de outubro de 1927.
A Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) realizou escavação para desaterro da torre, trabalhos de consolidação de paredes e sondagens (1942 e 1944).
Em 1951 foi identificado, a 20 metros da torre, recipiente em barro contendo ossadas. Desse modo, em 1955 tive lugar escavação para sondagens, incluindo recolha de elementos arqueológicos e remoção de terras no perímetro da torre, nas entradas e junto das paredes. Na mesma época tiveram lugar trabalhos de consolidação de tramos de parede em alvenaria e cantaria, incluindo o refechamento das juntas.
No período de 1958-1959 tiveram lugar trabalhos de escavação arqueológica na envolvente, dirigidos por Aurélio Ricardo Belo, com destaque para a identificação de dois marcos miliários a c. 300 metros da torre. O espólio dessa campanha foi confiado a Fernando de Almeida em 1962.
Nova campanha arqueológica teve lugar em 1960, agora sob a direção de Aurélio Ricardo Belo: efetuaram-se trabalhos de prospeção em torno da torre com a abertura de duas valas: uma a 14 metros do alçado leste, com direcção perpendicular à parede; e outra a 1, 50 metros, paralela à parede oeste. Foram identificados de troços de parede idêntica à da torre e o espólio recolhido foi depositado no Museu Francisco Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco. Era constituído por cerâmica comum “terra sigillata”, cerâmica cinzenta fina polida, cerâmica pintada, numismas, fíbula zoomórfica, alfinete, pesos de tear, fragmentos de ossos incinerados e carvões. Francisco Tavares Proença Júnior terá identificado vestígios de exploração metalífera romana, de habitações e cemitério romanos.
O imóvel foi afeto ao Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPAR) pelo Decreto-lei n.º 106F/92, publicado no Diário da República, 1.ª série A, n.º 126, de 1 de junho. Este Instituto realizou campanhas de escavações arqueológicas sob a direção de Helena Frade em 1993-1994 e em 1998. Nova campanha de trabalhos arqueológicos teve lugar em 2001, assim como se procedeu a vedação do espaço.
O imóvel encontra-se afeto à DRCCentro pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 163, de 24 agosto.
A área intervencionada até ao momento contempla somente uma pequena parcela da “pars urbana” da “uilla”, que foi parcialmente danificada pela construção da estrada municipal que conduz ao Colmeal da Torre, passando a norte de "Centum Cellas".
Quanto às termas e à “pars rustica”, as suas zonas ainda não foram objeto de escavação, existindo a forte possibilidade de se encontrarem irremediavelmente perdidas para a investigação, ao terem sido destruídas pela plantação de vinhas, bem como pela construção de habitações recentes.
Características
Exemplar de arquitetura civil romana, de função não definida, de enquadramento rural, isolado, destacado numa zona planáltica, no sopé da vertente sul do monte de Santo Antão. Está integrado num conjunto arquitetónico de maiores dimensões, possivelmente uma “uilla” romana. Apresenta algumas afinidades com a “Torre de Almofala”, em Figueira de Castelo Rodrigo, no distrito da Guarda.
A torre, em cantaria de granito, apresenta planta retangular, de volume único, com as dimensões de 11,5 metros x 8,5 metros, elevando-se a 12 metros de altura, com ausência de cobertura, e dividida internamente, primitivamente em 2, e posteriormente 3 pisos. A composição dos alçados é regular, e os vãos apresentam lintel reto sem moldura. Atendendo à linha de orifícios murários, possuiria varanda corrida em todo o perímetro e existiria uma conduta de água construída em tijolo entre o edifício e a Ribeira de Colmeal, segundo informações locais prestadas a Aurélio Ricardo Belo.
O alçado nordeste possui, no primeiro registo, três portas equidistantes, encimadas por quatro pequenas janelas quadrangulares, a que se segue linha horizontal de orifícios. No segundo registo, porta ladeada por duas janelas quadrangulares. No terceiro registo, três vãos sem lintel e umbrais irregulares, com diversos orifícios.
O alçado sudoeste tem, no primeiro registo, três portas ou vãos equidistantes com lintel a altura desigual, encimadas por três vãos dispostos irregularmente. Um friso saliente, parcialmente interrompido, separa o segundo registo, com porta ladeada por duas janelas quadrangulares, a que se segue linha horizontal de orifícios. O terceiro registo é rasgado por três janelas equidistantes, tendo a central umbral de maior altura.
O alçado sudeste apresenta o primeiro registo estruturado em três panos com vestígios de pilastras, tendo três portas, duas das quais de composição irregular e dois pequenos vãos ao nível térreo. Friso saliente separa o segundo registo, com três portas e duas janelas quadrangulares e simétricas, a que se segue linha horizontal de orifícios. No terceiro registo, três vãos sem lintel e umbrais irregulares, apresentando diversos orifícios.
O alçado noroeste tem o primeiro registo estruturado em três panos com vestígios de pilastras, duas portas, uma das quais centrada e três vãos de configuração irregular. Um friso saliente separa o segundo registo, rasgado por três portas e duas janelas quadrangulares e simétricas, a que se segue linha horizontal de orifícios. No terceiro registo, três vãos sem lintel e umbrais irregulares, com diversos orifícios. Vãos de lintel reto sem moldura.
O interior forma um espaço único, com cornija interna. O pavimento aproveita o afloramento rochoso. O edifício encontra-se ligado a um conjunto de compartimentos dos quais apenas subsistem as fundações. Observam-se duas alas paralelas ao lado maior do rectângulo, em cujo pavimento se identificam fragmentos de elementos construtivos de cantaria, nomeadamente um fragmento de frontão, assim como um conjunto de compartimentos ainda em escavação que parecem indiciar um conjunto de grandes dimensões com planta geral em “U” ou com pátio central.
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