Celorico da Beira, Guarda - Portugal

O “Castelo de Celorico da Beira” localiza-se na freguesia de União de Freguesias de Celorico (São Pedro e Santa Maria) e Vila Boa do Mondego, concelho de Celorico da Beira, distrito da Guarda, em Portugal.
Situa-se sobre um cabeço granítico no sopé da serra da Estrela, em posição dominante sobre a vila e o rio Mondego. Do alto dos seus muros avistam-se os vizinhos castelos de Linhares (a sudoeste), da Guarda (a sudeste), de Trancoso (a norte), o Parque Natural da Serra da Estrela (a sul) e o rio Côa (a leste).
História
Antecedentes
A primitiva ocupação humana de seu sítio é obscura, admitindo-se que remonte a um castro pré-histórico. (J. Almeida; M. R. Oliveira) A povoação teria sido fundada pelo lendário Brigo, 4.º rei da Hispânia, em 1091 a.C.. (L. D. V. Silva) Outros autores admitem a sua fundação pelos Túrdulos, por volta de 500 a.C., quando se denominava “Celióbriga”. (PINHO LEAL, 1872; A. V. Rodrigues)
Acredita-se que a sua fortificação remonte à época da Romanização, com base em uma inscrição em latim encontrada em 1635, de paradeiro atualmente desconhecido, desconhecendo-se o contexto e o local da descoberta. (L. D. V. Silva; J. Almeida; M. R. Oliveira) São referidos os nomes dos capitães romanos Nigro, Sérvio e Junio, à época do imperador César Augusto (27 a.C.-14 d.C.). Nenhuma dessas hipóteses foi ainda confirmada arqueologicamente.
O castelo medieval
No contexto da Reconquista cristã da região, à época da formação da nacionalidade, foi conquistada em definitivo aos muçulmanos por D. Moninho Dola, que como recompensa terá recebido de D. Afonso Henriques, futuro Afonso I de Portugal (1112-1185), a alcaidaria do castelo. Visando incentivar o seu povoamento e defesa, o soberano outorgou-lhe foral em data que desconhecemos, tendo sido empreendidas obras na defesa com a participação dos cavaleiros da Ordem do Templo. (Adriano Vasco Rodrigues)
Certamente partilhou do destino da vizinha Trancoso, saqueada e incendiada quando da ofensiva muçulmana de 1140, que já havia conquistado e ocupado o primeiro Castelo de Leiria. Do mesmo modo, terá sido socorrido pelas forças de D. Afonso Henriques que, após repelir os agressores, determinou a recomposição das defesas e do Castelo de Trancoso.
A primeira referência documental ao castelo remonta ao contexto das hostilidades entre Afonso IX de Leão e Castela (1252-1284) e Sancho I de Portugal (1185-1211) pela posse da região, sendo alcaides dos castelos de Linhares e de Celorico da Beira respectivamente os irmãos Rodrigo e Gonçalo Mendes quando, encontrando-se Gonçalo cercado em Celorico por forças de D. Afonso IX em 1198, acorreu Rodrigo com as gentes de Linhares em auxílio do irmão, logrando vitória sob a invocação de Nossa Senhora dos Açores, em devoção a quem se ergueu uma Capela a meio caminho entre ambas as localidades, e se realiza, anualmente, uma romaria a 3 de maio.
Afonso II de Portugal (1211-1223) confirmou o foral a Celorico da Beira (1217). O seu sucessor, Sancho II de Portugal (1223-1248), promoveu obras nas defesas da vila. No momento de crise que marcou o final do seu reinado, tendo o seu alcaide, Fernão Rodrigues Pacheco, jurado lealdade ao soberano português, sofreu o assédio que lhe foi imposto pelas tropas do conde de Bolonha (1246), futuro Afonso III de Portugal (1248-1279).
Durante o século XIV, o castelo conheceu obras de reedificação e reforço sob os reinados de Dinis I de Portugal (1279-1325), e de Fernando I de Portugal (1367-1383).
No contexto da crise de sucessão de 1383-1385, vindo Portugal a ser invadido por forças de Castela, de passagem por Celorico da Beira, realizaram-lhe assalto ao castelo (1385).
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521) a “Inquirição” de 1496 regista-lhe a existência de 546 habitantes. O soberano concedeu-lhe o “Foral Novo” (1 de julho de 1512). Datará deste período a realização de obras nas defesas, assim como a construção de um passadiço de comunicação com o chamado Poço d'El Rei.
Essas medidas terão sido profícuas de modo a que, no “Numeramento” de 1527 encontra-se referida a existência de 1164 habitantes.
Da Guerra da Restauração aos nossos dias
No contexto da Guerra da Restauração da independência Portuguesa (1640-1668) as defesas da vila foram reparadas e modernizadas, com a construção de um baluarte adaptado aos modernos tiros da artilharia.
No contexto da Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714) o padre Carvalho da Costa, em 1712 referiu que D. Manuel I havia doado o senhorio da povoação ao seu aio, D. Diogo da Silva, 1.º conde de Portalegre, conservando-se nesta família até ao falecimento de D. João da Silva, 2.º marquês de Gouveia, quando retornou à posse da Coroa.
No contexto da Guerra dos Sete Anos (1756-1763) sendo seu alcaide-mor Manuel Caetano Lopes de Lavre, o castelo e a povoação foram assaltados, saqueados e danificados por tropas espanholas (1762).
No século XVIII Jerónimo Contador de Argote (1676-1749) assim descreveu o castelo em seu manuscrito:
"O Castelo conserva-se muito arruinado apesar de se verificar ainda a sua importância. Jazem as fortificações num monte perto da vila, mas no lado sul, e na maior elevação desse monte, tendo uma torre quadrada levantada, que tem 38 palmos de parede toda de cantaria lavrada. A torre tem de grossura 7 palmos e de alto 69 palmos. As ameias são 9. Ao pé da torre uma porta de arco, de 9 palmos de alto e 4 de largo. Tem um baluarte afastado da torre 20 palmos e 1 castelo roqueiro de mui formosa arquitectura e de muita grossura e largura; o muro do castelo tem de largo 8 palmos, no mais alto 40 e é coroado de ameias. Na parte do nascente tem a muralha de comprido 140 palmos e do poente 112 palmos; do norte pega com o baluarte. Isto fora o comprimento da torre. Ao meio do castelo existe uma cisterna já entulhada. Pela parte do nascente está o monte cheio de penedos e pelo sul um despenhadeiro. Pelo norte entra a muralha por uma fortificação já baixa e arruinada e rodeando-se vai ao sul entrar pela porta que está junto da torre e vão ter outra entrada para se ir a ela; entrando-se dentro por esta porta para a mão esquerda está uma escada por onde se sobe à muralha. A torre tem uma porta de 6 palmos de altura e 10 de pavimento." (in OLIVEIRA, pp. 66-67. Ver ainda Biblioteca Nacional de Portugal, Reserv., F. G. 225)
No contexto da Guerra Peninsular (1808-1814), foi utilizado como aquartelamento de tropas. O cónego Luís Duarte Vilela da Silva referiu que possuía quartéis, cisterna e aqueduto, que se comunicavam por um passadiço com o “Poço d'El Rei” (1808).
Em 1810, serviu como quartel às tropas luso-britânicas, que ademais, mantinham um hospital de campanha nas dependências da vizinha Igreja de Santa Maria.
Ao tempo da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), os liberais foram aqui perseguidos, uma vez que a maioria da população defendia a causa miguelista.
Com a paz, diante do crescimento da malha urbana durante o século XIX, foram demolidas progressivamente diversas das estruturas defensivas da vila.
- em 1817 o corregedor da Comarca pediu licença ao Quartel-General para demolir e poder dispor de pedra do castelo, nomeadamente de um poço e de uma muralha contigua, para calçar a Praça da vila, requerimento a que o marquês de Campo Maior indeferiu (GOMES, Rita Costa, p. 117);
- em 1823 o relógio da vila foi colocado no castelo, transitando, mais tarde, para a torre do relógio;
- em 20 de fevereiro de 1835 a Câmara doou pedra da cidadela ou da torre velha para a execução do pavimento do mercado, arrematado por António Luís Ribeiro, de Vale de Azares;
- em 1853 Alexandre Herculano referiu que da Torre de Menagem apenas restava um ângulo, que corresponder à atual torre situada a sudeste. (L. D. V. Silva; D. Peres) ou à atual torre situada a sudeste. (L. D. V. Silva; D. Peres);
- em 15 de abril de 1857 registou-se demolição do passadiço que ligava o castelo ao Poço d'El Rei, situado no meio da cerca. Com relação à Torre de Menagem há divergência entre os autores com relação à sua localização. Para alguns localizava-se no centro do recinto e foi demolida em meados do século XIX. (S. Dionísio; M. R. Oliveira; J. Almeida; A. V. Rodrigues)
- em 26 de fevereiro de 1874 registou-se o arrendamento de uma casa junto ao castelo, pertença de Agostinho Gaudêncio Ribeiro Cabral, por 66$800, durante 15 anos, para manter um pequeno destacamento militar.
A vila de Celorico também esteve envolvida Rebelião Realista de 1919 – a chamada “Monarquia do Norte” -, que opôs republicanos e monárquicos.
O Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo, n.º 136, de 23 de junho classificou o “Castelo de Celorico”. Essa classificação foi ampliada pelo Decreto n.º 8.176, publicado no Diário do Governo, 1.ª série, n.º 110, de 3 de junho 1922, passando a compreender o “Castelo de Celorico da Beira, com a respectiva muralha”.
O imóvel da chamada “Torre do Relógio” foi cedido, a título precário, à Câmara Municipal de Celorico da Beira (14 de outubro de 1946).
A Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) executou os primeiros trabalhos de consolidação e restauro do monumento entre 1936 e 1941, renovados na campanha de 1972-1973 quando, entre outros, foi recuperada a hoje chamada torre de menagem. Nos anos de 1981-1982 e 1986 executou trabalhos ligados à iluminação exterior do monumento.
O imóvel foi afeto ao Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR) pelo Decreto-lei n.º 106F/92, publicado no Diário da República, 1.ª Série A, n.º 126, de 1 de junho. No ano seguinte (1993), foi formulado um projeto de construção de um anfiteatro no recinto.
Em 1997 e 2007 foram realizadas duas intervenções arqueológicas no interior do recinto fortificado que forneceram um espólio arqueológico considerável, composto, na sua grande maioria, por milhares de fragmentos cerâmicos, desde a época medieval até ao período contemporâneo. Incluem-se nesse espólio alguns metais e moedas. Essas intervenções arqueológicas demonstraram que a ocupação humana deste espaço apenas terá sido permanente a partir dos finais da Alta Idade Média (século XI / inícios do século XII), não tendo sido registados quaisquer vestígios materiais que comprovem uma ocupação humana efetiva anterior a este período.
Em 2007 iniciou-se a execução de um projeto de requalificação e valorização do monumento, visando revitalizá-lo e devolvê-lo à comunidade como um espaço eminentemente cultural.
O imóvel encontra-se afeto à DRCCentro pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da Republica, 2.ª série, n.º 163, de 24 de agosto de 2009.
Embora não mais exista a cerca da vila, desaparecida desde o século XVIII, da qual subsiste apenas a chamada “Torre do Relógio”, observa-se ainda a cerca amuralhada do castelo, delimitando a cidadela, reforçada a oeste por cubelos.
Características
Exemplar de arquitetura militar, românica e gótica, de enquadramento urbano, isolado, num cabeço fortificado, a cerca de 550 metros acima do nível do mar, sobranceiro à povoação que o envolve, rodeado por penedos graníticos.
Constitui-se em um recinto amuralhado fechado, de traçado circular irregular, correspondendo à cidadela, adaptado à topografia do terreno, assentando as muralhas em maciços rochosos, desprovidas de merlões, mas conservando o adarve e escadas de acesso, não possuindo quaisquer construções adossadas, e que mantém dois cubelos nos ângulos norte e leste. Apresenta duas portas, a principal voltada a sul e a “Porta da Traição” a oeste, ambas em arco apontado e recobertas por abóbada de berço quebrado, conservando os gonzos de cantaria, que comunicam com a parte histórica da vila.
Possui dois torreões adossados ao lado oeste da muralha, um de planta quadrangular irregular e outro de planta trapezoidal irregular e desprovidos de merlões e vãos.
A hipotética torre de menagem situa-se no ângulo nordeste, de planta retangular com cobertura rebaixada a quatro águas. A fachada principal está voltada a sul, rasgada por porta de verga reta encimada por arco de descarga de perfil apontado; ao nível do segundo piso, surge o acesso ao interior, feito hoje através de um lanço de escadas metálicas e encimada por fresta em arco reto. A estrutura é coroada por merlões de face rectangular. A fachada sudeste apresenta duas frestas retilíneas e gárgula de seção semicircular, coroada por merlões de face retangular. A fachada norte possui embasamento escalonado com as arestas em bisel, rasgada por fresta retilínea, tendo duas gárgulas de seção semicircular. É coroada por merlões de perfil retangular. A fachada virada a noroeste, com fresta retilínea e gárgula de seção semicircular, coroada por merlões semelhantes aos anteriores. O seu interior é constituído por três pisos, com pavimentos e escadas de madeira.
A lenda de Fernão Rodrigues Pacheco
Após a deposição em 1245, estando o governo do reino confiado ao seu irmão, o infante D. Afonso, D. Sancho II refugiou-se em Toledo, no reino de Castela. Reza a lenda que Fernão Rodrigues Pacheco, alcaide do Castelo de Celorico da Beira, fiel a D. Sancho II, a quem prestara menagem, recusou-se a entregar as chaves do mesmo ao regente, mesmo suportando um longo cerco (1246). Quando na praça já começava a sentir-se a fome, o alcaide, inabalável, pedia aos Céus uma solução que não implicasse no desdouro de sua honra. Neste momento, percebeu nos ares uma águia trazendo nas garras uma truta, apanhada no rio Mondego. Ao esvoaçar por sobre o castelo, deixou a sua presa cair, o que sugeriu ao alcaide um estratagema: mandou fazer pão com a sua última farinha e cozinhar a truta, enviando-os como um presente ao príncipe-regente, com a mensagem de que, se por fome o esperava tomar, que visse se os homens que daquela vianda eram bem abastecidos, se teriam razão de entregar-lhe, contra as suas honras, o castelo. (Rui de Pina. Crónica de D. Sancho II). Impressionado, o príncipe levantou o cerco, tendo o castelo mantido a sua menagem até ao falecimento de D. Sancho II. O feito é recordado no brasão de armas de Celorico da Beira, exaltando a lealdade, o valor e astúcia da vila.
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