Trancoso, Guarda - Portugal
O “Conjunto arquitectónico constituído pela Torre de Terrenho, casa e capela”, também referido como “Solar dos Brasis” e “Casa das Fidalgas”, localiza-se na freguesia de União das Freguesias de Torre do Terrenho, Sebadelhe da Serra e Terrenho, concelho de Trancoso, distrito da Guarda, em Portugal.
História
Antecedentes
A povoação é muito antiga, tendo tido as designações de “Castelo de Terrenho”, “Torrinho” e “Torre”. Efetivamente, no sítio das Cabeças existem ruínas de uma torre, que se acredita ter sido uma atalaia, embora o general João de Almeida tenha considerado ter existido ali um castelo medieval, reconstruído sobre um primitivo castro lusitano. Esta, segundo a opinião dos investigadores, foi a torre que deu origem ao topónimo do lugar e freguesia.
O abade Manuel Cardoso em 1732 referiu:
“(…) teve este lugar o nome de torre de huma antiga torre que dizem ser athalaya dos Mouros, os quais, por tradição se diz tinha a sua villa ou domicilio em hum sítio que hoje chamam o crasto que fica do dito lugar da torre, para a parte do nascente huma breve distância, será a décima parte de huma legoa, de cuja villa se não acha no prezente tempo alguns vestígios; somente da dita torre existem ainda hoje os alicerces.”
O Solar da Torre do Terrenho
Em nossos dias, a que é conhecida como “Torre de Terrenho” é uma outra estrutura, de arquitetura civil, o “Solar da Torre do Terrenho”. Foi mandado edificar na década de 1720 por Luís de Figueiredo Monterroio, capitão da Armada Real, e figura muito próxima de João V de Portugal (1706-1750), personagem que adquiriu estes terrenos depois da Inquisição os ter confiscado a uma família de cristãos-novos. A unidade do conjunto arquitectónico então erguido, e a utilização de elementos idênticos no solar e na capela, permitem afirmar que se tratou de uma única campanha de obras, ainda que as informações disponíveis indiquem uma maior celeridade nos trabalhos da capela, concluída, ao que tudo indica, em 1731, e um arrastar da intervenção no solar, onde, nos primeiros anos da década de 1730, se executavam, ainda, alguns acabamentos.
Sobre o solar Francisco Hipólito Raposo, em “Beira Alta” (1987), acerca da sua chegada a Torre do Terrenho comenta que, de imediato “nos intriga, entre arvoredo, um torreão setecentista rematado a pináculos”. E esclarece que é o fabuloso solar barroco, conhecido como o Solar dos Brasis ou Casa das Fidalgas, “primoroso testemunho da relacionada pomposidade luso-brasileira nos alvores de setecentos”. Contígua à casa, ergue-se a capela sob a invocação de Nossa Senhora da Penha de França, com fachada toda em granito, onde uma lápide informa: “Esta capela a mandou fazer para si e seus herdeiros Luís de Figueiredo Monterroyo, capitão da Armada, guarda-mor e procurador dos quintos reais que foi nas minas de ouro. 1726-27”. Luís de Figueiredo encontrava-se, em 1703, numa galera ao largo da costa da Bahia, no Brasil, quando um forte temporal ameaçou destroçar o navio e levar a sua vida e a da filha. Prometeu então a Nossa Senhora da Penha que, se os poupasse, lhe faria erigir uma capela, rememorando o milagre.
O mesmo autor informa que a capela “é um esplendor do nosso barroco, lá está Nossa Senhora em apoteose, ladeada por festival de querubins, festões e grinaldas, a passarem-se também para as capelas laterais, tecto e púlpito numa exuberância rara, profundamente influenciada pelo tropicalismo sertanejo”. Ordenado sacerdote aos sessenta anos de idade, “logo ali sofremos com Luís de Monterroyo, a observar-nos da platibanda do arco triunfal onde faz duplamente retratado, na sua casaca encarnada e nas vestes negras da sua posterior ordenação, o dissipar da promessa que quis perene e está em vias de desaparecer. Como também assim vão perdendo testemunhos os dois soberbos ex-votos embutidos na capela-mor, que já mal retratam a tragédia-milagre”.
Acerca do solar, “extasiamo-nos outra vez com o espantoso teto do torreão, alardeando a espampanância do brasão dos Monterroyos, uma teoria de flores e galeria hagiológica, tudo suportado por quatro esforçados serafins-cariátides com penachos de índios do Brasil aos quais dão alento, em contraponto, os respectivos querubins-arautos”.
A Capela de Nossa Senhora da Penha, foi inicialmente classificada pelo Decreto n.º 39.175 de 17 de abril de 1953. Essa classificação foi ampliada e, atualmente, o “Conjunto arquitectónico constituído pela Torre de Terrenho, casa e capela” encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 129/77, publicado no Diário da República, I Série, n.º 226, de 29 de setembro de 1977.
Características
Exemplar de arquitetura civil e religiosa, barroco, na cota de 845 metros acima do nível do mar.
O solar, de planta irregular, é composto por uma torre de três andares, por um corpo mais baixo de dois pisos e por uma capela. Na fachada que se abre à via pública, a torre ganha especial importância ao nível do último registo, isolado por friso e aberto por três janelas, que correspondem, no interior, à sala de maior impacto do conjunto. As pilastras dos cunhais são prolongadas por pináculos e a cornija exibe gárgulas de canhão.
No corpo intermédio observam-se apenas dois pequenos vãos ao nível do piso térreo, e mais quatro, de moldura reta, no andar nobre, que coincidem com os primeiros da torre. Não se regista, neste alçado, qualquer acesso ao interior do solar, mas a pedra de armas da família, ao centro, indica que esta era a fachada de maior impacto em relação à envolvente urbana, revelando uma imagem de poder que os seus proprietários pretendiam transmitir. Por outro lado, a presença do brasão justifica-se pelo facto do frontispício da capela se encontrar neste alçado, abrindo-se, com certeza, à população local, a quem era permitido frequentar o templo sem invadir o espaço dos Monterroio, mas tendo sempre presente o prestígio de que gozavam. A fachada da capela é, aliás, a de maior impacto: em cantaria, é delimitada por pilastras que suportam o entablamento, sobre o qual são coroadas por pináculos iguais aos da torre, terminando em frontão triangular, com cruz na empena. O portal, de verga reta, é formado por pilastras e encimado por entablamento e frontão semicircular interrompido, em cujo tímpano se abre um nicho. Ladeiam-no duas janelas e, do lado direito, uma inscrição alude à edificação da capela por Luís de Figueiredo Monterroio, em 1727.
É neste espaço que se concentra a maior riqueza decorativa, denunciando a importância de que o mesmo se revestia para o capitão da Armada Real, que assim cumpria um voto de agradecimento a Nossa Senhora da Penha de França. Uma das histórias em que Monterroio escapou à morte por intervenção divina encontra-se representada na capela-mor. A capela exibe um vasto conjunto de talha dourada e polícroma: na nave, destacam-se as grades do coro alto, o púlpito e os altares laterais (estes posteriores em cerca de uma década). O teto é pintado com brutescos e com a imagem da Virgem, e o arco triunfal, ladeado por dois nichos, exibe pinturas de cariz vegetalista.
A capela-mor é totalmente revestida a talha dourada: o teto em caixotões exibe telas com representações de anjos, nos panos murários a talha enquadra sete pinturas de santos e santas (para além da arquitetura), e o retábulo-mor, em talha dourada, é de estilo joanino.
Regressando ao solar, a fachada posterior, pela qual se acede ao interior, é marcada por uma varanda alpendrada e escadaria. No interior, ganha especial interesse a sala do último andar da torre, com teto octogonal dividido em caixotões, com representações hagiográficas e vegetalistas e, no fecho, as armas da família.
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