Castelo de Marialva

Mêda, Guarda - Portugal

O “Castelo de Marialva” localiza-se na freguesia de Marialva, concelho de Mêda, distrito da Guarda, em Portugal.

Apesar de hoje praticamente abandonada, a vila de Marialva conheceu um período de franco apogeu nos séculos XII e XIII. Situada na linha de fronteira anterior ao Tratado de Alcanizes (1297), a povoação constitui uma das mais singulares ruínas de estruturas militares medievais portuguesas, mantendo a sua fisionomia praticamente intacta, quer na fortificação, quer na povoação que se desenvolveu em seu redor.

Embora não se possa afirmar com segurança qual a origem do topónimo “Marialva”, crê-se que terá sido atribuído por Fernando I de Leão (1037-1065) como tributo à Virgem Maria (“Maria Alba”) visto o culto Mariano ser uma prática comum durante os séculos XI e XII.

História

Antecedentes

Acredita-se que a primitiva ocupação humana de seu sítio remonte à Idade do Ferro, a um castro dos Aravaros, uma das várias tribos dos Lusitanos.

À época da Romanização, entre os séculos II e IV, sob os reinados dos imperadores Adriano e Trajano, teve lugar a reconstrução da “Civitas Aravorum”. Dominando a antiga estrada romana que ligava Celorico da Beira ao Douro, a urbe espraiava-se das faldas da elevação até à planície circundante, conforme os testemunhos arqueológicos e a documentação epigráfica trazida à luz do subsolo da Devesa.

Entre os séculos IV e V foi erguida uma fortificação no local do primitivo castro.

Ocupada sucessivamente por visigodos (que a denominaram como “Castro de São Justo”), e por muçulmanos, a povoação entrou em decadência nos séculos seguintes.

Em 998 da Era Hispânica (960 da Era Cristã), Chamoa Rodrigues, achando-se gravemente enferma, fez-se conduzir ao Mosteiro de Guimarães, instituindo como testamenteira a sua tia Mumadona, com o encargo de dispor de seus bens para fins de beneficência. Entre eles, incluía-se uma série de castelos, entre os quais este, de Marialva. (“Portugalia Monumenta Henricina”, “Diplomata et Chartae”, 81, Lisboa, 1867.)

Foi conquistado em 997 pelas forças de Almançor (938-1002), para ser reconquistado pelas forças de Fernando I de Leão (1037-1065) em 1063.

O castelo medieval

Afonso I de Portugal (1143-1185) encontrou a povoação abandonada. Para incentivar o seu repovoamento e defesa, outorgou-lhe carta de foral, garantindo privilégios não só aqueles que por iniciativa régia ali se estabeleceram na ocasião, mas a todos os que assim o fizessem no futuro. Embora esse documento não apresente data, acredita-se que seja posterior a 1158, admitindo-se a data de 1179. Acredita-se que a primitiva feição de seu castelo remonte a esta fase, a partir da observação das características construtivas do aparelho da muralha e de uma das torres.

Na transição para o século XIII, Sancho I de Portugal (1185-1211) prosseguiu os trabalhos de fortificação, ampliando-lhe os muros que passaram a envolver a vila. O seu filho e sucessor, Afonso II de Portugal (1211-1223), confirmou o foral à vila (novembro de 1217).

Dinis I de Portugal (1279-1325) instituiu uma feira mensal de três dias (1286), oferecendo privilégios a quem aqui praticasse o comércio, visando incentivar o povoamento da vila. À época ela já se espalhava extramuros, na direção norte. Em 1296 as suas forças partiram de Castelo Rodrigo à invasão de Castela, reivindicando as terras além do Côa, que efetivamente viriam a ser incorporadas a Portugal pelo Tratado de Alcanizes (1297). Nesse contexto, à semelhança de outros na região, o monarca determinou a reconstrução do castelo e da cerca da vila.

Quando da crise de sucessão de 1383-1385, Marialva e seu castelo tomaram o partido do Mestre de Avis, futuro João I de Portugal (1385-1433). No reinado deste soberano, o “Rol dos Besteiros do Conto” (1422), refere a existência de 2982 habitantes no termo da vila.

O regente Pedro de Portugal, 1.º duque de Coimbra (1439-1446), elevou os domínios da vila a condado tendo D. Vasco Fernandes Coutinho recebido o título de conde de Marialva (1440).

Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521) a “Inquirição” de 1496 aponta 276 habitantes no termo da vila, que recebeu do soberano o “Foral Novo” (14 de setembro de 1512 cf. Junta de Freguesia; 15 de dezembro de 1512 cf. SIPA). D. Manuel mandou fazer obras na fortificação, o mesmo o tendo feito o seu filho, o Infante D. Fernando, 1.º duque da Guarda e 1.º Senhor de Trancoso (irmão de João III de Portugal (1521-1557), marido de D. Guiomar Coutinho, filha do último conde de Marialva), concluídas sob a regência de D. Catarina d'Áustria (1557-1562), conforme testemunha a data de 1559, inscrita na muralha.

O “Numeramento” de 1527 refere a existência de 548 habitantes no termo da vila.

Da Guerra da Restauração aos nossos dias

À época da Guerra da Restauração da independência portuguesa (1640-1668) as defesas da vila conheceram obras de modernização e reforço, nomeadamente a construção de um baluarte adossado aos muros. Nesse período, Afonso VI de Portugal (1656-1667) elevou a vila à condição de marquesado (1663), cujo título foi concedido a António Luís de Meneses, nomeado conde de Cantanhede em reconhecimento pelos serviços prestados no conflito, nomeadamente em Elvas.

Após o terramoto de 1 de novembro de 1755, as "Memórias Paroquiais” (1758), sobre as defesas da vila informam:

Tem uma cinta de muralha antiga de pedra grande de cantaria, de largura de oito palmos e de altura em partes de trinta, pelo cimo com suas ameias, e por dentro à roda com muitas escadas de pedra do mesmo muro para se subir a ele, e tem tres torres que conservam os nomes, huã do Relogio outra da Relação e outra dos Namorados. No meio do terraplano em cima de um penhasco está o castelo, tambem com sua muralha À roda (...) Porem uma contra muralha se acha em varias partes arruinada, e com suas aberturas, e dentro da principal está a Paroquia da freguesia, Casa da Câmara, Cadeia e Pelourinho, e moram ainda oito vizinhos, porque os mais se tem extinguido (...)." (Op. cit.)

No mesmo ano (1758) a tentativa de regicídio contra José I de Portugal (1750-1777) causou profundas repercussões na vila, justamente por ser seu alcaide à época, o marquês de Távora, um dos principais implicados no atentado. A partir do sentenciamento da família em Lisboa (1759), a população da vila passou a abandoná-la, resumindo-se os seus moradores à área extramuros dos arrabaldes a oeste e da Devesa, no sopé da encosta a sul hoje o local mais desenvolvido de Marialva.

O estatuto concelhio foi extinto em 24 de outubro de 1855, sendo a vila integrada no município de Vila Nova de Foz Côa e, a partir de 1872 no município de Mêda.

A Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) iniciou trabalhos de intervenção e restauro no conjunto do castelo que se estenderam de 1942 a 1945. Uma nova campanha desenvolveu-se entre 1973-1974 e 1976, quando foram levados a cabo trabalhos de prospecção geral ao perímetro muralhado.

O conjunto do “Castelo de Marialva / Castelo e cerca urbana de Marialva” encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo do Decreto n.º 95/78, publicado no Diário da República, I Série, n.º 210, de 12 de setembro.

A formalização de um protocolo entre o Instituto Português do Património Cultural (IPPC) e a Câmara Municipal de Meda (1986), possibilitou a realização de obras de recuperação e beneficiação no conjunto monumental.

Nova campanha de intervenção e restauro no conjunto teve lugar em 1986-1987, nomeadamente na Capela do Senhor dos Passos, a que se seguiram, em 1990, obras de recuperação no castelo no âmbito de projeto de renovação da área intra-muros elaborado pelo gabinete técnico local, através de protocolo entre o IPPC e a Câmara Municipal da Meda.

Parte da muralha que envolvia a torre de menagem ruiu devido às fortes chuvas registadas em 27 de janeiro de 2001. Outra parte das muralhas ruiu em 2006.

O imóvel foi afeto à Direção Regional da Cultura do Centro pela Portaria n.º 1130/2007, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 245, de 20 de dezembro, atualizado pela Portaria n.º 829/2009, publicada no Diário da República, 2.ª série, n.º 163, de 24 de agosto.

Características

Exemplar de arquitetura militar, românica e gótica, de enquadramento urbano, isolado e destacado, implantado em zona de topografia acidentada, num cabeço na cota de cerca de 595 metros acima do nível do mar, sobranceiro à ribeira de Massueime e à ribeira da Teja e ao núcleo populacional da Devesa na zona baixa, com acesso através do núcleo populacional extramuros. Para leste avista-se um vasto planalto até ao rio Côa.

O conjunto foi estruturado em função do dispositivo militar, compreendendo dois núcleos amuralhados:

− a cidadela, polo militar situado na cota mais elevada do terreno; e

− a vila, no qual se identificam dois polos distintos: o administrativo, que compreende o pelourinho e a antiga Casa da Câmara, o Tribunal e a Cadeia; e o religioso, integrado por duas igrejas e um cemitério.

A cidadela é definida por uma cerca em alvenaria de granito, com planta orgânica (adaptada ao terreno em que se inscreve). É dominada pela Torre de Menagem, com planta em formato trapezoidal, coroada por ameias. A cidadela possui cisterna em alvenaria de tijolo forrado de argamassa, que remonta ao século XVI e se encontra atualmente em ruínas. A cidadela comunica-se com a vila por duas portas:

Porta da Cidadela, orientada a sul, em arco quebrado; e o

Postigo, orientado a leste, de lintel reto.

A vila estava envolvida por uma ampla cerca em alvenaria de granito, de planta aproximadamente oval, orgânica (adaptada à conformação do terreno), desprovida de merlões, da qual subsiste todo o perímetro, ainda que desmoronado em alguns troços nos lados norte e sul. É rasgada por quatro portas:

Porta do Anjo da Guarda, orientada a sudeste (comunicando com a malha urbana extramuros), em arco quebrado, coberta com abóbada de berço quebrado e encimada no exterior por nicho, observando-se ainda as medidas - padrão da vara, côvado e palmo;

Porta do Monte ou Porta da Forca, orientada a norte (comunicando com a zona mais elevada), em arco quebrado pelo interior e arco-pleno pelo exterior, coberta por abóbada de berço quebrado;

Porta de Santa Maria, orientada a leste (comunicando com a Devesa), em arco-pleno coberta por abóbada de berço e encimada por nicho no lado exterior;

Postigo, orientado a sul, em arco pleno, coberto por abóbada de berço.

No século XIV a muralha foi reforçada por três torres de planta quadrangular, no lado noroeste, o mais exposto:

Torre do Relógio, situada a oeste, apresenta planta retangular, com o 1.º registo cego, o 2.º registo com porta de lintel reto entaipada a sul, porta de lintel reto biselado a norte e janela idêntica a oeste, o 3.º registo cego e remate com ameias pentagonais.

Torre do Monte ou dos Namorados, situada a norte, de planta quadrada, com o coroamento e o cunhal sul desmoronado, conservando algumas ameias pentagonais;

Torre da Relação, situada a norte, de planta quadrada, parcialmente desmoronada. Integra um poço - cisterna, de planta circular, assente em quatro degraus octogonais e com cortina formada por duas peças de seção octogonal.

Em alguns trechos da muralha ainda são visíveis os adarves e as suas escadarias de acesso.

A área urbana encontra-se arruinada, mas nela destacam-se:

− A antiga Casa da Câmara, Tribunal e Cadeia - possivelmente remontando ao século XVII terá ainda funcionado como escola nos séculos XIX e XX. Apresenta planta retangular irregular e dois pavimentos, com dois compartimentos interiores cada. Na fachada principal surge o corpo da sineta e uma escada de acesso ao segundo piso. Possui ainda um escudo com as Armas de Portugal.

− O poço-cisterna

− O Pelourinho - possivelmente do século XVI com características manuelinas, ergue-se num plano ligeiramente inclinado e está assente em quatro degraus de forma octogonal. A coluna é de fuste liso e rematada por um capitel em forma de pirâmide invertida, também de secção octogonal. O conjunto é coroado com outra pirâmide octogonal com uma esfera esguia no topo e que é separada da pirâmide inferior por uma pequena coluna central fina e apoios de ferro (estes colocados pela DGEMN para reforço).

Os dois templos estão assentes numa plataforma horizontal:

Igreja da Misericórdia ou Capela do Senhor dos Passos - possivelmente do século XVII em estilo maneirista de inspiração clássica. Apresenta planta retangular simples e um portal de linhas retas na fachada principal, rematado por um frontão em que se insere um nicho com abóbada de concha e volutas laterais. No interior encontra-se um retábulo em talha dourada e policromada que deverá ter sido introduzido no século XVIII.

Igreja de Santiago - edificada em 1585, apresenta características manuelinas e barrocas, constituída por uma nave retangular única de cobertura em abóbada de berço, uma capela-mor totalmente revestida a talha sem pintura e sacristia anexa. A fachada principal é composta por um portal em arco pleno com remate de linhas entrelaçadas e com moldura em conjunto de duas arquivoltas que se prolongam para as laterais da entrada em dois colunelos.

No conjunto encontra-se ainda um cemitério, estrutura mais recente, do século XIX e, fora de portas, duas cisternas.



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Contribuições

Atualizado em 21/09/2018 pelo tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.


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  • Ruínas Conservadas

  • Proteção Nacional
    O conjunto do “Castelo de Marialva / Castelo e cerca urbana de Marialva” encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo do Decreto n.º 95/78, publicado no Diário da República, I Série, n.º 210, de 12 de setembro.





  • Centro Turístico-Cultural

  • ,00 m2

  • Continente : Europa
    País : Portugal
    Estado/Província: Guarda
    Cidade: Mêda



  • Lat: 40 -55' 12''N | Lon: 7 13' 56''W










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