
O “Forte de São Vicente” ("Obras Militares n.ºs 20, 21 e 22"), também referido como “Obra Grande de São Vicente”, localiza-se na freguesia de União das Freguesias de Torres Vedras (São Pedro, Santiago, Santa Maria do Castelo e São Miguel) e Matacães, concelho de Torres Vedras, distrito de Lisboa, em Portugal.
História
De acordo com Júlio Vieira, a construção da capela no local remonta ao século XII, por iniciativa de Afonso I de Portugal (1143-1185). No século XIII a capela encontra-se referida documentalmente (1267).
No contexto da Guerra Peninsular (1808-1814), os trabalhos da Obra Grande de São Vicente foram os primeiros a iniciar-se em 1809, com a função de defesa da estrada que ligava Coimbra a Lisboa. Pouco depois, o major Brandão de Sousa deu a designação de “Forte de São Vicente de Torres Vedras” a esta obra militar. Tendo as forças napoleónicas sido detidas na Primeira das Linhas de Torres Vedras, este forte não chegou a entrar em ação.
O conjunto, tal como as restantes fortificações das Linhas de Torres foi desguarnecido e desartilhado em 1818.
Em 1829 o capitão britânico John Thomas Jones, do Corps of Royal Engineers, recordou que, à época do conflito, a guarnição destes redutos seria:
− Obra Militar n.º 20- 470 soldados, artilhada com 5 peças do calibre 12, 2 do 6 e 1 obus de 5 ½”;
− Obra Militar n.º 21 - 270 soldados, artilhada com 2 peças do calibre 9, 2 do 6 e 1 obus de 5 ½”;
− Obra Militar n.º 22 - 380 soldados, artilhada com 5 peças do calibre 12, 3 do 6 e 1 obus de 5 ½”;
− A cortina sul estaria guarnecida por 150 homens, a oeste por 90 homens e a Nordeste por 360 homens.
No contexto da Guerra da Patuleia (1846-1847), o combate em 1846, entre as tropas Cabralistas sob o comando de José Lúcio Travassos Valdez, 1.º conde do Bonfim, e as Cartistas, sob o comando do marechal Saldanha (João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Doun), arruinaram capela, sendo a imagem do orago transferida para a Igreja do Ameal (1846). Esta foi a única vez que uma força atacou diretamente uma das fortificações das linhas. Após a Convenção de Gramido (1847), que trouxe a paz a Portugal, a maioria destes fortes deixou de ter qualquer função militar e foram autorizados a cair gradualmente em ruína.
Um mapa militar datado de 1895 refere a designação de "São Vicente" para a fortificação.
A partir de 1957, com o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras (CMTV), teve lugar uma campanha de obras que construiu extensa canalização até ao cume do monte de São Vicente, assegurando o fornecimento de água e luz ao local, enquanto uma força de 120 homens do Regimento de Engenharia instalaram-se no antigo forte, tendo procedido à desobstrução do fosso que circunda os redutos e das canhoneiras maiores que os guarnecem, e à reconstrução de muros e paióis.
Posteriormente, por auto de concessão, o Exército Português entregou à Legião Portuguesa a vigilância e manutenção da fortificação (4 de dezembro de 1961). A seu turno, o Comando Distrital da Legião Portuguesa entregou a guarda e conservação do forte a um funcionário da Câmara, passando aí a residir (Casa do Guarda, que foi ampliada e criados novos anexos), situação que se transferiu para os familiares do mesmo após o seu falecimento.
O conjunto do “Forte e Capela de São Vicente” encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público, pelo Decreto n.º 47.508, publicado no Diário do Governo, 1.ª Série, n.º 20, de 24 de janeiro de 1967. A ZEP conjunta da "Capela e Forte de São Vicente e da Ermida de Nossa Senhora do Ameal" encontra-se definida pela Portaria n.º 715/77, publicada no Diário da República, 1.ª série, n.º 268 de 19 de novembro de 1977.
Em maio de 1980 R. W. Bremner visitou o forte, que se encontrava restaurado e bem conservado. Durante a década de 1980 registou-se, entretanto, o crescimento de vegetação (arbustos e árvores), assim como o desmoronamento geral dos traveses. Visando atender a conservação do conjunto, entre 1983 e 1988 a Escola Prática de Infantaria (EPI), em apoio à Câmara Municipal, enviou recrutas para o forte, para procederem a trabalhos de limpeza e reconstituição de taludes e traveses (P.º 8 f; of. 1835/9 mai. 1986 da Câmara Municipal de Torres Vedras).
Ainda no âmbito dessa cooperação, em 1984 registou-se uma proposta da Câmara Municipal ao Estado-Maior do Exército para transferência da responsabilidade do forte para a EPI.
Em 1987 foi assinado um protocolo de Conservação, Segurança e Valorização do Forte de São Vicente de que foram signatários o Instituto Português do Património Cultural (IPPC), o Estado-maior do Exército e a CMTV. A Câmara solicitou ao Instituto Geográfico e Cadastral (IGC) a remoção do marco geodésico que se encontrava colocado sobre a cúpula da capela, vindo ela própria a assumir os custos do processo de transferência do marco geodésico, para outro local (1989-1990). As obras de recuperação da capela e construção de espaço museológico e de exposições tiveram lugar entre 1991 e 1992, orçados em 13.000.000,00 de escudos.
Também entre 1989 e 1990 a Câmara elaborou um conjunto de normas provisórias de proteção ao Forte de São Vicente, com vista a conter, cercear e disciplinar o crescimento urbano na ZEP do imóvel.
O conjunto encontra-se afeto à Câmara Municipal de Torres Vedras por auto de cessão datado de 5 de janeiro de 1993.
Em 2001 a EPI realizou trabalhos de limpeza e manutenção do conjunto do forte, levada a cabo anualmente, de acordo com protocolo existente entre o Estado-maior do Exército e a Autarquia.
A Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) elaborou a Carta de Risco do imóvel (janeiro de 2006).
Em junho de 2011 registou-se a conclusão das obras de restauro do conjunto fortificado, que incluíram a demolição das construções recentes (casa do guarda) e seus anexos, consolidação estrutural, refechamento de juntas, reconstrução pontual dos muros, desobstrução do fosso e das canhoeiras, reconstituição dos traveses, reparos gerais e limpeza, tratamento da envolvência e abate de árvores de grande porte.
Foi declarado em Vias de Classificação, incluído no processo da “1.ª e 2.ª Linhas de Defesa a Norte de Lisboa durante a Guerra Peninsular, também conhecidas como Linhas de Torres, nos concelhos de Arruda dos Vinhos, Loures, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Torres Vedras e Vila Franca de Xira, no distrito de Lisboa” (128 obras militares), pelo anúncio n.º 12/2013, publicado no Diário da República, 2.ª Série, n.º 9, de 14 de janeiro.
O conjunto das fortificações das Linhas de Torres Vedras foi declarado património nacional pela Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) no dia 1 de março de 2018, sendo classificado como Monumento Nacional em 21 de março de 2019.
Em julho de 2017 as dependências da antiga capela passaram a abrigar o Centro de Interpretação das Linhas de Torres Vedras, onde se destaca um modelo do semáforo utilizado para comunicação entre os fortes, assim como uma apresentação multimédia acerca da história das Linhas.
Características
Exemplar de arquitetura militar, oitocentista, e arquitetura religiosa, medieval, de enquadramento urbano, a 118 metros acima do nível do mar. O conjunto implanta-se no topo do monte de São Vicente dominando a vila de Torres Vedras, a cerca de 3 km de distância, e inscreve-se na 1.ª Linha do sistema defensivo das Linhas de Torres Vedras. Foi o forte mais pesadamente fortificado do conjunto dessa Linhas.
Apresenta planta sensivelmente em “Y”, formado por 3 redutos abaluartados, assimétricos, a sudeste, sudoeste, e noroeste, e pelas cortinas sul, oeste e nordeste, em talude, com cerca de 1.500 metros de extensão, rasgados por canhoeiras, separados por fossos profundos, o que exigia pontes levadiças para a sua ligação.
A Praça de Armas situa-se entre o reduto mais a norte e o mais a sul.
Da fortificação conservam-se ainda 3 paióis, de planta circular e outras construções defensivas.
O conjunto integra, a leste, na cota mais elevada, capela de antecedentes medievais, de planta retangular abside circular e tendo adossado algumas dependências. A avaliar pelos vestígios, inicialmente era coberta por abóbada. A capela-mor, com arco triunfal em cantaria, tem cúpula semiesférica.
Uma lápide com mapa e outra com inscrição, registam:
"A 19 de Outubro de 1992, por ocasião das comemorações / da defesa das Linhas de Torres Vedras visitou este Forte e a cidade / de Torres Vedras, Sir ARTHUR VALERIAN DUQUE de WELLINGTON, / Marquês de Torres Vedras"
O conjunto encontrava-se artilhado com 39 peças, e guarnecido por 2.200 homens, podendo comportar até 4.000 homens, em caso de necessidade. Contava ainda com um posto semafórico.
Juntamente com o Castelo de Torres Vedras, então artilhado com 11 peças, constituíam os dois redutos da vila, defesa complementada por uma bateria fechada, próxima do Varatojo (Reduto da Cruz do Varatojo).
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