Lisboa, Lisboa - Portugal
O “Campo Entrincheirado de Lisboa” (CEL) localizava-se na Área Metropolitana de Lisboa, no distrito de Lisboa, em Portugal.
Erguido entre o final do século XIX e o início do XX, constituiu-se num sistema de defesa da capital portuguesa, tanto contra ataques terrestres, como marítimos. Concentrando a maioria do esforço militar português, o CEL constituiu o principal meio de defesa do país durante a primeira metade do século XX, e só viria a ser completamente desativado em 1999.
História
Antecedentes: a defesa de Lisboa, dos séculos XV ao XVIII
Em termos estratégicos, a questão da defesa marítima de Lisboa sempre se colocou aos monarcas portugueses, nomeadamente a partir da afirmação do processo de expansão marítima ao final do século XV.
Assim, sob o reinado de João II de Portugal (1481-1495) foi delineado um plano de defesa da barra do rio Tejo e do porto da capital, baseado na construção de três fortificações adaptadas ao tiro rasante da artilharia da época: a Torre de São Sebastião da Caparica, na margem esquerda (sul) do rio, a Torre de Santo António de Cascais e a Torre de São Vicente de Belém, na margem direita (norte).
O plano joanino iniciou-se com a construção da Torre de Cascais, com a função de vigia avançada na barra norte do rio, e da Torre da Caparica, na margem sul, destinada a cruzar fogos com a Torre de Belém, que só viria a ser iniciada no reinado de seu sucessor, Manuel I de Portugal (1495-1521). Enquanto isso, a meio do Tejo fundeou-se a chamada “Grande Nau”, uma embarcação de 1.000 tonéis artilhada, que cooperava, provisoriamente, com as baterias em terra.
A partir do século XVI, a crescente dinâmica da Carreira da Índia atraiu corsários e piratas que chegaram a perseguir as naus portuguesas até à barra do Tejo, às portas de Lisboa. A construção da Torre de Belém, principiada no início do século, procurou constituir uma resposta a esta necessidade de controlo e defesa do acesso marítimo à cidade. Erguida sobre um afloramento rochoso fronteiro à praia de Belém, totalmente cercada pelas águas do rio, evocava nos seus contemporâneos a memória da nau que a antecedera. Ficava assim completo o triângulo defensivo da barra, com vértices no Restelo, em Cascais e em Porto Brandão, simbolicamente assegurado pelos três santos lisboetas por excelência.
A partir de então foram construídas outras estruturas de defesa e vigilância da costa nas imediações da capital, mas que apenas minoraram a gravidade das ameaças, como por exemplo a Torre de São Gião (embrião da Fortaleza de São Julião da Barra), iniciada em meados do século XVI por determinação de João III de Portugal (1521-1557), e a Torre de São Lourenço da Cabeça Seca (embrião da Torre do Bugio), ao final do reinado de D. Sebastião de Portugal (1557-1578).
Afora essas iniciativas, em termos práticos a capital continuava sem um plano estratégico de defesa, uma vez que, do final do século XIV ao início do século XVII, os esforços da Coroa concentraram-se nas necessidades imediatas de fortificação das posições portuguesas face às necessidades do comércio ultramarino. Nesse período as fortificações portuguesas multiplicaram-se ao longo das costas africanas, em ambas as margens do Índico, e no litoral do Brasil. Ainda assim, o saque do Funchal, na ilha da Madeira, por corsários franceses em 1566 deixou exposta "a extrema fragilidade das posições portuguesas". (MOREIRA, 1986, p. 146)
Ao final do século XVI Francisco de Holanda já havia alertado D. Sebastião da necessidade de reformulação das defesas da capital, na “Lembrança ao muito sereníssimo e cristianíssimo Rei D. Sebastião sobre a fortificação e reparo de Lisboa”, com que introduziu a sua obra “Da Fábrica que falece à cidade de Lisboa” (1571) onde afirmou:
“Mas por não ser ingrato à gloriosa memoria de El-Rei vosso avô, que Deus tem, que me mandou sendo eu moço a Itália ver e desenhar as fortalezas e obras mais insignes e ilustres dela (como fiz), trazendo-lhas todas em desenho, com muito trabalho, cuidado e perigo meu, para o servir quando cumprisse: já que por culpa do tempo nunca se aproveitaram de mim, em muitas obras em que pudera servir este reino como o pequeno talento meu, determinei, ainda que ando ao presente mui longe destas coisas, de deixar antes de minha morte a Vossa Alteza, muito sereníssimo Rei e Senhor, esta breve lembrança da fortificação e reparo de Lisboa, que tão pouca conta com isso tem e que tanto lhe releva: assim para o serviço vosso, como para a quietação e paz destes reinos.” (HOLANDA. Da Fabrica que falece à cidade de Lisboa, 1985, fls. 3-3v.)
O desaparecimento prematuro de D. Sebastião (1578), que deu lugar à crise de sucessão de 1580 e à Dinastia Filipina (1580-1640), inscreveu o Império Português nas questões militares e nos projetos de fortificação do Império Espanhol.
A Restauração da Independência portuguesa (1640) e o consequente conflito que se iniciou com a Espanha, a chamada Guerra da Restauração (1640-1668) vieram a alterar o fundo estratégico e político que então emoldurava as questões de defesa militar. Tornou-se urgente guarnecer as fronteiras de Portugal com fortificações capazes de afirmar e sustentar a integridade do território quer por terra, quer por mar. E se a implantação de praças-fortes e fortificações na zona lindeira, privilegiando a solução abaluartada, foi a fórmula adotada, a ameaça de um assalto da Armada Espanhola a Lisboa impôs a reformulação da estratégia de defesa da barra do Tejo. Em 1642 o Conselho de Guerra de Portugal incumbiu desta comissão o então Governador das Armas da Praça de Cascais, D. António Luís de Meneses, 3.º conde de Cantanhede. O plano então concebido passava pela construção de uma ampla cintura fortificada cobrindo enseadas, praias e pontos vizinhos aos canais de navegação entre Lisboa e a barra norte do Tejo, para dissuadir possíveis tentativas de desembarque.
A chamada Linha Fortificada de Defesa da Barra do Tejo foi dividida em três jurisdições militares com foco em três praças de guerra: a mais ocidental, a Fortaleza de Nossa Senhora da Luz em Cascais, seguindo-se mais a oriente a Fortaleza de São Julião da Barra em Oeiras. De Algés até à zona oriental de Lisboa seguia-se a jurisdição de Lisboa ou da Corte, sediada na Torre de São Vicente de Belém. Estas três praças eram apoiadas por vários fortes mais pequenos, erguidos ao longo da costa desde o Cabo da Roca até Belém.
O século XIX, da Guerra Peninsular à Guerra Civil
Ao longo do século XIX, a Guerra Peninsular (1808-1814), a Guerra Civil (1828-1834) e diversas intervenções militares estrangeiras em Portugal, conduziram ao desenvolvimento da doutrina de que era impossível defender a totalidade do território nacional com os meios disponíveis. Ao mesmo tempo observou-se que, sendo Lisboa, além da capital, o mais importante centro populacional e económico do país, a invasão de Portugal seria quase inútil sem a conquista desta cidade. Concluiu-se assim, que a melhor forma de defender Portugal seria defender Lisboa com todos os recursos disponíveis. Os estudos também indicavam a necessidade de algum esforço para a defesa do Porto, o segundo centro do país.
No contexto das Invasões Francesas já se havia construído um complexo sistema de fortificações para a defesa da capital, as “Linhas de Defesa de Lisboa”, melhor conhecidas por “Linhas de Torres”. O sistema compunha-se de quatro linhas:
- A 1.ª, entre Torres Vedras e Alhandra, complementada pela chamada “Bateria do Tejo”, uma flotilha de canhoneiras;
- A 2.ª, entre a Ericeira e Vialonga;
- A 3.ª, em torno da Fortaleza de São Julião da Barra (destinada unicamente a proteger a retirada das tropas britânicas, caso as duas primeiras fossem rompidas);
- A 4.ª linha envolvia a península de Setúbal, protegendo as aproximações a Lisboa e à barra do Tejo pela margem sul.
Posteriormente, durante a fase final da Guerra Civil (1828-1834), após a tomada de Lisboa pelas tropas liberais, e na expectativa de uma tentativa de reconquista pelas tropas absolutistas, em 1833 foi reativado um sistema de fortificações em torno da capital. Seguindo o modelo das "Linhas de Torres", consistia num arco que, iniciando-se em Alcântara, contornava a cidade e terminava no Tejo, junto à Madre de Deus. Englobava 27 obras de fortificação ligadas entre si por entrincheiramentos de terra, muros seteirados e obstáculos naturais, definindo três linhas de defesa:
- A 1.ª linha, avançada, constituída por fortes independentes;
- A 2.ª linha, constituindo um anel de 11 fortificações permanentes ou semipermanentes - Monte Sintra, Ponta da Aguieira, Arpaulas, Costa da Luz, Moinho do Marco, Moinho do Campo, Alto do Abraão, Alto do Cotão, Alto de Cabeças, Casal do Mocho e Forte do Duque de Bragança, ascendendo a 600 peças de artilharia -, complementadas por parapeitos de circunvalação e redutos de terra, entre Sacavém e Caxias;
- A 3.ª linha, já no interior da cidade, consistia num anel de fortes, redutos e baterias entre Alcântara e a Madre de Deus, com a função de defesa do porto de Lisboa. Aqui, as principais obras de fortificações eram as baterias da Cruz da Pedra, de Manique e dos Apóstolos, o reduto do Alto de São João, as baterias da Penha de França e dos Sete Castelos, o reduto da Quinta do Pina, as baterias das Águias, dos Ciprestes e da Horta da Cera, os redutos da Vinha do Manique, do Arco do Cego e da Cova da Onça, as baterias da Quinta do Seabra, do Atalaia, de Campolide, do Alto do Carvalhão, da rua dos Poisos, dos Prazeres, do Livramento e o baluarte da Alfarrobeira.
Existia ainda uma linha de defesa na margem sul do Tejo, que assegurava a proteção da barra de Lisboa, com fortificações na Trafaria, Monte da Caparica, Pragal e Cacilhas, comandadas a partir de Almada.
Em 1857 o marquês de Sá da Bandeira, então ministro da Guerra, nomeou a primeira comissão que se iria dedicar aos estudos das defesas de Lisboa e do Porto.
Para Lisboa, os primeiros estudos recomendaram um sistema defensivo com três linhas. A linha avançada formaria um anel entre Sacavém e o Forte de São Julião da Barra. A defesa interna seria baseada nas fortificações da 3.ª das Linhas de 1833, complementadas por uma fortificação central, em Monsanto, o ponto mais elevado de Lisboa. Estava ainda prevista uma linha defensiva da margem sul, com centro no Forte de Almada, e complementada por um anel de fortificações entre a Trafaria e Cacilhas. Com base nestes estudos, iniciou-se, em 1863, a fortificação na serra de Monsanto.
Em 1874, a comissão à época encarregue dos estudos das fortificações de Lisboa, elaborou um relatório em que era recomendada a instalação de um recinto de segurança entre Sacavém e Caxias, ao invés do aproveitamento das Linhas de 1833. Em 1876, com a morte do marquês de Sá da Bandeira, que vinha sendo o responsável pela direção dos trabalhos das fortificações de Lisboa, e a sua substituição por Sanches de Castro, o plano de aproveitamento das linhas de 1833 foi definitivamente abandonado. O novo plano, que acabou por ser implementado, previa:
- Linha de Defesa Avançada, com fortificações em Alhandra, Sobral de Monte Agraço e Mafra;
- Linha de Fortes Destacados, num anel entre Vialonga e Sintra;
- Recinto de Segurança entre Sacavém e Caxias, com fortificações de apoio em Monsanto, Alto do Duque, Bom Sucesso e Ameixoeira;
- Linha de defesa na margem sul do Tejo, com diversas baterias, centralizada no Forte de Almada.
O Recinto de Segurança Sacavém-Caxias passava a concentrar a maioria das fortificações e do esforço defensivo. Este seria delimitado por uma linha de nove fortes permanentes, interligados por uma estrada militar, protegida, ao longo do seu percurso, por um entrincheiramento, parapeitos para infantaria e posições de artilharia.
Enquanto isso, os trabalhos de fortificação prosseguiam: o Forte de Monsanto, considerado o reduto central do sistema, foi concluído e classificado como Praça de Guerra de 1.ª Classe, comandada por um general, do qual, igualmente dependiam as demais fortificações de Lisboa.
O Campo Entrincheirado de Lisboa
Em 1899, com os trabalhos já bastante avançados, foi criado, oficialmente, o Campo Entrincheirado de Lisboa, Praça de Guerra de 1.ª Classe, englobando o conjunto das fortificações que formavam o sistema defensivo da capital portuguesa. Em 1901 foram fixados os limites do CEL, divididos em dois setores defensivos:
- o Setor Norte compreendia o Recinto de Segurança Sacavém-Caxias:
- o Setor Sul, compreendia as fortificações na margem sul do Tejo.
Em 1902, com a conclusão da estrada militar entre o Forte de D. Luís I em Caxias, e o Forte do Monte Cintra em Sacavém, ficavam praticamente concluídos os trabalhos de fortificação.
O CEL foi organizado como um comando militar com um general governador – diretamente dependente do ministro da Guerra –, um estado-maior e tropas privativas de artilharia e engenharia. O seu estado-maior e as suas tropas estavam, permanentemente, num elevado estado de prontidão, sendo a sua organização e os seus efetivos em tempo de paz próximos dos de tempo de guerra. Além das suas forças privativas, em caso de ataque, a guarnição do Campo Entrincheirado seria reforçada com tropas de outros comandos militares, especialmente da 1.ª Divisão do Exército, sediada em Lisboa.
O dispositivo militar português no continente, no período entre o final do século XIX e o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), ficou organizado de modo que o seu esforço se concentrasse na defesa do CEL. Além do Exército, a própria Marinha de Guerra, concentrava grande parte dos seus meios e do se esforço a esta defesa.
Finda a Primeira Guerra Mundial, o conceito de defesa em que assentava o CEL tornou-se obsoleto. Assim, na sequência da reorganização do Exército Português, levada a cabo em 1926, o CEL e a 1.ª Divisão Militar territorial foram fundidos, dando origem ao Governo Militar de Lisboa. Este, além de funcionar como uma região militar, ficou responsável pelas fortificações de Lisboa. A maioria destas, no entanto, a partir de então deixaram de ser utilizadas como tal, sendo transformadas em depósitos, paióis e prisões.
No contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), diante da ameaça de uma agressão externa, as defesas da capital portuguesa foram reorganizadas. Além de defesas terrestres e de costa, foi implementado um complexo sistema de defesa antiaérea, que fez de Lisboa uma das cidades mais bem protegidas do mundo, comparável a Londres, durante os ataques da Luftwaffe na Batalha da Inglaterra (1940)
Perdida a sua função estratégica, o Recinto de Segurança Sacavém-Cacilhas foi formalmente extinto em 1965. Entretanto, algumas das fortificações costeiras do antigo CEL, mantiveram-se ativas, guarnecidas pelas batarias do Regimento de Artilharia de Costa, só vindo a ser desativadas com a extinção deste em 1999.
Características
Exemplar de arquitetura militar, de enquadramento urbano.
O núcleo do CEL formava um perímetro - que contornava os limites terrestres da cidade de Lisboa, numa linha que se estendia de Sacavém a Caxias - constituído pelas seguintes fortificações:
- Forte do Monte Cintra, em Sacavém;
- Forte de D. Carlos I, na Ameixoeira;
- Forte do Marquês de Sá da Bandeira, em Monsanto;
- Forte de D. Luís I, em Caxias.
O Forte de Monsanto era considerado o reduto central do sistema defensivo, onde se encontrava o comando da linha defensiva.
Para a interligação destes fortes foi aberta uma estrada de comunicação: a “Estrada Militar do Recinto de Segurança do Sector Norte”, também referida como “Estrada Militar de Caxias-Sacavém”.
O perímetro terrestre do CEL era complementado por fortificações que protegiam a linha do Tejo, a saber:
- Forte do Bom Sucesso;
- Forte do Alto do Duque.
A frente marítima, a barra do Tejo, a margem sul e as aproximações a Lisboa eram protegidas por outras fortificações, onde se destacavam:
- Forte de São Julião da Barra, em Oeiras;
- Forte de Almada, em Almada.
Diversos outros fortes, redutos, postos, baterias e outras fortificações secundárias, complementavam o sistema de fortificações terrestres.
As fortificações do CEL receberam modernas peças de artilharia de praça, de posição e de costa, de 280 mm e 150 mm. Foram ainda equipadas com projetores e interligadas por linhas telegráficas e telefónicas, meios bastante avançados para a época.
A defesa do CEL era ainda complementada pelo meios da Marinha de Guerra atribuídos a essa função, em particular a corveta-couraçada Vasco da Gama (incorporado em 1876 para esse fim, artilhado com duas peças de 203mm e uma de 150mm), uma esquadrilha de torpedeiros (a partir de 1881), o Serviço de Torpedos Fixos (minas marítimas) e, mais tarde, submarinos.
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