Crato, Portalegre - Portugal
As “Fortificações do Crato”, também referidas como “Castelo do Crato” e “Castelo da Azinheira”, localiza-se na freguesia de União de Freguesias de Crato e Mártires, Flor da Rosa e Vale do Peso, no concelho de Crato, distrito de Portalegre, em Portugal.
Situa-se em posição dominante sobre a vila, elevada em 1340 à condição de sede da Ordem de São João de Jerusalém (ou do Hospital, atual Ordem de Malta) em Portugal.
História
Antecedentes
Pouco se conhece acerca da primitiva ocupação humana do sítio do castelo, alguns autores identificando vestígios de uma fortificação romana nos alicerces do castelo medieval.
O castelo medieval
À época da Reconquista cristã da península Ibérica, a região do Crato passou para o domínio cristão desde 1160. O seu repovoamento, entretanto, só se registou a partir de 1232, após a doação, por Sancho II de Portugal (1223-1248), dos domínios de Amieira, Gavião e “Ucrate” (ou “Ocrato”) à Ordem do Hospital, com a obrigação de fomentá-los e fortificá-los. Desse modo, D. Frei Mem Gonçalves, 1.º prior de Leça, deu início à construção do Castelo do Crato. Visando atrair povoadores, a povoação recebeu carta de foral, passada pela Ordem a 18 de dezembro de 1270 da Era de César (1232 da Era Cristã).
No reinado de Afonso IV de Portugal (1325-1357), entre 1336 e 1341 procedeu-se à transferência da sede da Ordem, de Leça do Bailio para a vila do Crato, com instituição do Priorado do Crato, que se constituiu em cabeça da Ordem após a batalha do Salado (1340).
Os trabalhos de edificação do castelo prosseguiram durante o século XIV, conforme testemunham algumas cartas de Pedro I de Portugal (1357-1367), datadas de 1358 e 1359, onde se referem a abertura de "cauas & barbacas, em cada uma das Villas do Crato e da Amieira". Em 1430, o 5.° Prior do Crato, D. Frei Nuno Gonçalves de Góis (1419-1440), promoveu a reconstrução do castelo e a delimitação de um novo recinto amuralhado.
No contexto da menoridade de Afonso V de Portugal (1438-1481), tendo D. Duarte deixado como regente a rainha D. Leonor de Aragão, o país mergulhou numa crise política onde se alinharam de um lado, a nobreza, que a apoiava, e de outro, a burguesia, que dela desconfiava. A agitação popular levou a que fossem convocadas as Cortes de 1439, que no mês de dezembro, em Lisboa, elegeram o Infante D. Pedro como Regente do reino. Com o aprofundamento da crise, em novembro de 1440, a rainha retirou-se para o Castelo de Almeirim e dele para o Castelo do Crato, vizinho à fronteira, sob a proteção do prior da Ordem, onde aguardou uma prometida intervenção das forças de Castela a seu favor, a qual acabou por não se materializar. Assustada, D. Leonor refugiou-se no reino vizinho (29 de dezembro), onde veio a falecer poucos anos mais tarde. O Castelo do Crato, cercado pelas tropas do Regente D. Pedro, foi arrasado na ocasião, voltando a ser reconstruído mais tarde.
Sob o reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), a povoação recebeu o “Foral Novo” (1512). Alguns anos mais tarde, em novembro de 1518, realizaram-se, no palácio do castelo, as núpcias do soberano com D. Leonor de Castela.
Uma nova etapa construtiva no conjunto teve lugar quando da celebração do casamento de João III de Portugal (1521-1557) com D. Catarina de Áustria, aqui, em 1525, quando foi reconstruído o portão de armas do castelo. Estes eventos ilustram a importância e estado de conservação do castelo no período.
Da Dinastia Filipina ao século XIX
Posteriormente, no início do século XVII, entre 1615 e 1621, Pedro Nunes Tinoco desenhou a povoação e as suas fortificações, legando-nos o mais antigo desenho conhecido das mesmas.
No contexto da Guerra da Restauração (1640-1668), as defesas do Crato foram modernizadas, passando a integrar a segunda linha defensiva da fronteira. Para tanto, a partir de 1642 foram promovidas obras de beneficiação que envolveram o castelo medieval numa fortificação abaluartada, com planta poligonal disposta em estrela irregular de quatro pontas, ao invés da planta trapezoidal que até então apresentava, com cinco torres nos ângulos (uma das quais a de menagem). Os muros foram guarnecidos de baluartes e casamatas, e adaptados à utilização de artilharia. Em 1662 as obras prosseguiam, então a cargo do engenheiro militar Luís Serrão Pimentel. Naquele mesmo ano a vila foi cercada e conquistada pelas tropas espanholas sob o comando de D. João de Áustria (29 de outubro de 1662), que promoveram a destruição das suas defesas. No incêndio deflagrado, foram consumidos os documentos do Cartório e Arquivo do Priorado da Ordem.
Os séculos seguintes acentuaram o estado de ruína do conjunto, tanto das estruturas medievais como das modernas, desaparecendo a Casa do Governador, a ponte levadiça, baluartes e outros, tendo chegado aos nossos dias apenas alguns trechos de muralha, uma guarita, a cisterna, duas torres arruinadas e algumas canhoneiras. Da casa do governador do castelo subsistem apenas algumas arcadas.
Do século XX aos nossos dias
A partir de 1 de março de 1939, os remanescentes da fortificação foram adquiridos pelo embaixador Dr. Rui Teixeira Guerra.
A partir da segunda metade da década de 1940, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) iniciou-lhe trabalhos de consolidação e restauro, com a reconstrução de panos de muralhas (1946), conservação (1956 e 1958), reparos de estragos causados pelas chuvas (1963), conservação e reconstrução (1977, 1980, 1983, 1985 e 1988-1989).
O conjunto das “Fortificações do Crato” foi classificado como Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 28/82, publicado no Diário da República, I Série, n.º 47, de 26 de fevereiro.
Em 1989, o Arquiteto António Maria da Calça e Pina Teixeira Guerra, filho do embaixador, na qualidade de representante do proprietário, transmitiu o imóvel à Câmara Municipal do Crato. Esta, por sua vez, concessionou-o, a 19 de setembro desse mesmo ano, por um contrato de 99 anos, à ADR - Agência de Desenvolvimento Regional, Lda., cujo gerente é o mesmo Arquiteto. Este profissional apresentou, a 7 de novembro de 1991, um projeto de conservação e revitalização do castelo, de sua autoria, cuja execução iniciou-se já no ano seguinte (1992). Novos trabalhos foram executados a partir de 1997, a cargo da Fundação do Castelo do Crato, que, além da conservação do existente, possuía uma proposta de erigir nova obra, englobando museu (gipsoteca e salas de exposição), sede administrativa da Fundação, salas de conferências, centro audiovisual/multimédia, núcleo de alojamento com capacidade para 15 a 20 pessoas, restaurante e área de lazer.
O baluarte norte foi recentemente restaurado com as suas doze casamatas e uma guarita.
Características
Exemplar de arquitetura militar, medieval e moderna, de enquadramento urbano e rural.
O castelo medieval situa-se na parte mais alta da vila, no cimo de encosta rochosa, à cota de c. de 272 metros acima do nível do mar. No século XVII foi transformado em um fortim abaluartado, irregularmente estrelado, com 5 pontas, com paredões de tipo medieval a leste e um redente a sul/sudoeste. Da fortificação medieval subsistem ruínas na zona central, sob a forma de muros isolados ou com estruturas que se lhes adossaram para o levantamento de plataformas de artilharia. Da fortificação moderna subsistem as ruínas de 4 redentes de faces escarpadas com uma guarita no vértice noroeste; quartéis na zona norte, com vestígios de chaminés e de nichos; uma construção subterrânea, de que restam apenas as paredes, no terrapleno do redente sul; estruturas abobadadas para a construção de plataformas de artilharia na zona central, com canhoeiras voltadas para leste; ruínas do que parecem terem sido instalações militares subterrâneas na zona central, a sul. A oeste rasga-se a porta principal do fortim, conservando os escaninhos de ponte levadiça, e uma cisterna ao centro da fortificação.
A cerca urbana desenvolve-se para norte, noroeste e oeste. A partir do fortim, e no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio: troço leste da muralha, com ressalto no primeiro terço e terminando num torreão arruinado, de seção retangular, que flanqueava a inflexão da muralha para noroeste; troço de muralha até à Porta de São Pedro, para noroeste, constituído por três segmentos isolados, o último dos quais ligado ao torreão, de seção retangular, da Porta de São Pedro; troço de muralha angular, na zona oeste, com restos de um torreão no vértice; troço sul da muralha, que se liga ao castelo/fortim, subindo a encosta. No castelo e cerca urbana as muralhas são perpendiculares ao solo.
A cerca era amparada por seis torres: a do Sino, a de Seda, a de São Pedro, a da Porta Nova, a de Beringal e a de Santarém.
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Ajuda
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