
A “Praça-forte de Évora” localiza-se no concelho e distrito de Évora, em Portugal.
História
Antecedentes
A primitiva ocupação humana da região remonta a mais de cinco mil anos, como o testemunham expressivos monumentos megalíticos como a Anta do Zambujeiro e o Cromeleque dos Almendres. A região constitui-se no principal núcleo do megalitismo do interior português durante o Neolítico, com o povoado mais próximo situado no Alto de São Bento, ou o chamado Castelo de Giraldo, habitado continuamente desde o 3.º até ao 1.º milénio a,C., e de esporádica ocupação na época medieval. Os trabalhos arqueológicos, porém, não demonstraram até ao momento se a área da atual cidade era habitada antes da chegada dos romanos.
Évora localizava-se no território dos célticos, uma confederação tribal a sul do rio Tejo e dos lusitanos que incluía tribos como os eburones (no interior), os sefes e os mirobricenses, cujo povoado principal era Miróbriga, atual Santiago do Cacém, (no litoral do atual Alentejo). Etimologicamente o nome “Ebora” provém do antigo celta “ebora” ou ”eburã”, caso genitivo plural do vocábulo “eburos” (teixo), nome de uma espécie de árvore, pelo que o seu nome significa "dos teixos".
O período Romano
De acordo com uma lenda popularizada pelo humanista e cronista eborense André de Resende (1500-1573), Évora teria sido quartel das tropas do general romano Sertório, que, com os lusitanos, teria enfrentado o poder de Roma.
Évora foi elevada à categoria de município sob o nome de “Ebo
ra Liberalitas Júlia”, título honorífico concedido por Júlio César c. 60 a.C.. Sob o governo de Augusto (27 a.C.-14 d.C.), Évora foi integrada à Província da Lusitânia e beneficiada com uma série de transformações urbanísticas, das quais o templo romano de Évora - dedicado provavelmente ao culto imperial - é o vestígio mais importante que chegou aos nossos dias, além de ruínas de banhos públicos localizadas no edifício da Câmara Municipal. Até 1570 existiu na atual Praça do Giraldo um arco triunfal romano adornado com estátuas. O autor romano Plínio, escrevendo no século I, chama a cidade de “Ebora Cerealis”, presumivelmente pela abundância agrícola da região, e considera-o um povoado fortificado que já existia antes do domínio romano.
No século III, num contexto de instabilidade política do Império, a cidade foi cercada por uma muralha, da qual subsistem alguns elementos.
Nos finais da época romana, com a cristianização da península, Évora foi sede de um bispado. Um certo Quinciano bispo de Évora (“Quintianus episcopus Elborensis”) figura na lista de bispos presente ao Concílio de Elvira (c. 306).
O período Visigótico
O período visigótico corresponde a uma época obscura da história da cidade. Pensa-se, porém, que a Diocese de Évora continuou a existir, sendo conhecidos os nomes de sete bispos da época. Na cidade, então chamada “Elbora” ou “Erbora”, foram cunhadas moedas de ouro e prata. Nesse período, as suas defesas foram ampliadas, conforme o testemunham três das torres então erguidas, entre as quais a chamada “Torre Quadrangular
” ou “Torre de Sisebuto”, monarca a quem se atribui a sua edificação no século VII. Pouco mais se conhece das transformações sofridas pela muralha nessa época.
O período Muçulmano
Em 714, em plena época da conquista muçulmana, a cidade foi conquistada por Abd al-Aziz ibn Musa, primeiro "wali" do Al-Andalus. O domínio da cidade, então chamada “Yabura”, “Yabora” ou “Yabra”, não foi isento de conflitos. Em finais do século IX e começo do X, a cidade integrava o reino de Badajoz estabelecido por Ibn Marwan (c. 875-890). Em 913, Ordonho II da Galiza (910-924) cercou a cidade e, graças ao mau estado das muralhas, conquistou-a e massacrou a população. O governador, Marwan Ibn Abd al-Malik ibn Ahmad, foi morto numa mesquita, e Ordonho II abandonou a cidade com 4 mil cativos, entre mulheres e crianças. Em 914 a cidade foi repovoada com aliados do emir de Badajoz à época, Abd Allâh ibn Marwân al-Jilliqî. Nessa época, a muralha da cidade foi reconstruída seguindo o traçado do primitivo muro romano.
Sob o domínio muçulmano a cidade conheceu um novo período de esplendor económico e político, graças à sua localização privilegiada. Esse desenvolvimento registou-se nos séculos XI e XII e levou a cidade a suplantar a importância de Beja, que havia sido a urbe muçulmana mais importante no primeiro milênio nessa região. Fontes cristãs de finais do século XII afirmam que Évora possuía dois alcáceres (castelos mouros), um "velho" e um "novo". O alcácer "novo" foi construído possivelmente no século XII e, junto com a mesquita, localizava-se
na área da acrópole romana. Na zona intramuros, 1/8 da área a leste era ocupado pela zona do alcácer, enquanto a cidade propriamente dita, a almedina, ocupava a restante área. A malha urbana da almedina era muito mais densa que a romana e organizada de forma radial ao invés de ortogonal, característica típica das cidades muçulmanas, e que ainda pode ser observada no centro histórico.
No período muçulmano, Évora cresceu para além das muralhas, originando arrabaldes na zona extramuros. Ao sul localizava-se um arrabalde habitado por mouros, ao norte o da comunidade moçárabe (arrabalde de São Mamede) e, a oeste, o dos judeus. Após a Reconquista cristã, os mouros foram assentados a norte, no antigo arrabalde moçárabe de São Mamede, que foi convertido em mouraria. Essa zona é, até hoje, a que mais guarda sinais do urbanismo mouro na cidade.
Também pouco conhecemos acerca da estrutura da cerca muçulmana, subsistindo apenas alguns vestígios na zona traseira da Sé e do templo romano.
A Reconquista cristã
No contexto da Reconquista cristã da região, Évora foi inicialmente tomada pelas forças de Afonso I de Portugal (1143-1185) em 1159. Retomada em pouco tempo pelos Muçulmanos, a sua conquista definitiva só foi alcançada em 1165 pela ação de Geraldo Sem Pavor, responsável pela reconquista de várias localidades alentejanas. Inaugurou-se assim uma nova etapa de crescimento da urbe, que chegou ao século XVI como a segunda cidade em importância do reino.
D. Afonso I concedeu-lhe o seu primeiro foral em 1166. Por volta de 1176, estabeleceu na cidade uma ordem militar chamada “Ordem dos Freires de Évora” sob o comando de Gonçalo Viegas de Lanhoso. Essa ordem, depois Ordem Militar de Avis, teve u
m importante papel na defesa desta cidade e instalou-se no "alcácer velho" muçulmano, provavelmente na zona onde mais tarde foi erguido o Palácio dos Condes de Basto.
Sob o reinado de Sancho I de Portugal (1185-1211), foi com o auxílio destes cavaleiros que a cidade resistiu ao assalto das forças do Califado Almóada comandadas por Abu Iúçufe Iacube Almançor (1191), quando as fronteiras portuguesas foram empurradas até à linha do rio Tejo.
Em 1211, Afonso II de Portugal (1211-1223) transferiu a sede da Ordem para a vila de Avis.
A cerca cristã medieval
O crescimento da cidade para fora da primitiva cerca muçulmana levou à construção de uma nova cintura de muralhas no século XIV. Embora tradicionalmente se atribua o início de significativas obras de ampliação das defesas de Évora ao reinado de Dinis I de Portugal (1279-1325), será mais correto atribuí-las ao de Afonso IV de Portugal (1325-1357), monarca que aqui residiu por largos períodos e de onde partiu para a batalha do Salado (1340). Documentos na Chancelaria de Pedro I de Portugal (1357-1367) são os primeiros a mencionar a cerca da vila, referindo trabalhos na barbacã, fossos e muros. Essas obras estariam concluídas à época do reinado de Fernando I de Portugal (1367-1383), o que leva alguns autores a referirem a defesa externa da vila como “cerca fernandina”. Neste reinado é pela vez documentalmente referida a “Porta do Raimundo” (1373).
Afirma-se que por influência de D. Leonor Teles, esteve detido no Castelo de Évora, em 1382, o filho bastardo de D. Pedro I, D. João, Mestre de Avis, supostamente acusado de uma conspiração contra o monarca, urdida com a colaboração de Gonçalo Vasques de Azevedo. D. João só conse
guiu obter a liberdade apelando à intercessão do conde de Cambridge, filho de Eduardo III de Inglaterra (1327-1377) e irmão de João de Gante, duque de Lencastre, comandante das tropas inglesas então em Portugal devido às pretensões de D. Fernando ao trono de Castela.
Com a eclosão da crise de 1383-1385, o alcaide-mor do castelo, Álvaro Mendes de Oliveira, tomou o partido de Beatriz de Portugal:
“(...) logo em esse dia Diogo Lopes Lobo e Fernão Gonçalves d´Arca, e João Fernandes, seu filho, que eram uns dos grandes que aí havia, e levantaram e foram combater o castelo, subindo em cima da Sé, e isso mesmo do açougue, que são lugares altos, e dali atiravam muitos virotões aos que estavam no castelo, o qual era muito forte de torres e muro e cercado de cava e mui mau de tomar sem grande trabalho. E por os fazerem render mais asinha, tomaram as mulheres e os filhos dos que dentro estavam e puseram-nos em cima de senhos carros, todos amarrados, que eram um jogo que os meudos em semelhante caso muito costumavam fazer; e chegaram assim à porta do castelo bradando aos de cima que saíssem fora e o desamparassem, senão que as mulheres e filhos lhes queimariam todos.” (Fernão Lopes. Crónica de D. João I)
Obtida a rendição por este estratagema, foi o castelo objeto de depredações, vindo a população a chacinar todos os que, comprovadamente ou não, considerassem partidários de Beatriz. Entre os que assim pereceram, destacou-se a abadessa das freiras de São Bento, impiedosamente arrastada da Sé, onde se refugiara.
A antiga cerca foi ampliada no reinado de Afonso V de Portugal (1438-1481), registando-se o desvio dos impostos arrecadados para outros fins: desse modo, em 14 de abril de 1445, determinou-se gastar 15.000 reais brancos em vestimentas para o Senado, quando da recep&cc
edil;ão de D. Joana, rainha de Castela; posteriormente, em 1449, o soberano não autorizou que os impostos lançados para a fábrica do muro se aplicassem em pontes e caminhos.
Dos séculos XVI ao XVII
O século XVI corresponde ao período áureo de Évora no cenário nacional, transformando-se num dos mais importantes centros culturais e artísticos do reino. A partir de João II de Portugal (1481-1495), e especialmente durante os reinos de Manuel I de Portugal (1495-1521) e João III de Portugal (1521-1557), Évora foi favorecida pelos monarcas portugueses, que aqui passavam longas estadias. Famílias nobres (Vimioso, Cordovil, Gama, Cadaval e outras) instalaram-se na cidade e ergueram palácios. D. Manuel I concedeu-lhe o Foral Novo em 1501 e construiu paços reais em Évora, em uma mistura de estilos entre o mudéjar, o manuelino e o renascentista. D. João III ordenou a construção da Igreja da Graça, templo renascentista onde planeou ser sepultado, e durante o seu reinado foi construído o Aqueduto da Água de Prata por Francisco de Arruda. Nessa época viveram na cidade artistas como o poeta Garcia de Resende, os pintores Frei Carlos, Francisco Henriques, Gregório Lopes, o escultor Nicolau de Chanterene, e eruditos e pensadores como Francisco de Holanda e André de Resende.
Em 1540 a diocese de Évora foi elevada à categoria de arquidiocese e o primeiro arcebispo da cidade, o Cardeal D. Henrique, fundou a Universidade de Évora (afeta à Companhia de Jesus) em 1550.
Em termos defensivos, no século XVI, o primitivo vão de arco perfeito de silharia, que permitia o acesso ao norte da cerca, foi substituído por outro, dadas as acanhadas dimensões do primeiro. Ainda nesse século, a Porta da Alagoa foi cedida por Sebastião I de Portugal (1557-1578) para miradouro das freiras do Convento de Santa Helena do Monte Calvário (1571).
Da Guerra da Restauração à Guerra Peninsular
No contexto da Guerra da Restauração da independência de Portugal (1640-1668), as defesas de Évora foram modernizadas, recebendo linhas abaluartadas, transformando-se numa Praça-forte. Veio a cair, entretanto, diante do assédio e assalto das forças espanholas sob o comando de D. Juan de Austria (Maio de 1663, ocasião em que a Porta da Alagoa foi arruinada), para ser reconquistada um mês depois, a 24 de junho, pelas tropas portuguesas.
À época da Guerra Peninsular (1808-1814), insuficientemente guarnecida e com falta de munições, não teve sucesso na resistência à investida das tropas napoleónicas sob o comando do general francês Louis Henri Loison.
Ainda no século XIX, as muralhas medievais foram em grande parte preservadas, mas das antigas entradas apenas a Porta de Avis foi mantida. O vão quinhentista que permitia o acesso a norte foi demolido e substituído pelo atual, por onde passa o tráfego da estrada de Évora a Arraiolos (1845); posteriormente, a Porta do Raimundo foi demolida e substituída (1880).
No século XX foi construído um anel viário ao redor do perímetro da muralha, o que ajudou na sua preservação.
O conjunto (Muralhas de Évora (da cerca romana e árabe) ou Cerca velha, na freguesia da Sé e São Pedro, a cerca medieval de Évora, Cerca nova de Évora ou muralhas fernandinas de Évora, na freguesia da Santo Antão) encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 8.229, publicado no Diário do Governo n.º 133, de 4 de julho de 1922.
Em 1945 foi quase que integralmente refeito o pequeno cubelo a sudoeste.
Em finais de 1993 iniciaram-se os trabalhos de abertura, na muralha entre os dois cubelos a sudoeste, perto do Postigo dos Penedos, de uma porta de mármore bujardado, marcando nitidamente a contemporaneidade da obra, para ligação pedonal entre a zona oeste extramuros e o Centro Histórico da cidade.
Évora, que alguns definiram como cidade-museu, é testemunho de diversos estilos artísticos, dotada que foi, ao longo do tempo, de obras de arte. Desse modo, desde 1986, o seu conjunto do Centro Histórico de Évora encontra-se classificado como Património Comum da Humanidade, pela UNESCO, que se encontra ratificado como Monumento Nacional, ao abrigo do n.º 7 do art.º 15.º da Lei n.º 107/2001 de 8 de Setembro.
Características
Exemplar de arquitetura militar, religiosa e civil, apresentando uma larga variedade de estilos, marcados por transformações e restauros efetuados em diversas épocas, desde o romano até ao gótico, passando pelo visigótico e pelo islâmico.
Pouco se conhece do traçado da cidade romana, mas sabe-se que ela estava disposta na elevação mais alta no centro da cidade moderna e que o seu epicentro - a acrópole - correspondia à atual zona entre as ruínas do templo romano e da Sé de Évora. Nessa área deviam cruzar-se as duas vias principais da cidade, o "cardo" (eixo N/S) e o "decumano" (eixo L/O). A cidade contava com uma muralha com 1080 metros de perímetro, circundando uma área de aproximadamente dez hectares, construída no século III, sendo rasgada por quatro portas, nos pontos cardeais onde se originavam o "cardo" e o "decumano". Para além dessas portas a cidade conectava-se ao sistema viário romano, que a ligava às outras cidades da península. Alguns troços dessa muralha ainda subsistem, incorporados a construções posteriores. A "Porta de D. Isabel", também denominada “Arco romano de Évora” representa um testemunho da porta romana norte.
A muralha da baixa Idade Média subsiste nas suas linhas essenciais, com troços bem conservados e elementos arquitetónicos significativos. Destacam-se a chamada “Porta de Avis” (referida em 1353), a “Porta de Mendo Estevens” (ou "Porta do Moinho de Vento"), a "Porta da Alagoa" (defendida por uma torre), a "Porta de Alconchel" (a principal da cidade, protegida por dois grandes torreões). O troço de muralha entre a "Porta da Alagoa" e "Porta do Raimundo" manteve-se íntegro durante as épocas posteriores, não sendo alterado nas campanhas de obras dos séculos XVII e XVIII. A "Porta da Alagoa", entretanto, atualmente encontra-se muito descaracterizada pelas sucessivas reedificações. A chamada "Porta do Raimundo", demolida em 1880, foi reconstituída como uma composição revivalista.
O conjunto seiscentista é constituído pelos baluartes que envolvem a cidade medieval, de que subsistem o "Baluarte de São Bartolomeu", o "Baluarte do Conde de Lippe", e o Quartel de Cavalaria.
Essas estruturas são caracterizadas por diversos estilos arquitectónicos, desde o gótico e o manuelino, o estilo abaluartado do tipo Vauban da "Porta de Avis" e de outros troços da muralha seiscentista, até ao estilo revivalista da "Porta do Raimundo" ou a descaracterização da "Porta da Alagoa", em virtude das numerosas reedificações e restauros aos longo dos séculos.
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