Funchal, Região Autónoma da Madeira - Portugal

O “Fortim do Gorgulho”, também referido como “Forte do Gorgulho" e “Fortim do Lido”, localiza-se a Leste da baía do ilhéu do Gorgulho, no litoral sul da freguesia de São Martinho, concelho do Funchal, na Região Autónoma da Madeira, em Portugal.
Atualmente é no Lido, ou Zona Hoteleira da Madeira, que se concentra a maioria das unidades hoteleiras da Madeira.
História
O assalto ao Funchal pelo corsário francês Pierre Bertrand de Montluc (3 de outubro de 1566) teve como reflexo imediato a revisão do plano defensivo das ilhas atlânticas pela Coroa de Portugal. Para o arquipélago da Madeira foi nomeado como novo Mestre das Obras Reais, o arquiteto militar Mateus Fernandes (III), descendente de Mateus Fernandes, arquiteto do Mosteiro da Batalha. Este profissional recebeu da Provedoria das Obras de Lisboa, já no início de 1567, diversas indicações e, em março do mesmo ano, a visita de dois de arquitetos italianos - Pompeo Arditi e Tommaso Benedetto -, que lhe trouxeram o primeiro "Regimento das Fortificações para o Funchal", renovado posteriormente, em 1572.
Nesse contexto, o litoral Oeste do Funchal passou a receber atenção particular, sobretudo os pequenos desembarcadouros. O trecho entre a praia Formosa e a cidade passou a ser objeto de patrulhamento regular, havendo notícia de que, em 1600, tocou-se a rebate à aproximação de 14 naus neerlandesas e deslocou-se para a área do calhau do Gorgulho a Companhia de Ordenanças de Francisco Vieira de Abreu, com dois tambores, um pífaro e bandeira, e que ali permaneceu enquanto não foi afastada a hipótese de uma tentativa de desembarque. A ação deste capitão foi louvada à época pelo bispo-governador e pelo capitão do presídio espanhol,
Diogo de Obregón.
Tendo o Porto Santo sido assaltado e saqueado por Piratas da Barbária em 1617, capturando e levando para Argel toda a população da ilha exceto cerca de 17 pessoas que se ocultaram nas fragas, generalizou-se o pânico entre os habitantes do Funchal e de Machico, retomando-se obras de fortificação, entretanto interrompidas pelos mais diversos motivos. Os recursos para essas obras vieram dos “açúcares de Sua Majestade”, disponibilizados pelo então provedor António Gomes Rodovalho, sendo repostos no ano seguinte pela finta sobre todos habitantes do Funchal, mesmo os eclesiásticos e ausentes (Arquivo Regional da Madeira, Câmara (…), Vereações, 1618)
Desse modo, possivelmente no local de uma primitiva vigia ou atalaia, em 1618 encontrava-se em construção um pequeno forte, composto por um pequeno baluarte e uma guarita recoberta de telha: o Forte do Gorgulho. Acredita-se que o seu risco possa ter sido do então Mestre das Obras Reais, Jerónimo Jorge (c. 1570-1617), falecido no Natal de 1617, ou então já do seu filho, Bartolomeu João (c. 1590-1658). Assistia à construção do fortim, como apontador, o capitão de Ordenanças da área, Martim Vaz de Cairos, morgado da Capela da Nazaré. Conhecem-se as férias pagas, em maio de 1618, constando nelas, entre outras despesas, a do pagamento do trabalho “na parede, pelo saber fazer” do mestre pedreiro Brás Fernandes. (Arquivo Regional da Madeira, Câmara (…), Vereações, 1618)
Esta fortificação, à semelhança de outras pequenas obras defensivas na área no século XVII, foi guarnecida pelas Companhias de Ordenanças do Gorgulho e dos Piornais, que viriam posteriormente a ter também a missão de defesa do chamado Caminho da Trincheira. Nos finais do sé
culo, o alferes João Rodrigues de Oliveira pretendeu construir um forte na Ponta Gorda, à sua custa. O governador D. António Jorge de Melo entendeu ser mais lógico erigi-lo na Ponta da Cruz, de onde se divisava a costa da praia Formosa até Câmara de Lobos, remetendo o assunto para Lisboa. O sargento-mor Francisco Pimentel, filho do Engenheiro-mor do Reino, Luís Serrão Pimentel (1613-1679), apoiou a proposta do governador, enviando do Reino uma planta detalhada, mas que, entretanto, não saiu do papel.
O Forte do Gorgulho passou a estabelecer a ligação das fortificações do Funchal com as da praia Formosa e da ribeira dos Socorridos, definindo-se mais tarde o chamado Caminho da Trincheira, melhorado ao longo dos séculos XVIII e XIX.
Nos inícios do século XVIII, de acordo com o “Livro de Carga da Artilharia”, sabemos que estava artilhado com 5 peças antecarga de alma lisa, de ferro, montadas, dos calibres de 9 até 2 libras. Possuía ainda pólvora, palamenta e demais petrechos, não sendo referida a existência de bandeira.
Em 1724 era condestável do forte Pedro da Cunha, a quem se seguiu Manuel da Mata, que tomou posse a 8 de maio de 1726 e, pelo seu falecimento, Manuel de Sousa, a 5 de outubro de 1730. Constituía-se, no entanto, numa fortificação de segunda linha, como se depreende pela nomeação como condestável do Forte do Gorgulho, em 1769, a António Francisco Martins, provido nesse lugar “(…) pela incapacidade de não saber ler, nem escrever e de ser de avançada idade”. Era até então condestável de São Lourenço “e da marinha desta cidade”, passando a usar o título de “sota condestável de São Lourenço na marinha da cidade”, mas colocado no Gorgulho. (ANTT, Provedoria (…), lv. 976, fl. 15v.)
O forte continuava a ser guarnecido homens da Companhia de Ordenanças local, e o seu comandante, por portaria de 8 de maio de 1781, teve direito a uma patente de alferes. O interesse pela defesa deste trecho de costa já levara, em 13 de outubro de 1766, à nomeação do capitão João Correia Vasques de Andrade Neto como capitão do revelim de Nossa Senhora da Ajuda, no Funchal, linha fortificada adjacente à do Gorgulho, por certo.
Ao final do século, Maria I de Portugal (1777-1815) determinou uma total reformulação do sistema defensivo da ilha, despachando para a Madeira, por ordem de 11 de junho de 1797, o major e engenheiro militar, Inácio Joaquim de Castro. As defesas da ilha foram então devidamente revistas, embora as propostas não tenham sido particularmente inovadoras, nem haja conhecimento de que hajam sido implementadas. Com relação à defesa proporcionada pelo Forte do Gorgulho, foi recuperada por este oficial, articulando-se com a nova Bateria do Calaça ou Bateria do Alorável, a Oeste da pequena baía, onde, mais tarde, foram erguidas as casas de Verão do cônsul britânico na Madeira, Henrique Gordon Veitch (1782-1857), que hoje constituem o Club Naval do Funchal. Refere o “Plano particular, desde o forte do Gorgulho, até à nova bateria do Calaça na ilha da Madeira”, o modo como se remediou e como se fortificou esse trecho, enviando ainda um “orçamento [do] que poderá custar toda a obra, que se deve fazer para fortificar esta extensão de beira-mar”, mas que não se crê tenha sido feita (IICT, CECA, pasta 33, n.° 16). Previa-se acabar a bateria do Calaça e “engrossar e altear os parapeitos ao forte do Gorgulho”, fazer uma trincheira de “muro de alegrete”, com terra dentro, para defender essa entrada com “mosquetaria” e continuar a trincheira que ligaria as duas fortificações. (Op. cit.) A posição de apoio denominada Bateria do Calaça, provável nome do proprietário do local à época, da qual restou um dos parapeitos da muralha, ficou também conhecida como Bateria do Alorável e teve obras posteriormente, entre 1840 e 1868.
Em 1814 encontrava-se instalada no Forte do Gorgulho uma força do Corpo de Artilharia Auxiliar. No entanto, poucos anos depois, tudo necessitava de obras, referindo Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), em 1817, que o “forte do Gorgulho da costa só tem o nome, porque apenas existem restos de paredes sem cal; sem casa de guarnição, e com 2 peças reprovadas no chão” (CARITA, 1982:94). Em 1850, o engenheiro António Pedro de Azevedo (1812-1889) mantinha a descrição de ruína do forte, descrevendo-o como distando 3 km do Funchal e situado no Caminho da Trincheira. Acrescenta ainda que este caminho, que então teria 2 a 3 m de largura, era contornado pelo mar no lado sul e que às vezes o banhava, pelo que a muralha estava interrompida por diversos rombos. O Caminho da Trincheira, nesta parte, unia o forte à Quinta do Calaça, informando o engenheiro que a mesma pertencia aos herdeiros de Henrique Gordon Veitch, pois o cônsul falecera em 1857. Já então não se fala na antiga bateria de apoio, apenas se mencionando que os terrenos à volta do forte pertenciam a Nuno de Freitas Lomelino (1820-1880), morgado das Cruzes.
Três anos depois, no tombo deste forte, o mesmo militar queixa-se que não poderia receber mais de duas peças, dada a sua insignificância, e que não valeria a pena repará-lo, pois a despesa não compensaria. Os terrenos anexos tinham sido arrendados, por ordem do Ministério da Guerra, a Roque e a Caetano Alberto de Araújo, visando uma plantação de cochonilha, entretanto abandonada. Por ofício do comandante militar de 20 de junho de 1857, tinha sido autorizado tapar-se provisoriamente o Caminho da Trincheira, a fim de evitar que os contrabandistas o utilizassem. O forte estava então abandonado, não se conseguindo encontrar quem nele quisesse morar e responder pela sua conservação. Em janeiro de 1899 foi arrendado a João Figueira da Silva, e, terminando o arrendamento, em 1901, foi entregue à câmara do Funchal.
Nos finais do século XX foram construídas nesta área as piscinas municipais, que, em 1986, se ampliaram, sendo o velho forte então uma mera ruína abandonada. Dada a necessidade de espaço para as arrecadações da época de Inverno e de vestiários para o pessoal, o imóvel foi novamente levantado, como recordação, de acordo com planta do século XVIII. Para decoração da esplanada foram solicitadas aos herdeiros do engenheiro João Catanho de Meneses (1854-1942), proprietário do Forte do Faial, 3 peças de artilharia da época, tendo sido recebidas 2 caronadas e uma peça de acompanhamento, todas em ferro, sem marcas, provavelmente inglesas e pertencentes a antigos navios desmantelados. O forte foi reinaugurado a 21 de agosto de 1987, com uma sala de exposição e uma mostra de desenhos de Henrique e Francisco Franco, propriedade da Câmara do Funchal e dos arquivos do museu homónimo, inaugurado no ano anterior.
Em nossos dias o fortim encontra-se inscrito no Complexo Balnear do Lido, inaugurada em 22 de março de 2016, requalificado como um bar: o Fortim do Lido Bar Lda.
Características
Exemplar de arquitetura militar, abaluartado, marítimo.
Apresenta planta no formato pentagonal, com quatro canhoneiras rasgadas no muros pelo lado do mar. No terrapleno. pelo lado de terra, erguem-se as edificações de serviço.
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Ajuda
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