
O “Castelo de Portalegre” localiza-se na freguesia da Sé, cidade, concelho e distrito de Portalegre, em Portugal.
Em posição dominante sobre a povoação, foi erguido com a função de defesa da raia alentejana. Encontra-se incluído na “Área Protegida da Serra de São Mamede”.
História
Antecedentes
Pouco se conhece acerca da primitiva ocupação humana de seu sítio. De acordo com D. Frei Amador Arrais, Bispo da Diocese de Portalegre no século XVI, no local onde hoje se ergue a Igreja de São Cristóvão, na parte mais alta da cidade, ainda subsistiam as ruínas de um templo romano dedicado a Baco (ARRAIS, Amador (Frei). Diálogos, 1589).
À época, o padre Diogo Pereira Sotto Maior narra:
“Dizem que esta cidade foi primeiro situada em üas vendas que estavam por cima dos Portelos, junto à ermida de San Bartolomeu e contra a Porta da devesa que se chamavam as Vendas dos Portelos e que daqui tomou depois o nome de Portalegre (…) E porque sua vista é alegre e aprazível aos olhos de quem nele os punha, vieram chamar-lhe porto alegre, donde depois vem a chamar-se Porto alegre, derivado de Portelos.” (SOTTO MAIOR, Diogo Pereira, Tratado da Cidade de Portalegre (…), 1619)
O castelo medieval
No contexto da Reconquista cristã da região, a conquista definitiva de Portalegre aos muçulmanos ocorreu entre 1160-1166 e 1226. No escopo desse processo, nas primeiras décadas do século XIII Portalegre pertence à jurisdição da Ordem do Templo.
Em 1226 o foral concedido a Marvão compreende, no seu termo, a região de Portalegre e, em data de 1229 um documento onde Portalegre é designada como Vila. Pouco depois, em 1253 outro documento designa Portalegre como Concelho.
Afonso III de Portugal (1248–1279) concedeu o primeiro foral a Portalegre (1259), e faz doação dos domínios Arronches, Castelo de Vide, Marvão e Portalegre ao seu filho o Infante D. Afonso Sanches (1271), irmão do futuro Dinis I de Portugal (1279-1325). Pouco depois, um documento testemunha a existência, em 1274, da Porta de Alegrete e, consequentemente, da cerca urbana. Na mesma data, outro documento refere o arrabalde da Devesa. Admite-se que a torre ou atalaia que domina a cidade, conhecida como “Atalaião”, seja um pouco anterior essa campanha de fortificação.
Com a subida ao trono da D. Dinis, o Infante D. Afonso contestou abertamente os títulos do primeiro, e mandou muralhar a vila aberta de Vide, processo que se encontrava em marcha em 1281. Em abril do mesmo ano, D. Dinis impôs cercou a Vide. Na iminência do assalto, chegou ao acampamento real uma embaixada do reino de Aragão, com a proposta de casamento do soberano com D. Isabel, futura Rainha Santa Isabel. Com a interveniência desta embaixada, acordou-se a paz entre os irmãos, vindo o Infante a comprometer-se a derrubar todas as fortificações que havia empreendido em Vide, que incluíam uma torre e vários muros.
A partir de 1299, diante do matrimónio do Infante D. Afonso com uma infanta de Castela, tendo em vista a proximidade dos senhorios deste com a raia, e diante de uma reclamação de Sancho IV de Leão e Castela (1284-1295), D. Dinis, com o apoio de cavaleiros da Ordem do Templo e da Ordem de Avis, marchou outra vez contra o seu irmão, cercando-o em Arronches, Marvão e Portalegre. Esta última caiu ao fim de 5 meses, em outubro de 1299, forçando o Infante a buscar refúgio em Badajoz. Com a mediação da Rainha Santa, feitas as pazes entre os irmãos, D. Afonso permutou com D. Diniz as vilas que possuía no Alentejo, por Sintra, Ourém e outras, distantes da fronteira, e uma certa quantia, paga anualmente. Estes castelos alentejanos foram então entregues a Aires Pires Cabral, tataravô do navegador Pedro Álvares Cabral, que deles prestou menagem, na função de Alcaide-mor.
Senhor da vila, D. Dinis, no início do século XIV, procedeu à reconstrução e ampliação da sua defesa, concluindo as muralhas do castelo, remodelando a torre de menagem e a alcáçova, e, diante da expansão da malha urbana, fazendo construir uma segunda cerca, amparada por 12 torres e rasgada por 8 portas.
Data ainda de 1299 o documento em que D. Dinis concede a Portalegre o privilégio de não ser concedido o seu senhorio nem a infante, nem a rico-homem, nem a rica-dona, mas ser d'El-Rei e de seu filho primeiro e herdeiro. No mesmo ano, outro documento do soberano atribui as igrejas de Santa Maria do Castelo à Ordem de Avis, de Santa Maria, a Grande, à Ordem do Templo, as de São Lourenço, São Pedro, São João e São Vicente à Ordem de Santiago, as de Santiago e São Martinho à Ordem do Hospital. Santa Maria Madalena foi retirada aos cónegos Regentes de Santo Agostinho do Mosteiro de São Jorge de Coimbra e atribuída aos Hospitalários.
Em 1304, um documento refere as seguintes estruturas militares: Torre do Pessegueiro, Postigo de São Tiago, Porta da Alcáçova, fosso da Alcáçova, fosso do castelo, Torre de Pombal, Portal de Elvas, Porta da Devesa, fosso [na Paróquia de São Martinho] e Porta de Alegrete.
No contexto de crise de sucessão de 1383-1385, Nuno Álvares Pereira – apoiante do Mestre de Avis -, era irmão do 5.º alcaide-mor de Portalegre, Pedro Álvares Pereira, prior do Crato – apoiante de D. Leonor. O partido do alcaide provocou a revolta do povo de Portalegre, que cercou o castelo e obrigou D. Pedro a retirar para o Crato. Viria a falecer em combate contra as forças do seu irmão, na Batalha de Aljubarrota (1385). João I de Portugal (1385-1433) concedeu a Portalegre o título de “Leal” (1387).
Manuel I de Portugal (1495-1521) outorgou o Foral Novo à vila (1511), elevada a cidade por João III de Portugal (1521-1557) em 1550. Acredita-se que no século XVI tenha se procedido a obras na Porta da Devesa, e a reconstrução da abóbada da Torre de Menagem, com estrutura polinervada, a substituir a primitiva, de cruzaria (estilo gótico), então possivelmente arruinada.
Da Guerra da Restauração aos nossos dias
No contexto da Guerra da Restauração (1680-1668), a defesa deste trecho da fronteira readquiriu importância estratégica. Por esta razão, foram iniciadas obras de modernização e reforço do conjunto defensivo, que se desenvolveram entre 1641 e 1646. Além da fortificação abaluartada da cerca, as torres foram adaptadas à artilharia e foram erguidos os fortins de São Cristóvão, São Pedro e Boa vista.
Em 1662 foram promovidas obras nas muralhas, a cargo do engenheiro Luís Serrão Pimentel.
No contexto da Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714) as defesas da vila mostraram-se insuficientes, vindo a mesma a ser ocupada, em 1704, por tropas espanholas, francesas, italianas e dos Países Baixos, sob o comando de Filipe V de Espanha (1700-1724).
Após o terramoto de 1755, no âmbito das “Inquirições”, o Padre Gregório Pegado Sequeira, em 1758, sobre o estado das defesas de Portalegre reporta: “(…) mas as ditas muralhas com muntas ruynas, e sem defensa, depois da invasão dos inimigos. Não há praça de armas.”
Quando da chamada “Guerra das Laranjas” (1801) caiu em mãos dos espanhóis após a retirada das forças portuguesas.
No contexto da Guerra Peninsular (1808-1814), em 1808 Portalegre foi ocupada por tropas napoleónicas sob comando do general francês Louis Henri Loison, "o Maneta".
O crescimento urbano impôs, na segunda metade do século XIX, o abandono, ruína e destruição de diversos troços do conjunto militar.
O conjunto encontra-se classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 8 217, publicado no Diário do Governo, I Série, n.º 130, de 29 de junho de 1922.
A intervenção do poder público fez-se sentir a partir da década de 1960, com obras de consolidação, restauro e reconstrução a cargo da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN). Foram então demolidas diversas construções adossadas aos antigos muros, reconstituindo-se em diversos troços os parapeitos e as ameias.
Em 1972 o Estado Português adquiriu o castelo a António Pedro Maria da Luz de São Paio Melo e Castro Moniz e Torres de Lusignan, pretendente ao título de marquês de Sampaio.
O Núcleo Museológico do Castelo foi fundado em 1999, por iniciativa da Região de Turismo de São Mamede e da Câmara Municipal de Portalegre, expondo peças de armaria, do século XV até à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Em meados da década de 2000 houve intervenções em algumas partes das muralhas, que passaram ficar mais acessíveis ao público, nomeadamente um troço imediatamente a norte do castelo e outro troço junto à Rua da Figueira, abaixo do Palácio Amarelo.
No âmbito do programa POLIS, em 2006 a Câmara Municipal de Portalegre realizou intervenção na envolvente, nomeadamente a construção de restaurante adossado às muralhas, conforme projeto do arquiteto Cândido Chuva Gomes.
Em julho de 2016 o castelo foi incluído no Programa REVIVE - Valorização do Património.
Características
Exemplar de arquitetura militar, de enquadramento urbano, na cota aproximada de 470 metros acima do nível do mar.
O castelo, situado no setor Leste da parte mais antiga da cidade, apresenta planta no formato de um polígono octogonal irregular. Nele destaca-se a Torre de Menagem, de planta quadrangular, integrada na muralha, protegendo o portão principal. Marcada por elementos do estilo gótico, divide-se internamente em dois pavimentos, rasgados por portas e janelas, recobertos por abóbadas. Fronteira a esta torre, abre-se a Praça de Armas, delimitada por duas torres nos ângulos das cortinas, e na qual se identificam vestígios de edificações.
A cerca da vila apresenta planta ovalada irregular, tem a particularidade de envolver o próprio castelo. Embora descaracterizada em diversos trechos, o seu circuito é ainda identificável pelo atual traçado das ruas. Era reforçada por 12 torres, e nela se rasgavam 7 portas (do Postigo, de Alegrete, de Elvas, da Devesa, do Espírito Santo, do Bispo e de São Francisco), das quais restam apenas três: a Porta de Alegrete, a Porta do Crato e a Porta da Devesa. Esta última, no lado Norte, era a mais importante, e a sua configuração original apresentava duas poderosas torres a ladeá-la.
Do reforço defensivo erguido em meados do século XVII, eram testemunhos o “Fortim de São Cristóvão”, o “Fortim de São Pedro” e o “Fortim da Boavista”, diante das muralhas medievais, às quais se ligavam, conferindo à defesa o formato de um polígono estrelado. Desses fortins seiscentistas restam apenas vestígios do primeiro.
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