
As “Muralhas de Lisboa” localizavam-se na cidade, distrito e concelho de Lisboa, em Portugal.
Compreendiam a chamada “Cerca Moura”, também referida como “Cerca Velha”, e a “Cerca Fernandina”, também referida como “Muralha Fernandina de Lisboa”.
História
A Cerca Velha remonta ao final da época romana. Tinha a função de defesa do núcleo urbano e foi reaproveitada durante o período islâmico, conservando-se até à época medieval. A partir do último quartel do século XIV, diante da construção da Cerca Fernandina, a Cerca Velha perdeu a sua função defensiva, vindo a ser parcialmente demolida para permitir a abertura de novos acessos à urbe, ou integrada nas paredes das casas a partir de então construídas.
A Cerca Fernandina, empreendida por iniciativa de Fernando I de Portugal (1367-1383) correspondia sensivelmente à ampliação da Cerca Velha, danificada ao longo dos séculos, nomeadamente durante as chamadas Guerras Fernandinas (1369-1370, 1372-1373 e 1381-1382). Na 3.ª guerra fernandina (1381-1382) os arrabaldes da cidade foram alvo das investidas castelhanas (março de 1382).
Ao fim do conflito, D. Fernando I, atendendo a conselho do então Vedor da Fazenda, João Anes de Almada, determinou a construção de uma nova cerca para defesa da cidade (1373), e que se prologava até à Baixa. Para maior expedição e adiantamento das obras, o soberano ordenou ainda que:
- os habitantes de Almada, Sesimbra, Palmela, Setúbal, Coina, Benavente, e toda a mais gente de Riba-Tejo, trabalhassem nas muralhas do lado do rio; e
- os habitantes de Sintra, Cascais, Torres V
edras, Mafra, Alenquer, Arruda dos Vinhos, Atouguia da Baleia, Lourinhã, Cheleiros, Povos, Vila Franca de Xira, e Aldeia Galega, trabalhassem na parte de terra.
As obras, efetivamente, progrediram com rapidez, tendo sido dadas como concluídas já em 1375, dois anos após o seu início. Nelas trabalharam os mestres João Fernandes e Vasco Brás.
O terceiro cerco de Lisboa, imposto pelas forças de Castela, estendeu-se de 29 de maio a 3 de setembro de 1384 (4 meses e 26 dias). À época, a cerca da cidade era amparada por 77 torres, no topo das quais foram montados caramanchões de madeira, visando optimizar a defesa. A cerca era rasgada por 38 portas, das quais a mais crítica era a chamada Porta de Santa Catarina, em frente à qual, ali tendo se estabelecido o arraial de Castela, se registava o maior número de escaramuças. O setor da Ribeira era defendido por duas grossas estacadas, desde as águas do rio até ao pé da cerca. Uma estacada dobrada defendia o Caminho de Santos, abaixo da Torre da Atalaia; n lado oposto da cidade, outra estacada dobrada, estendia-se junto ao muro dos fornos de cal, na direção do Mosteiro de Santa Clara. Encontrava-se em construção, que prosseguiu durante os combates, um troço da barbacã face ao arraial castelhano, desde a Porta de Santa Catarina até à Torre de Álvaro Pais, no comprimento de dois tiros de besta (Fernão Lopes. Crónica de el-rei D. João I. Capítulos CXIV e CL). Registaram-se ainda ataques à periferia do cerco pelas forças de D. João, Mestre de Avis, sob o comando do fronteiro do Alentejo, Nuno Álvares Pereira. O cerco foi levantado devido, em grande parte, a uma pestilência que grassou entre o exército castelhano, causando-lhe muitas baixas.
Em nossos dias subsistem pouquíssimos vestígios da Cerca Velha. Para divulgá-los e d&a
acute;-los a conhecer, valorizando-os, a Câmara Municipal inaugurou, em fins de setembro de 2014, um circuito pedonal sinalizado por 16 painéis com informação histórica recolhida e reunida pelo Museu de Lisboa, o Núcleo Arqueológico da Casa dos Bicos e o Centro de Arqueologia de Lisboa.
Características
Exemplar de arquitetura militar, nos estilos romano, islâmico, românico e gótico, de implantação urbana.
A Cerca Velha nascia nas muralhas do Castelo de São Jorge, na altura da Porta de São Jorge e, pela Porta da Alfôfa, descia por São Crispim, Sé, e Rua das Canastras até à Porta do Mar antiga; corria beira-rio até São Pedro de Alfama, donde, pela Adiça, subia à Porta do Sol, voltando a incorporar-se com a muralha do castelo, na altura da Porta de D. Fradique. Esse circuito era rasgado por doze portas:
1. Porta de São Jorge
2. Porta da Alfôfa
3. Porta do Ferro
4. Porta do Mar antiga
5. Porta do Mar a São João
6. Postigo do Conde de Linhares
7. Porta do Chafariz de El-Rei
8. Porta de Alfama
9. Porta do Sol
10. Porta de D. Fradique
11. Porta do Moniz
12. Porta da Traição
O perímetro da cerca fernandina ascendia a cinco mil passos, com as dimensões intramuros de três mil e cem de comprido, por mil e quinhentos de largura. Amparada por 77 torres e cubelos, era rasgada por 34 portas e postigos (38 ou 46 de acordo com outras fontes). Tinha início ao pé da Porta da Traição, e descia por São Lourenço onde, pegada à torre do mesmo nome se achava a Porta de São Lourenço. Daqui vinha à Mouraria, onde se abriam a porta do mesmo nome e a Porta da Rua da Palma. Subia o Jogo da Péla, abrindo na Porta da Rua da Péla, e na do Monturo do Col
égio. Atravessava a Calçada de Santa Ana onde se abria a Porta de Santa Ana, descendo por entre o Beco de São Luís e o Mosteiro da Encarnação, até à Porta de Santo Antão, e às Portas das Estrebarias de El-Rei, no Rossio. Daqui se subia a São Roque, onde se abria a Porta do Condestável, descendo pela Porta da Trindade para o atual Largo do Chiado, no extremo ocidental do qual se abriam as Portas de Santa Catarina. Corria desde aqui até o atual Cais do Sodré, abrindo sucessivamente na Porta do Duque de Bragança, Porta do Corpo Santo, Porta dos Cubertos e Porta dos Corte Reais. Daqui continuava para o Terreiro do Paço, abrindo no Postigo do Carvão, Porta da Oura e Porta dos Armazéns. Cercava aquela praça pela banda de cima, para a qual abriam sucessivamente a Porta do Arco das Pazes, a Porta da Moeda, a Porta do Arco dos Pregos, a Porta dos Barretes, a Porta da Ribeira e a Porta da Portagem. Seguia pela beira-mar, mais ou menos pelas atuais Rua dos Bacalhoeiros e Rua do Terreiro do Trigo, abrindo na Porta Nova do Mar, Porta da Judiaria, Postigo de Alfama, Porta do Chafariz de Dentro e Postigo da Pólvora, a última porta da cidade da banda do mar. Daqui seguia pela Porta da Cruz, até o Mosteiro de São Vicente de Fora, onde se abria o Postigo do Arcebispo e a Porta de São Vicente. Seguia por entre a cerca deste mosteiro até à Graça, onde se achava o Postigo de Nossa Senhora da Graça, buscando pelo lado do Caracol, onde abria no Postigo do Caracol da Graça, e na Porta de Santo André. Daqui seguia até entestar na muralha do Castelo, junto à Porta do Moniz.
Bibliografia
CASTRO, João Baptista de (1763). Mappa de Portugal antigo e moderno. [S.l.]: Francisco Luiz Ameno, 77p.
MOREIRA, António Joaquim (1838). “Antigas Portas de Lisboa, e sua Cerca”. In O Panorama. II (78)
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Ajuda
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