Fortaleza de Graciosa

Arzila, Tanger - Marroco

A chamada “Fortaleza de Graciosa” localizava-se numa pequena ilha fluvial, a cerca de três léguas da foz, na confluência do rio Lucus (Wadi Lukkus) com o rio el-Mekhazen (Oued Makhazine), alguns quilómetros para o interior da atual Larache, na região de Tânger-Tetuão, no litoral do Marrocos.

Localização

De acordo com o professor David Lopes, da Academia das Ciências de Lisboa, estava situada perto da confluência do rio de Larache (atual rio Lucus) e do rio Mkhâzen (Uádi Mocazim):

Nós cremos que a Graciosa era (...) não muito longe do campo de batalha onde D. Sebastião depois foi morto [(Alcácer-Quibir, 1578)]. Esta deu-se nas margens dos rio da Ponte - como lhe chama Bernardo Rodrigues -, ou rio Mkhâzen - i. é, dos cavaleiros - (...).''

“Demais, segundo Pina [(Rui de Pina. “Cronica del Rei Dom Joham II”. Cap. 38.)], os mouros fizeram no rio uma estacada que cortou aos nossos a comunicação com o mar; isso quer dizer que o rio ahi é estreito (...).” (“Anais de Arzila: crónica inédita do século XVI, por Bernardo Rodrigues (2 vol.)”. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1915-1919. Vol. II, p. 495-496.)

História

Em 1471 o rei Afonso V de Portugal (1438-1481) e o Mulei Xeque, senhor de Arzila, firmaram pazes. Pelos seus termos, que deveriam vigorar por duas décadas, o último reconhecia ao primeiro a posse das quatro praças portuguesas do norte de Marrocos, e a partir de então o soberano português acrescentou ao seu título o de “rei do Algarve d'além-mar em África”.

A fortaleza de Graciosa foi projetada desde 1486, sob o reinado de João II de Portugal (1481-1495) para a foz do rio Lucos, que banha Larache, e desse modo dominar o acesso a Alcácer-Quibir (“al-Qas al-kabir”) e a Fez, consolidando a presença e o comércio portugueses na região. Complementarmente, pretendia-se coibir a pirataria na costa marroquina que assolava as embarcações portuguesas em trânsito de e para a costa da Guiné, e as costas e populações das ilhas atlânticas (Madeira e Açores) e do litoral do Algarve.

Para erguê-la foi enviada uma expedição, que partiu em fevereiro de 1489, em uma armada sob o comando de Gaspar Jusarte. Em maio, uma segunda armada, sob o comando de D. Pedro de Castelo Branco, alcançou a ilha, e Diogo Fernandes de Almeida foi nomeado seu governador.

Abu Zakariya Muhammad al-Saih al-Mahdi atacou a ilha para desalojar os portugueses. Do Algarve chegaram a partir reforços, no total de cerca de vinte embarcações, entre caravelas e outros navios, sob o comando de Aires da Silva, “capitam moor da frota”, não chegando contudo o confronto a definir-se a favor de nenhum dos lados. As perdas portuguesas entretanto, foram expressivas, dada a insalubridade do local. Afonso de Albuquerque, futuro Vice-Rei da Índia, e seu irmão, Martim de Albuquerque, aqui combateram, tendo o último aqui perecido.

Mulei Xeque tomou a iniciativa de propor uma paz aos portugueses, que foi aceite por D. João II em 27 de agosto daquele mesmo ano (Tratado de Xamez), retirando as forças portuguesas para Arzila. Sobre esse acordo, esclarece Bernardo Rodrigues:

Mulei Xeque (...) era rei agradecido, foi sempre amigo e obrigado a el-rei Dom Afonso, e por esta razão a el-rei Dom João o segundo, seu filho; e pareceo ser asi no feito da Graciosa ou vila que o dito rei Dom João mandou fazer tres legoas acima polo rio de Larache e outras tres Alcacer Quebir, dise que, polo beneficio d'el-rei Dom Afonso, os leixava que se viessem a Arzila e lhe leixassem a terra, e asi se fez.” (“Anais de Arzila: crónica inédita do século XVI, por Bernardo Rodrigues (2 vol.)”. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1915-1919. Vol. II, p. 495-496.)

À época a historiografia portuguesa, sobre o abandono deste projeto, registou que o foi por “(…) a terra ser naturalmente doentia, e o rio não se poder em todos os tempos navegar até à dita fortaleza.” (Garcia de Resende. “Crónica de D. João II”. p. 124.)

Com a retirada portuguesa da região, as forças islâmicas ergueram Larache (“al-Araish”) para defesa daquele estuário. Observe-se que, mais tarde, será na tentativa de conquista desta povoação que Sebastião de Portugal (1557-1578) perderá a flor do Exército português e a própria vida, na batalha de Alcácer-Quibir (1578).

A presença de Bernardo Rodrigues na Graciosa

Cerca de trinta anos após o abandono da posição portuguesa da Graciosa, o militar português Bernardo Rodrigues encontrou as suas ruínas e registou:

Mas eu, como ei visto este lugar ou edeficio e ei monteado nele e morto alguns porcos e vi a cousa e o erro dos nossos pais, me recolho e não digo neste caso nada, pois vemos agora outros mores erros feitos cada dia (...).” (“Anais de Arzila: crónica inédita do século XVI, por Bernardo Rodrigues (2 vol.)”. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1915-1919. Vol. II, p. 495-496.)

A presença portuguesa no Marrocos

Os Portugueses capturaram seis cidades marroquinas, e ergueram seis fortificações autónomas na costa atlântica do Marrocos, entre o rio Lucus, a norte, e o rio de Sous, a sul. Quatro dessas fortificações tiveram curta duração: Graciosa (1489), São João de Mamora (1515), Castelo Real de Mogador (1506-1510) e Aguz (1520-1525). Dois deles tornaram-se estabelecimentos urbanos permanentes: Santa Cruz do Cabo de Gué (Agadir, fundada em 1505-1506), e Mazagão (fundada em 1514-1517). Os portugueses tiveram que abandonar a maioria das suas posições entre 1541 e 1550, tendo sido capazes de manter Ceuta, Tânger e Mazagão.



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Contribution

Updated at 11/11/2014 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.


  • Fortaleza de Graciosa


  • Fort

  • 1489 (AC)




  • Portugal

  • 1489 (AC)

  • Missing

  • Monument with no legal protection







  • ,00 m2

  • Continent : Africa
    Country : Marroco
    State/Province: Tanger
    City: Arzila



  • Lat: 35 -10' 34''N | Lon: 6 3' 47''W










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