José Correia Rangel de Bulhões

José Correia Rangel de Bulhões. Prováveis datas de nascimento e morte: 1749 - c.1800.

José Correia Rangel de Bulhões, um engenheiro militar
Falar sobre o engenheiro militar Rangel implica situá-lo no quadro de uma das mais importantes carreiras militares dos exércitos do passado, principalmente entre os séculos XVII e XIX. Esta importância foi sensivelmente maior para as nações colonizadoras, como Portugal, que se estabeleciam, por vezes, em domínios nos quais tudo estava por se construir e com imensas demarcações territoriais a serem estabelecidas e defendidas. Como nos primeiros tempos não havia regulamentação precisa da carreira do Engenheiro Militar nas forças armadas lusitanas, principalmente no além-mar, esses profissionais, normalmente, conservavam a sua vinculação funcional à arma de origem, como o nosso Rangel, que iniciou a sua carreira militar como Ajudante de Infantaria com Exercício de Engenheiro. Isso lhe garantia, igualmente, a precedência de tratamento hierárquico, porque os oficiais da tropa, muitas vezes, não queriam conceder aos engenheiros a preferência à qual tinham direito pelo posto. No fundo, isso representava certo despeito pela posição de engenheiro, que, em alguns casos, era mais bem remunerada do que a do oficial comum, além de ostentar preparação intelectual muito superior, no meio da massa ignara dos exércitos coloniais, na qual grande parcela dos oficiais tinha pouca instrução. Contra tal discriminação o ilustre Azevedo Fortes, Engenheiro-mor do Reino, teve que se manifestar veementemente, em muitas oportunidades, quando alguma porfia estabelecia-se sobre a matéria.

O oficial de engenharia do exército colonial era pinçado na tropa, entre os mais capazes intelectualmente e mais habilidosos nas artes do desenho, geralmente oriundos dos colégios jesuítas, que, muitas vezes, ministravam noções de fortificação e defesa das cidades e dos territórios. A partir do século XVII e por inspiração do Engenheiro-mor do Reino, Luiz Serrão Pimentel, foram criadas as Aulas Militares que davam formação sistemática aos alunos da engenharia, sendo pioneira aquela da Ribeira das Naus, em Lisboa, criada por Decreto Real de 13 de julho de 1647. No fim desse mesmo século, mais exatamente em 1699, foi determinada, por Carta Régia, a criação de algumas aulas militares oficiais, no Brasil, como em Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro, mas, na Bahia, o Governador Geral já tinha autorizado o funcionamento de uma delas, desde 1696, cujo lente era o Capitão Engenheiro José Paes Estevens. Essa instituição funcionou ininterruptamente até o século XIX. O nosso Rangel deve ter sido aluno da Aula Militar do Rio de Janeiro, na sua época a Capital do Brasil. Esses cursos ministravam formação bastante ampla dos conhecimentos das engenharias e deveriam exigir bastante empenho de seus alunos, a julgar pelas informações que nos dão alguns documentos. O então Capitão Engenheiro José Antônio Caldas, da aula da Bahia, nos informa, por exemplo, que na qualidade de lente tinha ensinado: “Arithmetica, Algebra, Geometria Elementar, Trigonometria, Geometria pratica onde alem de tratar da Longemetria, Altimetria, Planimetria, Stereometria, Geodezia, e Pantometria, se tratou tambem do nivelamento, Arpentage, e medisam das obras de Cantaria, Alvenaria, e Carpentaria, e uma boa parte de Geografia, modo de tirar as Cartas Geograficas, Topograficas, e Ichnograficas, e a dezenhar toda a qualidade de plantas Militares, e Civis; com um ensaio da Optica p.a a extrasam dos prospectos: Fortificasam das Prasas, calculo de sua despeza e toda a qualidade de edeficios Militares, e Civis q’. nelas se empregam, Ataque de Prasas, Defensas de Prasas, Castramentrasam em q’. nam só se tratou do acampamento particular das Tropas; mas tambem o g.l de um Exercito, e se [ileg.]. uma Arte da guera[sic] com varios principios da Tactica dos Corpos de Infantaria, cavalaria etc., e hum apendis da Fortificasam Pasageira, ou de Campanha: Artelhr.a, Arte de Bombas Theorica, e Praticamente, Fogos Artificiaes da Guerra, e os Festivos, Mecanica, Statica, o mecanismo das abobedas com o calculo das Muralhas e pes direitos, Hidraulica, e finalmente Arquitetura Civil. Tendo ditado a Artilharia, e Arte de Bombas tres vezes por mandado dos Exm.os Generaes p.a instrusam do seu corpo, cujo ensino pratico tambem me foi encarregado por expaso de 2 anos desde 1774 até o de 1776”.

Em resumo, um engenheiro militar poderia, muitas vezes, ter conhecimentos enciclopédicos, com estrutura mental fundamentada no cartesianismo professado com muita clareza por Belidor, autor preferido das Aulas Militares, quando definia a sua atitude intelectual perante o conhecimento pela máxima de não admitir senão aquilo que possa ser demonstrado, ou ao menos explicado pela razão.

Por outro lado, a nossa Engenharia Civil deve praticamente tudo à Engenharia Militar. Ela é civil justamente para se diferenciar da formação tradicional, mais antiga, que era somente militar. Nos seus primórdios, a Escola Politécnica de Lisboa, instalada no antigo Colégio dos Nobres, era uma repartição do Ministério da Guerra. No Brasil a Escola Central, no Rio de Janeiro, formava engenheiros, tanto militares quanto civis, até a segunda metade do Século XIX, quando, após uma recomendação do ministro João Lustosa da Cunha Paranaguá ao Legislativo do Império, acompanhando a tendência do desenvolvimento do Brasil, veio determinar, depois de algum tempo, a separação. A Lei 2.261, de 24 de maio de 1873, autoriza o governo a reformar o regulamento das Escolas do Exército, de 28 de abril de 1863, passando para o Ministério do Império a tradicional Escola Central, que seria destinada, exclusivamente, a formar engenheiros civis e especialistas em trabalhos industriais, de agricultura e de mineração. Esse fenômeno não é exclusivo do Mundo Lusitano. Ele é até mais forte na França. Se o tratado da Science des Ingénieurs do Coronel Engenheiro Belidor foi um clássico da construção no século XVIII, qualquer dúvida sobre o que afirmamos desaparece quando nos defrontamos com a obra que se originou na carreira brilhante de Coulomb (1736-1806), oficial de engenharia do Exército Francês. Sobre ele afirma Timoshenko que nenhum outro cientista deste século contribuiu tanto para a ciência da mecânica dos corpos elásticos. Era outro gênio que navegou com maestria em diversos campos da ciência, ganhando diversos prêmios da Académie, mas as suas principais contribuições para a resistência dos materiais e, consequentemente, das estruturas, encontram-se na memória que apresentou no ano de 1773. Que profissional de engenharia pode desconhecer a contribuição para a engenharia civil de um Poncelet, veterano das campanhas napoleônicas, e de tantos outros luminares das ciências da construção.

O nosso Rangel deve ter se formado nessa tradição de competência e sua habilidade gráfica e bom gosto estão patentes neste texto que agora vem à luz. Como há sempre referências na sua folha de serviço à praça do Rio de Janeiro é de se supor, como ilação bastante razoável, que ele tenha se formado, como acenamos, na Aula Militar do Rio de Janeiro. A seu respeito fazem referências o clássico e alentado trabalho de Viterbo e o do General Lyra Tavares, que, embora não cite fontes, fundamentalmente está baseado no primeiro. Outra dúvida que paira sobre a figura de Correia Rangel é a sua nacionalidade. Naquela altura da história colonial muitos desses profissionais eram filhos da terra e um dos sintomas clássicos dessa nacionalidade brasileira era o fato de conhecermos somente a sua situação de promoção até sargento-mor. Sabidamente, os filhos da terra dificilmente conseguiam galgar os postos superiores a partir de Mestre de Campo ou Coronel.

Sousa Viterbo nos informa que, no fim do século XVIII, o então capitão do Real Corpo de Engenheiros José Correia Rangel de Bulhões recebeu a mercê do posto de sargento-mor por decreto de 19 de agosto de 1799, documento cujo original encontrava-se arquivado, naquela ocasião, na Torre do Tombo. O renomado investigador destaca que o seu nome completo tinha também Bulhões, pois, se em alguns documentos não era referido, em outros constava, como é o caso da planta da Vila de Santos, sob a Guarda do Arquivo Histórico do Exército, no Rio de Janeiro. Em relação ao argumento, Viterbo relaciona os seguintes trabalhos da lavra de Rangel, repetidos por Lyra Tavares:

 Descrição do plano e enseada da Ilha Grande, documento que pertencia à biblioteca do Marquês de Castelo Melhor, elaborado por determinação do Vice-Rei D. Luis de Vasconcelos, em 1783.
 Guarnição do Rio de Janeiro, com seus uniformes, e mapas do número de homens tanto dos regimentos pagos como dos auxiliares, elaborada em 1786, e hoje pertencente à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro,
 Mapa botânico, representando iconograficamente diversas espécies da flora brasiliensis, elaborado igualmente para D. Luis de Vasconcelos. É um manuscrito que fazia parte da biblioteca de Castelo Melhor, mas foi também adquirido pela Biblioteca Nacional (RJ).
 Descrição e plano do arrabalde do Rio de Janeiro, de 7 de março de 1796, documento que, segundo Viterbo, pertenceria à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.
 Plano da mesma cidade no qual se mostram as ruas abertas sobre o terreno comprehendido neste Plano, conhecido em outros tempos por Pantanaes de Pedro Dias […]. O trabalho foi ordenado pelo Vice-Rei Conde de Resende e a data registrada nos desenhos é 5 de março de 1796. Encontra-se também na Biblioteca Nacional (RJ).
 Conjunto de plantas no qual são mostradas as baterias que serão feitas para a defesa do Rio de Janeiro. Trabalhos executados, em 1794, por ordem do Vice-Rei Conde de Resende e pertencente ao acervo do Arquivo Histórico do Exército, no Rio de Janeiro.
 Plano da Vila de Santos executado em 1798, sob a guarda do Arquivo Histórico do Exército (RJ). Neste documento, Correia Rangel assina com o título de capitão e não mais ajudante.
 Cópia datada de 1792 da Carta corográfica, que compreende a barra do Rio Grande de São Pedro e o terreno que medeia entre a Freguesia do Estreito, o Arroio de Taim e Campos de Parateni, nas vizinhanças do Cerro Pelado, feita originalmente em 1777, por Manoel Martins do Couto Reis. Documento do Arquivo Histórico do Exército (RJ).

Existem ainda outros quatro documentos de autoria de Rangel que não constam na relação apresentada por Viterbo. Os três primeiros pertencem ao acervo da Biblioteca Nacional (RJ) e o quarto está de posse da Biblioteca Nacional de Portugal:

 Plano da Fortaleza da Ilha das Cobras, destinado a incomodar os navios que fundearem no ancoradouro [...], de 1789.
 Plano de uma pequena parte da costa da Capitania do Rio de Janeiro, no qual são mostradas as cinco lagoas nomeadas nessa Memória (possivelmente de 1800).
 Plano da cidade do Rio de Janeiro: com a parte mais essencial do seu porto e todos os lugares fortificados, de 1796.
 Plano topográfico do Continente do Rio Grande e da Ilha de Santa Catarina tirado dos planos dados em 1781 para a instrução dos Comissários da Demarcação do Sul [...], de 1797.

Como podemos observar, o nosso Defesa da Ilha de Santa Catarina, e do Rio Grande de São Pedro dividida em duas partes: a primeira contém as Fortificações, e Uniformes da Tropa da Ilha de Santa Catarina: a segunda o que pertence ao Rio Grande, não foi o único a escapar ao pente fino de Sousa Viterbo. O acontecimento não é inusitado porque muitos documentos sobre Portugal e o Mundo Português encontravam-se, e muitos deles ainda se encontram, espalhados em bibliotecas e arquivos de casas nobres e em coleções privadas, escapando por vezes à varredura dos investigadores, tal qual ocorreu com o presente manuscrito que integrava a coleção particular do General Couvreur. Pertencendo o original hoje ao Arquivo Histórico Militar de Lisboa é pois de suma importância que se divulgue o seu conteúdo entre os investigadores brasileiros que não têm fácil acesso ao importante documento, do maior interesse para a história dos dois estados do Sul e para a memória brasileira, principalmente a memória militar.

1- Interessante resumo de alguns desses procedimentos encontra-se em estampas de Aula Militar, elaboradas por alunos de Caldas. Um exemplo (Fig. 3). AHU – Cartografia manuscrita, Bahia no 991.

2- O nosso professor usou um termo francês para significar topografia, certamente influência de Belidor.

3- AHU – Catálogo de Castro e Almeida, doc. no 10.151 (20/5/1779)

4- BELIDOR, 1729, Livre IV: Des Edifices Militaires, p. 8.

5- TAVARES, 2000, p. 112.

6- TIMOSHENKO, 1983, p. 48.

7- SOUSA VITERBO, 1988, v.2, p. 352.

8- SOUSA VITERBO, 1988, v.2, p. 352.

9- TAVARES, 2000, p. 180-81.

10- Este documento é muito semelhante, na forma e conteúdo, ao presente trabalho sobre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, também realizado no mesmo ano de 1786. No entanto, não apresenta o levantamento gráfico e nem a relação de armamentos e petrechos das fortificações do Rio de Janeiro.

(Fonte: TONERA&OLIVEIRA, 2015: 16-21)

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Contribution

Updated at 11/09/2016 by the tutor Roberto Tonera.




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