Henry the Navigator

Portugal

Henrique de Avis e Lancaster, 1.º duque de Viseu e 1.º senhor da Covilhã (Porto, 4 de março de 1394 – Sagres, 13 de novembro de 1460), foi um infante português e a mais importante figura do início da era dos Descobrimentos. É popularmente conhecido como "Infante D. Henrique", "Infante de Sagres" ou "O Navegador", epítetos advindos do modo como protegeu e incentivou as primeiras viagens expansionistas de Portugal, sendo decisiva a sua ação no Norte de África e no Atlântico.

Biografia

Foi o quinto filho de João I de Portugal (1385-1433), fundador da Dinastia de Avis, e de sua esposa, D. Filipa de Lencastre (Lancaster).

Foi batizado alguns dias depois do seu nascimento, tendo sido o seu padrinho o bispo da Diocese de Viseu. Os seus pais deram-lhe o nome Henrique possivelmente em honra do seu tio materno, o duque Henrique de Lancaster, futuro Henrique IV de Inglaterra.

Pouco se sabe sobre a vida do infante até aos seus catorze anos. Tanto ele como os seus irmãos (a chamada "Ínclita Geração", nas palavras de Camões) tiveram como aio um cavaleiro da Ordem de Avis.

Seguindo a tradição da época, recebeu uma educação exemplar, mas profundamente religiosa. A sua moral enquadra-se dentro do moralismo puritano inglês, que se revela também nos escritos de seu pai e de seus irmãos, preocupados em emitir juízos morais e em dar conselhos. Também ele deixou conselhos escritos e um breve tratado de teologia.

Em 1414, convenceu seu pai a preparar a campanha para a conquista de Ceuta, na costa norte-africana junto ao estreito de Gibraltar. A cidade foi conquistada em agosto de 1415, assegurando a Portugal o controlo das rotas marítimas de comércio entre o Atlântico e o Levante. Na ocasião foi armado cavaleiro e recebeu os títulos de Senhor da Covilhã e duque de Viseu.

A 18 de fevereiro de 1416, foi encarregado do governo de Ceuta, cabendo-lhe organizar, no reino, a manutenção daquela praça-forte em Marrocos.

Em 1418, regressou a Ceuta na companhia de D. João, seu irmão mais novo. Os infantes comandavam uma expedição de socorro à cidade, que sofreu nesse ano o primeiro grande cerco, imposto pelas forças conjuntas dos reis de Fez e de Granada. O cerco foi levantado, e D. Henrique tentou de imediato atacar Gibraltar, mas o mau tempo impediu-o de desembarcar. Ao regressar a Ceuta recebeu ordens de seu pai para não prosseguir tal empreendimento, pelo que retornou para o reino nos primeiros meses de 1419.

Aprestou por esta época uma armada de corso, que atuava no estreito de Gibraltar a partir de Ceuta. Dispunha assim de mais uma fonte de rendimentos e, desse modo, muitos dos seus homens habituaram-se à vida no mar. Mais tarde, alguns deles seriam utilizados nas viagens dos Descobrimentos, como por exemplo João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira que, entre 1419 e 1420 desembarcaram nas ilhas do arquipélago da Madeira, que já eram conhecidas por navegadores portugueses desde o século anterior. Em 1433 o arquipélago viria a ser doado a D. Henrique por Duarte I de Portugal (1433-1438), sucessor de D. João I.

Em 25 de maio de 1420, D. Henrique foi nomeado Grão-Mestre da Ordem de Cristo, cargo que deteve até ao fim da vida. No que concerne ao seu interesse na exploração do oceano Atlântico, o cargo e os recursos da Ordem foram decisivos ao longo da década de 1440.

Em 1427, os seus navegadores descobriram as primeiras ilhas dos Açores (possivelmente Gonçalo Velho, comendador de Almourol). Também estas ilhas desabitadas foram depois povoadas pelos portugueses. As ilhas atlânticas revelaram-se de grande importância, vindo a produzir grandes quantidades de cereais, minimizando a escassez que afligia Portugal.

Até à época do Infante D. Henrique, o cabo Bojador era para os europeus o ponto conhecido mais meridional na costa de África. Gil Eanes, que comandou uma das expedições, foi o primeiro a ultrapassá-lo (1434), eliminando os medos então vigentes quanto ao desconhecido que para lá do cabo se encontraria.

Aquando da morte de D. João I, o seu filho mais velho (e irmão de D. Henrique), D. Duarte subiu ao trono, e entregou a D. Henrique um quinto de todos os proveitos comerciais com as zonas descobertas bem como o direito de explorar além do cabo Bojador. Neste período, D. Henrique foi um dos principais organizadores da campanha para a conquista de Tânger (1437), que se revelou um grande fracasso, já que o seu irmão mais novo, D. Fernando (o "Infante Santo") foi capturado e ali mantido prisioneiro durante 11 anos, até falecer.

Durante a menoridade de D. Afonso V, seu sobrinho, D. Henrique apoiou o seu irmão, D. Pedro, na regência, recebendo em troca a confirmação dos seus privilégios. Procedeu também, durante a regência, ao povoamento dos Açores.

Com um novo tipo de embarcação, a caravela, as expedições atlânticas adquiriram um grande impulso. O cabo Branco foi atingido em 1441 por Nuno Tristão e Antão Gonçalves. A Baía de Arguim em 1443, com consequente construção de uma feitoria em 1448.

Dinis Dias chegou ao rio Senegal e dobrou o Cabo Verde em 1444. A costa da Guiné foi visitada. Assim, os limites a sul do grande deserto do Saara foram ultrapassados. A partir daí, D. Henrique cumpriu um dos seus objectivos: desviar as rotas do comércio do Saara e aceder às riquezas na África Meridional. Em 1452 a chegada de ouro era em suficiente quantidade para que se cunhassem no reino os primeiros cruzados nesse metal.

Entre 1444 e 1446, cerca de quarenta embarcações partiram de Lagos. Na década de 1450 descobriu-se o arquipélago de Cabo Verde. Data dessa época a encomenda de um mapa-múndi do Velho Mundo a Fra Mauro, um monge veneziano.

Em 1460, ano da morte de D. Henrique, a costa africana estava já explorada até ao que é hoje a Serra Leoa.

De entre os inúmeros cargos que exerceu foi "protetor" da Universidade de Lisboa, isto é, o procurador da instituição junto do rei, cargo de grande prestígio atribuído pelos reis apenas a figuras de grande importância social. Da sua ação dentro da Universidade destaca-se a renda que concedeu ao curso de Teologia. Fica ainda a dúvida sobre uma provável instituição da cadeira de Matemática ou de Astronomia, atribuição ligada a toda a mitologia criada em torno da sua pessoa. Na verdade, o seu interesse pela navegação terá permitido patrocinar uma escola de cartografia, trazendo de Maiorca um judeu chamado Jaime (Jafuda Cresques), conhecedor da ciência. Contudo, nada aponta ainda para o uso de instrumentos de navegação astronómica e para a invenção da carta plana, instrumentos depois necessários nas navegações atlânticas, nem para a existência de uma grande escola em Sagres. Tudo isto faz parte da auréola que se foi criando à sua volta.

A maior parte do que sabemos a seu respeito foi-nos deixada por Gomes Eanes de Zurara, na sua Crónica da Guiné, onde o Infante é exaltado de forma quase sobrenatural ("príncipe pouco menos que divinal"). O cronista traça o seu retrato psicológico dando grande ênfase às suas qualidades virtuosas e pias, como a castidade e o fato de não beber vinho. Segundo o seu relato, D. Henrique não era um homem avarento, mas sim um trabalhador aplicado, que para dedicar o tempo necessário aos seus projetos suprimia as horas de repouso noturno. O seu feitio obstinado revela-se na teimosia em manter Ceuta, ainda que o preço a pagar tenha sido a liberdade do seu próprio irmão, D. Fernando. A D. Henrique além da tomada de Ceuta com seu pai e irmãos, e o desastre de Tânger, pertencem feitos como a armada das Canárias, a guerra de corso que os seus navios faziam aos infiéis, o povoamento das ilhas da Madeira e dos Açores. Foi ele quem mandou vir da Sicília a cana-de-açúcar e os "técnicos" para supervisionarem o seu cultivo e a sua transformação, fazendo da Madeira uma importante região produtora de açúcar.

A sua obra foi conhecida ainda em seu tempo na Europa, como atesta uma carta escrita pelo sábio italiano Poggio Bracciolini ao Infante, em 1448-1449. O letrado italiano compara os seus feitos aos de Alexandre, o Grande, ou aos de Júlio César, enaltecendo-os ainda mais por serem conquistas de locais desconhecidos de toda a Humanidade.

Deixou como seu principal herdeiro o seu sobrinho, em bens, cargos e títulos, o segundo filho de seu irmão o rei D. Duarte já falecido, o Infante D. Fernando, duque de Beja, e que a partir dessa altura passa a ser duque de Viseu e, tal como ele, a dirigir os Descobrimentos portugueses.

A sua figura foi guindada à galeria dos heróis nacionais entre finais do século XIX e princípios do século XX, inserindo-se numa corrente nacionalista que desejava "reaportuguesar" Portugal. Aquando do centenário do seu nascimento, a cidade do Porto, liderada pela voz de Joaquim de Vasconcelos, tomou a iniciativa das comemorações de forma a rivalizar com a celebração lisboeta do centenário de Camões. A ideia era equiparar o espírito da cidade à coragem, energia e iniciativa do Príncipe Navegador, erguendo-lhe uma estátua e atribuindo o seu nome a uma rua. Este mesmo espírito nacionalista levou a que muitos artistas o retratassem e o esculpissem, ou que a ele dedicassem obras, como a de Manuel Barradas, segundo o qual o "Infante fora grande por ser a encarnação fanática de uma ideia".

Outro fato que contribuiu para a sua notabilidade foi a divulgação, por Joaquim de Vasconcelos, dos painéis de São Vicente de Fora, atribuídos a Nuno Gonçalves, onde o artista português Columbano Bordalo Pinheiro identificara uma das personagens como sendo o Infante. O homem do chapeirão aparece também no manuscrito da Crónica da Guiné, de Zurara, conservado na Biblioteca de Paris, o que reforça esta ideia. Assim, o Infante D. Henrique passa a ser uma das personagens de eleição do nacionalismo português, que predominou durante o Estado Novo, representando a coragem, o dinamismo e o espírito empreendedor do povo português.

Contribution

Updated at 03/02/2014 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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