Francisco Solano López Carrillo

Paraguay

Francisco Solano López Carrillo (Assunção, 24 de julho de 1827 — Cerro Corá, 1 de março de 1870) foi o 2.º presidente constitucional da República do Paraguai, exercendo o cargo desde 1862 até à data de sua morte. Foi comandante das Forças Armadas e chefe supremo do seu país durante a Guerra da Tríplice Aliança (1864-1870).

Biografia

Foi o primeiro dos cinco filhos legítimos do presidente vitalício do Paraguai, Carlos Antonio López, e sua esposa, Juana Carrillo.

Realizou os seus primeiros estudos com o mestre argentino Juan Pedro Escalada e, mais tarde, com o padre jesuíta Bernardo Parés. Tinha 15 anos quando o seu pai ascendeu à vida pública, após o falecimento do ditador Dr. Francia. Lia muito, aprendeu a falar corretamente o francês e algo de inglês ainda antes de sua viajem à Europa. Ingressou muito jovem no exército, que nessa época era muito precário, sendo obra sua a otimização e profissionalização do mesmo. Em 1845 já era coronel e, no ano seguinte foi nomeado comandante do corpo expedicionário quando a Aliança subscrita pelo Paraguai com a Província de Corrientes pelo Tratado de 21 de novembro de 1845, determinou a ajuda militar.

Formou um exército de 4.200 homens que devia colocar-se sob as ordens do general Paz em Villa del Pilar. Ali conheceu Juanita Pesoa, com quem veio a ter 3 filhos naturais. Antes da partida, esse exército realizou o primeiro juramento à bandeira paraguaia, criada pela lei de 25 de novembro de 1842. O corpo expedicionário regressou ao Paraguai em 1846 sem haver entrado em combate. Em 1849 López foi comandante da divisão paraguaia que reocupou as Missões ao sul do rio Paraná e, posteriormente, foi nomeado chefe do exército nacional, com aquartelamento em Pilar.

Em 1853, com o cargo de brigadeiro general partiu em missão especial à Europa. O objetivo principal era o de estabelecer relações diplomáticas com a Grã-Bretanha, a França, a Prússia e o Piemonte-Sardenha, mas também adquirir barcos e armamentos. Em Paris, conheceu a irlandesa Elisa Alicia Lynch, de educação francesa, que se tornou a companheira do resto de sua vida e mãe de seus 7 filhos reconhecidos. Estiveram juntos durante 15 anos mas nunca puderam casar-se e nem viver na mesma casa, já que a cultura moralista de Asunción não o permitia, uma vez que Madame Lynch continuava casada com um homem francês, e o divórcio em França, apesar de haver sido legalizado em 1792, havia sido abolido em 1816, e não chegou a ser restabelecido até 1884 (sob os auspícios da Terceira República). Durante a sua missão, estabeleceu um contrato de colonização para estabelecer uma colonia – “Nueva Burdeos” -, no atual local de Villa Hayes e adquiriu o vaso “Tacuarí” e armamentos na Grã-Bretanha. Regressou em fins de 1854, trazendo ainda, contra os desejos de sua família, a sua companheira irlandesa, junto com o seu primeiro filho nos braços, Juan Francisco López, o qual seria posteriormente conhecido como o coronel Panchito López.

Em 1856 foi destacado para viajar ao Rio de Janeiro com o fim de negociar um tratado com o chanceler brasileiro José Maria da Silva Paranhos sobre a navegação dos rios da bacia do Prata. Por motivo de doença, foi substituído por José Berges. Foi nomeado Ministro de Guerra nesse mesmo ano. Em 1858 atuou como plenipotenciário especial para assinar o tratado com Paranhos, em Asunción.

Em 27 de setembro de 1859 partiu de Asunción a bordo do “Tacuarí”, acompanhado por uma comitiva formada pelo comandante José María Aguiar, o capitão Rómulo Yegros e os alferes José Díaz e Pedro Duarte com a missão de mediar o conflito entre os governos de Entrerrios e Buenos Aires. Esta mediação foi particularmente dificultosa: em um primeiro momento ambos os governos enviaram representantes para negociar, porém estas negociações fracassaram e o general Justo José de Urquiza estava disposto a entrar em Buenos Aires pela força. López solicitou a Urquiza um dia a mais para entrar na cidade e tentar pessoalmente uma última negociação antes da invasão e, de fato, quando Urquiza entrou em Buenos Aires o governo havia renunciado. O acordo, firmado em 11 de novembro, e que se conhece como “Pacto de San José de Flores”, estabelecia que Buenos Aires se declarava integrante da Confederação Argentina, sendo a República do Paraguai o garante do cumprimento do diploma, o que foi solicitado tanto pelo Excelentíssimo Presidente da Confederação Argentina, general Urquiza, como pelo Excelentíssimo Governo de Buenos Aires, general Bartolomé Mitre. López foi distinguido com elevadas honrarias e recebeu o título de “Pacificador”.

De regresso ao seu país se dedicou a organizar um exército moderno e disciplinado, visitando constantemente a Fortaleza de Humaitá (hoje em ruínas), recém-construída. Em meados de 1862, foi designado como sucessor de seu pai no governo em caso de acefalia, até que se reunisse um Congresso para eleger um novo mandatário. A 10 de setembro faleceu Don Carlos Antonio López. Francisco Solano, então Ministro da Guerra, assumiu provisoriamente. A 16 de outubro de 1862, o Congresso elegeu-o presidente por um período de 10 anos. Em um discurso inflamado ao assumir, afirmou que “(...) la nación debe romper su relativo aislamiento y hacer que la voz del Paraguay fuera oída”. Com isto referia o seu desejo de romper com o isolamento político hipernacionalista imposto pelo Dr. Francia e seguido pelo seu pai Don Carlos Antonio López.

Durante os primeiros 3 anos o seu governo caracterizou-se por uma intensa atividade na administração pública, prolongou-se o caminho-de-ferro (o primeiro da América do Sul) até Pirayú, iniciou-se a construção do Palácio do Governo, do Oratório da Virgem de Asunción e do Teatro Nacional. Fundaram-se novas escolas e concederam-se bolsas a jovens estudantes para estudarem na Europa. Estabeleceu um novo aquartelamento em Cerro León, no qual reuniu 5.000 soldados.

No plano externo, o Império do Brasil estava a intervir abertamente na política interna do Uruguai apoiando o general Flores e o seu Partido Colorado. Diante de um potencial conflito na fronteira da província brasileira do Rio Grande do Sul, o Brasil enviou a José A. Saraiva para exigir reparações ao governo uruguaio. Vázquez Sagastume, ministro uruguaio, sem autorização do governo (de acordo com alguns autores), requereu a 13 de junho de 1863, a mediação do Paraguai no conflito entre o Uruguai e o Brasil. O governo paraguaio informou ao Brasil que aceitava exercer a mediação solicitada pelo ministro uruguaio. Enquanto isso, no Uruguai a mediação estava a cargo de um triunvirato, formado pelo ministro inglês Thorton, o chanceler argentino Elizalde e o representante brasileiro Saraiva, que tratava de por fim à guerra civil (uruguaia) entre “blancos” e “colorados”. O Brasil respondeu que considerava desnecessária a sua mediação e o governo uruguaio declarou que não precisava dos bons ofícios do governo paraguaio.

Pouco depois, tendo o Brasil iniciado as hostilidades contra o governo “blanco” do Uruguai, López viu confirmados os seus temores de que o Brasil estenderia o seu império primeiro ao Uruguai e logo ao Paraguai, diante da não clarificação dos atos por parte do ministro imperial César Sauvan Viana de Lima. A 30 de agosto, em uma nota dirigida a Lima, pelo chanceler Berges assinalava-se que o governo da República do Paraguai considerava qualquer ocupação do território da banda oriental por forças imperiais como atentatório ao equilíbrio dos Estados do Prata e que esta situação interessava à República do Paraguai como garantia da sua segurança, paz e prosperidade. O Brasil invadiu o Uruguai. O governo paraguaio apresou o navio mercante brasileiro “Marquês de Olinda”, que a 10 de novembro de 1864 entrava na baía de Asunción e deteve o governador nomeado da província brasileira do Mato Grosso, que se encontrava a bordo. No dia 12, Berges comunicou ao representante brasileiro que estavam rompidas as relações diplomáticas e proibida a navegação nos rios da República aos brasileiros.

A campanha de Mato Grosso foi confiada ao general Vicente Barrios e partiu a 24 de dezembro de 1864 com 3.200 homens em 5 vapores e 3 goletas. O objectivo foi alcançado com êxito: tomou e saqueou a cidade de Corumbá e tomou posse da província e de suas minas de diamantes.

Para chegar à província brasileira do Rio Grande do Sul, López devia necessariamente atravessar o território argentino. Informou então a Urquiza advertindo que esse manobra necessária não era “una amenaza a las provincias amigas de Entre Ríos y Corrientes, ni al gobierno nacional argentino”. O general Urquiza expressou o seu apoio a López , e aconselho-o a solicitar oficialmente o trânsito ao governo de Buenos Aires. A 14 de janeiro de 1865, Berges solicitou ao chanceler Elizalde que “(...) os ejércitos de la República del Paraguay puedan transitar el territorio argentino de la provincia de Corrientes en el caso de que a ello fuesen obligados por las operaciones de la guerra (…)”.

O Congresso extraordinário de 5 de março nomeou López, Marechal dos Exércitos da República, criou a Orden Nacional del Mérito, autorizou a contratação de um empréstimo e a 17 desse mês, ante a notícia que a Argentina havia permitido a subida do rio Paraná à esquadra brasileira do almirante Tamandaré que vinha bloquear Tres Bocas, autorizou a declaração de guerra ao governo argentino.

Uma coluna paraguaia a mando do general Robles atacou e ocupou a cidade de Corrientes avançando até o sul. A 1 de maio de 1865 o chanceler argentino Elizalde, o representante brasileiro Octaviano e o uruguaio Carlos de Castro firmaram o tratado secreto da Tríplice Aliança. Saiu de Encarnación outro exército sob as ordens do tenente-coronel Antonio de la Cruz Estigarribia. O Marechal López trasladou o seu Quartel-General a Humaitá. Em fins de junho, o general Robles foi submetido a processo e fuzilado por indisciplina. Foi substituído pelo general Resquín. A divisão do tenente-coronel Estigarribia havia-se apoderado de Uruguaiana e o seu segundo, Duarte, ocupado Paso de los Libres. A 17 de agosto, o destacamento Duarte foi quase exterminado na batalha de Yatay. Os aliados se concentraram logo sobre Uruguaiana e a 19 de setembro, Estigarribia rendeu-se.

As tropas paraguaias retiraram do território de Corrientes e estabeleceram-se em Paso de Patria. Iniciou-se a segunda da guerra, cujas campanhas mais destacadas foram as de Humaitá, Piquissiri e Las Cordilleras. A vitória de Curupaiti freou a ofensiva aliada. El exército paraguaio combateu em Corrales, Estero Bellaco, Tuiuti, Yatayty-Corá, Boquerón e Sauce. Caiu Humaitá e López trasladou o seu Quartel-General para San Fernando ao norte do rio Tebicuari. Uma série de informes chegados de Asunción, fazem com que o governo acuse de conspiração e conivência com o inimigo a figuras de destaque e criam-se os tribunais que sentenciam como culpados aos irmãos do Marechal, Venancio e Benigno, os seus dois cunhados, Saturnino Bedoya e o General Barrios, ao chanceler Berges, ao bispo Palacios e a centenares de homens e mulheres. Foi apontado como cabeça da conspiração o ministro norte-americano Washburn junto com os cônsules da França, Itália e Portugal. De junho a dezembro de 1869 foram fuziladas quase 400 pessoas. Também ordenou o açoitamento e execução de sua mãe, uma senhora septuagenária, por ser parte do complô contra a sua pessoa.

A 14 de fevereiro de 1870, o exército retira-se para Cerro Corá. Uma coluna brasileira despachada desde Concepción a mando do general Correa da Câmara confronta, a 1 de março uma força de 200 homens do Marechal López. Este foi ferido por uma lança no baixo-ventre, e por um golpe de sabre de frente. Com ajuda, chegou à margem do rio Aquidabán, onde foi alcançado pelo General Correa da Câmara, que o intimou a que se rendesse. O Marechal López bateu-se de sabre na mão até ao fim. A sua última frase é objecto de controvérsia. Alguns historiadores sustentam que disse: "¡Muero por la Patria!" e outros: "¡Muero con la Patria!". Negando-se a entregar a sua espada foi ferido por outro soldado que lhe disparou um tiro ao coração.

Os seus restos descansam no Panteón Nacional de los Héroes em Asunción.

Contribution

Updated at 23/09/2014 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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