José Gaspar de Francia y Velasco

Paraguay

José Gaspar de Francia y Velasco, também referido como José Gaspar Rodríguez de Francia, Dr. Francia, e “Karai Guazú” (Yaguarón, 6 de janeiro  de 1766 – Asunción, 20 de setembro de 1840), foi um advogado e político paraguaio.

É considerado o ideólogo e principal dirigente político que levou adiante o processo de independência do Paraguai do Império Espanhol, das Províncias Unidas do Rio da Prata (atual Argentina) e do Império do Brasil.

Ocupou vários cargos no Governo pós-independencia, sendo inicialmente Secretário da Junta, depois Cônsul, juntamente com o comandante militar Fulgencio Yegros. Pela Assembleia foi nomeado Ditador Temporário e finalmente, em 1816, Ditador Perpétuo da República do Paraguai.

Biografia

Primeiros anos

O seu pai foi um luso-brasileiro nascido possivelmente em Mariana, nas Minas Gerais, em 1739, e que chegou ao Paraguai na década de 1750, juntamente com um grupo de colonos luso-brasileiros recrutados pelo então governador da Província para o plantio, cultivo e a instalação de uma fábrica de fumo de rolo (tabaco torcido) em Yaguarón, próximo a Asunción. Aos trabalhadores portugueses especializados no trabalho com o tabaco, foi garantida a “igualdad de derechos con los españoles”. Em 1762 desposou a paraguaia María Josefa Fabiana Velasco y Yegros, sobrinha do antigo governador e Capitão-general da Província, Fulgencio Yegros y Ledesma. Dessa união houveram cinco filhos, dos quais o terceiro e primeiro varão foi José Gaspar Rodríguez de Francia, que recebeu o nome de José pelo pai e de Gaspar por haver nascido no dia de Reis.

Embora batizado como “José Gaspar de Franza y Velasco”, mais tarde usou o nome mais popular “Rodriguez” e mudou o “Franza” para o mais espanhol “Francia”. Embora o seu pai fosse simplesmente “Garcia Rodrigues França”, o ditador inseriu a partícula “de”, criando um estilo próprio: "Rodríguez de Francia y Velasco".
Fez os seus primeiros estudos no Mosteiro de São Francisco, em Asunción, originalmente como preparação para o sacerdócio, mas não chegou a ser ordenado. A 13 de abril de 1785, após quatro anos de estudos, doutorou-se em Teologia de Direito Canónico pela Universidad Real de Córdoba del Tucumán, um dos mais conceituados institutos de ensino superior na América colonial espanhola, fundado pela Companhia de Jesus.

Durante os seus estudos superiores foi influenciado pelas ideias do Iluminismo e, mais tarde, pelas da Revolução Francesa. Em Asunción dedicou-se ao magistério, assumindo, no Real Seminário de San Carlos, a cátedra de “latinidad” (1786), que abandonou pela prática da advocacia, segundo parece devido às suas ideias democrático-liberais e anticlericais. Como “criollo”, Francia era contra o sistema de classes imposto pela Espanha no Paraguai e, como advogado, podia defender os menos afortunados dos mais influentes. Ganhou fama de incorruptível e acérrimo defensor da Justiça. Conhecia cinco idiomas: Espanhol, Guarani, Latim, Francês e algum Inglês.

Percurso político

Desde cedo demonstrou interesse pela política. Tornou-se membro do cabildo em 1807, fiscal em 1808 e alcançou com dificuldade a posição de “alcalde del primer voto” (líder do cabildo de Asunción), em Agosto de 1809, a mais elevada posição que poderia aspirar como “criollo”. Ela já o havia tentado anteriormente, em 1798, mas fracassara devido às suas raízes humildes. Outros membros significativos eram Fulgencio Yegros, Pedro Juan Caballero, Manuel Atanasio Cabañas e o último governador, Bernardo de Velasco. Em 24 de julho de 1810, Francia chocou os demais membros ao afirmar que era irrelevante qual o rei que possuíam.

Foi o ideólogo da revolução que, de 14 para 15 de maio de 1811, proclamou a independência do Paraguai, instaurando a primeira República da América do Sul. Foi nomeado secretário da Junta Nacional pelo Congresso que se reuniu em 17 de junho de 1811. Ele era um dos poucos homens no país com educação significativa e logo se tornou o verdadeiro líder do país. Apenas um outro paraguaio tinha um doutoramento: Juan Bogarin, um dos cinco membros da Junta.

Em 1 de agosto, demitiu-se devido à dominância do exército sobre o Congresso.

Retirou-se para o interior do país, e do seu isolamento em sua modesta chacra (quinta ou propriedade rural) em Ibaray próximo a Asunción, contou a inúmeros cidadãos comuns que o vinham visitar, que a revolução havia sido traída, que a mudança de governo apenas tinha trocado uma elite nascida na Espanha por outra, criolla, e que o governo à época era incompetente e mal administrado. Retornou para a junta em outubro, na condição de que Bogarin fosse afastado, e demitiu-se novamente em 15 de dezembro. Ele não retornaria até 16 de novembro de 1812 e tão-somente se tivesse a responsabilidade pela política externa e pela metade do exército.

Em 1 de outubro de 1813, o Congresso nomeou Francia e Yegros como cônsules alternadamente por um ano, tendo Francia exercido o primeiro e terceiro período de quatro meses. Cada qual controlava a metade do exército. A 12 de outubro, o Paraguai declarou independência do Império Espanhol.

Em março de 1814, Francia proibiu os nascidos na Espanha de casarem entre si: eles teriam que casar com indígenas, africanos ou mulatos.

A 1 de outubro de 1814, o Congresso nomeou-o Cônsul único, com poderes absolutos por três anos. Ele consolidou o seu poder de tal modo que, a 1 de junho de 1816, um novo Congresso outorgou-lhe o controlo absoluto sobre o país vitaliciamente. Pelos 24 anos que se seguiram, ele dirigiu o país com o auxílio de apenas três outras pessoas.

A partir de 1817 ele indicou os membros do Cabildo, até 1825 quando o encerrou. O seu título oficial era "Supremo e Perpétuo Ditador do Paraguai", embora fosse popularmente referido apenas como “El Supremo”. De acordo com o historiador Richard Alan White, estes Congressos eram bastante progressistas para o seu tempo: todos os homens acima de 23 anos poderiam votar. Francia desejava fundar uma sociedade nos moldes do “Contrato Social” de Rousseau, e também sob a inspiração de Robespierre e Napoleão. Para criar uma utopia tão pessoal, impôs um impiedoso isolamento ao Paraguai, com a interdição de todo o comércio externo, enquanto ao mesmo tempo fomentava as indústrias nacionais. Tornou-se conhecido como um caudillo que governou através de uma repressão implacável e de um terror aleatório.

A Revolta de 1820 e o Estado policial

Em fevereiro de 1820, a polícia política de Francia, apelidada de “Pyraguës” ("pés cabeludos"), descobriu e esmagou rapidamente uma conspiração da elite para assassiná-lo. Juan Bogarin, o único conspirador ainda livre, confessou em seguida a trama ao seu sacerdote, então Francia. Francia deteve cerca de 200 paraguaios proeminentes, fazendo executar a maioria deles. A 9 de junho de 1821, uma carta detalhando uma conspiração anti-Francia foi encontrada por dois escravos, assim como o padre de Francia, que tinha conhecimento da conspiração pelas confissões de um conspirador. Francia deteve 300 espanhóis e manteve-os em praça pública enquanto fazia a leitura pública da carta. Eles só foram liberados 18 meses mais tarde, após pagarem 150.000 pesos. Apenas em termos de ordem de grandeza, para comparação, o orçamento do país no ano de 1820 havia sido de 164.723 pesos… Os principais implicados, Fulgencio Yegros e Pedro Caballero, foram detidos e sentenciados à prisão perpétua. Caballero cometeu suicídio em 13 de julho de 1821, e Yegros foi executado quatro dias mais tarde.

Francia proibiu toda a oposição e estabeleceu uma polícia secreta. A sua prisão subterrânea era conhecida como a “câmara da verdade”, e a maioria das manufaturas do país eram produzidas com mão-de-obra prisional. Embora tenha abolido a flagelação, a sua implementação da pena de morte foi brutal, tendo insistido que todas as execuções fossem efetuadas num “banquillo” ("banquinho"), sob uma laranjeira fora de sua janela. Do mesmo modo, para não desperdiçar balas, a maioria das vítimas eram mortas a golpes de baioneta, e as suas famílias não eram autorizadas a recolher os cadáveres até que estivessem ali caídos o dia inteiro, para certificar-se que estavam mortos.

Muitos prisioneiros foram banidos para Tevego, um campo prisional distante 70 milha de qualquer outra povoação, cercado por um extenso pântano no leste, e pelo deserto do Gran Chaco no oeste. À época da sua morte, existiam 606 prisoneiros nas cadeias do Paraguai, a maioria estrangeiros. Em 1821, Francia ordenou a captura e a prisão do famoso explorador e botânico francês Aimé Bonpland, que se encontrava a dirigir uma plantação privada de erva-mate nos bancos do rio Paraná, o que parecia constituir uma ameaça à economia paraguaia. Posteriormente, Francia concedeu clemência a Bonpland devido ao seu valor como médico, e permitiu-lhe viver numa casa com a condição de atuar como médico da guarnição local.

Políticas

Segurança

Francia acreditava que os Estados da América Latina deveriam formar uma confederação com base na igualdade das Nações e na defesa conjunta. Criou um exército pequeno, mas bem equipado, em grande parte com o arsenal confiscado aos Jesuítas. O tamanho do exército variava em função da magnitude da ameaça. Em 1824, por exemplo, o exército possuía mais de 5.500 homens, mas em 1834, apenas contava com 649. Francia iludia deliberadamente os estrangeiros ao fazê-los acreditar que o exército contava com mais de 5.000 efetivos, quando na realidade, raramente excedeu os 2.000 homens. Mantinha uma vasta milícia com 15.000 reservistas. O primeiro vaso de guerra construído no Paraguai foi lançado à água em 1815 e, em meados da década de 1820, uma Marinha de 100 canoas, barcos e chatas encontrava-se em construção. As pessoas tinham que tirar os chapéus para qualquer soldado; muitos indígenas, que não podiam pagar por um chapéu, usavam nada mais do que uma pala de tecido para poder obedecer a esta prática. Dinheiro só poderia sair do país em troca de armas e munições, e em 1832, 2000 mosquetes e sabres foram importados do Brasil. Enquanto não havia guerras a serem travadas, existiram disputas sobre os territórios de Candelaria/Misiones com a Argentina.

Francia inicialmente abandonou-os em 1815, mas em 1821 construiu um forte na fronteira, seguido por um Segundo no ano seguinte (1822) e por um terceiro em 1832. Em 1838, o exército ocupou novamente Candelaria, sob a alegação de que Francia estava protegendo os nativos guaranis que ali viviam. Os soldados paraguaios só conheciam ação nos postos de fronteira, que frequentemente se encontravam sob o ataque dos Guaicurú. Em 1823 Francia permitiu a comerciantes brasileiros o comércio em Candelária. Francia iria consumir a maior parte do orçamento do Estado com o exército, mas os soldados também foram utilizados como mão-de-obra para o trabalho em projetos públicos.

Educação

Francia aboliu o ensino superior pelo fato da prioridade financeira do país ser o financiamento do exército, e de que esse estudo em particular poder ser realizado livremente em sua biblioteca. Francia fechou os seminários religiosos do país em 1822, principalmente devido à doença mental do Bispo (e ao expurgo que promoveu do poder da Igreja). No entanto, tornou a educação estatal obrigatória para todos os homens em 1828, mas nunca auxiliou e nem dificultou as escolas privadas. Mesmo depois disto, a relação aluno-professor cresceu e havia menos analfabetos, com 1 professor para 36 alunos em 1825, de acordo com Richard Alan White. Em 1836, Francia abriu a primeira biblioteca pública do Paraguai, abastecida com livros dos seus adversários. Os livros eram um dos poucos artigos sem taxação (sendo o outro as munições outro).

Agricultura

Em outubro de 1820, uma praga de gafanhotos destruiu a maioria das culturas. Francia ordenou o plantio de uma segunda colheita. Ela provou-se abundante, e desde então os agricultores do Paraguai passaram a fazer duas plantações por ano. Por toda a década, Francia nacionalizou a metade das terras em quatro etapas. Primeiro confiscou as terras dos traidores, depois a dos clérigos (1823-1824), as dos posseiros (1825) e finalmente as terras não utilizadas (1828). As terras eram trabalhadas diretamente pelos soldados para fazer as próprias subsistências ou arrendada aos camponeses. Por volta de 1825 o país era autossuficiente em cana-de-açúcar e o cultivo do trigo foi introduzido. No final de sua vida, Francia confinou impiedosamente todo o gado em Ytapua para deter uma praga que se espalhava da Argentina, e que o levava à morte.

Refugiados

Ao contrário da crença popular, O Paraguai à época não era completamente isolado. Francia acolheu refugiados políticos de vários países. A José Artigas, herói da independência do Uruguai, foi dado asilo político em 1820, juntamente com 200 de seus homens. Ele permaneceu no Paraguai, mesmo após a morte de Francia, com uma pensão de $30 por mês. Ele foi perseguido por Francisco Ramírez, que também viu um dos seus navios de guerra desertarem para o Paraguai. Em 1820, Francia ordenou que fosse dado refúgio a escravos fugitivos assim como canoas e terras a refugiados de Corrientes. Em 1839, toda uma companhia de desertores brasileiros foi bem recebida. Muitos ex-escravos também foram enviados para proteger a colónia penal de Tevego.

Nacionalização da Igreja

Em 1815 a Igreja Católica no Paraguai foi declarada independente tanto de Buenos Aires quanto de Roma. Francia confiscou as propriedades eclesiásticas e proclamou-se chefe da Igreja paraguaia (uma reminiscência de Henrique VIII, que se declarara o chefe supremo da Igreja da Inglaterra), sendo por isso excomungado pelo Papa Pio VII. A resposta de Francia quando disso tomou conhecimento foi: "Se o Santo Padre vier ao Paraguai, fá-lo-ei meu capelão privado."

Em meados de junho de 1816, todas as procissões noturnas banidas exceto a de “Corpus Christi”. Em 1819, o Bispo foi persuadido a transferir a sua autoridade para o Vigário-geral, e, em 1820 as ordens religiosas foram secularizadas. Em 4 de agosto de 1820 todos os membros do clero foram obrigados a jurar fidelidade ao Estado, e as suas imunidades clericais foram suprimidas. Os quatro mosteiros do país foram nacionalizados (1824), vindo um mais tarde a ser demolido e o outro tornando-se uma igreja paroquial. Os restantes tornaram-se parque de artilharia e quartéis, enquanto três conventos também se tornaram quartéis. A Inquisição foi abolida, as caixas confessionais readaptadas como postos de sentinela, e os paramentos em coletes vermelhos para os lanceiros.

Vida pessoal

Francia tinha uma visão muito liberal da sexualidade. Ele tornou os casamentos sujeitos a restrições e impostos elevados e insistiu em que ele pessoalmente oficiasse todos os casamentos. Francia mantinha um livro de registo de todas as mulheres com que ele dormiu, e apesar de não manter nenhum relacionamento sério, gerou sete filhos ilegítimos, o mais velho sendo Ubalda García de Cañete. Quando ele a apanhou a prostituir-se fora de seu palácio, declarou a prostituição uma profissão honrosa e estipulou que todas as prostitutas deveriam usar no cabelo pentes de ouro. Assim, ficaram conhecidas como "peinetas de oro" (pentes de ouro) o que humilhava as senhoras espanholas, uma vez que esta era uma moda espanhola.

Francia tomava várias precauções contra tentativas de assassinato. Era ele quem pessoalmente trancava as portas do palácio, desenrolava os charutos que a sua irmã fazia para garantir que não havia nenhum veneno, preparava a sua própria erva-mate e dormia com uma pistola debaixo da almofada. Isto devia-se a que tinha inúmeros inimigos e até a sua criada tentou envenená-lo com um pedaço de bolo. Ninguém poderia chegar a seis passos dele, ou mesmo portar uma bengala perto dele. Sempre que ele ia andar de cavalo, todos os arbustos e árvores ao longo do percurso eram cortados para que possíveis assassinos não se conseguissem esconder; todas as persianas tinham que ser fechadas, e os peões tinham de prostrar-se diante dele enquanto ele passava.

Francia tinha um estilo de vida espartano, e para além de alguns livros e móveis, os seus bens eram apenas uma caixa de tabaco e outra de estanho para confeitos. Francia deixou no tesouro do Estado pelo menos o dobro do que quando ele assumiu o cargo, incluindo 36.500 pesos de seu salários não consumidos, o equivalente ao pagamento de vários anos. Mandou distribuir os salários que não recebera entre os soldados estacionadas na fronteira do país.

Anos finais e morte

Francia faleceu em 20 de setembro de 1840. Sentindo a proximidade da morte, destruiu todos os seus documentos e recusou a ajuda médica, chegando mesmo a atacar com o seu sabre um médico chamado para atendê-lo. Após a sua morte, a sua filha queimou todos os seus móveis. Foi-lhe concedido um funeral de Estado onde um padre lhe fez o elogio fúnebre. Foi sepultado na Igreja da Encarnação, em Asunción. Algumas antigas famílias espanholas posteriomenter roubaram o seu cadáver, desmembrando-o e atirarando os seus restos a um rio. Outros autores acreditam que o seu sucessor, Carlos Antonio López, tenha ordenado o desparecimento do corpo, já que o jazigo se transformara em centro de peregrinação de seus partidários.

Contribution

Updated at 27/09/2014 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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