Rui Freire de Andrade

Portugal

Rui Freire de Andrade, também grafado como "Andrada" (Beja, década de 1590 - Mascate, setembro de 1633), foi um militar português.

Biografia

Era filho de João Freire de Andrade, que serviu como Chanceler da Índia na primeira década do século XVII. Nada sabemos sobre os seus primeiros anos de vida.

Fez a sua primeira viagem ao Oriente na esquadra de D. Jerónimo Coutinho (1607). No Estado Português da Índia serviu por diversas ocasiões nas armadas do Norte e do Malabar. Em 1613, foi nomeado capitão de Damão, praça-forte que se encontrava sob assédio pelo Rajá de Salcete. Tendo se destacado em combate, Freire de Andrade forçou as forças indianas a retirar. No ano seguinte (1614) foi nomeado para Chaul, praça-forte também sob assédio, também levantado pouco tempo após a chegada do capitão. No mesmo ano, ainda ali o encontrou a armada do vice-rei D. Jerónimo de Azevedo, que seguia a dar combate aos Ingleses em Surate. Freire de Andrade tentou incorporar-se à expedição, mas a sua colaboração foi dispensada pelo vice-rei. Antes de regressar ao Reino em 1617, ainda comandou a armada do Norte.

Face à situação portuguesa cada vez mais precária no estreito de Ormuz, diante das ambições expansionistas do Xá Safávida, Abas I da Pérsia, e à presença comercial inglesa nas costas persas, Filipe III de Espanha (1598-1621) determinou a partida de uma grande armada para Ormuz. O comando da expedição foi entregue a Freire de Andrade, com o título de "General do Mar de Ormuz e costa da Pérsia e Arábia", tendo como objectivo expulsar os ingleses daquelas águas e reafirmar a posição portuguesa no estreito. A esquadra partiu de Lisboa a 1 de abril de 1619 e após vários incidentes ainda no Atlântico, entre os quais, o bombardeamento de navios castelhanos que não se haviam identificado apropriadamente, e o combate com um navio neerlandês no cabo da Boa Esperança, chegou a Ormuz a 20 de junho do ano seguinte (1620). Dali, Freire de Andrade seguiu com a armada para Jâsk para cumprir a primeira parte da sua comissão, dar caça aos navios ingleses. O confronto saldou-se por uma vitória tática dos ingleses, visto os portugueses não terem conseguido impedir as ações comerciais destes na costa persa e muito menos afastá-los definitivamente do estreito.

Falhado o primeiro objetivo, Freire de Andrade iniciou os preparativos para o segundo: fortalecer a posição de portuguesa no estreito, construindo um forte na ilha de Queixome, vizinha à ilha de Djarûn. Apesar da oposição do capitão de Ormuz e do governador do Estado Português da Índia, Fernão de Albuquerque (1619-1622), receosos da reação persa, Freire de Andrade seguiu as ordens que trazia do Reino e partiu para Queixome a 7 de maio de 1621. Após desbaratar as forças persas que defendiam a ilha, deu início à construção do forte (8 de maio de 1621?). A reação Safávida não se fez esperar e logo passaram para a ilha grandes quantidades de soldados persas. Enquanto os portugueses dominaram as águas em torno do forte a sua posição esteve assegurada. Mas, em princípios de 1622, a chegada dos navios ingleses, os quais se coligaram com as autoridades Safávidas, veio alterar esta situação. Aos portugueses, cercados por terra e por mar, não restou outra opção senão renderem-se, sendo os soldados portugueses desarmados e transferidos para Ormuz, enquanto Freire de Andrade permaneceu prisioneiro dos ingleses.

Enquanto a força combinada anglo-persa impunha assédio a Ormuz, Freire de Andrade logrou escapar ao cativeiro perto da costa indiana. Ali conseguiu reunir alguns navios e partir para Mascate, onde imediatamente recebeu a notícia da perda de Ormuz. Juntamente com Constantino de Sá de Noronha, que fora enviado de Goa com reforços, e após darem ordens para não se abandonar as restantes posições portuguesas no estreito, Freire de Andrade partiu para Goa, onde decorriam várias devassas para avaliar a sua participação na perda de Ormuz. Porém com a chegada do novo vice-rei, D. Francisco da Gama, 4.º conde da Vidigueira (1597-1600, 1622-1628), Freire de Andrade foi rapidamente inocentado e enviado de volta para o estreito com o cargo de capitão-general.

De volta ao estreito em 1623, Freire de Andrade apressou-se a reafirmar a posição portuguesa. Diante da perda de Ormuz, cidade que tentou infrutiferamente retomar nos anos seguintes - militarmente em 1623, 1624, 1625 e 1627, e diplomaticamente em 1631 -, Mascate tornou-se o novo centro português no estreito. Nos anos de 1623 e 1624, o capitão-general empreendeu uma série de campanhas nas costas da Arábia, tomando diversas praças como Soar (perdida no ano anterior para os Persas) e Julfar, entre outras, expulsando os persas da margem arábica do estreito e estabelecendo uma nova base de operações em Cassapo na península de Musandam. Ainda em 1624, enviou uma expedição, comandada por D. Gonçalo da Silveira, a Baçorá, na foz do rio Eufrates, para auxiliar o governante local, vassalo dos otomanos, na guerra contra os persas, conseguindo restabelecer as relações comerciais com aquele importante empório comercial asiático.

Em 1625 travou-se nas águas do estreito o confronto entre a armada de alto-bordo portuguesa, sob o comando de D. Nuno Alvares Botelho e auxiliada por Freire de Andrade, e as forças anglo-neerlandesas. Embora a batalha, dividida em três momentos, se saldasse por um empate, os adversários perceberam que, a partir daquele momento, as viagens para o estreito seriam muito mais difíceis devido à oposição portuguesa. No ano seguinte, apesar dos muitos reforços enviados para o estreito, devido ao receio de um possível ataque a Mascate, não ocorreu qualquer confronto.

Ultrapassada a ameaça anglo-neerlandesa e com a sua posição bastante reforçada, entre 1627 e 1629 o capitão-general reiniciou as ações para reafirmar a posição portuguesa no golfo Pérsico. Desse modo estabeleceu uma aliança com o governante de Catifa e intentou, sem sucesso, retomar o Bahrein, além de ordenar vários ataques às costas persas. A morte de Abas I em 1629, e a necessidade do seu sucessor, Safi I, de reafirmar a sua contestada posição, levaram as autoridades Safávidas a pedir uma trégua semestral com os portugueses, a repetir todos os anos. Em troca ofereceram a abertura e metade dos rendimentos da alfândega de um qualquer porto à escolha do capitão-general. Freire de Andrade aceitou o acordo, escolhendo o porto de Kong (Bandar-e Kong), no atual Irão.

Entretanto, em finais de 1629 iniciava-se em Goa o governo do novo vice-rei, D. Miguel de Noronha, 4.º conde de Linhares (1629-1635), que logo compreendeu as possibilidades abertas pela trégua no estreito para poder utilizar noutros espaços o considerável contingente militar ali estacionado e o seu experimentado líder. Desse modo, foi ordenada a vinda para Goa de Freire de Andrade para participar, juntamente com o vedor-geral da Fazenda, Miguel Pinheiro Ravasco, numa expedição de fiscalização militar e financeira às fortificações da Província do Norte. Entretanto, a morte do vedor, logo no início da jornada, serviu de pretexto ao capitão-general para retornar ao estreito, sem a autorização do vice-rei. A perda de Mombaça (1631) foi um novo motivo para o conde de Linhares tentar utilizar os recursos militares do estreito, discutindo-se mesmo em Conselho de Estado que o grosso da expedição para a recuperação daquela praça deveria ser constituído por tropas do estreito. No entanto, a hábil utilização do argumento da ameaça norte-europeia sobre Mascate por parte do capitão-general, levou ao abandono desse plano, sendo a malograda expedição recrutada sobretudo na Índia.

Desde 1631 que o estado de saúde de Freire de Andrade tendera a deteriorar-se, até culminar num surto de disenteria que lhe ceifou a vida em setembro de 1633. Foi sepultado sob uma lápide, sem qualquer inscrição, na igreja de Santo Agostinho, em Mascate. Não se sabe se esta simplicidade tumular derivou de um pedido do próprio num ato de despojamento diante da morte, ou se foi planeado pelos seus inimigos em Mascate no intuito de apagar qualquer memória do capitão-general. Após a sua morte, no período que se estendeu até 1635, tratados de paz foram celebrados com os Persas e com os Ingleses.

Contribution

Updated at 05/01/2016 by the tutor Carlos Luís M. C. da Cruz.




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